Quarta-feira, 15 de Setembro de 2010

 

Paul Lafargue (1842-1911), médico, jornalista, activista político e um dos fundadores do Partido Operário Francês, era genro de Karl Marx. Autor, entre várias outras obras, de O Catecismo dos Trabalhadores, onde escalpeliza as injustiças insanáveis que estão na génese e essência do capitalismo, escreveu também O Direito à Preguiça (24 páginas na edição www.ebooksbrasil.com), donde extraio os seguintes passos, estranha e dolorosamente actuais, em vários aspectos:

 

 

Sobre o papel da religião e do clero na formatação das consciências, afirma:

 

“O Sr. Thiers, no seio da Comissão sobre a Instrução Primária de l849, dizia: “Quero tornar a influência do clero todo-poderosa, porque conto com ele para propagar esta boa filosofia que ensina ao homem que ele veio ao mundo para sofrer e não aquela outra filosofia que, pelo contrário, diz ao homem: goza.” O Sr. Thiers formulava a moral da classe burguesa cujo egoísmo feroz e inteligência estreita encarnou.” (2)

 

Embora conceda, com ironia:

 

“Jeová, o deus barbudo e rebarbativo, deu aos seus adoradores o exemplo supremo da preguiça ideal; depois de seis dias de trabalho, repousou para a eternidade.” (4)

 

Parecendo antecipar as homilias salazarentas sobre as virtudes do trabalho abnegado (leia-se: exploração desenfreada da força de trabalho), denuncia a hipócrita moral burguesa que identifica justo descanso com vício:

 

“Quanto mais os meus povos trabalharem, menos vícios existirão, escrevia Napoleão de Osterode no dia 5 de Maio de 1807. Eu sou a autoridade [...] e estaria disposto a ordenar que ao domingo, passada a hora dos ofícios divinos, as lojas estivessem abertas e os operários fossem para o seu trabalho”. (5-6)

 

E, inconformado com a aparente contradição entre a exploração da força de trabalho assalariado e a reivindicação de trabalho pelas próprias vítimas dessa exploração, verbera a incapacidade dessas mesmas vítimas para superar tal contradição:

 

“Este trabalho, que em Junho de 1848 os operários reclamavam de armas na mão, impuseram-no eles às suas famílias; entregaram, aos barões da indústria, as suas mulheres e os seus filhos. Com as suas próprias mãos, demoliram o lar, com as suas próprias mãos, secaram o leite das suas mulheres; as infelizes, grávidas e amamentando os seus bebés, tiveram de ir para as minas e para as manufacturas esticar a espinha e esgotar os nervos; com as suas próprias mãos, quebraram a vida e vigor dos seus filhos. - Que vergonha para os proletários! Onde é que estão as bisbilhoteiras de que falam as nossas trovas e contos antigos, ousadas nas afirmações, francas de boca, amantes da divina garrafa? Onde estão essas mulheres prazenteiras, sempre apressadas, sempre a cozinhar, sempre a cantar, sempre a semear a vida gerando a alegria, dando à luz sem dores filhos sãos e vigorosos?... Temos hoje as raparigas e as mulheres da fábrica, insignificantes flores de pálidas cores, com um sangue sem rutilância, com o estômago deteriorado, com os membros sem energia!... Nunca conheceram o prazer robusto e não seriam capazes de contar atrevidamente como quebraram a sua concha! _ E as crianças? Doze horas de trabalho para as crianças. Ó miséria! - Mas todos os Jules Simon da Academia das Ciências Morais e Políticas, todos os Germiny da jesuitaria, não teriam podido inventar um vício mais embrutecedor para a inteligência das crianças, mais corruptor dos seus instintos, mais destruidor do seu organismo do que o trabalho na atmosfera viciada da oficina capitalista.

