Terça-feira, 17 de Novembro de 2015

Invariavelmente, a ocorrência de tragédias como a da semana passada em Paris desencadeia um movimento solidário generalizado com inevitáveis repercussões na comunicação social. Se as marcas de pesar, as afirmações da condolência e da compaixão e as garantias de comunhão solidária manifestadas aos familiares das vítimas ou àqueles que de alguma maneira lhes estão ligados, seja por laços afectivos seja por laços de nacionalidade, por exemplo, são perfeitamente naturais na comunidade, já o tratamento, nos mass media, da tragédia e da condolência manifestada por responsáveis políticos e religiosos peca, muitas vezes, por imperícia ou por excesso de zelo. No primeiro caso, incluiria aquelas peças em que o repórter, pungido, pergunta ao familiar, às vezes muito próximo, como se sente com a perda sofrida; no segundo, estão as notícias de que o Presidente da República se diz profundamente comovido, o Primeiro-ministro britânico, chocado e o Papa horrorizado com o atentado horrível, ignóbil, desumano, atroz que acaba de vitimar tantas vidas indefesas e inocentes e que já enviaram a respectiva mensagem a A, B ou C. Chegado aqui, lembro-me sempre daquela norma jornalística: "notícia não é o cão que morde o homem, mas sim o homem que morde o cão". De facto, seria possível o PR, o PM britânico ou o Papa não se sentirem destroçados com o que se passou? Seria possível algum de nós não se sentir profundamente magoado com o sofrimento do semelhante?

 

O discurso condolente – que preenche nas relações interpessoais da comunidade, uma função performativa, isto é, que faz aquilo que diz, que, neste caso, ao enunciar a solidariedade do locutor, efectiva a solidariedade no próprio acto da elocução, independentemente de posteriores desenvolvimentos que dêem a essa solidariedade outra consistência – surge, assim, na sua mediatização, como um discurso postiço, oco, inoperante, e só não desencadeia a gargalhada porque a seriedade do momento desaconselha manifestações susceptíveis de interpretação menos benévola.

 

Perguntar-me-ão: qual a alternativa? Só vejo uma: a contenção. Que os jornalistas e repórteres se deixem de floreados e se abstenham de comentar, ou tão-só de noticiar o óbvio.

 

Também me abstenho, aqui, de comentar as diferenças de tratamento das tragédias ocorridas na Europa e nos EUA, relativamente a tragédias de igual ou muitíssimo maior dimensão ocorridas em África, no Médio Oriente, ou em qualquer outro lugar habitado por seres humanos que não conhecem os nossos padrões civilizacionais, a nossa peculiar "way of life". É bem sabido que a proximidade é factor preponderante na percepção. Mas é desejável que nos interroguemos sobre as causas das tragédias evitáveis.

 (Publicado no n.º de Dezembro do Jornal do Baixo Guadiana)



publicado por tambemdeesquerda às 18:50
Espaço destinado a reflexões (geralmente) inspiradas na actualidade e na Literatura.
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