Terça-feira, 11 de Abril de 2017

Telegramas do Mediterrâneo, Pedro Jubilot (1).jpg

 

"[...] no mitigar da cena, distingo simplesmente que não há melhor sítio que a concha ancestral do mediterrâneo para fazer amigos eternos. mesmo que essa eternidade possa durar o lacónico curso de um só verão apenas." Pedro Jubilot, Telegramas do Mediterrâneo, "telegrama" n.º 26, CanalSonora, 2016

 

Não haverá grandes afinidades entre os Telegramas do Mediterrâneo, de Pedro Jubilot, e Uma Viagem Sentimental, de Laurence Sterne, publicada em Londres quase duzentos e cinquenta anos antes. Contudo, num caso como no outro − e pese embora a importância que lhe parecem atribuir quer o clérigo anglicano, que parodia as narrativas de viagens em voga no século XVIII, quer Pedro Jubilot, que discorre liricamente a partir de apontamentos descritivos da paisagem − a geografia talvez não passe de mero pretexto para trazer à colação o que verdadeiramente lhes importa: a paisagem, sim, mas a paisagem interior, i.é, a dos afectos e das emoções.

 

A primeira interrogação que assalta o leitor de Telegramas do Mediterrâneo, porém, não é a de saber qual o papel da deambulação pelos mais diversos sítios da bacia mediterrânica − de Algeciras, Espanha, a Izmir, Turquia, passando pelas geográfica e culturalmente aparentadas Cacela e Tavira. Esta interrogação ficará para mais tarde, depois de lidos e relidos alguns dos cinquenta e um "telegramas" que, invariavelmente, como se espera de qualquer correspondência prolixa ou lacónica, mencionam o lugar donde são "expedidos". O que primeiro questiona o leitor com preocupações didácticas é a natureza destes pequenos textos: poemas ou prosa? A resposta não se afigura fácil nem imediata, pois, logo desde o primeiro texto (de Cacela Velha), o leitor depara-se com o vagamente narrativo (chegada à amurada junto à ria), a evocação nebulosa do que terá sido visto e sentido por um enigmático sujeito pronominal ("daqui vejo o que ele viu? sinto o que ele sentiu?"), a expressão da condição necessária para que o visto e sentido por esse sujeito se compagine com o visto e o sentido pelo sujeito da enunciação ("só se não ouvir hoje o ruído de todos estes dias, ou então se me lembrar de como as coisas já foram simples"), a descrição, em jeito de jogo vocabular e muito permeável à menção histórica da ocupação árabe ("onde o mar se em-prata de lua ou se vai namouriscar"), a resolução do enigma referente ao sujeito "ele" (trata-se de Ibn Darraj al-Qastalli, poeta hispano-árabe de origem berbere nascido em Cacela no séc.X) e, finalmente, uma frase/parágrafo de homenagem à beleza do sítio ("se acaso alguém souber de outro lugar assim de tão belo, poderá vir um dia trocar de morada comigo"), a lembrar o poema de Sophia

 

As praças fortes foram conquistadas

Por seu poder e foram sitiadas

As cidades do mar pela riqueza

 

Porém Cacela

Foi desejada só pela beleza[1]

 