 

A nossa época é, dizem, o século do trabalho; de facto, é o século da dor, da miséria e da corrupção.” (6-7)

 

Descreve, depois, as condições de trabalho na Alsácia, no início do século XIX, e o progressivo agravamento das mesmas, à medida que o século ia avançando, com a intensificação da exploração da força de trabalho operário:

 

É da Alsácia manufactureira que fala Villermé, da Alsácia dos Kestner, dos Dollfus, essas flores da filantropia e do republicanismo industrial. Mas antes que o doutor esboce diante de nós o quadro das misérias proletárias, escutemos um manufactureiro alsaciano, o Sr. Th. Mieg, da Casa Dollfus, Mieg e Cia, descrevendo a situação do artesão da antiga indústria:

 

“Em Mulhouse, há cinquenta anos (em 1813, quando nascia a moderna indústria mecânica), os operários eram todos filhos do solo, que habitavam a cidade ou as aldeias próximas e possuíam quase todos uma casa e muitas vezes um pequeno terreno”.

 

Era a idade de ouro do trabalhador. Mas então a indústria alsaciana não inundava o mundo com os seus tecidos de algodão e não tornava milionários os seus Dllfus e os seus Koechlin. Mas vinte e cinco anos depois, quando Villermé visitou a Alsácia, o Minotauro moderno, a oficina capitalista tinha conquistado a região; na sua bulimia de trabalho humano, tinha arrancado os operários dos seus lares para melhor os torcer e para melhor espremer o trabalho que continham. Era aos milhares que os operários acorriam ao apito da máquina.

 

Muitos, diz Villermé, cinco mil em dezassete mil, eram obrigados, pela carestia das rendas, a instalar-se nas aldeias vizinhas. Alguns habitavam a duas léguas e um quarto da manufactura onde trabalhavam.

 

Em Mulhouse, em Dornach, o trabalho começava às cinco horas da manhã e acabava às cinco horas da tarde tanto no verão como no inverno [...]. Era preciso vê-los chegar todas as manhãs à cidade e vê-los partir à noite. Há entre eles uma multidão de mulheres pálidas, magras, caminhando de pés descalços por cima para protegerem o rosto e o pescoço, e um número mais considerável de crianças pequenas não menos sujas, não menos pálidas e macilentas, cobertas de farrapos, todas engorduradas do óleo dos teares que lhes cai em cima enquanto trabalham. Estas últimas, melhor preservadas da chuva pela impermeabilidade das suas roupas, nem sequer têm no braço, como as mulheres de que acabamos de falar, um cesto onde estão as provisões do dia; mas trazem na mão, ou escondem debaixo do seu casaco ou como podem, o bocado de pão que os devem alimentar até à hora do seu regresso a casa.

 

Assim, à fadiga de um dia de trabalho excessivamente longo, visto que tem pelo menos quinze horas, vem juntar-se para estes desgraçados a das idas e vindas tão frequentes, tão penosas. Daqui resulta que à noite chegam a suas casas oprimidos pela necessidade de dormir e que no dia seguinte saem antes de terem repousado completamente para se encontrarem na oficina à hora da abertura”. (7-8)

 

No tocante às miseráveis habitações dos trabalhadores e aos seus efeitos combinados com as condições de trabalho, acrescenta:

 

“Eis agora as espeluncas onde se amontoavam aqueles que habitavam na cidade:

 

“Vi, em Melhouse, em Dornach e nas casas vizinhas, dessas miseráveis instalações onde dormiam duas famílias cada uma a seu canto, sobre a palha colocada sobre o tijolo e retida por duas tábuas... Esta miséria em que vivem os operários da indústria do algodão no distrito do Alto-Reno é tão profunda, que produz este triste resultado: enquanto nas famílias dos fabricantes, mercadores de panos, directores de fábricas, metade das crianças atinge os vinte e um anos, essa mesma metade deixa de existir antes mesmo de completar os dois anos nas famílias de tecelões e de operários de fábricas de fiação de algodão”.

