Terça-feira, 27 de Outubro de 2015

Há dias, numa entrevista para a Antena 1, o secretário-geral da UGT, Carlos Silva, antecipando-se ao PR e a António Saraiva, presidente da CIP, Confederação dos Patrões, igualmente oriundo da UGT, declarou: "Não me parece que efetivamente as forças à esquerda do PS dêem a garantia de estabilidade em relação ao futuro. Há dúvidas. Portanto, o PS só conseguirá fazer maioria se tiver maioria na Assembleia, quer do PCP quer do BE. É uma maioria instável que na minha opinião não dará garantias que no futuro a governabilidade seja assegurada por quatro anos."

 

Lembro-me de o ter ouvido, na mesma ocasião, e para que dúvidas não surgissem nos espíritos dos ouvintes, afirmar categoricamente que era "um homem de esquerda".

 

Carlos Silva, como João Proença, como outrora António Saraiva, que perfilham idênticas opiniões quanto a um hipotético governo do PS apoiado pela esquerda, são representantes de um "sindicalismo" forjado pela classe dominante para assegurar a reprodução ininterrupta dos mecanismos da exploração capitalista, como o prova o seu sistemático alinhamento com os governos e as confederações patronais. Estas declarações proferidas por quem tão facilmente transita de um campo para o outro e se comporta como mandatário do sistema, são, pois, naturais e insusceptíveis de causar indignação.

 

Há, contudo, na referência elogiosa à "estabilidade" que apenas o governo de direita, com o apoio, claro, do PS, está em condições de proporcionar, referência imediatamente seguida da proclamação de pertença à esquerda, uma curiosidade que não deixa de honrar o "sindicalista". Carlos Silva sentiu necessidade de esclarecer que o seu apoio a um governo de direita, apoiado pelo PS, não invalidava a sua condição de "homem de esquerda", esclarecimento que trai, apesar de tudo, um conflito, uma censura da sua consciência de classe (uma consciência de classe decerto mortificada, amarfanhada e encafuada sob toneladas de acordos de concertação social nefastos para os seus associados) e a sua convicção muito entranhada (tanto que pena como carrejão para aflorar à superfície) de que ser de esquerda é estar do lado dos trabalhadores e não do lado dos exploradores.

 

Ademais, esta circunstância suscita o debate desde há muito travado, nos meios políticos esclarecidos e de visões largas, sobre o que é afinal ser de esquerda e ser de direita, na pós-modernidade. Numa época em que partidos de esquerda – dizem – defendem medidas comummente consideradas de direita e vice-versa, que sentido fará manter esta terminologia obsoleta?

 

O poder da palavra é imenso, que o digam os criadores, poetas à frente, que tudo transfiguram graças a artifícios que não estão ao alcance do comum dos mortais. Não é bem disso que se trata, contudo, no caso vertente, pois a apropriação de determinado léxico é feita, neste caso, com dolo e, longe de visar a emoção estética, visa sim a mistificação e o logro.

 

Não posso deixar de fazer uma analogia entre estes factos da vida política e do domínio ideológico e factos da vida social. Tomemos um ladrão a quem na pia baptismal foi dado o nome de Honrado e que, por sinal, até se comporta honradamente com os seus amigos e vizinhos, além de que mata a fome à bicharada abandonada lá da rua. Por muito que ele proclame "Eu sou Honrado" e por muita simpatia que possa inspirar aos seus amigos e vizinhos, a sua condição de ladrão persiste, é essa que o auto policial e o processo penal assinalarão como relevante, ainda que as suas outras qualidades lhe possam servir de atenuante e pese embora toda a solidariedade dos vizinhos e amigos que atestam veementemente a sua honradez.

 

Os meios políticos esclarecidos e de visão larga, muitos comentadores encartados e até académicos incensados comportam-se como os vizinhos e amigos do nosso ladrão, embora com intenções menos nobres. Juram a pés juntos que estar com a direita e ser de esquerda é próprio destes novos tempos, que o esquematismo catalogador é redutor do pensamento e da realidade, enfim, que esquerda e direita são designações vazias de conteúdo. Claro que podiam esforçar-se por confrontar as medidas pontuais e as orientações estratégicas propugnadas por uns e por outros com os grandes valores que, pelo menos desde a Revolução Francesa, são considerados património daqueles que estavam com o Terceiro Estado ou, pelo contrário, daqueles outros que se batiam pela manutenção de um regime de privilégios reservados a uma minoria parasitária. Concedo que tal confronto exige alguma concentração e sobretudo uma honestidade intelectual que a muitos deles falece. Por isso, comportam-se como os amigos do senhor Honrado, sustentando que pode roubar à vontade, já que o nome ninguém lho tira.



publicado por tambemdeesquerda às 09:50
Espaço destinado a reflexões (geralmente) inspiradas na actualidade e na Literatura.
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