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Também de esquerda

Espaço destinado a reflexões (geralmente) inspiradas na actualidade e na Literatura.

Também de esquerda

Espaço destinado a reflexões (geralmente) inspiradas na actualidade e na Literatura.

CREDO QUIA ABSURDUM - natureza e poder da religião, apetência pelo mito - uma visita guiada

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A génese, a natureza e o poder da crença religiosa, mas também, numa perspectiva mais ampla, a apetência que o ser humano desde sempre manifestou pelo mito, bem como as implicações que as representações fantasiosas tiveram e têm na história da humanidade constituem o objecto central deste livro. Não se tratando de um trabalho académico nem de uma compilação de reflexões pessoais sobre a matéria em questão, ele configura-se como uma “visita guiada”: qual cicerone empenhado em chamar a atenção para a riqueza e diversidade de um qualquer património, o autor conduz o leitor ao encontro das obras de pensadores e de investigadores que se debruçaram sobre a temática, num périplo que vai das objurgatórias de Bakunine e Nietzsche às aturadas investigações de Marx, Engels, Freud, Eliade, Morin, Onfray, passando por Sartre, Bettelheim, Dawkins, Eagleton, Fukuyama, Harari e outros, o que significa que se trata de uma abordagem multidisciplinar (filosófica, psicológica, sociológica, económica, antropológica, psicanalítica), visando a compreensão do que está na origem do fenómeno e da sua universalização. Um capítulo sobre projectos tecnológicos e científicos em curso, particularmente no domínio da física e da medicina, e as extraordinárias perspectivas que se nos deparam, proporciona o confronto de um corpus de natureza essencialmente filosófica com dados experimentais, menos sujeitos à variabilidade especulativa própria das ciências humanas. Quer o conteúdo genericamente designado por “filosófico”, quer o de carácter científico-experimental são, finalmente, equacionados em termos de organização político-social, tendo como pano de fundo o futuro da humanidade e a grande interrogação sobre a viabilidade de uma sociedade adulta e harmoniosa.

Credo quia absurdum - natureza e poder da religião, apetência pelo mito - uma visita guiada | Livraria Atlântico (livrariaatlantico.com)

Perversidades do Velho Testamento

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O Cântico dos Cânticos é, no Velho Testamento, um texto singular, um hino ao amor. Tão poético que causa estranheza encontrá-lo no meio de tanta perversidade, crueldade e imundície. Este último termo é do Levítico, que define um considerável rol de medidas sanitárias relacionadas com o sexo. A mulher, em particular (como podia deixar de ser?!), é sujeita a um período de isolamento profiláctico de sete dias, sempre que lhe advém o mênstruo. Durante esse período, todo o contacto com ela ou com objectos em que ela tenha tocado é tido por “imundo” ou “poluto” (XV). A misoginia judaico-cristã teve aqui, certamente, uma boa fonte de inspiração, sendo certo que Eva se pôs a jeito, ao incitar Adão, no Éden, a comer do fruto da árvore do conhecimento, isto é, a contrariar o diktat divino que condenava a humanidade a um futuro sem História.

Contudo, a atitude persecutória em relação à mulher está muito longe de ser a única pecha do texto sagrado. Os apelos à crueldade mais brutal abundam, sempre que está em causa o cumprimento da vontade divina ou a fidelidade canina ao “Senhor”. É ainda o Levítico que incita à lapidação dos blasfemos (XXIV), de forma idêntica, aliás, à do Alcorão (em matéria de insensatez, os livros sagrados equivalem-se), e que “regulamenta” a escravidão (XXV). O Génesis, por sua vez, autoriza Lot a entregar suas filhas virgens aos homens de Sodoma, para que “abusem delas como lhes agradar”, salvaguardando dois anjos dos apetites homossexuais sodomitas (XIX). Seguidamente, compraz-se com a caridosa “chuva de enxofre e fogo vindo do céu” sobre Sodoma e Gomorra que mata, indistintamente, homens, mulheres e crianças, transforma a mulher de Lot em estátua de sal, por ter, ao fugir, olhado para trás, e põe as duas filhas de Lot a embriagar o pai, para com ele dormirem e, assim, “salvarem a linhagem” (XIX). Note-se, de passagem, que este Lot é autor de uma proeza de se lhe tirar o chapéu, pois, velho e embriagado a ponto de perder a consciência, logra uma performance sexual invejável, em duas noites consecutivas, só entendível graças à cumplicidade do Todo-Poderoso. Blasfémias à parte, aqui temos nova fonte de inspiração: desta feita, para o recurso ao terrorismo contra os infiéis e contra os desobedientes, bem como para o abuso sexual, tão do gosto dos vigários de Cristo como é do conhecimento público.

