Terça-feira, 14 de Março de 2017

Capa de Mal Nascer.jpg

 

Há muito que a literatura voltou costas aos cânones estritos das poéticas clássicas e que a gramática da narrativa, para nos atermos ao género que aqui nos traz, se deixou seduzir, e subverter, pelos encantos do lírico, do dramático... e da desconstrução. A ficção contemporânea ostenta contudo produções que vão do quase grau zero da escrita[1] − tal é a denotatividade do discurso, por exemplo, no romance Aprender a Rezar na Era da Técnica, de Gonçalo M. Tavares − ao questionamento constante da própria linguagem com que a literatura se faz e à subversão dos códigos da normatividade, como acontece em A desumanização, de Valter Hugo Mãe, ou à "catástrofe do cenário, da acção e das personagens"[2], patente em Sôbolos Rios que Vão, de António Lobo Antunes − que parece apostado em impedir o leitor "de compreender e seguir uma intriga [...] algo que é uma necessidade imanente do romance"[3], ao mesmo tempo que confere à sua prosa ficcional a volatilidade da poesia, nomeadamente através do recurso frequente à elipse e a procedimentos suspensivos e reiterativos.

 

Bem diferente é o caso de Carlos Campaniço e do seu Mal Nascer, claramente inscrito numa tradição literária que contraria tendências individualistas centrífugas da realidade, privilegiando o colectivo, o concreto e a clareza do discurso. Aqui, com efeito, o leitor sabe com que linhas se cose a história, isto é, não é privado do prazer de "compreender e seguir" a intriga, ao mesmo tempo que usufrui da limpidez cristalina de uma expressão encantatória, a tal ponto fluida e remansosa que logra fazer-nos esquecer o trabalho árduo que provavelmente lhe subjaz, se é que essa expressão não se tornou, por assim dizer, "consubstancial" ao autor, manifestação verbal da sua sensibilidade − como também parece[4].

 

Mal Nascer é a história de um deserdado, "filho de sangue de ceifeiras e geadas de Inverno" (p. 14), entre tantos outros que povoaram (povoam?) esse Alentejo que, durante séculos, ilustrou na perfeição uma ruralidade lacerada pelas desigualdades sociais e onde Albano Chagas, "o homem mais rico da vila [...] era também o juiz e o presidente da câmara [...] pois nestas vilas de campo o juiz não tem de saber de leis, nem de letras, basta ter o respeito que mete ou o medo que manda meter" (p. 12). Estamos nos primeiros decénios do século XIX, tempo das lutas entre liberais e absolutistas, quando o detentor local dos poderes económico, judicial e político determina que "um cirurgião não era suficiente para a vila, pois Tomás Gabriel, assim se chama o que existe, é homem de poucos conhecimentos, não sabe ler ou escrever e, além de uns sangramentos e de uns dentes arrancados a pouco jeito, não sabe preceito que seja para estancar as epidemias que assolam a terra." (p. 12) É assim que Santiago Barcelos, aliás Bento, que Barcelos é outorga de padrinho, chega à vila donde partira, presumivelmente, uns quinze ou vinte anos antes.

 

O que se segue é uma narrativa alternante entre um passado que vai sendo paulatinamente recuperado (analepse), e onde sobrelevam os acontecimentos que levaram ao desterro de Santiago, e o presente do agora médico. Da narrativa relativa à infância do narrador, irrompem a cada passo, com força e convicção, cenas de violência inaudita. É a violência institucional, inerente à natureza da organização social, caracterizada por uma classe de latifundiários detentora dos bens da terra e, por essa via, detentora igualmente de um poder quase absoluto sobre o povo − a imensa massa de trabalhadores rurais próximos dos servos da gleba, detentores apenas da sua força de trabalho e vivendo em condições de absoluta penúria −, mas também aquela que é exercida pelas próprias vítimas da primeira forma de violência referida, particularmente por Vitório, padrasto de Santiago, e que pode chegar ao extremo do homicídio: "... Vitório, o feitor de Albano Chagas, deu mais uma sova na mulher − e tão bruto foi que, desta vez, se espera apenas que morra, que não há médico que faça o milagre de a acordar." (p. 176) Violência da exploração, por mais diversas que sejam as formas de que se reveste, e violência doméstica de mãos dadas, que sempre, ontem como hoje, a classe dominante usou fracções mais ou menos significativas dos explorados como aliadas do seu próprio poder, seja por boçalidade pura, seja pelo anseio oportunista de virem um dia a usufruir da riqueza ou do poder de seus mandantes. O que motiva este desabafo de Santiago, partidário de D. Pedro: "Bem podiam alguns homens do campo, mais pequenos em posses, é certo, fazer sons para que os senhores destas terras os temessem, como o grande cavalo que nos carrega temeu o bater de asas das pequenas perdizes. Mas assim não é. Tomara já que os liberais ocupem o poder em Portugal." (p. 78)

