Quarta-feira, 29 de Outubro de 2014

 

Uma leitura comparada da farsa Quem tem farelos?, de Gil Vicente, e de La Vida de Lazarillo de Tormes

 

  

Trabalho produzido no ano lectivo de 1977/1978, no âmbito da Licenciatura em Filologia Românica pela Universidade de Lisboa,

e transcrito para este blog em homenagem ao excelente  www.gilvicente.eu 

do Dr. Noémio Ramos

 

 

Todos os números de página referentes a citações de La Vida de Lazarillo de Tormes ou de Quem tem farelos? remetem respectivamente para a edição francesa bilingue (espanhol-francês) da Aubier-Flammarion, com introdução e notas de Marcel Bataillon, e para o volume V das Obras Completas de Gil Vicente, Clássicos Sá da Costa.

 

INTRODUÇÃO

 

“Se quisermos explicar a literatura tal como se nos oferece à contemplação, temos de descer mais fundo que os textos – à estrutura social de que eles são o produto […]. A obra literária conserva-nos a memória de um certo momento da vida colectiva, e só é inteligível na medida em que nos ajuda a reconstituir na sua complexidade e na sua riqueza múltipla esse momento de vida. Considerada isoladamente, no seu valor intrínseco, não é mais que um tição ardido de que nada compreendemos e que nada nos deixa compreender.”

António José saraiva, Para a História da Cultura em Portugal, vol. 2, p. 17

 

“Il y a un dénominateur commun à l’ensemble des œuvres d’une même époque ou d’un même pays. L’esprit d’un auteur reflète l’esprit de sa nation. »

Léo Spitzer, citado por Pierre Guiraud, in La Stylistique

 

         Proponho-me fazer um estudo das relações que ligam o moço, ou criado, ao escudeiro na farsa Quem tem farelos? e em La Vida de Lazarillo de Tormes, duas obras de características diferentes que apresentam, não obstante, vários pontos de contacto ou semelhanças. Partirei duma abordagem em termos históricos e literários genéricos, à qual se seguirá um levantamento dos elementos mais significativos de cada obra, segundo linhas de força que definirei, para finalmente tentar a integração dos dados colhidos, na perspectiva duma síntese histórico-literária, acompanhada das ilações que se impuserem sobre a natureza profunda das relações do moço com o escudeiro.

 

 

1.ª PARTE

IDENTIFICAÇÃO

 

  1. DATA E AUTORIA

         Embora a referência a ocorrências históricas não sejam nem abundantes nem muito precisas no Lazarillo, é possível concluir, com uma ligeira margem de erro, que foi escrito por volta de 1550 (1.ª publicação em 1554) (1). Quanto à farsa Quem tem farelos?, é provável ter sido escrita por volta de 1515.

 

         Já mais problemático é o problema da autoria. Se a atribuição da farsa a Gil Vicente não suscita qualquer dúvida, o mesmo não acontece com La Vida de Lazarillo de Tormes, cuja paternidade é atribuída hipoteticamente a cinco autores:

 

  • Diego Hurtado de Mandoza, importante personalidade política, facto que justificaria o anonimato, já que se vê mal um homem investido de altas responsabilidades publicar um livrinho satírico, uma nonada, como o classifica o prefácio;
  • O autor teatral Lope de Rueda, que poderia ter sido opregonero Lope de Rueda que viveu em Toledo na mesma altura que o herói da narrativa;
  • Sebastián de Horozco, tendo em atenção o espírito satírico e alguns temas dum cancioneiro deixado por este amador das letras que têm muito de comum com La Vida de Lazarillo de Tormes;
  • Um converso, isto é um descendente de judeus convertido ao cristianismo (tese de Américo Castro), alegando a filiação na cosmogonia judaica da expressão criar de nuevo, utilizada por Lázaro quando responde, no princípio do Tratado III (p. 124) àqueles que o exortam a procurar um bom mestre;
  • Frei Juan de Ortega, em cuja célula, segundo uma tradição da sua Ordem, teria sido encontrado o rascunho do livro.

 

Perante a multiplicidade das hipóteses e a impossibilidade de provar alguma delas, a obra permanece, pois, anónima, facto que seria irrelevante não constituísse La Vida de Lazarillo de Tormes um marco na história do romance.

