Quinta-feira, 25 de Março de 2010
Revisitei as minhas fichas da oficina de escrita.

 

Esta, também adaptada para o blogue, é sobre um aspecto ainda hoje controverso da escrita de Saramago.

 

A dada altura do Manual de Pintura e Caligrafia, o escritor transcreve uma página do Robinson Crusoé, de Daniel Defoe, esclarecendo de seguida: "Outras vezes tenho copiado textos desde que comecei a escrever, e por diferentes razões, para apoiar um dito meu, para opor, ou porque não seria capaz de dizer melhor. Agora o fiz para adestrar a mão, como se estivesse a copiar um quadro. Transcrevendo, copiando, aprendo a contar uma vida, de mais na primeira pessoa, e tento compreender, desta maneira, a arte de romper o véu que são as palavras e de dispor as luzes que as palavras são."

 

Sugestões ao leitor (virtual e improvável) com propensão para a criação literária:

 

1. Experimente copiar e imitar Saramago. É provável que esse treino o conduza rapidamente ao fascínio de uma escrita surpreendentemente produtiva.

 

2. Antes disso, porém, leia o excerto seguinte do seu romance Ensaio sobre a Cegueira e a "correcção" que foi feita à pontuação característica do escritor.

 

3. Verifique que a pontuação de Saramago faz com que o texto original se leia de forma mais fluente, mais corredia, e até mais rápida.

 

4. Se dispuser de um texto seu, de preferência dialogado, tente pontuá-lo à maneira de José Saramago.

 

5. Repita a experiência logo que se sinta inspirado para escrever. Verá que a sua escrita será mais produtiva.

 

Excerto de Ensaio sobre a Cegueira

 

Contra o costume, os corredores estavam desimpedidos, em geral não era assim, quando se saía das camaratas não se fazia mais que tropeçar, esbarrar e cair, os agredidos praguejavam, largavam palavrões grosseiros, os agressores respondiam no mesmo tom, porém ninguém dava importância, uma pessoa tem de desabafar de qualquer maneira, mormente se está cego. À frente deles havia um rumor de passos e de vozes, deviam de ser os emissários doutra camarata que iam à mesma obrigação. Que situação a nossa, senhor doutor, disse o primeiro cego, já não nos bastava estarmos cegos, viemos cair nas garras de uns cegos ladrões, até parece sina minha, primeiro foi o do carro, agora estes que roubam a comida, e ainda por cima de pistola, A diferença é essa, a arma, Mas os cartuchos não duram sempre, Nada dura sempre, contudo, neste caso, talvez fosse de desejar que sim, Porquê, Se os cartuchos vierem a acabar, será porque alguém os disparou, e nós já temos mortos de sobra, Estamos numa situação insustentável, É insustentável desde que aqui entrámos, e apesar disso vamo-nos aguentando, O senhor doutor é optimista, Optimista não sou, mas não posso imaginar nada pior do que o que estamos a viver, Pois eu estou desconfiado de que não há limites para o mau, para o mal, Talvez tenha razão, disse o médico, e depois, como se estivesse a falar consigo mesmo, Alguma coisa vai ter de suceder aqui, conclusão esta que comporta uma certa contradição, ou há afinal algo pior do que isto, ou daqui para diante tudo vai melhorar, ainda que pela amostra o não pareça.

Ensaio Sobre a Cegueira, p.144

 

Excerto "corrigido"

 

        Contra o costume, os corredores estavam desimpedidos. Em geral, não era assim. Quando se saía das camaratas, não se fazia mais que tropeçar, esbarrar e cair. Os agredidos praguejavam, largavam palavrões grosseiros; os agressores respondiam no mesmo tom. Porém, ninguém dava importância. Uma pessoa tem de desabafar de qualquer maneira, mormente se está cego. À frente deles, havia um rumor de passos e de vozes. Deviam de ser os emissários doutra camarata, que iam à mesma obrigação.

       - Que situação a nossa, senhor doutor, disse. o primeiro cego. Já não nos bastava estarmos cegos, viemos cair nas garras de uns cegos ladrões. Até parece sina minha. Primeiro, foi o do carro, agora, estes, que roubam a comida, e ainda por cima de pistola.

        - A diferença é essa, a arma.

        - Mas os cartuchos não duram sempre.

        - Nada dura sempre. Contudo, neste caso, talvez fosse de desejar que sim.

        - Porquê? - Se os cartuchos vierem a acabar, será porque alguém os disparou, e nós já temos mortos de sobra.

        - Estamos numa situação insustentável!

        - É insustentável desde que aqui entrámos, e apesar disso vamo-nos aguentando.

        - O senhor doutor é optimista...

        - Optimista não sou, mas não posso imaginar nada pior do que o que estamos a viver.

        - Pois eu estou desconfiado de que não há limites para o mau, para o mal.

        - Talvez tenha razão, disse o médico.

        E depois, como se estivesse a falar consigo mesmo:

        «Alguma coisa vai ter de suceder aqui», conclusão esta que comporta uma certa contradição - ou há afinal algo pior do que isto, ou daqui para diante tudo vai melhorar, ainda que pela amostra o não pareça.



publicado por tambemdeesquerda às 00:21
Espaço destinado a reflexões (geralmente) inspiradas na actualidade e na Literatura.
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