Sábado, 12 de Setembro de 2015

– uma boa história com um narrador menos hábil

  

 

Maria Manuel, Paulo Moreira.jpg

 

A história desta novela de Paulo Moreira é simples: uma jornalista na casa dos trinta anos, Ana, desloca-se com o filho João ao Minho, a fim de visitar uma tia, Maria Manuel ou, familiarmente, Tia Mané, irmã de seu pai, já falecido, e fá-lo a pedido de Mariana, criada ou governanta da tia. Já em casa da parente, com quem sempre mantivera um relacionamento esporádico e parco em afecto, Ana conhece Luís, rapaz dos seus vinte anos, filho de Mariana e afilhado de Mané. Circunstâncias acidentais travam uma aproximação entre Ana e Luís que parece querer desembocar num relacionamento íntimo e toda a acção decorre em torno da convivência temporária entre estas cinco personagens, que conversam sobre as suas vidas e interesses ou que, simplesmente, brincam – caso de João, que faz de Luís cúmplice dos seus jogos de criança. O leitor é informado pelo narrador das circunstâncias em que Mariana engravidara e educara o filho sob a protecção de Maria Manuel e de um seu amigo médico, o Dr. Ludovico, entretanto falecido. São essas circunstâncias que levam à suspeita da possibilidade, nunca totalmente esclarecida, de Luís e Ana serem filhos do mesmo pai, o estouvado João, bon vivant, então residente em Amesterdão, mas frequentemente em viagem. É também pelo narrador, e pela própria, que ficamos a saber da gravidez indesejada de Ana, aos quinze anos, e do aborto então praticado – com a cumplicidade de Maria Manuel e do Dr. Ludovico, na mesma casa onde agora se encontra – cerca de vinte anos antes, ou seja, pela mesma altura em que Mariana se encontrava grávida de Luís. Esta gravidez interrompida é ferida por sarar: motivo de angústia para Ana e de antipatia para Mariana. A deslocação da enfermeira Sara, a mesma que participara na interrupção da gravidez de Ana, a casa de Maria Manuel, a pedido da sobrinha, propiciará a descoberta de que Maria Manuel, afinal, é um homem, o que parece não causar grande perturbação em ninguém.

            Embora simples, a história lê-se com interesse, um interesse que resulta essencialmente da consistência das personagens, pese embora a afectação ou inverosimilhança de algumas falas. As personagens têm nesta narrativa alguma densidade e colam facilmente à imagem que temos de uma criada e mãe solteira de há uns anos, e de uma jornalista divorciada e sem grandes dificuldades na vida. E, no entanto, um conjunto significativo de inabilidades narrativas leva o leitor a tropeçar mais do que o tolerável na sua leitura. Uma dessas inabilidades consiste na inadequação do nível de língua do narrador. Num discurso, em geral, neutro, muito denotativo e desprovido de preocupações de ordem estilística, surdem aqui e ali expressões próprias do registo coloquial e plebeísmos que, noutro contexto, passariam despercebidos, mas que aqui sobressaem, insinuam uma displicência descabida e induzem um efeito de ruído. A título de exemplo:

            "[...]nem Ana nem o namorado pareciam muito entusiasmados com a ideia de levar avante o projecto de ter um bebé, coisa que, aliás, não lhes passara pela cabeça quando tinham dado umas quecas, na tenda de campismo, em Mil Fontes, nas férias da Páscoa." (p. 25, com reforço na pág. 36); "[...] António já estava muito entretido com uma outra rapariga com um ar muito mais prafrentex que o seu." (p. 34); "Os dois machos [Luís e João] ficaram em silêncio." (p. 62); "Os adultos pouco falaram, preferindo dar todo o tempo de antena ao miúdo [...]" (p. 67); "O certo é que, à pala da sua história, o miúdo conseguiu que lhe oferecessem um gelado [...]" (p. 144); "depois de uma primeira tentativa falhada lhe atenderam o telefone." (p. 159)

            Claro que o narrador pode abdicar do seu registo objectivo para adoptar pontualmente a visão e o idiolecto de qualquer outra personagem. Contudo, essa alteração do seu estatuto costuma ser preparada por intervenções prévias em que a caracterização dessas personagens funciona para o leitor como signo precursor. Não creio que isso se verifique, por exemplo, nos dois exemplos que seguem, pois as personagens Sara e Pedro não foram suficientemente caracterizadas: "Sara pensou mais uma vez que não estava a gostar do aspeto da coisa" (p. 89); "[Pedro] era pessoa muito prática e não gostava de conversa de chacha." (p. 99)

            Não menos perturbadora da fluência e do prazer da leitura é a tendência do narrador para explicar tudo, incluindo aquilo que o leitor pode facilmente inferir ou que acabaria por descobrir, ou ainda pormenores de duvidosa relevância ou pertinência, roçando por vezes o caricato ou o precioso:

            "A pergunta, tão pertinente mas ao mesmo tempo tão incomodativa, e por isso considerada inconveniente pelos adultos [...]" (p. 55); "Assim passaram uns longos instantes, completamente em silêncio, até que, por pura coincidência, se mexeram ao mesmo tempo [...] Ana levantou os olhos do chão e, por mero acaso, pousou o olhar na faca de Mariana pousada na bancada." (p. 59); "Pelo tempo decorrido (e pelos sons que chegavam ao exterior) Ana podia deduzir que o jovem fora unicamente urinar [...]" (p.72); "Ana voltou então para o leito e procurou retomar – sem grande sucesso, diga-se – o sono" (p. 77); "Após os normais cumprimentos de fim de chamada telefónica, Mariana acrescentou [...]" (p. 83); "Nisto, soou o telemóvel de Ana e esta viu que se tratava do Dr. Beltrán. Comunicando ao companheiro de viagem de quem era a chamada, atendeu-a" (p. 120); "nenhum de nós procurou saber se ela sabia que nós sabíamos e calou-se, depois de se ouvir nesta última frase, que lhe fizera recordar uma outra que ficara nos anais da política nacional" (p. 176).

            Há, depois, aspectos relacionados com a expressão em que o leitor esbarra com enorme frequência. O caso mais gritante é talvez o do uso imoderado dos demonstrativos "este" e "o mesmo", em vez do pronome pessoal ou do substantivo. Para exemplificar com uma só página, a 30, atente-se nestes passos:

            "Depois de se rir do humor negro de Francisco, muito provavelmente motivado pelo excesso de trabalho em pleno mês de Agosto, Ana acabou por se esquecer rapidamente deste [porque não "dele"?] e começou a pensar no seu trabalho de jornalista. Ainda só estava de férias havia menos de uma semana e este [porque não "o ex-marido"?] ainda lhe vinha à cabeça facilmente. [...] Depois de abrir a porta da cozinha para dizer a Mariana que ia sair um pouco, Ana começou a caminhar pelo jardim até ao grande portão gradeado que permitia a entrada de carros e, abrindo o mesmo [porque não "abrindo-o"?, porque não "abriu-o"?], saiu para a rua." Ocorrências semelhantes nas páginas 34, 59, 85, 89, 97, 111, 122,124, 132, 133, 136, 156, num inventário que peca por defeito.

            Ainda no domínio da expressão, o recurso reiterado às construções "no que" e "ao que" produz um efeito de eco que inevitavelmente distrai o leitor.

            "[...] e riu-se abundantemente, no que foi acompanhado por Ana" (p. 113); "[...] e riu-se, no que foi acompanhado por Luís" (p. 115); "[...] o miúdo não resistiu a ligar a sirene da ambulância, no que foi imediatamente repreendido pelo motorista" (p. 122); "[...] João pedia-lhe para que o deixasse entrar lá dentro, ao que o motorista acabava por aceder [...]" (p. 149). Outras ocorrências nas páginas 116, 154, 168 e 169.

            Continuando com este inventário, correria o risco de tornar o meu texto (ainda mais) fastidioso. Por essa razão, refreio a sanha crítica, enunciando sucintamente mais dois ou três aspectos a merecerem reparo. O primeiro deles é o recurso intensivo ao parêntesis, sem que se possa vislumbrar nesse uso e na consequente preterição da vírgula algum acréscimo de sentido ou efeito estilístico: páginas 7, 8, 25, 26, 78, 79, 84, 144, 166; o segundo é o uso de aspas no discurso reportado (indirecto), conforme se verifica nas páginas 28 e 166; finalmente, há solecismos difíceis de entender, embora correntes na comunicação social ("como se se tratassem de jogadores de futebol", p. 65; "quem parecem mesmo parvos são os rapazes", p. 66, e "ele ficou muito triste pelo Luís não estar aqui", p. 170).

            Maria Manuel é uma narrativa que revela capacidade de efabulação, mas a que falta, a meu ver, pendor reflexivo. Suspeito que a familiaridade do autor com a arte dramática possa ter fortemente influenciado esta característica, isto é, a propensão para a multiplicação dos diálogos e para a acção, em detrimento da reflexão. A literatura dos nossos dias, porém, não está refém de cânones, e o hibridismo de géneros tornou-se banal. Seja como for, aguardo com interesse o próximo livro de Paulo Moreira, certo de que terei menos oportunidades de exercer este olhar crítico.

 



publicado por tambemdeesquerda às 00:33
Espaço destinado a reflexões (geralmente) inspiradas na actualidade e na Literatura.
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