 

Não se julgue, porém, que Mal Nascer é um romance histórico (as referências explicitamente históricas são aqui escassas e genéricas) ou manifesto a favor dos explorados. À política o que é do governo da cidade, à literatura o que é deste particular modo de concretização do sentido estético. Por isso mesmo, os sentidos do leitor são estimulados por um lirismo que, emergindo, se não rechaça, pelo menos atenua o negrume social: "Às duas da tarde, tudo zumbe para lá da música das cigarras. Uma cortina de silêncio estremece o ar que se vê rasgado ao longe. É de um fogo parado este sol que nos enxuga o corpo. Se meu padrinho me visse tomar banho na ribeira, tiraria o cinto e deixaria nele a minha pele." (p. 31). Mais à frente: "... cada gesto seu, de carinho, era para mim um derrame de culpas sobre o sossego da alma." (p. 86). Ou ainda: "Tenho uma dor que não é na carne , mas é dor de verdade. Minha mãe agora dava-me colo e fazia-me umas festinhas e dormiria eu descansado, mas arrancaram-na de mim, tal e qual se arranca o braço a um vivo. E chorando assim baixinho, deixo-me dormir com frio." (p. 91).

 

Com a publicação de Seara de Vento, segundo Baptista-Bastos, Manuel da Fonseca "acabava de resgatar os alibis metafísicos com um comovente panfleto lírico, que era, simultaneamente, um libelo e uma admirável obra de arte"[5]. Sendo de todo temerário e inadequado para um artigo desta natureza e extensão cotejar a obra de Manuel da Fonseca com este romance de Carlos Campaniço, é iniludível que em ambos estes escritores alentejanos, que várias gerações separam, se sente o mesmo pulsar de um povo sofredor, mas não sofrido, um povo que vai à luta e que está na voz activa da história, por mais tropeções que a atrapalhem. Mal Nascer é também, de facto, "um comovente panfleto lírico" a que nenhum leitor fica indiferente, um libelo certeiro contra a opressão, a exploração, a crueldade e todas as formas de obscurantismo que caracterizam a prolongada infância da nossa humanidade e uma obra de arte que reedita a grata admiração que votei às Viúvas de Dom Rufia.

Fernando Martins

14 de Março de 2017

 

 

[1] "[...] a escrita no grau zero é no fundo uma escrita indicativa, ou, se quisermos, amodal; seria justo dizer que é uma escrita de jornalista, se o jornalismo não desenvolvesse precisamente de um modo geral formas optativas ou imperativas (ou seja patéticas). [...] Esta fala transparente, inaugurada pelo Estrangeiro de Camus, realiza um estilo de ausência que é quase uma ausência ideal do estilo [...]" Roland Barthes, O Grau Zero da Escrita seguido de Elementos de Semiologia, edições 70, 1977, p. 73

 

[2] “o livro está repassado de grandes momentos de literatura e os seus efeitos dramáticos chegam a ser comoventes. Mas esses efeitos, que resultam de uma técnica de escrita que articula processos mentais de associação, dinamitam qualquer chance de o livro erguer outra coisa que não seja a catástrofe do cenário, da acção e das personagens.” Rui Catalão, Ípsilon, 15/10/2010

 

[3] “ao impedir o leitor de compreender e seguir uma intriga, [ALA] retira-lhe algo que é uma necessidade imanente do romance e do qual ele não pode prescindir, entrando em falha. Dito de outro modo: o livro de António Lobo Antunes pressupõe uma história enquanto objecto de uma narração, exige do leitor que este saiba do que é que falam e de onde vêm as personagens, mas omite tudo isso, sem se importar com o facto de não assumir a responsabilidade da sua forma. Parece comprometido com o fragmentário e a dissolução das categorias narrativas, mas continua a exigir uma totalidade.” “Quem falou em polifonia?”, António Guerreiro, Expresso, suplemento Actual nº 2033, 15/10/2011

José Gil, por sua vez e a propósito de outro dos últimos romances de Lobo Antunes, diz ser “Não uma narrativa, nem linear nem descontínua, mas uma imensa colagem de imagens, de cenas, […] recordações não de um só mas de múltiplos tempos cronológicos.” José Gil, citado por José Mário Silva, no artigo “Vozes sobre vozes”, publicado no mesmo n.º do suplemento Actual.

 

[4] Única nota dissonante: um "falar que" recorrente, que é frequente na comunicação informal, mas não aceite pela norma linguística.

 

[5] Prefácio à 7.ª edição de Seara de Vento, de Manuel da Fonseca, forja, 1978

 



publicado por tambemdeesquerda às 17:42
Espaço destinado a reflexões (geralmente) inspiradas na actualidade e na Literatura.
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