Quinta-feira, 25 de Março de 2010

Eu andava, desde há dias, amargurado. Primeiro, tinha sido a Ministra do Trabalho, ex-sindicalista da UGT, a referir-se às 18000 ofertas de trabalho por preencher nos Centros de Emprego quando, simultaneamente, temos para cima de meio milhão de desempregados (na realidade, mais de 700 mil). Depois, há dois ou três dias, uma reportagem de um canal de televisão mostrava donos de quintas - não me lembro onde - dispostos a empregar caseiros que aceitassem cultivar-lhes as propriedades, recebendo em troca habitação e boa parte das colheitas. Queixavam-se de que não aparecia ninguém interessado, apesar das dificuldades de que tanta gente se queixa.

 

A minha amargura ia já ao ponto de encarar a hipótese de aderir ao CDS - partido que sempre verbera a malandragem que ganha balúrdios em rendimento mínimo de inserção sem mexer numa palha - ou mesmo ao PS - partido que, segundo o Engenheiro Cravinho, recebe lições de esquerda do CDS e que, por conseguinte, me parece estar actualmente mais bem posicionado para congregar as vontades e os esforços de quantos se empenham na salvação da pátria das garras dos abutres que a levam à ruína, quais sejam os beneficiários do rendimento de inserção, do subsídio de desemprego e outros que tais.

 

 

Só que, quando a tristeza me invade, sentindo-me terminantemente incapaz de cantar o fado, opto por um motor de pesquisa de questões laborais, sociais e outras que tais, cujo se chama Avante! Ora o que o Avante! desta semana diz, citando a CGTP, é que "três quartos das ofertas existentes nos Centros de Emprego (75%) correspondem a trabalhos precários e em regime temporário», onde se incluem as tais «18 mil ofertas de trabalho», na sua maioria esmagadora publicadas por agências de trabalho temporário." E depois? - retorquir-se-á. Depois, acontece que a remuneração desses empregos é da ordem do salário mínimo (475€), quando o valor médio do subsídio de desemprego é de 520€, e, pior ainda, "são empregos precários (maioritariamente trabalhos temporários ou a termo certo, pelo que aceitá-los e perdê-los de seguida é ficar no desemprego e sem subsídio) e acarretam o «preço da reincidência», ou seja, ao aceitar-se um emprego de valor inferior ao anterior, isso terá consequências na situação de desemprego seguinte, que passa a ser subsidiada com uma percentagem menor, calculada sobre o último salário."

 

Resumindo: um desempregado que aceite uma destas irrecusáveis ofertas de trabalho, não morrendo do mal - apesar de tudo -, pode muito bem vir a morrer da cura. O que, aliás, parece ser o objectivo da desregulamentação (mais uma) que o Governo da Dr.ª André quer, neste domínio, promover através do PEC.

 

Ah! Quanto à reportagem das quintas, devo acrescentar, em abono da verdade, que, logo a seguir, o Presidente da Junta - creio - explicava que era necessário prever a atribuição de uma verba a quem se dispusesse a ir trabalhar para as tais quintas, uma vez que as colheitas não ocorrem no dia seguinte ao da sementeira e, entretanto, o caseiro e família teriam de comer.

 

A minha amargura lá se desvaneceu. E lá perdeu o CDS um potencial militante.



publicado por tambemdeesquerda às 20:00
Quarta-feira, 03 de Fevereiro de 2010

 

Nos espaços públicos de discussão e debate das rádios (Antena Aberta da Antena 1, Fórum da TSF, …) ouve-se frequentemente, para além de toda a espécie de dislates, com queixas justificadas e proclamações inflamadas de teores diversos à mistura, a expressão de opiniões ditas pessoais, estribadas – naturalmente – naquilo que a imprensa de referência, as rádios e as televisões propalam.
 
Na Antena Aberta de hoje, 4.ª feira, 3, discutia-se a Lei das Finanças Regionais. Sobre o fundo da questão não me pronunciarei. Não tenho opinião pessoal. Pelo menos para já. Mas devo ser uma ave rara. Porque há imensa gente que a tem e não descansa enquanto a não torna pública. São precisamente estas opiniões pessoais que dão o mote ao post de hoje.
 
Dizia um ouvinte, entre vários, que a reivindicação financeira de Alberto João Jardim (essa personagem saída de um romance de cordel brasileiro, com coronéis e jagunços a semearem a lei e a ordem pelo sertão) era um desconchavo, tendo em conta o facto de o país estar em crise e sem cheta.
 
