Segunda-feira, 31 de Agosto de 2015

 

Pour que tu ne te perdes pas dans le quartier.jpg

 

          Para quem desconhece o autor, a primeira impressão de leitura de Pour que tu ne te perdes pas dans le quartier, de Patrick Modiano, é a de uma escrita eminentemente límpida e sem sombra de afectação. O leitor é gentilmente transportado, ao longo de páginas de uma narração linear, sem sobressaltos, sem surpresas, sem efeitos especiais. A tal ponto que se sente tentado a verbalizar a única surpresa que o acomete: é mesmo assim que escreve este Prémio Nobel?

          É. Não defendo nem a preeminência da obscuridade, do subentendido, dos sentidos implícitos, dos recursos mais sofisticados do guarda-jóias do estilo nem o seu contrário. Vejo tanto mérito na escrita que sacode o leitor e desafia a sua capacidade de indagação como naquela cuja simplicidade e transparência não podem ser confundidas com indigência. Que nenhuma se afirme em detrimento da outra.

          Aliás, em Modiano (quero dizer, neste Modiano, primeiro e único, para já, das minhas leituras), a lisura sintáctica da escrita não implica igual lhaneza no desenvolvimento da diegese. Com efeito, se os prolegómenos narrativos se encadeiam segundo uma sucessão em que os laços de causalidade são aparentes, a dado momento, personagens com papel determinante para o decorrer da acção, e nomeadamente para desencadear o despertar da memória do narrador, desaparecem, sem deixar rasto e sem nenhuma explicação. Do mesmo modo, não se saberá nunca o motivo da detenção da personagem responsável pela educação do narrador, quando criança, como ficará por esclarecer o que a leva a abandonar o seu protegido numa casa da Côte d'Azur. O mistério faz pois parte do processo narrativo, é-lhe mesmo consubstancial, o que se entende, ou não fosse a recuperação de memórias distantes no tempo e tingidas de sofrimento um processo nebuloso, fragmentário e falível.

          Apesar dessa falibilidade, há pedaços de memória que acodem ao chamamento da palavra. Sim, é sempre a partir de uma palavra ou de um nome que uma porção do passado é reencontrada:

          "Au chapitre 'Champs de courses', il tomba sur un mot imprimé en lettres majuscules: LE TREMBLAY. Et ce mot provoqua chez lui un déclic, sans qu'il sût très bien pourquoi, comme si lui revenait peu à peu en mémoire un détail qu'il avait oublié." (p. 31)

          Por detrás da história de Jean Daragane, ao mesmo tempo simples e envolta em mistério, há neste romance a história – no fundo, recorrente – do reencontro com o tempo perdido. Patrick Modiano dá-lhe o halo do mistério e uma pungência que cala fundo no leitor.

 



publicado por tambemdeesquerda às 23:25
Espaço destinado a reflexões (geralmente) inspiradas na actualidade e na Literatura.
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