Sabemos que o Velho Testamento é uma compilação de narrativas heteróclitas provindas de épocas remotas e que elas reflectem usos e costumes ancestrais, bem como uma sensibilidade nada consentânea com a dos nossos dias. Também sabemos que ele tem a dimensão metafórica própria dos mitos e que é comum a muita da literatura tradicional, originalmente oral. O que impressiona e incomoda é que, malgrado a sua omnisciência, o Senhor não tenha logrado ultrapassar os estreitos horizontes civilizacionais do tempo em que lhe narraram os feitos. Ele, mais do que ninguém, tinha a obrigação de saber que, uns séculos mais tarde, aquelas teimas da misoginia e da intolerância iam ser muito mal vistas pelas consciências esclarecidas e até por muitos dos seus devotos seguidores. O que também incomoda e ofende a consciência, é que os prosélitos do cristianismo, dois milénios volvidos sobre a missionação do “Redentor”, aceitem sem pestanejar a adjunção deste manual da barbárie e repositório de episódios escabrosos aos Evangelhos do Novo Testamento. Evangelhos, aliás, que também não são isentos de perversão, ainda que num outro patamar, ou não radicassem em condições materiais e culturais substancialmente diferentes. Bastará, para disso nos certificarmos, passarmos os olhos por Lucas, que põe Jesus a exigir dos discípulos uma entrega total, com renúncia a pai, mãe, mulher, filhos, irmãos, bens materiais e a própria vida (Lucas, XIV, 26 e 33) ou Paulo, que legitima a autoridade do príncipe, isto é, de todos os poderosos, por serem “ministros de Deus” (Romanos, XIII). O cordão sanitário que o Levítico prescreve para a mulher menstruada ganharia sentido sendo transposto para o Index Librorum Prohibitorum ou, agora que foi abolido, para o Índex da Opus Dei. No mínimo, dever-se-ia pô-lo ao abrigo de olhares indevidos, como sejam os de crianças, os de crentes demasiado condescendentes para com a palavra de Deus e os de padres com irrefreáveis tendências libidinosas.

Valha-nos Deus!

VELHOS LOBOS, de Carlos Campaniço, precedido de nota prévia (*) sobre a apresentação do Professor António Branco

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NOTA PRÉVIA

Comecei a redigir o texto que se segue a esta NOTA PRÉVIA antes da última apresentação do livro de Carlos Campaniço, na Biblioteca Municipal de Faro, a 22 do corrente mês. O Professor António Branco, ex-Reitor da Universidade do Algarve, fez, na oportunidade, uma brilhante exposição, que tentarei resumir, de memória, assumindo todos os lapsos, imprecisões e omissões que provavelmente cometerei e pelos quais peço antecipadamente desculpa.

Antes, porém, pretendo afirmar que, tendo os diálogos entabulados, na altura, entre a mesa e a assistência (numerosa), esclarecido uma ou outra dúvida ou diferente interpretação, ou contrariado um ou outro apontamento crítico da minha parte, decidi não alterar o texto já redigido nem deixar de o completar da forma inicialmente alinhavada, limitando-me a acrescentar-lhe este ponto prévio.

 Começando por qualificar de fabuloso e empolgante o universo romanesco deste livro, o Professor António Branco filiou o género na tradição milenar das histórias que eram, outrora, transmitidas de geração em geração, por via oral, completou o conspecto histórico com a posterior evolução até à consagração dos subgéneros do conto, da novela e do romance, e filiou a obra de Carlos Campaniço na tradição “clássica”, assente na consistência e coesão das categorias acção, personagem, tempo e espaço. De caminho, denunciou o embuste de algumas publicações nossas contemporâneas que se apresentam como “romances”, publicadas a expensas dos respectivos autores e não sujeitas a qualquer crivo crítico editorial, que não passam de subprodutos de uma indústria livreira sem sustentação deontológica.