 

  1. A ORIGINALIDADE

         Efectivamente, se bem que não desligado da produção literária anterior (2), representa um momento de fractura dentro da história da narrativa, por uma razão essencial: o herói deixa de ser uma personagem virtuosa e nobre (nobre, nas acepções social e moral), para ser um indivíduo de baixa extracção, um miserável, um esfarrapado. E esta característica é acentuada pelo facto de ser o próprio protagonista o sujeito da enunciação, ou seja, o narrador, através do artifício autobiográfico. Vemos, pois, a distância que nos separa dos romances de cavalaria, então muito em voga: à genealogia nobre apresentada na introdução empolada destes, contrapõe-se a genealogia “desonrosa” de Lázaro: “Mi padre […]fue molinero más de quince años. Y, estando mi madre una noche en la aceña, preñada de mí, tomóle el parto y parióme allí; de manera que con verdad me puedo decir nacido en el río” (p. 82). Baixa extracção, portanto, mas, mais do que isso, ignominiosa, já que Lázaro revela ter sido seu pai acusado de roubo e preso, vindo sua mãe a amancebar-se, depois da morte daquele, com um mouro moço de estrebaria. Herói em tudo oposto àquele que a literatura tradicionalmente promovera como “encarnação dos padrões morais e ideológicos valorizados pela classe nobre” (3), Lázaro aparece, assim, na sua suposta autobiografia, como o anti-herói. Em que medida as condições histórico-sociais permitiam esta reviravolta na estruturação do romance é o que tentarei agora avaliar.

 

  1. O CONTEXTO HISTÓRICO

         Na origem remota das relações sociais existentes à data da criação das obras de que nos ocupamos está certamente a degradação do funcionamento do sistema feudal, que entra em crise com o desenvolvimento do comércio e da burguesia e a consequente desvalorização dos meios de troca de que a nobreza dispunha. Numa fase mais próxima da criação das mesmas obras, podemos apontar algumas causas que nos parecem determinantes de tais relações.

 

3.1. Em Espanha

 

         Do mesmo modo que a Espanha medieval se caracteriza socialmente pela convivência pluri-racial, a Espanha do último quartel do século XV e a do século XVI, ou seja, a partir dos Reis Católicos (1479-1516) vai caracterizar-se pela paixão da unificação religiosa e pelo exclusivismo religioso. Na origem desta mudança de fisionomia, causas múltiplas que simplificaremos assim: os Reis Católicos preocupam-se com a mistura das religiões, dos costumes e das raças; os vencedores da Reconquista, e nomeadamente ahidalguía de fibra cristã, que impõe o seu padrão de vida às demais classes, compensam com o estatuto da limpieza de sangre o despeito causado pela prosperidade económica dos Judeus (que se dedicam à actividade financeira) e dos Mouros (que se dedicam à actividade agrícola no Levante e Andalusia) e organizam um código de honra que se torna o motor de toda a vida social e moral da época. Consequência da virtude individual que vemos patente, por exemplo, no Poema del Cid, pela necessidade do reconhecimento e testemunho dos outros, a mania da honra acaba por se converter num fenómeno social, e este aspecto de testemunho acaba por ofuscar definitivamente o moral, resultando o referido código de honra com normas, exigências e leis que deveriam ser cumpridas.

         A mentalidade fidalga, imbuída dos preconceitos de limpieza de sangre e de honra, nutria, ao mesmo tempo, desprezo pela ciência, pelos negócios, pela técnica, porque eram actividades a que se consagravam as outras castas – Judeus e Mouros.

         A par destes pruridos de casta, com as suas irremediáveis consequências económicas, um traço de grande importância na Espanha do Imperador Carlos V (reinou entre 1516 e 1556) – que é também a de Lázaro – é a enorme legião de mendigos protegidos e alimentados pela Igreja e pela caridade pública. Efectivamente, a Igreja exalta a pobreza, vendo nela a ocasião e o meio para que se exercesse a caridade.

 

3.2. Em Portugal

 

         Se a situação económica e social da Espanha de Quinhentos se pode caracterizar pelo exacerbamento das contradições que levam a situações paradoxais (culto das aparências, mas miséria real; defesa da mendicidade para se poder praticar a caridade; desprezo pelas actividades a que se dedicavam Judeus e Mouros, mas, simultaneamente, despeito pelo poder económico destas castas), a situação de Portugal na mesma época não é mais brilhante.

 

         Antero de Quental, na sua conferência intitulada “Causas da decadência dos povos peninsulares”, sintetiza a evolução que a sociedade portuguesa sofrera desde os primeiros séculos da monarquia – era então essencialmente agrícola e próspera, apesar das guerras e da imperfeição das instituições – até ao século XVII. A charneira, o momento de viragem nesta evolução parece, efectivamente, ser o século XVI e, mais precisamente, as conquistas.

