Terça-feira, 26 de Janeiro de 2016

Se é verdade que, em política, não há alternativa que não seja repetirmo-nos ou cairmos em contradição, também é verdade que repetir ou manter coerentemente as grandes orientações ideológicas e enunciar consistentemente um conjunto de medidas decorrentes dessas orientações não tem que ser feito segundo um figurino imutável e, sobretudo, o discurso de um candidato, por maior que seja a sua consciência da missão a cumprir, a sua preocupação do rigor e a sua recusa da demagogia, não tem que reproduzir até à exaustão fórmulas programáticas despojadas das suas próprias marcas de afectividade, como se não passasse de mero instrumento de divulgação ou mero porta-voz de um plano delineado em instância superior. A emoção, longe de ser um estorvo à manifestação da razão, é seu adjuvante, dá-lhe a eficácia a que a pura racionalidade dificilmente poderá aspirar, pelo menos no contexto de uma mensagem que visa, naturalmente, a persuasão. Tem razão António Damásio, quando diz que a emoção é "uma componente integral da maquinaria da razão"[1], como tinha razão Marcelo Rebelo de Sousa quando dizia, a propósito das medidas do anterior governo que provocaram forte contestação e a rejeição popular, que o problema estava na forma de comunicação do executivo. Por muito más que elas fossem, se devidamente "explicadas" ao povo, este acabaria por aceitá-las pacificamente[2].

 

Dizendo isto, não defendo nem MRS, nem o recurso à mentira envolta em manto diáfano de fantasia, nem a implementação de políticas lesivas dos legítimos interesses do povo enfarpeladas com palavreado bonito que as torne facilmente administráveis sem risco de convulsão. Dizendo isto, defendo apenas que a mensagem política produzida em contexto de campanha eleitoral deve, à sua componente de informação e esclarecimento – o seu princípio activo, digamos assim – associar doses convenientes de excipientes capazes de tornar a beberagem suportável e, mais do que isso, apetecível.

 

Muito embora todas as sondagens e até o mais elementar cálculo do bom senso para aí apontassem – e passo aqui todos os factores amplamente discutidos em todos os media e por toda a gente, dentre os quais avulta, evidentemente, a promoção de que Marcelo Rebelo de Sousa foi beneficiário ao longo dos anos – não deixa de ser descoroçoante o débil resultado do candidato que mais consistentemente inventariou os problemas que afectam a sociedade portuguesa, identificou as suas causas e enunciou as respectivas soluções.

 

Edgar Silva tem uma considerável experiência em matéria social, particularmente no domínio do acompanhamento de crianças pobres na Madeira. Contudo, que terá transparecido dessa sua experiência pessoal de enorme importância para os eleitores que o conheceram pela televisão? Muito pouco, suponho, porque o candidato privilegiou enunciados relativamente abstractos (pese embora a concretude dos factos a que diziam respeito), quando as fórmulas descarnadas do canhenho ideológico careciam de ser amassadas com a sua sensibilidade própria e com as emoções do dia-a-dia.

 

Presumo que, por esta altura, não andarei longe da acusação de defesa da demagogia. Não. Não creio que Jerónimo de Sousa seja populista quando diz, a propósito da caricata referência de Marcelo à contenção de despesas na sua campanha: "com as calças do meu pai também eu sou homem". O que Jerónimo de Sousa faz é descodificar uma mistificação, vertendo-a numa linguagem acessível a todos e em que, mais do que a fria objectividade do discurso elaborado, sobreleva a repulsa pela manipulação das consciências e das emoções em que Marcelo é exímio. Ele podia estender-se numa lengalenga demorada e algo semelhante às prolixas explanações deste texto. Provavelmente, ninguém lhe daria atenção. Pelo contrário, recorrendo ao condensado aforismo, não só explica tudo como deixa em quem o ouve uma marca afectiva semelhante à do sorriso e do abraço fraterno. E até a comunicação social tão pouco disposta a fazer-lhe favores lhe louva o dizer faceto.

 

Não se trata de arranjar candidatas ou candidatos "engraçadinhos". Desses, tivemos alguns, e é verdade que um deles não ficou muito atrás de Edgar Silva, o que é revelador do estado de alienação política e indigência intelectual de parte do eleitorado, qualidades partilhadas, desgraçadamente, por uma parcela bem mais significativa. Do que se trata é de encontrar o justo equilíbrio entre o imperativo de denunciar, informar e esclarecer, por um lado, e a imprescindibilidade de calar fundo no afecto dos concidadãos. A menos que se pretenda abandonar progressivamente a frente de luta eleitoral, dando-se por bom o slogan "élections, piège à cons"[3].

 

 

[1] António Damásio, O Erro de Descartes, Europa-América, p. 14

[2] Marcelo Rebelo de Sousa, TVI, todos os domingos

[3] Jean-Paul Sartre, 1968...



publicado por tambemdeesquerda às 23:15
Espaço destinado a reflexões (geralmente) inspiradas na actualidade e na Literatura.
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