Terça-feira, 14 de Julho de 2015

Noutros tempos, a formulação era afirmativa e exprimia a vontade discricionária de quem detinha o poder: se era o patrão, apontava deste modo a porta da rua, dita serventia da casa, ao trabalhador que ousava manifestar insatisfação; se era o chefe, ameaçava transferência, e assim sucessivamente. Ou seja: "Tens de te conformar com aquilo que te é oferecido; o teu papel é obedecer e calar. A um outro nível, o regime não o dizia nem mandava dizer, mas procedia de forma não menos eficaz: "Queres liberdade de reunião e associação? Queres liberdade de expressão do pensamento? Eu já te envio um Provedor Incansável na Defesa da Expressão aí a casa, com a missão de investigar as razões do teu mal-estar". Em qualquer dos casos, a mesma atitude intolerante e autoritária da classe dominante e dos seus serventuários, a mesma mentalidade fascista.

 

Hoje já ninguém diz "Não está bem? Mude-se!", nem nos mandam a casa aqueles prestimosos agentes que esforçadamente nos faziam sentir quão tortuosos caminhos trilhávamos. Os tempos são outros. O cidadão, livre, tem o direito de protestar, de se manifestar publicamente e de escolher os seus representantes, em diferentes assembleias e órgãos colegiais, bem como os seus governantes. E, contudo, perante a situação de desemprego – violência exercida sobre centenas de milhares de cidadãos, e especialmente sobre os mais jovens – a atitude dos governantes é significativamente idêntica à de outrora. Apenas a formulação se modernizou: "Não está bem? Deixe a sua zona de conforto! Se é professor, vá trabalhar para um país lusófono!" Este fascismo soft (não terrorista, mas ainda ditadura) não persegue activamente o cidadão, mas nem por isso o obriga menos a mudar-se.

 

E o facto é que continuamos a mudar-nos. São centenas de milhar os jovens qualificados que abandonaram a "zona", onde aparentemente não desfrutavam do conforto próprio de uma vida decente e que, no exílio, voltam a pedir ao vento que passa notícias do seu país, como reza a "Trova". Vivemos novo "tempo de servidão", de "apagada e vil tristeza". Uma desconcertante falta de memória faz, todavia, com que o cidadão, livre, se esqueça regularmente, se não das razões das suas queixas, pelo menos dos respectivos responsáveis, votando sistematicamente em quem o enganou da penúltima vez, porque, entretanto, os que o enganaram da última se descredibilizaram, e a memória das suas malfeitorias, demasiado próximas, não se esfumou ainda. Esse cidadão procede como se estivesse sujeito a uma terrível maldição que o impedisse de ver um palmo para além do chamado "arco da governação".

 

É verdade que, para uma boa parte do eleitorado, a escolha faz sentido. Para banqueiros, grandes industriais, homens de negócios detentores de grandes empresas da distribuição, profissionais do parecer jurídico, facilitadores de negócios – todos eles coadjuvados por bajuladores servis, oportunistas e escroques de toda a sorte, prontos a tudo para irem sobrevivendo com o que sobra do repasto principesco dos seus senhores – as opções políticas do "arco da governação" são não só as melhores, como imprescindíveis. O seu poder desabaria sem elas. Há, depois, aquele número assustador dos que, nada tendo a perder, são induzidos a pensar que têm o destino traçado: sempre houve ricos e pobres, os que mandam têm mandato divino, Deus escreve direito por linhas tortas, na escola aprende-se que a utopia acabou em distopia, Marcelo e quejandos garantem-nos que não há alternativa (fotocópia certificada conforme da conhecida asserção de Fukuyama). Encurtando razões e omitindo que "há sempre alguém que resiste, há sempre alguém que diz não", há ainda todos aqueles que, tendo um mundo novo a ganhar, abdicam de o fazer, trocando o desconforto da "zona" pelo desconforto da emigração. Ora bastaria que todos esses emigrantes forçados cá permanecessem e, juntos, exercessem o seu direito de voto no sentido da mudança para que, finalmente, os responsáveis do seu desconforto se vissem privados do poder de o reproduzir ininterruptamente. Ainda que isto não passe de um voto piedoso, o que apetece dizer é apenas:

 

"Não está bem? Deixe-se ficar e mude-os!"

 



publicado por tambemdeesquerda às 12:59
Espaço destinado a reflexões (geralmente) inspiradas na actualidade e na Literatura.
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