Domingo, 29 de Novembro de 2015

A importância do petróleo na economia mundial é tanta que se resiste a aventar a simples hipótese do seu fim repentino. É com um calafrio que se imagina a falência global das sociedades organizadas e o mergulho da civilização numa noite negra pejada de cadáveres de milhões e milhões de infelizes impedidos de aceder a bens de primeira necessidade ou vítimas de hordas humanas caídas na animalidade pura e em luta desenfreada pela sobrevivência.

 

Não só o seu fim, todavia, é motivo de preocupação e angústia. Basta recear a interrupção temporária de fornecimentos ou a possibilidade de garantir o fluxo contínuo do seu abastecimento. A economia mundial tem inscrito o crescimento ininterrupto, no seu código genético, e esse crescimento é factor de diversificações permanentes, elas próprias determinantes de necessidades acrescidas e potenciadoras de renovado crescimento.

 

A premência destes factos explica muito do que hoje se passa no mundo, sendo que a perplexidade causada pelo fenómeno do terrorismo é geradora de interpretações geralmente pautadas por um senso comum imediatista e simplificador promovido por uma comunicação social sempre pronta a alardear uma isenção que não resiste ao crivo de uma análise séria.

 

Compreende-se o mecanismo que conduz fatalmente da premissa que é a incontornável necessidade da fonte de energia ao corolário que é a inevitabilidade da guerra. Os interesses dos detentores do recurso natural ou não coincidem com os daqueles que carecem desse recurso ou estes últimos pretendem colmatar a sua carência em condições excessivamente penalizadoras para os primeiros. Tais contradições só são resolúveis numa síntese superior incompatível com a natureza do sistema em que vivemos.

 

É, pois, natural que a imperiosa necessidade de garantir o acesso ao petróleo e o correlativo escoamento para as economias desenvolvidas leve a intervenções militares comummente apresentadas e justificadas como acções em prol dos direitos humanos e da democracia. Se, depois, estas guerras boas desembocam no caos, num infindável cortejo de refugiados e na proliferação do terrorismo, os responsáveis políticos e a comunicação social ao seu serviço encarregar-se-ão de explicar as causas de tais ocorrências como consequência de leituras fundamentalistas do Corão, do exacerbamento de conflitos étnico-religiosos e de fanatismos vários.

 

Numa visão optimista e decerto idealista, a partilha de recursos naturais como o petróleo poderia e deveria ser feita com base no interesse comum da humanidade e com benefícios iguais para todas as partes. O diálogo privilegiado com cleptocracias de visão egoísta, logo estreita, permite a estas auferir dividendos faustosos, condenando grandes massas humanas à indigência e assegurando aos seus interlocutores fornecimentos abundantes a preços convenientes.

 

Nada de mais natural, ainda, do que o clima de entente cordiale que as potências ocidentais mantêm com o regime saudita e as relações tensas que as mesmas mantêm, por exemplo, com a Venezuela. Afira-se a natureza de um e de outro regime, nomeadamente através desse indicador infalível que é o da repartição das riquezas, e ter-se-á uma ideia clara do que realmente move a política internacional.

 

As dificuldades criadas à exportação ou à livre circulação do petróleo por este ou aquele Estado soberano considerado demasiado cioso dessa soberania determina a implementação de medidas correctivas. Se, momentaneamente, não estão criadas condições suficientes para a intervenção militar directa, procede-se sub-repticiamente, pela calada da acção subversiva, financiando e industriando as oposições democráticas. Os actos provocatórios habilmente congeminados e não necessariamente ostensivos condicionam fortemente a opinião pública; a comunicação social, por seu turno, diligencia adequadas doses de propaganda.

 

Duas conclusões parecem resultar das modestas teses que precedem:

 

  1. O sistema em que vivemos vai continuar a gerar a guerra e o terrorismo, flagelos de que só a sua substituição nos livrará;

 

  1. A finitude dos recursos naturais exige que se comece a pensar em termos de decrescimento – planeado e sustentado, obviamente.

 

N.B. - O autor omitiu aspas que a perspicácia do leitor não deixará de vislumbrar aqui e ali.

 



publicado por tambemdeesquerda às 22:31
Espaço destinado a reflexões (geralmente) inspiradas na actualidade e na Literatura.
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