Terça-feira, 05 de Janeiro de 2010

 

  

 

 

Sara e Dulce têm a mesma idade, com algumas semanas de diferença, o mesmo curso, classificações finais de licenciatura muito próximas e a mesma classificação profissional. Leccionam contudo em escolas distintas, distantes de algumas dezenas de quilómetros, se bem que implantadas em meios sociais idênticos.
Mas nem tudo são semelhanças entre elas. Sara é muito extrovertida. Já na primária fazia rir toda a gente – desde os pais aos amigos e à professora -, com a particular queda que desde os mais tenros anos revelara para a teatralização. De cada vez que a D. Arminda, a agora velha professora que a levou do 1.º ao 4.º ano do básico, a mandava ir ao quadro, ela não perdia a oportunidade de se deslocar em passo de dança, cantarolando e exibindo para todos, colegas e professora, um sorriso despregado num rosto que refulgia. Muito viva, alegre, espontânea, estava sempre pronta para a galhofa. De comum acordo, parentes, amigos e vizinhos consideravam-na uma força da natureza – indomável – e pagavam-lhe com juros de mimos, lembranças e elogios os bons momentos que ela lhes propiciava.
Dulce fora sempre a mais circunspecta, a mais sisuda das duas filhas que os pais tiveram. De índole pacífica, aos dois anos de idade brincava sem um grito, um choro ou uma birra com a irmã mais velha, e era igualmente capaz de brincar sozinha durante duas, três horas. Acatava sem um protesto ou mostra de irritação qualquer observação ou ordem da mãe. Mais tarde, na escola, seguia atentamente as explicações do professor, fazia os trabalhos de casa, estudava as lições. Saía-se sempre bem nos ditados, na aritmética, na gramática, nas ciências, na geografia. Só uma vez se irritou a sério com um colega. E quem não se irritaria? O malandro tirou-lhe um caderno da pasta – um caderno da Dulce era pouco menos do que uma obra de arte! – e deu-se ao trabalho de escrever no alto de cada página: “Eu gosto muito de ti! Assinado: Pedro”.
Sara e Dulce são ambas agora professoras. Das mesmas disciplinas, dos mesmos anos de escolaridade, em escolas diferentes. Ambas preparam conscienciosamente as suas aulas, diversificam os materiais didácticos e as metodologias. Ambas se empenham a fundo no sucesso dos seus alunos. Ambas se implicam na vida da escola, assumindo responsabilidades, fomentando iniciativas. Ambas obtêm resultados razoáveis no fim de cada ano.
Mas…
Os alunos de Sara, é como se estivessem em perpétua competição com a sua professora – qual de nós é mais divertido? E depois das aulas não é raro encontrarem-se no café da esquina. É então como que um prolongamento da aula – entre risadas e anedotas, esclarecem-se dúvidas, criam-se laços de amizade.
Os alunos de Dulce sabem que podem contar com ela na aula, na escola, enquanto ela por lá está, ou até no Messenger. Mas fazem-no com moderação, temendo quase, às vezes, ser importunos. A professora Dulce é muito circunspecta. Dialoga calmamente, conduz o diálogo de forma a ser o aluno a descobrir aquilo que a princípio estava envolto no nevoeiro do desconhecimento, mas não é pessoa que vá para o café rir-se com eles. Aceitam isso. Respeitam-na.
E chega a avaliação do desempenho. Quantas greves! Que manifestações! Nunca se tinha visto.
Com as semelhanças que as aproximam, seria de esperar que tivessem a mesma classificação. Errado. Sara tem Muito bom, Dulce tem Bom. Porquê?
Porque Sara é muito extrovertida. Já na primária, fazia rir toda a gente – desde os pais aos amigos e à professora -, com a particular queda que desde os mais tenros anos revelara para a teatralização, etc. Já Dulce – Dulce fora sempre a mais circunspecta, a mais sisuda das duas filhas que os pais tiveram, etc.
Foi o desempenho profissional que as distinguiu para efeitos de avaliação? Talvez. Mas só na estrita medida em que o temperamento e a personalidade de cada um se investem nesse desempenho.
Será justo premiar ou penalizar um(a) professor(a) por ser mais ou menos alegre, mais ou menos compincha? Por ir ou não ir ao café? Por contar anedotas ou se limitar a histórias sérias? A minha resposta é não. Uma escola invariavelmente divertida só faria sentido num mundo igualmente divertido. Não é o caso. O que o caracteriza é mais precisamente a diferença, a alegria ou a tristeza relativas e transitórias. Aliás, para a banalização da alegria, na sua versão mais bacoca, já temos as televisões – todas.
Serve esta história (mais ou menos) edificante para exprimir a minha discordância relativamente à avaliação dos professores (ou de qualquer outro profissional). A qualidade que julgo imprescindível no desempenho profissional é a honestidade. Todo aquele que, independentemente de resultados mais ou menos positivos, se põe inteiro no que faz, merece o reconhecimento dos seus concidadãos. Com mais ou menos sorrisos, o que verdadeiramente conta é a honestidade.[i]
Ora a honestidade de um(a) professor(a) está permanentemente a ser avaliada pelos seus alunos – directamente, já que o têm diante deles – e pelos respectivos pais – indirectamente, pois os filhos os informam dia a dia do desempenho dos professores. A escola e os serviços do Ministério da Educação, nomeadamente a sua Inspecção Geral, têm depois toda a latitude para indagarem de eventuais incumprimentos e levarem o/a eventual prevaricador(a) a corrigir-se.
Como, porém, não é, mais uma vez, o caso, continuaremos a eleger aqueles que decidem do nosso destino colectivo e a avaliar aqueles que formam os nossos filhos por parâmetros incontestavelmente científicos – a cor dos olhos, o timbre da voz e a amplitude dos sorrisos.


