Domingo, 24 de Janeiro de 2010
Em Novembro de 2002, quando o petroleiro Prestige se afundou ao largo da costa ocidental da Península Ibérica, Paulo Portas, então ministro do governo de Durão Barroso, exprimia a sua felicidade pelo facto de a mancha de crude ter sido levada para a Galiza, dizendo que tinha sido Nossa Senhora de Fátima que nos tinha protegido.
 
Em Dezembro de 2004, aquando do terrível tsunami que semeou a destruição e a morte na Indonésia e Tailândia, uma casa permaneceu incólume, em local de que já não me recordo, no meio da destruição geral. O proprietário indonésio (salvo erro) atribuía e agradecia a Deus a milagrosa excepção.
 
Há dias, um miudinho de seis ou sete anos foi salvo dos escombros de uma casa em Port-au-Prince por um elemento das equipas internacionais. Com o entusiasmo que o demorado jejum e o isolamento de vários dias ainda lhe permitiam, proclamava, de braços escancarados, que tinha sido salvo por Deus.
 
E assim sucessivamente.
 
Não sei em que pé terão ficado as relações dos Galegos poluídos com uma Nossa Senhora de Fátima que tão desalmadamente os tratou e tramou. E que diriam – se pudessem! – daquele Deus que tão cruelmente os deixou morrer, elegendo uns poucos para salvamentos milagrosos dos escombros, os milhares de criaturas que perderam a vida na Indonésia, na Tailândia, na China, em Itália, no Haiti, etc., etc., etc.?
 
Por outro lado, em que conta terá Paulo Portas a Virgem que nos pôs a salvo da mancha de fuel-oil, despachando-a para cima dos nossos irmãos galegos? Estará ele convencido de que a Senhora de Fátima é bairrista a este ponto? E aqueles que Deus contemplou com a vida e os bens salvos achar-se-ão particularmente mais merecedores da misericórdia divina do que milhares de outros semelhantes?
 
Admite-se que a criancinha do Haiti e até o adulto da Indonésia nunca se tenham interrogado sobre a pertinência das suas profissões de fé. Mas Paulo Portas, meu Deus?!
 
A um outro nível, longe deste despautério que é meter o Rossio da sabedoria divina na Betesga do transporte marítimo de nafta, como encarar a atitude dos cientistas que renegam o método científico e abrem um parêntesis na sua postura de fria objectividade para proclamarem uma fé que é a negação da racionalidade?
 
 Porque a fé, ao contrário da convicção, é irracional. Não se crê por via dedutiva, não se crê por via indutiva, não se crê porque dados da observação ou dados históricos objectivos mantêm entre eles nexos lógicos que fundamentam determinada convicção. Acredita-se porque o objecto da crença nos foi revelado, isto é, infuso. Acredita-se porque se acredita – ponto.
 
Há, claro, implicações psicológicas na questão em apreço e, deste ponto de vista, é relevante o conforto que propicia a crença em Deus e na vida eterna.
 
 Logo em miúdo, ouvi falar do livro O Drama do Ateísmo, nas aulas de Religião e Moral, que fui obrigado a ter no tempo do fascismo. Mas foi um outro drama que o meu pai me deu a ler – o Drama de Jean Barois, de Roger Martin du Gard. Nunca li o primeiro, mas li apaixonadamente o segundo. Do qual guardei a imagem triste de um ateu que, em agonia, contrariando as expectativas de quem o acompanhara no ateísmo, exprime uma aflição pungente, se agarra desesperadamente ao crucifixo e reclama a conversão. A família vem a descobrir pouco depois um testamento do falecido. Suspeitando que, ao aproximar-se a hora da morte, a doença lhe pudesse retirar a lucidez que tanto prezava e provocar tal reviravolta, o protagonista declara que o que deve prevalecer é a sua convicção ateísta, defendida enquanto se manteve são e lúcido.
 
O existencialismo diz-nos que estamos irremediavelmente sós no universo, que estamos entregues a nós mesmos e que somos irremediavelmente livres. E a liberdade assusta. Não é coisa que se assuma de ânimo leve. Daí a angústia existencial. Mas o drama do ateísmo não é senão a condição humana.
Estas considerações parecem ter a religião por tema, mas, na realidade, é a questão do poder que mais me importa – poder espiritual, neste caso, que leva os homens a porem de lado a sua racionalidade e a amputarem seriamente o seu campo visual, passando a ver apenas parte da realidade.
 
Vejamos o que se passa com o poder político.
 
São muitos os eleitores que se queixam dos partidos políticos, responsabilizando-os por todas as desgraças individuais e nacionais. Não distinguem, aliás, os que estão ou estiveram no poder, daqueles que nunca lá estiveram ou estiveram há muito tempo, durante pouco tempo, e num tempo muito excepcional. Dizem que são todos iguais. No entanto, quando as eleições chegam, vão votar nos mesmíssimos partidos que responsabilizam por todas as desgraças. É como se fossem capazes de exercer o seu espírito crítico, mas ficassem inibidos de lhe dar a natural consequência (um voto diferente) quando se encontram na posição de exercer esse direito. Porquê?
 
Talvez porque a ideia do poder – ali, espiritual e sobrenatural; aqui, político, mas não menos super-natural (porque acima das possibilidades naturais do comum dos cidadãos) – se impõe. Talvez porque esses partidos SÃO o poder, e com o poder não se brinca, porque o poder é poderoso e é exercido por pessoas poderosos. O poder e os poderosos infundem o medo, mesmo se esse medo é mais ou menos difuso e inconsciente, e actuam sobre os míseros humanos como um sortilégio – afinal, se os poderosos o são, se exercem o poder, se podem decidir dos nossos destinos, só pode ser porque são de alguma maneira superiores a quem não detém o poder. E essa superioridade há-de vir-lhes de algures ou de alguém – quem sabe se do próprio Deus. No fundo, no fundo, estamos bem próximos de Luís XVI e dos soberanos de direito divino – a Revolução não foi assim há tanto tempo…
 
P.S. 1 - Depois de escrever este post, encontrei por acaso uma referência à homilia em que o Cardeal Patriarca classifica o ateísmo como o maior drama da humanidade. Já me tinha esquecido da polémica que esta classificação gerou, num tempo em que tantos milhões de criaturas (…), crentes ou não, se debatem com os flagelos do desemprego, da fome, da doença, da guerra, dos terramotos e tsunamis…
 
 2- Não há mais pachorra para se ouvir a história do piloto da TAP e da filha Carolina que, com apenas seis anos, é tão boazinha que prescindiu duma boneca e a mandou para uma menina do Haiti. Haja Deus!
 

 

Le goupillon et le sabre, por J&S., flickr.com

 



publicado por tambemdeesquerda às 20:51
Espaço destinado a reflexões (geralmente) inspiradas na actualidade e na Literatura.
mais sobre mim
Maio 2017
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6

7
8
9
10
11
12

14
15
16
17
18
19
20

21
22
23
24
25
26
27

28
29
30


pesquisar neste blog
 
contador
Website counter
Mapa de visitantes
Visitantes por país
free counters
Visitantes em tempo real
Que horas são?
subscrever feeds
blogs SAPO