Quinta-feira, 29 de Outubro de 2015

Paul Valéry escreve, em Tel Quel I:

 

"O escritor diz sempre mais e menos do que aquilo que pensa. Tira e acrescenta ao seu pensamento. O que ele escreve acaba por não corresponder a nenhum pensamento real.

É mais rico e menos rico. Mais extenso e mais breve. Mais claro e mais obscuro.

Razão pela qual aquele que pretende reconstituir um autor a partir da sua obra constrói necessariamente uma personagem imaginária."[1]

 

Temos um postulado: o discurso literário difere, infalivelmente e sempre, das virtualidades que podem ter estado na sua origem. Deste postulado, infere-se, depois, a inviabilidade do conhecimento do autor através da obra. Por comodidade de análise, adoptarei esta divisão no que seguirá, estabelecendo, contudo, alguns graus de diferenciação. Tomando o termo "escritor" na acepção geral de produtor dum discurso escrito possuidor de características consignadas na poética e sedimentadas na sensibilidade colectiva, considerarei três casos distintos: o da (auto)biografia, o da ficção e o da poesia.

 

No discurso biográfico, o escritor opera uma leitura sobre um "texto" bem definido que lhe pré-existe, procedendo à sua reescrita simultânea. A margem de liberdade do escritor é aqui particularmente restrita e, se é verdade que a omissão como a prolixidade lhe são sempre facultadas, não é menos verdade que ele se move entre os limites do real que pretende representar, sob pena de produzir um texto cujas relações referenciais se esfumam, quando o seu objectivo é, neste caso, a representação dos factos da vida de alguém (um indivíduo, em sentido restrito; uma colectividade, em sentido lato, coincidindo estão o discurso biográfico com o discurso histórico).

 

No caso da ficção, é evidente que nos afastamos da função cognitiva, informativa e referencial que caracteriza o discurso biográfico. Ao referente material, que impõe a sua evidência, sucedem agora referentes que podem ser puras representações mentais, lembranças, ideias, reminiscências oníricas,... Perante tal material, o escritor pode ainda, teoricamente, optar pela fidelidade e esmerar-se em reproduzir no seu discurso o próprio pensamento, tentativa que, a ser levada às últimas consequências, tende a aproximar-se da corrente de consciência, complicada com a reflexão sobre os próprios signos actualizados pelo discurso, o que equivale a conferir à linguagem o estatuto de personagem, como, segundo Butor, acontece no Ulisses de Joyce e é o que acontece também no "novo romance". Ora a pretensão de uma coincidência total entre o texto-vida e o texto-escrita é uma pura impossibilidade, por razões evidentes (a vida resumir-se-ia então à escrita). Todavia, a ideia de Valéry pode entender-se de modo diferente: o escritor sentar-se-ia à sua secretária (ou, pelo menos, diante da folha branca), com ideias e um plano preconcebidos, os quais iriam sendo alterados à medida que avançasse na respectiva actualização. Isto equivale a dizer não só que se exclui a pretensão da totalidade, mas ainda que os meros segmentos escolhidos são logo alterados, simplificados ou complicados, abreviados ou acrescentados, enriquecidos ou empobrecidos, clarificados ou obscurecidos. O postulado refuta, pois, a hipótese de o acto produtor do discurso ser mera escrita das representações mentais pré-existentes e a razão de tal fenómeno está intimamente ligada à própria dinâmica do processo língua/fala e às relações que se estabelecem entre os signos. O que Saussure disse a propósito do discurso falado, ao ser transposto para o discurso literário, dá-nos, a par do código linguístico (armazém de signos), o código cultural (armazém do que se poderia definir globalmente como ideologia, no sentido que Althusser dá ao termo[2], como sistema de representações); a par do acto da fala (que promove a actualização de determinados signos), o acto da escrita literária, que promove a actualização da ideologia. Ora o acto de comunicação (oral ou escrita) passa necessariamente por duas actividades complementares, uma ligada ao eixo paradigmático, a que Jakobson chamou actividade metafórica, e que consiste na escolha entre as possibilidades que o sistema oferece, outra ligada ao eixo sintagmático, a actividade metonímica, que leva à combinação dos signos[3]. É fácil compreender que a primeira destas actividades é momentânea, enquanto a segunda é contínua. Aliás, as relações que unem os signos entre si no eixo paradigmático são virtuais, enquanto as relações estabelecidas a nível de sintagma são efectivas e observáveis.

