Domingo, 14 de Fevereiro de 2016

Quem diz exame diz classificação. De cada vez que, no final de um ano de aprendizagens diversificadas – que não se circunscrevem ao domínio cognitivo, mas abarcam todos os aspectos da personalidade do aluno, umas formais, outras informais e decorrentes da socialização que a escola propicia –, ocorre o exame, o que acontece é que um quadro complexo de conhecimentos, de qualidades e de destrezas é convertido num valor, geralmente expresso numa escala de 1 a 5 ou 0 a 20. Nesta escala, que é que distingue dois alunos com a nota 12, por exemplo? Nada. Eles podem ser muito diferentes entre si, terem tipos diversos de inteligência – mais prática e voltada para o concreto ou mais vocacionada para o abstracto –, mas aquela nota indica apenas que ambos atingiram um nível aceitável de saber ou de saber fazer em determinado domínio: capacidade para resolver problemas do âmbito da matemática, competência linguística e competência de comunicação na língua materna ou numa língua estrangeira, memorização e relacionação de factos e acontecimentos, etc. Tudo isto, presumindo, ainda, que os dois alunos foram examinados pelo mesmo professor ou por professores diferentes, mas, em qualquer caso, professores que lograram a proeza de manter inalterável, em todas as circunstâncias, a sua bitola avaliativa, ou não fosse a objectividade a coroa de glória que todo o exame reivindica.

 

Ora o processo educativo compreende isto e muito mais. Por alguma razão, a comunidade constituída por professores e alunos se chama comunidade educativa, a actividade a que se dedicam professores e alunos se chama educação, e o Ministério que superintende não se chama do Ensino. Para lá do importante domínio cognitivo, outros há, como o empenho do aluno na sua própria formação, o seu sentido da responsabilidade, a sua disponibilidade para a partilha, etc., que, sendo do domínio sócio-afectivo, se podem reputar de não menos importantes. Rabelais dizia, no século XVI, que "ciência sem consciência não passa de ruína da alma". Mais recentemente, na primeira metade do século XX, a humanidade teve a oportunidade de experimentar, de forma particularmente trágica, o que a ciência pode fazer se aqueles que a detêm postergarem os deveres de humanidade que a todos nos obrigam. Lembremo-nos das experiências dos médicos nazis ou das bombas lançadas sobre Hiroshima e Nagasaki e ponhamos a mão na consciência de que falava Rabelais...

 

Dito isto, a avaliação é necessária. Mas avaliação não significa necessariamente classificação e ranking. Desde sempre, a avaliação formativa funcionou como método de aferição do processo ensino-aprendizagem, tendente a identificar dificuldades e a corrigir erros do percurso. E a própria avaliação sumativa, efectuada em finais de ano ou de ciclo, pode saldar-se por uma menção em que o aluno é considerado simplesmente apto ou não apto.

 

Claro que esta opção não se compagina com as exigências de uma sociedade em que não só os valores da fraternidade, da igualdade, da solidariedade e da partilha são desvalorizados como todos somos instigados a competir. Dos fracos não reza a História, ensinaram-nos desde pequeninos. Devemos, então, aspirar sempre ao primeiro lugar, na escola, como no ginásio, como no trabalho. E se dos fortes é que reza a História, o desprezo pelos fracos não é sequer condenável. "Todos diferentes, todos iguais" é certamente um preceito não inspirado por este tipo de educação.

 

A fúria avaliadora é geralmente protagonizada por forças conservadoras que não escondem a sua determinação ideológica: trata-se de reproduzir ininterruptamente o modelo de sociedade concorrencial em que acreditam, em que vivemos e em que impera a lei da selva. Não tem, por isso, nada de surpreendente o facto de um dos argumentos mais usados por essas forças ser o de que os exames até preparam as crianças e os jovens para a "dureza" que os espera. Não se identificam as causas dessa "dureza" e, muito menos, se propugna a sua erradicação, antes se faz a apologia da "preparação" para se conviver harmoniosamente (!...) com a injustiça e a desigualdade.

 

As considerações aqui expendidas seriam certamente estigmatizadas por Nuno Crato e crismadas como apêndices menores do seu "eduquês", sendo certo que Maria de Lourdes Rodrigues não deixaria de as considerar como obra de um qualquer "professoreco". Não padecendo dos instintos persecutórios que parecem afectar estas personagens, desejo-lhes muitos e bons exames nas suas carreiras profissionais.

 

As forças conservadoras a que atrás me refiro têm criticado asperamente a decisão do actual Ministro da Educação de extinguir os exames dos 4.º e 6.º anos e de introduzir provas de aferição nos 2.º, 5.º e 8.º, quando o ano lectivo vai já "a meio", como se tais decisões acarretassem sérios prejuízos para o funcionamento das escolas e o bem-estar dos alunos. A referência temporal "a meio do ano lectivo" é manifestamente desadequada, uma vez que se estava no início do 2.º período, quando o anúncio foi feito, e o ano lectivo tem três. Quanto aos prejuízos, no tocante às escolas, não se percebe que prejuízos poderão resultar de uma logística que, canalizada para os anos terminais de ciclo, vai agora sê-lo para os anos imediatamente precedentes; quanto aos alunos, será uma óptima oportunidade para a educação se processar no sentido de que o fim da aprendizagem não é a realização de testes e de exames, mas antes a aquisição de uma cultura integral que faça dos jovens cidadãos de corpo inteiro, conscientes, interventivos, solidários, desejosos de um mundo melhor e capazes de lutar por ele.

 

(Texto publicado no Jornal do Algarve, n.º 3072, de 11/02/2016)



publicado por tambemdeesquerda às 18:11
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