 

Falando do trabalho da oficina, Villermé acrescenta:

 

“Não é um trabalho, uma tarefa, é uma tortura e infligem-na a crianças de seis a oito anos. [...] É esse longo suplício de todos os dias que mina sobretudo os operários das fábricas de fiação de algodão.” (8)

 

A sua condenação do falso progresso, assente na industrialização forçada à custa da saúde e da alegria dos trabalhadores, transparece com força nos parágrafos seguintes:

 

Ó miserável aborto dos princípios revolucionários da burguesia! Ó lúgubre presente do seu deus Progresso! Os filantropos proclamam benfeitores da humanidade aqueles que, para se enriquecerem na ociosidade, dão trabalho aos pobres; mais valia semear a peste ou envenenar as fontes do que erguer uma fábrica no meio de uma povoação rústica. Introduzam o trabalho de fábrica, e adeus alegria, saúde, liberdade; adeus a tudo o que fez a vida bela e digna de ser vivida.

 

E os economistas continuam a repetir aos operários: Trabalhem para aumentar a fortuna social! E, no entanto, um economista, Destutt de Tracy, respondeu-lhes:

 

“É nas nações pobres que o povo está à sua vontade; é nas nações ricas que de um modo geral ele é pobre.” (9)

 

Também já aqui surge a denúncia do vício estrutural do capitalismo – as crises de sobreprodução, que vitimam os próprios produtores:

 

E o seu discípulo Cherbuliez continua:

 

“Os próprios trabalhadores, ao cooperarem na acumulação dos capitais produtivos, contribuem para o acontecimento que, mais tarde ou mais cedo, os deve privar de uma parte do seu salário.

 

” Mas, ensurdecidos e tornados idiotas pelos seus próprios berros, os economistas continuam a responder: Trabalhem, trabalhem sempre para criarem o vosso bem-estar! E, em nome da bondade cristã, um padre da Igreja Anglicana, o reverendo Townhend, prega: “Trabalhem, trabalhem noite e dia! Ao trabalharem, fazem crescer a vossa miséria e a vossa miséria dispensa-nos de vos impor o trabalho pela força da lei. A imposição legal do trabalho exige demasiado esforço, demasiada violência e faz demasiado estardalhaço; a fome, pelo contrário, não só é uma pressão calma, silenciosa, incessante, como também o móbil mais natural do trabalho e da indústria, ela provoca também os mais poderosos esforços.”

 

Trabalhem, trabalhem, proletários, para aumentar a fortuna social e as vossas misérias individuais, trabalhem, trabalhem, para que, tornando-vos mais pobres, tenham mais razão para trabalhar e para serem miseráveis. Eis a lei inexorável da produção capitalista.

 

Porque, ao prestarem atenção às insidiosas palavras dos economistas, os proletários se entregaram de corpo e alma ao vício do trabalho, precipitam toda a sociedade numa destas crises de superprodução que convulsionam o organismo social. Então, porque há superabundância de mercadorias e penúrias de compradores, as oficinas encerram e a fome fustiga as populações operárias com o seu chicote com mil loros. Os proletários, embrutecidos pelo dogma do trabalho, não compreendem que é o supertrabalho que infligiram a si próprios durante o tempo da pretensa prosperidade a causa da sua miséria presente, em vez de correrem ao celeiro de trigo e de gritarem: “Temos fome e queremos comer!... Sim, não temos nem uma moeda, mas, pobres como estamos, fomos nós quem ceifou o trigo e vindimou a uva...” - Em vez de cercarem os armazéns do Sr. Bonnet de Jujureux, o inventor dos conventos industriais, e de clamar: “Sr. Bonnet, aqui estão as vossas operárias ovalistas (operárias que tornam as sedas ovais), moulineuses (operárias que fiam e torcem mecanicamente os fios de seda crua), fiandeiras, tecedeiras, elas tremem de frio nos seus tecidos de algodão passajados de modo a condoer os olhos de um judeu e, no entanto, foram elas que fiaram e teceram os vestidos de seda das cocotes de toda a cristandade. As desgraçadas, trabalhando treze horas por dia, não tinham tempo de pensar na “toilette”, agora, elas estão desempregadas e podem ostentar um grande luxo com as sedas que trabalharam. Mal perderam os dentes de leite, dedicaram-se à sua fortuna e viveram na abstinência; agora elas têm tempos de lazer e querem gozar um pouco dos frutos do seu trabalho. Vamos, Sr. Bonnet, entregue as suas sedas, o Sr. Harmel fornecerá as suas musselinas, o Sr. Pouyer-Quertier os seus paninhos, o Sr. Pinet as suas botinas para os seus queridos pezinhos frios e húmidos... Vestidas dos pés à cabeça, dar-vos-á prazer contemplá-las. Vamos, nada de hesitações - o Sr. É amigo da humanidade, não é verdade? E cristão ainda por cima! - Ponha à disposição das suas operárias a fortuna que estas lhe construíram com a carne da sua carne. - É amigo do comércio? - Facilite a circulação das mercadorias; eis consumidores acabados de encontrar; abra-lhes créditos ilimitados. É obrigado a fazê-lo a negociantes que não conhece de parte nenhuma, que não lhe deram nada, nem sequer um copo de água. As suas operárias pagarão como puderem: se, no dia do vencimento, elas fogem e deixam protestar a letra, levá-las-á à falência e, se elas não tiverem nada para penhorar, exigirá que elas lhe paguem em orações: elas enviá-lo-ão ao paraíso, melhor do que os seus sacos negros com o nariz cheio de tabaco.”

