Quinta-feira, 10 de Dezembro de 2009

 

Os debates quinzenais no Parlamento são sempre uma excelente oportunidade para se apreciar o desempenho oratório dos intervenientes, a sua habilidade dialéctica e características da sua personalidade. No que ao Primeiro-Ministro diz respeito, a oratória é geralmente, se não sempre, impressionante – pela fluência e pelos recursos expressivos (ironia, entoação, …) – e a inteligência táctica revela-se frequentemente na utilização de argumentos ad hominem que confundem os adversários. Quanto aos traços de personalidade que mais sobressaem nestes debates, é mais ou menos consensual, pelo menos para aqueles que não prestam vassalagem ao Governo e ao Partido Socialista, que, em matéria de arrogância, José Sócrates não fica a dever nada ao ex-Primeiro-Ministro Cavaco Silva (ainda se lembram daquela admoestação aos trabalhadores dos transportes em greve: “Esperem pela privatização!...”?) nem à ex-ministra Manuela Ferreira Leite.
 
Ora era aqui que eu queria chegar – à arrogância, à agressividade altiva na relação com os outros. É que eu entendo perfeitamente que as oposições sejam agressivas e, por vezes, até um pouco excessivas e inconvenientes, tendo em conta que estão na mó de baixo e que o ofício de ser oposição se torna exasperante, quando não desesperante, se a maioria faz obstrução às mais inócuas das propostas que delas vêm. Mas quando se tem a maioria e se tem a faca e o queijo na mão, porquê enfatizar ainda mais esse poder com o acinte da arrogância?
 
Claro que este raciocínio era particularmente válido quando a maioria era absoluta – e bem se viu que José Sócrates nunca perdeu a oportunidade de rebaixar e humilhar os seus adversários. No fundo, agora, acaba por ter parte da desculpa que se concedia atrás às oposições. Mas uma maioria relativa, sendo relativa, não deixa de ser maioria. Impõe negociação, impõe um consenso mínimo, mas permite, no essencial, a prossecução das políticas que essa maioria entende dever implementar. Vamos, provavelmente, confirmá-lo com as questões da criminalização (ou não) do enriquecimento ilícito, do Orçamento de Estado, do casamento de pessoas do mesmo sexo, etc. Umas vezes com a direita, outras com a esquerda, o Governo levará a água ao seu moinho.
 
É assim que somos levados a concluir que, das duas uma – ou esta acrimónia faz parte da grande encenação parlamentar típica dos partidos do sistema, que deste modo induzem a ilusão de que se combatem, quando na realidade convergem na manutenção do statu quo da democracia burguesa, que reproduz infinitamente os mecanismos de dominação do capital, ou àquele rol de virtudes que eu, no primeiro parágrafo, reconheci a José Sócrates faltará uma, a inteligência emocional.
 
Na primeira hipótese, tenho para mim que a esquerda consequente apenas figura como vítima ou participante involuntária na encenação. Quando se tem representação parlamentar, não há meio de fugir à “representação” parlamentar. O jogo parlamentar comporta riscos. A histrionia é um deles.

                                                            

 

Fotos:

Jose Socrates 07
por orlando_almeida_photographer, in www.flickr.com

 

José Socrates
por Miguel A. Lopes "Migufu", in www.flickr.com  



publicado por tambemdeesquerda às 13:34
Espaço destinado a reflexões (geralmente) inspiradas na actualidade e na Literatura.
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