 

No meio de tudo isto, perdemos um pouco de vista o escritor, mas cingiremos de novo o problema que nos ocupa, verificando que, a cada passo, a actividade do escritor o leva a deter a sua caminhada metonímica para se questionar sobre a próxima escolha. Como diria Alzira Seixo, "metáfora é paragem, poesia"[4], é o momento de pausa que permite a contemplação antes que prossiga o "discurso-discorrer" metonímico. Avançando assim, por passos, o escritor vai revendo a sua estratégia inicial que pode ser inflectida numerosíssimas vezes, uma opção feita aqui implicando (por vezes mecanicamente) uma série de outras opções. E estas opções não são de ordem exclusivamente estratégica, pois que a tal pausa metafórica e poética pode arrastar e arrasta efectivamente o escritor para discursos aparentemente alheios à linearidade do discurso primeiro, discursos esses que só foram possíveis uma vez iniciado o processo complexo da escrita, e que nada faria prever antes de os signos-dados terem sido lançados na folha branca, porque foram a sua escolha e a sua inscrição nessa folha que determinaram a abertura de novos rumos.

 

Estamos a tocar de perto o terceiro caso que me propus abordar: o da poesia. Debruçando-se sobre a própria mensagem, tornando-a terreno de eleição e ponto de incidência essencial da actividade produtora, o poeta logra um tipo de relação com os signos que o distingue notavelmente do escritor comum. Com efeito, a sua sensibilidade, em certo sentido mais aguda e, em todo o caso, mais permeável à emoção, vai criar um terreno favorável à contaminação de relações e à "projecção do eixo paradigmático no sintagmático", projecção esta que caracteriza a função poética, segundo Jakobson[5]. Ora esta projecção parece ser o resultado dum conhecimento particular das palavras, reivindicado nestes termos por Ruy Belo: "Conheço as palavras pelo dorso. Outro, no meu lugar, diria que sou um domador de palavras. Mas só eu – eu e os meus irmãos – sei em que medida sou eu que sou domado por elas. A iniciativa pertence-lhes. São elas que conduzem o meu trenó sem chicote, nem rédeas, nem caminho determinado antes da grande aventura."[6] Esta automotivação da mensagem, este discurso gerador de si próprio só por atalhos poderia conduzir à figura do autor. Voltando a citar Ruy Belo: "Alguém que me procure tem de começar – e de se ficar – pelas palavras. Através das várias relações de vizinhança, entre elas estabelecidas no poema, talvez venha a saber alguma coisa. Até não saber nada, como eu não sei."[7]

 

Com isto, parece ficar confirmada a tese de Valéry sobre a construção de uma personagem imaginária. O parti pris de recusar o veículo obra para chegar até ao autor aponta para as tendências modernas da crítica literária, avessas ao positivismo pretérito e orientadas fundamentalmente para a análise imanente do texto.

 

[1] "L'écrivain: Il en dit toujours plus et moins qu'il ne pense. Il enlève et ajoute à sa pensée. Ce qu'il écrit enfin ne correspond à aucune pensée réelle.

C'est plus riche et moins riche. Plus long et plus bref. Plus clair et plus obscur.

C'est pourquoi celui qui veut reconstituer un auteur à partir de son œuvre se construit nécessairement un personnage imaginaire." Paul Valéry, Tel Quel I

[2] "[...] como diz Althusser, uma ideologia é um sistema de representações (ideias, mitos, conceitos, religiões, costumes, etc.) [...]" Nelson de Matos, A leitura e a crítica, Estampa, Mafra, 1971, p. 32

[3] Roman Jakobson, "Dois tipos de afasia", in Essais de linguistique générale, Points, Editions de Minuit

[4] Alzira Seixo, "Reflexão sobre a escrita", in Discursos do Texto, pp.26/27

[5] Roman Jakobson, Linguistique et Poétique.

[6] Ruy Belo, "Não sei nada", in Homem de Palavra(s), Assírio e Alvim, Lx.ª, 2011

[7] Idem



publicado por tambemdeesquerda às 19:32
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