 

Em vez de se aproveitarem dos momentos de crise para uma distribuição geral de produtos e uma manifestação universal de alegria, os operários, morrendo à fome, vão bater com a cabeça contra as portas da oficina. Com rostos pálidos e macilentos, corpos emagrecidos, discursos lamentáveis, assaltam os fabricantes: “Bom Sr. Chagot, excelente Sr. Schneider, dêem-nos trabalho, não é a fome, mas a paixão do trabalho que nos atormenta!” E esses miseráveis, que mal têm forças para se manterem de pé, vendem doze e catorze horas de trabalho duas vezes mais barato do que quando tinham trabalho durante um certo tempo. E os filantropos da indústria continuam a aproveitar as crises de desemprego para fabricarem mais barato.

 

Se as crises industriais se seguem aos períodos de supertrabalho tão fatalmente como a noite se segue ao dia, arrastando atrás de si o desemprego forçado, e a miséria sem saída, também levam à bancarrota inexorável. Enquanto o fabricante tem crédito, solta a rédea à raiva do trabalho, faz empréstimos, volta a fazer empréstimos para fornecer matéria-prima aos operários. Tem de se produzir, sem reflectir que o mercado se obstrui e que, se as mercadorias não chegarem a ser vendidas, as suas ordens de pagamento acabarão por se vencer. Encurralado, vai implorar ao Judeu, lança-se a seus pés, oferece-lhe o seu sangue, a sua honra. “Um bocadinho de ouro ser-lhe-ia mais útil, responde o Rothschild, tem 20 000 pares de meias em armazém, valem vinte soldos, compro-lhas por quatro soldos.” Obtidas as meias, o Judeu vende-as a seis e a oito soldos e embolsa as buliçosas moedas de cem soldos que não devem nada a ninguém: mas o fabricante recuou para melhor saltar. Chega finalmente o degelo e os armazéns despejam-se; lança-se então tanta mercadoria pelas janelas que não se sabe como é que elas entraram pela porta. É em centenas de milhões que se cifra o valor das mercadorias destruídas: no século passado, queimavam-nas ou lançavam-nas à água. (9-11)

 

E a denúncia dos efeitos devastadores das crises de sobreprodução e ainda das guerras coloniais, promovidas com o fim de se obterem mercados para o escoamento de mercadorias e que põem frequentemente em confronto potências coloniais cujos interesses são contraditórios:

 