As chamadas formas naturais de literatura (neste caso, o narrativo e o lírico) imbricam-se, mas a prevalência da função referencial da linguagem (a "colagem" do significante ao significado), sobretudo na última frase, assegura um relativo distanciamento para com o "manto diáfano" da poesia. Acontece, todavia, que, em "telegramas" mais intimistas, a linguagem tende a despojar-se dos nexos mais visíveis da tessitura lógica, e a poesia derrama-se então pelas margens da prosa, como acontece, por exemplo, nos "telegramas" 18 ("só nos aceitámos no espelho de água clara do porto de mytilene onde deixámos as rugas da nossa dermatosidade estática se confundir no movimento das ondinhas. orientadas pela tua mão provocaram um pequeno tsunami atingindo ao largo a ilha dos vampiros"), 27 ("quando se corre, é sempre numa corrente de vida, numa das margens de um tempo perene"), 29 ("na revinda extingue-se a tarde na baía, à luz remanescente retardo o ataque dos remos, na espera de seduzir noções para um poema que aquiesças com a leitura do teu corpo, que vale por tudo o que me deixas escrever na parte mais íntima da noite adentro"), 33 ("desenreda-se sempre um adagio sublime, no tempo pênsil, em indefinido lugar, de modo dissemelhante"), 35 ("abordo a noite vaga ao escuro das ideias, lembrando o passado [...] mas vou refugiar-me no bote salva-vidas, enrolo um cigarro e espero o futuro intransigente"), 39 ("como não me lembrar das extensas fibras do teu cabelo dependurado em fita, cortando os laivos reluzentes em raiar de sol"), 47 ("é setembro, já!? custa-me abandonar o teu quarto azul, os lençóis de sol nessa cama de verdes-limos com almofadas de espuma, deixo esta singela mensagem escrita a cana d'água sobre a cómoda de areia: amo-te, volto já").

 

Traço comum a quase todos estes textos são as referências culturais, desde o já citado poeta do séc. X até pintores como Pablo Picasso ou Tripo Kokolja, passando por cantores, músicos e compositores como Paco Ibáñez, Juan Manuel Serrat, Brian Jones, Melina Mercouri, Leonard Cohen, Manuel de Falla, entre outros, poetas e escritores como Camus, Yourcenar, García Lorca, Françoise Sagan, Antonia Pozzi, Flaubert, Guy de Maupassant, Teixeira-Gomes e o menos conhecido Vítor Gil Cardeira, cineastas, jornalistas, etc., tendo todos eles, ou quase todos, em comum o facto de serem naturais dos países ribeirinhos do Mediterrâneo, ou de lá terem vivido, ou por lá terem passado. Estas referências entram na "confecção" dos "telegramas" qual condimento que "apura" o especial sabor de cada um, e o facto é que logram redimensionar-lhes o alcance significativo, catapultando as emoções do sujeito da enunciação para o mundo das artes e dos seus actores, com o que elas se desprendem da simples efusão lírica − por vezes, noutras paragens, enferma de um solipsismo enfadonho − e adquirem um valor de universalidade. Não há aqui vestígios de spleen decandentista, antes a permanente sedução de uma paisagem natural que conserva a memória daqueles que a interpretaram através dos meios próprios da música, da estatuária, da pintura, da literatura, do cinema, e de uma paisagem humana, a daqueles homens e mulheres que simplesmente emprestam à primeira os odores bons do almoço, o chamamento de D. Luzia pelo filho Paco e o "ritmo nervoso e histriónico de guitarra flamenca", em Algeciras (teleg. n.º 4) ou a visão das "calças justas pretas" da "rapariga de cabelos lisos castanhos" que crava um cigarro, em Bari (teleg. n.º 34). Como não recordar esta bela lição de Sophia Andresen: "Sempre a poesia foi para mim uma perseguição do real. Um poema foi sempre um círculo traçado à roda duma coisa, um círculo onde o pássaro do real fica preso"?[2]

 

Num tempo em que alguns almejam converter os povos do Sul à religião da tecnocracia, estes Telegramas do Mediterrâneo vêm lembrar-lhes que "qualquer que seja a sua idade, nenhum homem, sentado frente ao mar egeu poderá almejar mais do que a sua vista alcança: a mulher que então ama, o petisco de polvo frito e a salada com tzatziki que lhe puseram sobre a mesa de madeira, a amizade dos que o rodeiam erguendo copos de ouzo na mão, a paisagem num mundo de luz circundante, esparramada em inevitáveis tons de azul e branco."[3]

 

Tchin-tchin!, Pedro Jubilot.

 

 

[1] Sophia Andresen, Livro Sexto, in Antologia, Círculo de Poesia, Moraes Editores, Lx.ª, 1975

[2] Op. cit.

[3] "Telegrama" n.º 16



publicado por tambemdeesquerda às 16:08
Espaço destinado a reflexões (geralmente) inspiradas na actualidade e na Literatura.
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