Quinta-feira, 17 de Setembro de 2015

– entre a comédia e o drama

           

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Nada de particularmente original na história da aproximação entre Abe Lucas e a aluna Jill. Recordando Georges Gusdorf, “o acto pedagógico, em cada situação particular, ultrapassa em muito os limites dessa situação, para pôr em causa a existência pessoal no seu conjunto” (Professores para Quê?, Moraes editores). É, pois, natural a sedução reciprocamente exercida, ainda que involuntária e inconscientemente, pelas duas personagens. Quanto ao discurso filosófico que Abe debita, por necessidade diegética e pelas circunstâncias inerentes à situação em que se relacionam as personagens, suspeito que três ou quatro generalidades existencialistas não sejam de molde a satisfazer quem é do ofício, mas é óbvio, também, que Woody Allen não se propôs escrever um tratado de filosofia.

            O tema do acaso que comanda as nossas vidas, vagamente glosado pelos protagonistas, acaba por ter uma demonstração cabal na peripécia que conduz ao desfecho: a pequena lanterna ganha, por acaso, numa tenda de feira, cairá, por acaso, da carteira de Jill e é nessa lanterna que, por acaso, Abe escorregará, o que determina a sua queda.

            Numa vertente mais especificamente moral do discurso filosófico, a decisão de Abe quanto à eliminação física do juiz Spangler parece ser consistente com a postura da personagem e nomeadamente com a sua busca de um sentido para a vida. É nesse sentido que tal decisão se afasta do conceito de acto gratuito. Se este último se define pela ausência de uma motivação autêntica, a eliminação do juiz apresenta-se sob a capa de uma motivação superior – discutível, claro, mas com algum sentido, a começar pelo da ponderação do mal menor. Nestas circunstâncias, é uma decisão que se inscreve no plano da racionalidade, plano em que a ilegitimidade do acto não obsta à sua compreensibilidade. Já a atitude final de Abe para com Jill deserta do domínio das considerações de ordem filosófica para ser inteligível, apenas, à luz da cobardia, do egoísmo e da irracionalidade – donde, talvez, o título do filme. A maior parte do discurso fílmico mostra-nos, com efeito, um homem cuja racionalidade sobrepuja de tal maneira a afectividade que o leva à neurose. Com a tentativa de eliminação de Jill, estamos já no domínio da psicose.

            Interrogo-me sobre os desfechos que se ofereciam a Woody Allen: passar por cima dos indícios do crime (quase) perfeito e deixar Abe e Jill prosseguirem a sua idílica caminhada?, fazer vingar a tentativa de eliminação de Jill, permitindo a Abe continuar a desfrutar de uma vida para a qual encontrou finalmente um sentido?, fazer de Jill a discípula incondicional que interioriza a lição do mestre e se lhe rende? De todas as hipóteses, a mais moral é seguramente a de Woody Allen. Gide escreveu que a má literatura se faz com bons sentimentos, mas esclareceu que tal não significava que a boa literatura se faz apenas com maus sentimentos (Diário). Woody Allen fez um bom filme com bons sentimentos (certamente, porque não apenas). "O Homem Irracional" é um filme esteticamente bem conseguido, que revela a inteligência do realizador e argumentista, e em que os bons desempenhos de Joaquin Phoenix e de Parker Posey são um pouco ofuscados pela vibrante juventude de Emma Stone.



publicado por tambemdeesquerda às 23:47
Espaço destinado a reflexões (geralmente) inspiradas na actualidade e na Literatura.
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