Mas antes de chegar a esta conclusão, os fabricantes percorreram o mundo à procura de colocação para as mercadorias que se amontoavam; forçam o seu governo a anexar Congos, a apoderar-se de Tonquim, a demolir com fogo dos canhões as muralhas da China, para aí darem saída aos seus tecidos de algodão. Nos séculos passados, era um duelo de morte entre a França e a Inglaterra para saber quem teria o privilégio exclusivo de vender na América e nas Índias. Milhares de homens jovens e vigorosos purpurearam os mares com o seu sangue durante as guerras coloniais dos séculos XV, XVI e XVII. (11)

 

Ora este estado de coisas que mortifica os trabalhadores tem solução. E a solução passa, necessariamente, pelos que sofrem na pele os malefícios do trabalho escravizante:

 

Estas misérias individuais e sociais, por muito grandes e numerosas que sejam, por eternas que pareçam, desaparecerão como as hienas e os chacais à aproximação do leão, quando o proletariado disser: “Quero isso.” Mas para que ele venha a ter consciência da sua força, é preciso que o proletariado calque aos pés os preconceitos da moral cristã, económica, livre-pensadora; é preciso que ele regresse aos seus instintos naturais, que proclame os Direitos da Preguiça, milhares de vezes mais nobres e sagrados do que os tísicos Direitos do Homem, digeridos pelos advogados metafísicos da revolução burguesa; que ele se obrigue a trabalhar apenas três horas por dia, a mandriar e a andar no regabofe o resto do dia e da noite.

 

Até aqui, a minha tarefa tem sido fácil, tinha apenas de descrever males reais que todos nós conhecemos muito bem infelizmente. Mas convencer o proletariado de que a palavra que lhe inocularam é perversa, que o trabalho desenfreado a que se dedica desde o início do século é o mais terrível flagelo que já alguma vez atacou a humanidade, que o trabalho só se tornará um condimento de prazer da preguiça, um exercício benéfico para o organismo humano, uma paixão útil ao organismo social, quando for prudentemente regulamentado e limitado a um máximo de três horas por dia, é uma tarefa árdua superior às minhas forças; só fisiologistas, higienistas, economistas comunistas poderão empreendê-la. Nas páginas que se seguem, limitar-me-ei a demonstrar que, atendendo aos meios de produção modernos e à sua potência reprodutiva ilimitada, tem de se dominar a paixão extravagante dos operários pelo trabalho e obrigá-los a consumir as mercadorias que produzem. (11-12)

 

Neste combate por uma organização do trabalho consentânea com a natureza humana, os trabalhadores até vão granjeando, de certo modo, aliados – quem diria! – entre os próprios exploradores:

 

Embrutecidos pelo seu vício, os operários não conseguiram elevar-se à inteligência deste facto segundo o qual, para ter trabalho para todos, era preciso racioná-lo como à água num navio em perigo. No entanto, os industriais, em nome da exploração capitalista, já há muito que pediram um limite legal do dia de trabalho. Perante a Comissão de 1860 sobre o ensino profissional, um dos maiores manufactureiros da Alsácia, o Sr. Bourcart, de Guebwiller, declarava:

 

“O dia de trabalho de doze horas era excessivo e devia ser reduzido para onze e aos sábados devia-se suspender o trabalho às duas horas. Posso aconselhar a adopção desta medida embora pareça onerosa à primeira vista; experimentamo-la nos nossos estabelecimentos industriais há já quatro anos e demo-nos bem e a produção média, longe de diminuir, aumentou.”

 

No seu estudo sobre as máquinas, o Sr. F. Passy cita a seguinte carta de um grande industrial belga, o Sr. M. Ottavaere:

 

“As nossas máquinas, embora sejam as mesmas que as das fábricas de fiação inglesas, não produzem o que deveriam produzir e o que produziriam essas mesmas máquinas em Inglaterra, embora as fábricas de fiação funcionem menos duas horas por dia. [...] Trabalhamos todos duas longas horas a mais, estou convencido de que, se trabalhássemos onze horas em vez de treze, teríamos a mesma produção e, por conseguinte, produziríamos mais economicamente.”

