Domingo, 18 de Abril de 2010

 

 

A história que a comunicação social escreve por estes dias não é nova. É velha de séculos. Patrícios, imperadores, senhores feudais e suseranos, aristocratas e príncipes da Igreja – todos se esmeraram em fazer suas as riquezas da natureza e os bens produzidos por aqueles que, de seu, apenas tinham a força de trabalho. Ora, numa altura em que todos os adjectivos disponíveis na língua (injusto, injustificável, inaceitável, escandaloso, imoral, obsceno, etc.) foram mobilizados para qualificar o regabofe das remunerações dos gestores e administradores de empresas participadas pelo Estado (em relação às privadas, os comentadores oficiais usam do maior recato e estão sempre dispostos a justificar o regabofe com o sacrossanto direito de propriedade), numa altura em que, por seu turno, os gestores, administradores e respectivos cúmplices na pilhagem da riqueza de todos nós se aprimoram na justificação do injustificável, com a lengalenga do cumprimento e ultrapassagem dos objectivos e outras de igual jaez, talvez não seja despiciendo recordar a urgência da utopia e suscitar a reflexão, tão mal-amada dos arautos do liberalismo (com ou sem “neo”), sobre a transformação da consciência e o homem novo.

 

Claro que, para todos aqueles que, directa ou indirectamente, lucram com este estado de coisas, este discurso só poderá ser apodado de irrealista, se não mesmo de saudosista e, já agora, reaccionário (!…). A História tem-nos mostrado, contudo, que há limites para a indecência, e quando esses limites são ultrapassados lá entra ela em erupção, como o vulcão islandês, toldando o céu invariavelmente azul dos senhores do mundo e cobrindo-os a eles mesmos com uma grossa camada de cinzas abrasivas. História providencial? Não. Mas a ideologia, essa, sim, quando se apodera das massas, transformando-se numa força material.

 

Quando milhões de seres humanos nossos irmãos vegetam na mais abjecta miséria, como é possível ignorá-lo e levar para casa somas fabulosas que bastariam para fazer viver dignamente centenas de homens e mulheres, se não fossem desviadas para a compra de mansões e iates, para o jogo do casino e sua variante bolsista, para o esbanjamento?

 

Desabafo de índole moralista? Desabafo de quem sabe que as consciências (à escala das nações e da Terra) não se transformarão sem que as condições materiais o determinem. De quem sabe que os adjectivos estão gastos, para qualificar os desmandos dos poderosos, mas que o povo dispõe sempre de um substantivo que não se gasta, até porque usa com parcimónia a realidade que ele nomeia. A última vez, entre nós, foi há quase trinta e seis anos.



publicado por tambemdeesquerda às 00:05
Espaço destinado a reflexões (geralmente) inspiradas na actualidade e na Literatura.
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