Domingo, 05 de Setembro de 2010

No ensaio A Era do Vazio, Gilles Lipovetsky detém-se na análise dos comportamentos nas sociedades ocidentais, postulando a entrada das mesmas numa fase de individualismo nova e qualitativamente diferente. Diz, por exemplo, que “o imaginário rigorista da liberdade [no qual inclui os ideais libertadores do partido revolucionário] desaparece, dando lugar a novos valores que visam permitir o livre desenvolvimento da personalidade íntima, legitimar a fruição, reconhecer os pedidos singulares, modular as instituições de acordo com as aspirações dos indivíduos” (9). Um pouco adiante, define a nossa sociedade (“pós-moderna” e “pós-industrial”) como aquela em que “o individualismo hedonista e personalizado [ i.é, o individualismo que erige o prazer em objectivo de vida para cada um de nós ] se tornou legítimo e já não depara com oposição”, ao mesmo tempo que “a era da revolução, do escândalo, da esperança futurista, inseparável do modernismo, terminou” (10). Logo a seguir, acrescenta: “já nenhuma ideologia política é capaz de inflamar as multidões, a sociedade moderna já não tem ídolos nem tabus, já não possui qualquer imagem gloriosa de si própria ou projecto histórico mobilizador; doravante é o vazio que nos governa, um vazio sem trágico nem apocalipse.” (11).

 

A propósito da política, comenta que ela “entrou na era do espectacular [e que] não tendo outro impacto para além do que a informação veicula, a política é obrigada a adoptar o estilo da animação, dos debates personalizados, etc., único estio capaz de mobilizar pontualmente a atenção do eleitorado. A declaração de um ministro não vale mais que o folhetim; passa-se sem hierarquia da política às “variedades”, sendo a audiência determinada pela qualidade do divertimento” (38). Reinando este clima de apatia e indiferença, interroga-se o A. sobre “como compreender a acção dos partidos, dos sindicatos, da informação, que, ao que parece, não param de combater a apatia, sensibilizando, mobilizando, informando a todos os ventos” (41-42). E responde que não há contradição, que o funcionamento do sistema “exige a indiferença” e a promove, pois “quanto mais os políticos se explicam e exibem na televisão, mais toda a gente se está marimbando, quanto mais comunicados os sindicatos distribuem, menos lidos são, quanto mais os professores se esforçam para fazer com que os alunos leiam, mais estes deixam de lado os livros. Indiferença por saturação, informação e isolamento” (42).

 

Deixemos por instantes de lado esta caracterização da sociedade em que vivemos para nos determos no exame sucinto da dialéctica individualismo / preocupações de índole altruísta e social.

 

Desde os tempos mais remotos da história da humanidade, o homem sempre se afirmou como animal gregário. Essa tendência começou por desempenhar um papel essencial no processo de hominização, no desenvolvimento da inteligência e da linguagem e na criação de sociedades de crescente complexidade. O bando ou horda selvagem desembocou na pólis – a cidade dos gregos – e a política nasceu naturalmente das relações de poder materializadas nos diferentes Estados que se foram sucedendo. Desde muito cedo, o animal gregário foi animal eminentemente político, e sempre empenhado em grandes projectos colectivos que deixaram à superfície da Terra o rasto que permite ao técnico de informática de 1991 encontrar o construtor da pirâmide egípcia de há quatro milénios, numa trajectória de colisão, ou de reencontro, porque há quatro mil anos o técnico de informática estava já em Gizé, em gestação, à espera do século XX, oportuno para o parto. Ontem e hoje, o mesmo homem – biológico e social, ávido de futuro, devorador de futuro.

 

Veio depois o grande frémito antigo e sobretudo medieval do cristianismo, espécie de dilúvio espiritual empurrando as massas para Deus com o mesmo impulso que levava o construtor de catedrais a erguer cada vez mais alto os pináculos e as ogivas do gótico. Como escreveu Almeida Garrett, “o cristianismo foi a revolução do mundo antigo”. Revolução cultural, por ter transformado as mentalidades, nomeadamente com a introdução dos valores da fraternidade e da solidariedade, que não mais deixaram de pertencer ao património universal; revolução política, pois fez tremer Estados e erigiu-se em cimento ideológico aglutinador de outros Estados.