 

Por outro lado, o Sr. Leroy-Beaulieu afirma que “um grande manufactureiro belga observa muito bem que nas semanas em que calha um dia feriado a produção não é inferior às das semanas normais” (Paul Leroy-Beaulieu, La Question Ouvrière au XIVè siècle, 1872).

 

Aquilo que o povo, logrado na sua ingenuidade pelos moralistas, nunca ousou, ousou-o um governo aristocrático. Desprezando as elevadas considerações morais e industriais dos economistas, que, como as aves de mau agouro, cacarejavam que diminuir uma hora ao trabalho das fábricas era decretar a ruína da indústria inglesa, o governo de Inglaterra proibiu por lei, estritamente observada, trabalhar mais de dez horas por dia; e, depois disso tal como antes, a Inglaterra continua a ser a primeira nação industrial do mundo.

 

Eis a grande experiência inglesa, eis a experiência de alguns capitalistas inteligentes, ela demonstra irrefutavelmente que, para reforçar a produtividade humana, tem de se reduzir as horas de trabalho e multiplicar os dias de pagamento e os feriados, e o povo francês não está convencido. Mas se uma miserável redução de duas horas aumentou em dez anos a produção inglesa em cerca de um terço, que ritmo vertiginoso imprimiria à produção francesa uma redução geral de três horas no dia de trabalho? Os operários não conseguem compreender que, cansando-se excessivamente, esgotam as suas forças antes da idade de se tornarem incapazes para qualquer trabalho; que absorvidos, embrutecidos por um único vício, já não são homens, mas sim restos de homens; que matam neles todas as belas faculdades para só deixarem de pé, e luxuriante, a loucura furiosa do trabalho.

 

Com efeito, a lucidez nunca esteve ausente de parte dos mentores do capitalismo, os quais compreenderam muito bem a relação entre preço da mão-de-obra e mecanização:

 

Ah! Como papagaios de Arcádia repetem a lição dos economistas: “Trabalhemos, trabalhemos para aumentar a riqueza nacional.” Ó idiotas! É porque trabalhais demais que a ferramenta industrial se desenvolve lentamente. Deixai de vociferar e escutai um economista; ele não é um águia, não é o Sr. L. Reybaud, que tivemos a felicidade de perder há alguns meses:

 

“De um modo geral, é na base das condições de mão-de-obra que se regula a revolução nos métodos de trabalho. Enquanto a mão-de-obra fornece os seus serviços a baixo preço, esbanjam-na; procuram poupá-la quando os seus serviços se tornam mais caros.” (Louis Reybaud, Le Coton, son Régime, ses Problèmes, 1863)

 

Para forçar os capitalistas a aperfeiçoarem as suas máquinas de madeira e de ferro, é preciso elevar-se os salários e diminuir as horas de trabalho das máquinas de carne e osso. As provas? Podemos fornecê-las às centenas. Na fábrica de fiação, o tear mecânico (self acting mule) foi inventado e aplicado em Manchester, porque os fiandeiros se recusavam a trabalhar tanto tempo como antes.

 

Na América, a máquina invadiu todos os ramos da produção agrícola, desde o fabrico da manteiga até à sacha dos trigos: porquê? Porque o americano, livre e preguiçoso, preferiria morrer mil vezes a ter a vida bovina do camponês francês. A lavra, tão penosa na nossa gloriosa França, tão rica de aguamentos, é, no Oeste americano, um agradável passatempo ao ar livre que se pratica sentado, fumando des¬cui¬da¬da¬men¬te o seu cachimbo. (18-19)

 

Ironicamente, Lafargue exorta as vítimas da exploração capitalista a não retaliarem: não obstante terem padecido de todos os rigores dessa exploração, está-lhes vedado impor aos exploradores idênticas condições de vida e de trabalho, excepto a uns quantos impenitentes:

 