 

         Já Duarte da Gama, colaborador do Cancioneiro Geral de Garcia de Resende (1516), se eleva contra “as desordens que agora se costumam em Portugal”, passando revista aos costumes do seu tempo, sem denunciar as causas de tal estado de coisas. Refere-se, nomeadamente, ao abandono dos campos pela população rural e pelos próprios nobres:

 

“Outros ham por cousa boa

nam ter homens nem cavalos,

e despreçam os vassalos,

por se virem a Lixboa.

Os quais, se fossem lembrados

das pendenças e das guerras,

folgariam de ter terras

e criados.

 

Já ninguém nam quer usar

da nobreza dos passados,

senam vinte mil cruzados

ver se podem ajuntar.”

 

Se o afluxo das populações a Lisboa esvazia os campos, a miragem da Índia esvazia o reino, no dizer de Sá de Miranda (Carta ao Senhor de Basto):

 

“Não me temo de Castela

donde inda guerra não soa;

mas temo-me de Lisboa,

que, ao cheiro desta canela,

o Reino nos despovoa.”

 

         É que, como no-lo diz Oliveira Martins, “os plebeus olhavam com desdém as profissões mecânicas, para irem à Índia batalhar, afidalgar-se” (4). E é ainda Sá de Miranda quem profliga o vil  materialismo da época, tanto quanto o apego aos títulos e às aparências, isto é, à honra, como fenómeno social, quando afirma:

 

“Quando os antigos a alguém

louvavam, não de senhor

nem de rico era o louvor,

chamavam-lhe homem de bem

e ainda bom lavrador.

 

A nossa gente que quis

arremedar nos louvores,

que agora parecem vis,

aos bons reis Sancho e Dinis

chamaram-lhes lavradores.”

 

         O abandono da agricultura teve como consequência passar o país a importar aquilo que anteriormente exportava: cereais, frutas secas, azeite,… Os bens de consumo atingem preços tais que só os grandes a eles tinham acesso; para a esmagadora maioria da população resta a mendicidade. Nas ruas de Lisboa, no dizer de Oliveira Martins, “perpassavam os mendigos rotos e os fidalgos vestidos de seda […]. Lisboa regurgitava de pobres e morria gente de fome pelas ruas, sob os alpendres das casas” (4). Mendigos rotos e fidalgos vestidos de seda é uma imagem bem sugestiva do profundo fosso que então dividia a nação.

  1. A PARELHA MOÇO-ESCUDEIRO

         Fosso em alguns aspectos real, em outros aparente, que vamos encontrar a propósito da parelha moço-escudeiro, presente no teatro vicentino desde a representação da farsa Quem tem farelos?, em 1515, e na literatura espanhola desde a publicação deLa Vida de Lazarillo de Tormes, mas pré-existente na tradição folclórica da Península, como deixam supor provérbios como “Escudero mezquino, mozo adevino”, recolhido por Correas, e “Escudero pobre, rapaz adevino” (5).

 

         Sobre a figura do escudeiro, reportemo-nos ao comentário de Marcel Bataillon, que, por sua vez, segue a lição de Américo Castro ao ver nele um “hidalgo de natura, usado de franqueza” e “un être foncièrement noble qui souffre d’avoir besoin du vilain auquel l’oppose son sentiment de l’honneur” (6). Com este fidalgo simpatiza já no século XIV o moralista judeu castelhano Santob de Carrión (6). No século XVI, o agravamento das condições económicas a que me referi conduz à marginalização dos fidalgos que se vêem na obrigação de servir um nobre para não morrerem de fome, dada a sua recusa de prestação de trabalhos manuais que consideram incompatíveis com a sua noção de honra. Ora, dada esta rejeição por motivos de preconceitos e dada a miséria a que o escudeiro se via confinado, não admira, por um lado, que não prescindisse dos serviços dum moço obviamente sem preconceitos de honra e, por outro lado, que o moço partilhasse da miséria do amo, como veremos. A tomada de consciência, por parte do moço, da perfeita inutilidade social do amo, assim como a experiência da miséria mais negra explicam sobejamente provérbios como os que citei, os quais traduzem um traço frequente na caracterização dos moços: o não acatamento das ordens do escudeiro sem primeiro as discutir e adivinhar todas as eventuais dificuldades no seu cumprimento (“mozo adevino”).

 



publicado por tambemdeesquerda às 12:18
Espaço destinado a reflexões (geralmente) inspiradas na actualidade e na Literatura.
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