Quarta-feira, 08 de Outubro de 2014

Aqueles que pensavam ser Nuno Crato um matemático desenganem-se. Afinal, o senhor é, mas é, um filólogo, um linguista. O conhecimento que lhe faleceu, há tempos, quando a identificação de um erro crato - perdão, crasso - numa fórmula matemática houvera poupado a milhares de alunos, a centenas de professores e ao país, respectivamente, a perda de um mês de aulas, a canseira e a despesa da mudança de região e de afastamento da família e o espectáculo deprimente de um ministério incompetente, esse conhecimento sobejou-lhe hoje, aquando da doutoral explicação aos deputados sobre a radical diferença que a língua portuguesa estabelece entre os tempos presente e futuro do modo indicativo. Para o senhor, a garantia de que os professores indevidamente colocados, por erro do seu ministério, se mantinham tinha um prazo de validade curto, é verdade, mas estritamente conforme à gramática: "esses professores mantêm-se" não é assimilável a "esses professores manter-se-ão". Fica assim estabelecido que, doravante, sempre que os falantes da língua lusa se quiserem referir a parte do dia, ao dia, à semana, ao mês ou ao ano seguintes, terão de conjugar competentemente o verbozinho, abandonando o mau hábito de esticar o presente. Exemplificando: nada de perguntar a alguém: "Aonde vais esta noite?", mas sim "Aonde irás tu esta noite?" E, em vez do negligente "Esta noite não saio; fico em casa", o castigado "Esta noite, não sairei; ficarei em casa."

 

Em tempos, expliquei a alguém que me atendia numa loja e que corrigira o meu "Queria...", perguntando-me - "Então, já não quer?", que o imperfeito não exprime apenas o pretérito, pode também atenuar a carga algo agressiva do presente "Quero..." Agora que o ministro Crato nos ministrou tão magistral lição, não sei já se não terei de rever esta concepção permissiva da conjugação e passar a exigir tudo com o vigor assertivo do presente. Por outro lado, vou verificar, ou - melhor - irei verificar se Passos Coelho, durante a campanha eleitoral que o levou ao poder, dizia "Não corto" ou "Não cortarei", "Não aumento" ou "Não aumentarei". É que, se recorreu ao presente do indicativo, não os tendo cortado (os subsídios) nem os tendo aumentado (os impostos) no momento em que falava, está - e estará - obviamente desculpado.

 

Para lá destes pormenores verbais, o que se impõe - e imporá - é dispensar estes senhoritos da governação. E, já agora, no modo imperativo: Desapareçam!



publicado por tambemdeesquerda às 22:17
Espaço destinado a reflexões (geralmente) inspiradas na actualidade e na Literatura.
mais sobre mim
Outubro 2014
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4

5
6
7
8
9
10
11

12
13
14
15
16
17
18

19
20
21
22
23
24
25

26
27
28
30
31


pesquisar neste blog
 
contador
Website counter
Mapa de visitantes
Visitantes por país
free counters
Visitantes em tempo real
Que horas são?
blogs SAPO