Os proletários meteram na cabeça infligir aos capitalistas dez horas de forja e de refinaria; eis o grande erro, a causa dos antagonismos sociais e das guerras civis. Será necessário não impor o trabalho mas proibi-lo. Será permitido aos Rothschild e aos Say provarem que foram durante toda a sua vida perfeitos velhacos; e se eles jurarem que querem continuar a viver como perfeitos velhacos, apesar do arrebatamento geral pelo trabalho, serão registrados e, nas respectivas câmaras, receberão todas as manhãs uma moeda de vinte francos para os seus pequenos prazeres. As discórdias sociais desaparecerão. Os que vivem dos rendimentos, os capitalistas, serão os primeiros a unir-se ao partido popular, uma vez convencidos de que, longe de se lhes querer mal, se pretende pelo contrário livrá-los do trabalho de superconsumo e de desperdício pelo qual foram esmagados desde o seu nascimento. Quanto aos burgueses incapazes de provar os seus títulos de velhacos, deixá-los-ão seguir os seus instintos: existe um número suficiente de profissões nojentas para os colocar — Dufaure limparia as latrinas públicas; Galliffet assassinaria os porcos sarnosos e os cavalos inchados; os membros da comissão das graças, enviados a Poissy (Prisão Central), marcariam os bois e os carneiros para abater; os senadores, ligados às pompas fúnebres, farão de gatos-pingados. Para outros, encontrar-se-ão profissões à altura da sua inteligência. Lorgeril e Broglie rolharão as garrafas de champanhe, mas seriam amordaçados para não se embriagar; Ferry, Freycinet, Tirard, destruiriam os percevejos e os vermes dos ministérios e de outros albergues públicos. No entanto, será necessário pôr os dinheiros públicos fora do alcance dos burgueses por se recear os hábitos adquiridos. (20-21)

 

E, finalmente, a perspectiva da redenção dos explorados: fim da alienação pelo trabalho, afirmação do direito à preguiça:

 

Se, desenraizando do seu coração o vício que a domina e avilta a sua natureza, a classe operária se erguesse com a sua força terrível, não para reclamar os Direitos do Homem, que não são senão os direitos da exploração capitalista, não para reclamar o Direito ao Trabalho, que não é senão o direita à miséria, mas para forjar uma lei de bronze que proíba todos os homens de trabalhar mais de três horas por dia, a Terra, a velha Terra, tremendo de alegria, sentiria saltar nela um novo universo... Mas como pedir a um proletariado corrompido pela moral capitalista uma resolução viril?

 

Tal como Cristo, a triste personificação da escravatura antiga, os homens, as mulheres, as crianças do Proletariado sobem penosamente há um século o duro calvário da dor: desde há um século que o trabalho forçado quebra os seus ossos, magoa as suas carnes, dá cabo dos seus nervos; desde há um século que a fome torce as suas entranhas e alucina os seus cérebros!... Ó Preguiça, tem piedade da nossa longa miséria! Ó Preguiça, mãe das artes e das nobres virtudes, sê o bálsamo das angústias humanas! (23) www.ebooksbrasil.com

 

NOTA FINAL: Claro que nos faz “uma certa impressão”, numa altura em que nos debatemos com uma taxa de desemprego enorme – resultado de mais uma dessas benditas crises do nosso bendito e sacrossanto capitalismo -, ler esta condenação do trabalho. Todavia, quando Lafargue reivindica a jornada de trabalho de três horas, ele não está senão a sublinhar que, na jornada de doze, de onze, de dez ou mesmo de oito horas (na actualidade), todas as que ultrapassam esse mínimo, que ele fixa em três – mas que será seguramente variável, em função do preço dos factores de produção, eles mesmos variáveis, em função das circunstâncias de tempo, de modo e de lugar – são a mais-valia que entra directamente nos bolsos do capitalista e que conduz depois aos resultados conhecidos. O direito à preguiça não é, pois, mais do que o direito à felicidade que o marxismo persegue, através do fim da sociedade de classes, dos antagonismos sociais e da exploração do homem pelo homem.

 

Imagem: http://farm4.static.flickr.com/3121/4561076827_552fac1b87_t.jpg



publicado por tambemdeesquerda às 12:41
Espaço destinado a reflexões (geralmente) inspiradas na actualidade e na Literatura.
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