[i] Assim pudéssemos nós julgar e eleger os nossos políticos – não pelo brilhantismo dos seus discursos nem pelo espalhafato das campanhas eleitorais, mas sim pela rectidão e pela dedicação ao bem comum.
 
 FOTOS:
Terreiro do Paço: Mega-Manifestação de Professores
por
Miguel A. Lopes "Migufu", flickr .com                    
 

Sind. dos Professores da Zona Sul: Marcha da Indignação professores
por
raposavelha, flickr.com



publicado por tambemdeesquerda às 22:35
Quinta-feira, 10 de Dezembro de 2009

 

Os debates quinzenais no Parlamento são sempre uma excelente oportunidade para se apreciar o desempenho oratório dos intervenientes, a sua habilidade dialéctica e características da sua personalidade. No que ao Primeiro-Ministro diz respeito, a oratória é geralmente, se não sempre, impressionante – pela fluência e pelos recursos expressivos (ironia, entoação, …) – e a inteligência táctica revela-se frequentemente na utilização de argumentos ad hominem que confundem os adversários. Quanto aos traços de personalidade que mais sobressaem nestes debates, é mais ou menos consensual, pelo menos para aqueles que não prestam vassalagem ao Governo e ao Partido Socialista, que, em matéria de arrogância, José Sócrates não fica a dever nada ao ex-Primeiro-Ministro Cavaco Silva (ainda se lembram daquela admoestação aos trabalhadores dos transportes em greve: “Esperem pela privatização!...”?) nem à ex-ministra Manuela Ferreira Leite.
 
Ora era aqui que eu queria chegar – à arrogância, à agressividade altiva na relação com os outros. É que eu entendo perfeitamente que as oposições sejam agressivas e, por vezes, até um pouco excessivas e inconvenientes, tendo em conta que estão na mó de baixo e que o ofício de ser oposição se torna exasperante, quando não desesperante, se a maioria faz obstrução às mais inócuas das propostas que delas vêm. Mas quando se tem a maioria e se tem a faca e o queijo na mão, porquê enfatizar ainda mais esse poder com o acinte da arrogância?
 
Claro que este raciocínio era particularmente válido quando a maioria era absoluta – e bem se viu que José Sócrates nunca perdeu a oportunidade de rebaixar e humilhar os seus adversários. No fundo, agora, acaba por ter parte da desculpa que se concedia atrás às oposições. Mas uma maioria relativa, sendo relativa, não deixa de ser maioria. Impõe negociação, impõe um consenso mínimo, mas permite, no essencial, a prossecução das políticas que essa maioria entende dever implementar. Vamos, provavelmente, confirmá-lo com as questões da criminalização (ou não) do enriquecimento ilícito, do Orçamento de Estado, do casamento de pessoas do mesmo sexo, etc. Umas vezes com a direita, outras com a esquerda, o Governo levará a água ao seu moinho.
 
É assim que somos levados a concluir que, das duas uma – ou esta acrimónia faz parte da grande encenação parlamentar típica dos partidos do sistema, que deste modo induzem a ilusão de que se combatem, quando na realidade convergem na manutenção do statu quo da democracia burguesa, que reproduz infinitamente os mecanismos de dominação do capital, ou àquele rol de virtudes que eu, no primeiro parágrafo, reconheci a José Sócrates faltará uma, a inteligência emocional.
 
Na primeira hipótese, tenho para mim que a esquerda consequente apenas figura como vítima ou participante involuntária na encenação. Quando se tem representação parlamentar, não há meio de fugir à “representação” parlamentar. O jogo parlamentar comporta riscos. A histrionia é um deles.

                                                            

 

Fotos:

Jose Socrates 07
por orlando_almeida_photographer, in www.flickr.com

 

José Socrates
por Miguel A. Lopes "Migufu", in www.flickr.com  



publicado por tambemdeesquerda às 13:34
Espaço destinado a reflexões (geralmente) inspiradas na actualidade e na Literatura.
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