Pormenorizou as qualidades de Velhos Lobos, enfatizando o facto de Carlos Campaniço nunca ceder ao registo panfletário, nem à tipificação das suas personagens, que estão longe de ser planas, antes são imprevisíveis e avessas a uma lógica determinista, porque estão “vivas”. Sem embargo, e nisso consistirá uma das qualidades do autor, ressalta da narrativa a evidência “telúrica” de que, se os Lobo são os terratenentes, são os míseros Velho quem vive em harmonia com a terra. Este facto constitui, por outro lado, como que uma âncora da narrativa na realidade histórico-social.

Elogiou o uso magistral da língua que Carlos Campaniço faz, o seu recurso frequente aos regionalismos e o registo eminentemente poético da sua escrita. Exemplificando, leu pequenos excertos da obra e, para concluir, dirigiu ainda algumas perguntas ao ex-aluno e autor Carlos Campaniço, que passou com distinção.

***

VELHOS LOBOS

Não sei se terá passado pela cabeça de Carlos Campaniço a ideia do homem lobo do homem, quando ao seu último romance deu por título Velhos Lobos. As duas “famílias desavindas” que contracenam na sua narrativa têm por sobrenome “Velho” – a família pobre – e “Lobo” – a outra, a família abastada –, o que não será razão suficiente para daí se inferir que o autor quis fazer uma versão romanceada da história da sociedade portuguesa no segundo quartel do século XX, numa região onde a propriedade da terra determinou[1] um profundo e doloroso antagonismo entre latifundiários e trabalhadores rurais – desde sempre, lobos uns dos outros. A dúvida é, aliás, irrelevante: a obra publicada goza, a partir da sua difusão, de autonomia e capacidade para empatizar com muita gente. Assim é que, para o leitor-comentador que agora se entrega à ingrata tarefa de redigir esta modesta nota sobre um romance que tem merecido a atenção de gente bem mais qualificada, dos três romances de Carlos Campaniço que teve a oportunidade de ler (As Viúvas de Dom Rufia, Mal Nascer e, agora, Velhos Lobos), este é talvez aquele em que, de forma mais excruciante, se sente como que convocado pela autoridade autoral a dar testemunho de relações sociais caracterizadas por uma violência que pede meças à dos que são lobos de nome, que não de sobrenome.

Irrelevante dúvida que, mesmo assim, não deixa de suscitar, por ínvios caminhos, uma questão de algum relevo: é que a referência inevitável ao latifúndio alentejano, no segundo quartel do século passado, o aqui e agora da narrativa campaniciana (se me é permitido sugerir uma derivação para o patrónimo), suscita a questão da clivagem sempre tão discutida entre o universal e o local, como critério definidor da qualidade de uma obra literária. Um estudioso da literatura inglês, Terry Eagleton, refere-se à coisa nestes termos: «Na verdade, um dos problemas da ideia de que todas as grandes obras literárias tratam do universal e não do particular é que muito poucas emoções humanas estão confinadas a culturas específicas. […] maioritariamente, as paixões e os sentimentos atravessam fronteiras culturais. Uma razão para isso é o facto de se encontrarem ligados ao corpo humano e de o corpo ser a coisa mais fundamental que os seres humanos têm em comum.»[2] De forma mais sucinta e lapidar, Miguel Torga, sentenciou: “universal é o local sem muros”. E o certo é que, transpostas as fronteiras mais cercanas, Jacinto Velho poderia muito bem ser natural de Castilla – La Mancha ou da francesa Provença, e o Francisco d’Almeida Lobo daria um perfeito Francis Wolf na verdejante Cotswolds – onde este leitor nunca foi, se é que a precisão tem algum interesse para o caso e para alguém. Velhos Lobos é, de facto, uma obra literária a que o leitor prefere não pespegar adjectivos que o uso deslustrou, mas à qual vaticina um futuro de leitura, de estudo e de compendiação. Não é menos notável (pese embora o deslustre do adjectivo) o Cavaleiro da Triste Figura, de Cervantes, pelo facto de as suas heróicas aventuras se desenrolarem no planalto manchego, nem a determinada Maria Barnabé, no seu enclave do Montinho: de maneiras decerto diferentes, ambos se nos adentram e por cá ficam, um com as suas loucas fantasias instiladas pelos romances de cavalaria, outra com o seu ensimesmamento, a sua sabedoria bebida na dor do dia-a-dia, a sua pertinaz vontade de se afirmar livre e senhora de si, mal-grado o assédio e as insídias dos irmãos Lobo.