Mais uma vez, não é sobre a questão das finanças regionais que vou opinar, mas sim sobre a opinião pessoal de estarmos em crise e sem um chavo. A crise, dou-a de barato, claro. Até aí, estamos todos de acordo, embora lhe possamos dar nomes diferentes. Eu chamar-lhe-ia crise cíclica. Há uns bons cento e cinquenta anos que umas quantas pessoas em cujas opiniões pessoais confio se debruçaram sobre as relações de produção em diferentes sociedades e em particular naquelas em que capital e trabalho mantêm entre si antagonismos só resolúveis por uma nova síntese revolucionária. Para essas pessoas, a superprodução e o concomitante empobrecimento de grandes massas de trabalhadores conduz fatalmente a tais crises. Já a referência à inexistência de dinheiro, é assunto em que as minhas dúvidas são avassaladoras. Confesso humildemente que não sei. Isto é, sei – e muito bem – que muita gente não tem. Por exemplo, e cito António Vilarigues no artigo “O novo avatar do neoliberalismo luso”, publicado no Público de 22 de Janeiro, “os dois milhões de portugueses que vivem abaixo do limiar da pobreza (o que significa que vivem com menos de 406 euros/mês); os 12% dos portugueses que têm emprego mas que estão também em risco de cair numa situação de pobreza; os 700 mil desempregados reais, mais de um terço dos quais sem direito a receber qualquer subsídio; os 450 mil que trabalham e recebem apenas o Salário Mínimo Nacional; os mais de 40% dos trabalhadores por conta de outrem com um rendimento inferior a 600 euros; os 35% dos portugueses que não têm rendimentos suficientes para manter um sistema de aquecimento em casa; os 64% que não conseguem pagar uma semana de férias fora de casa”.
 
Mas há excepções.
 
Exemplificando de novo, eis o que aprendi lendo um artigo intitulado “Banca enriquece com a crise”:
 
-“Só nos primeiros meses de 2009, os cinco maiores bancos a funcionar em Portugal – CGD, BCPMillenium, Santander Totta, BES e BPI – obtiveram lucros líquidos que atingiram 1447,9 milhões de euros”.
 
-“No período 2005-2009, a banca arrecadou cerca de 1468 milhões de euros de lucros apenas por não ter pago a taxa legal de IRC e de derrama” (27,5% até 2006; 26,5% a partir de 2007).
 
-Em vez disso, a banca pagou 11,7% em 2005, 19,4% em 2006 (“como consequência de uma forte denúncia feita na Assembleia da República”), 14,5% em 2007, 12,8% em 2008, e prevê-se que baixe para 9,9% em 2009.
 
-“Em 2005, as Despesas com Pessoal correspondiam a 32% do Produto Bancário. A partir dessa data esta percentagem tem diminuído de uma forma contínua atingindo, em 2008,apenas 27,5%, tendo subido para 28,6% do Produto Bancário no 1.º semestre de 2009, mas não é certo que o ano termine com esta percentagem”.
 
-“Em 2008, segundo o ‘Relatório anual sobre o governo das sociedades cotadas em Portugal”, divulgado pela CMVM em 2009, a remuneração média anual de cada administrador do sector financeiro foi de 698 081,3euros, atingindo 777 120,4 euros se o banco integrasse o PSI 20 (BCP, BES e BPI)”.
 
Convém frisar que este artigo, da autoria do economista Eugénio Rosa e publicado no Avante! de 21 de Janeiro, tem como fonte o Boletim Informativo da Associação Portuguesa de Bancos.
 
Perante este quadro risonho, só ocorre dizer que a opinião pessoal de que estamos em crise e de que não há dinheiro é capaz de ser uma opinião pouco pessoal, mas muito conveniente para aqueles que passam ao largo da crise, de bolsos cheios e estômagos aviados.
 
E como Vítor Constâncio admite como plausível o aumento do IVA – imposto indirecto que onera de igual modo banqueiros e desempregados – e o FMI sugere a redução dos salários, que Fernando Ulrich já tinha sugerido e cuja possibilidade não é descartada por Silva Lopes, não nos admiremos se, dentro de dias, inspiradas por estas sábias sugestões que a comunicação social de referência repete em cada noticiário, sem contraditório, começarem a surgir na Antena Aberta e no Fórum opiniões pessoalíssimas de ouvintes (muitas vezes tão bem intencionados quanto ingénuos) dispostos a aceitar que lhes reduzam o salário.
 
A bem da Nação. Ora pois!
 
 


publicado por tambemdeesquerda às 23:34
Espaço destinado a reflexões (geralmente) inspiradas na actualidade e na Literatura.
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