 

Do século XVIII para cá, vimos ruir o antigo regime feudal e surgiu a sociedade industrial burguesa; vimos a consciência proletária a ganhar corpo nas grandes urbes fabris e as multidões de explorados a varrerem, como um vendaval, o novo Estado burguês tornado caduco.

 

Em todo este tempo, as tendências individualistas coexistiram com as preocupações sociais. Marx e Engels não gizaram uma sociedade tecnocrática de produtores despersonalizados, resignados ao sofrimento, na mira da felicidade que iriam proporcionar a tetranetos de um longínquo amanhã radioso. A construção da felicidade a prazo passa pelo usufruto quotidiano e pessoal de uma quota-parte dessa felicidade. O que nos permite regressar ao ensaio de Gilles Lipovetsky.

 

O “livre desenvolvimento da personalidade íntima” e a “fruição legitimada” são e sempre foram metas perfilhadas pelos comunistas. Não somos sonhadores, nem santos, nem heróis, muito embora, pela força das circunstâncias, alguns de nós tenhamos sido um pouco de tudo isto. Somos homens e mulheres que aspiramos à felicidade, mas não apenas para as sociedades ocidentais. Basta não sair destas para dizermos, com André Gide: “preciso da felicidade dos outros para ser feliz”. Mas, como ele também diz, “há sobre a Terra tais imensidões de miséria, de infortúnio, de penúria e de horror, que o homem feliz não pode pensar nelas sem sentir vergonha da sua felicidade”. O individualismo contemporâneo pretende ignorar estas realidades.

 

Quanto à substituição das ideologias e dos projectos históricos pelo vazio assumido com impavidez, teremos de reconhecer que Lipovetsky tem uma grande dose de razão. Na Resolução Política do nosso XIII Congresso, afirma-se que “frustração e falta de perspectivas têm conduzido [os jovens] a um desinteresse pela política acentuado pela instigação promovida pela direita de falsas saídas, ausência de alternativas e de uma mentalidade expectante, individualista e consumista que, ganhando influência na sociedade, se reflecte na consciência social dos jovens” (3.2.16).

 

Não menos razão tem na caracterização da política-espectáculo, como tivemos oportunidade de verificar aquando das últimas presidenciais. E, correndo o risco de subscrever uma afirmação na qual somos bastante maltratados, na nossa qualidade de militantes comunistas e de sindicalistas, temos de admitir que cada vez mais gente se está marimbando para as declarações políticas, para os comunicados sindicais e para os livros de leitura obrigatória nas escolas.

 

Assim sendo e aqui chegados, os camaradas hão-de perguntar-me onde eu quero chegar. E eu responderei, apenas, que todos nós verificamos no dia-a-dia deste Estado laranja a veracidade de muitos dos traços definidores do individualismo contemporâneo; que muitos de nós sofremos a erosão deste estado de coisas; que, para cúmulo, os acontecimentos de Leste vieram dar uma mãozinha.

 

Mensagem profundamente pessimista, dirão. Talvez, se me ficasse por aqui. Mas não fico. O nosso Partido continua a afirmar-se como portador dos melhores ideais da humanidade e saberá, sem dúvida, encontrar respostas, nos domínios da batalha ideológica, da informação e da propaganda, para o desafio real que é o da era do vazio. Impõe-se dar cumprimento às orientações definidas no nosso XIII Congresso e esta Assembleia de Organização deverá contribuir para que temas como o que aqui trouxe sejam discutidos por todos nós, único meio de estarmos aptos a travar com eficácia a batalha ideológica. Ela deverá contribuir ainda para a actualização dos meios de informação e propaganda, bem como “das linguagens e das mensagens transmitidas”, para usar os termos da Resolução Política do XIII Congresso (5.4.2).

 

Queria concluir com uma referência a Sartre que, como Gide, foi transitoriamente comunista, tendo contribuído validamente para a formação intelectual e política de muitos comunistas. Dizia ele aproximadamente isto a um jornalista que elogiava o seu célebre romance A Náusea: “Perante uma criança com fome, A Náusea não vale nada. Parafraseando-o, perante os problemas que afectam os trabalhadores e que os outros camaradas aqui têm exposto, nenhum ensaio, por brilhante que seja, nos convence da morte do marxismo-leninismo.

 

(Texto lido na 4.ª Assembleia da Organização Concelhia de Faro do Partido Comunista Português, em 22 de Junho de 1991. )



publicado por tambemdeesquerda às 13:39
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