A capacidade efabuladora e o inegável domínio da técnica narrativa, com os seus encadeamentos e pontuais alterações da ordem cronológica da acção evidenciam uma mestria que não constitui surpresa para quem leu os anteriores romances de Carlos Campaniço. A literariedade vai, contudo, para lá dessas destrezas, e compreende, nomeadamente, tudo o que se prende com o manejo da linguagem. Neste particular, um curto parágrafo das páginas iniciais do romance (p. 14) servir-nos-á de exemplo do que é uma sintaxe equilibrada, harmoniosa, ritmada, sem excessos, sem sobressaltos:

Criados os filhos, logo partiram para os povoados das redondezas e mais além, cada qual buscando melhor vida do que aquela, de isolamento e pobreza persistente. A excepção foi Jacinto, que ficou por ali até ser o último dos irmãos em casa, esquecido como um utensílio em desuso, encarado como pertença daquele sítio mais do que qualquer outra raiz que ali tivesse vingado.

Cumulativamente à escorreiteza sintáctica, há o tropo, a figura, a conotação, a musicalidade, a sugestão. Dir-se-ia que Carlos Campaniço, no caso deste seu último romance, não quis investir tão generosamente nestes aspectos quanto o tinha feito nos anteriores. Arriscaria mesmo dizer que a verdade crua do drama humano vivido pelas suas personagens em Velhos Lobos o levou a recusar esta espécie de embuste que é o estilo. Como se dissesse: aquilo que aqui pranto perante os vossos olhos é de tal seriedade que me não vou dar ao desfrute de o alindar com metáforas, hipálages e coisas que tais.

Sartre desencadeou certo dia uma polémica, ao dizer que perante uma criança moribunda A Náusea deixava a desejar[3]. Não sendo este o lugar indicado para debater tudo o que esta frase encerra, é aparentemente certo que ela aponta para uma literatura comprometida e que toma partido pelas causas sociais consideradas justas. O autor de Velhos Lobos não enjeita o seu comprometimento com causas justas e poderá, bem dentro do seu foro literário mais íntimo, ter feito uma opção cuja legitimidade não se contesta, o que, de qualquer maneira, não significa, de nenhum modo, ter abdicado da sua capacidade inventiva no domínio da linguagem, a favor duma escrita a aproximar-se do grau zero. Não. O seu talento literário ter-lhe-á – quem sabe? – inspirado subversão semelhante à que Saramago produziu, ao escrever: "sobre o diáfano mundo da fantasia a nua realidade". Porque é, de facto, uma verdade nua e forte (para retomar os termos de Eça), ademais sumamente comovente, a que ressalta das páginas de Velhos Lobos.

Não se pense, contudo, que a economia de meios foi tal que o leitor-comentador se vê impossibilitado de esquadrinhar uns quantos exemplos daquilo a que poderia chamar a filigrana estilística própria do autor. Não. Vejamos algumas ocorrências e a tentativa de explicação da sua originalidade, que é o mesmo que dizer da sua literariedade:

Logo a abrir, há uma “orquestra de pardais-dos-telhados [a] bailar de ramo em ramo, num novelo de júbilo”. Se a “orquestra de pardais a bailar” está ao alcance de muitos, já a expressão “novelo de júbilo” representa uma óbvia subversão da normatividade. Com efeito, ela configura um procedimento a que o autor nos tem habituado e que consiste em promover, através da aproximação sintagmática, a relação osmótica de signos pertencentes a campos lexicais incompatíveis: “novelo” é algo de muito concreto, material, palpável e corrente, ao passo que “júbilo” pertence ao domínio dos sentimentos e emoções. Não há, entre “novelo” e “júbilo”, qualquer possibilidade de conjugação, na perspectiva de um discurso linear, normativo. E é por isso mesmo que, ao meter a foice muito concreta do “novelo” na seara alheia dos sentimentos, o autor produz literariedade, o que já não estará ao alcance de todos.

Na página seguinte, há, pelo menos, duas ocorrências de adjectivação que, não participando exactamente do procedimento anteriormente descrito, representam também uma forma de desvio – essa característica mais óbvia da linguagem literária. A primeira dessas ocorrências é a “pobreza imperturbável” da casa dos Velho; a segunda, é a dos olhos de Sebastião, que “se tornavam mais óbvios com o apetite”. Sempre que um signo linguístico é deslocado da sua contiguidade semântica mais familiar, ele introduz no discurso uma espécie de “ruído”, de perturbação susceptível de fazer o leitor parar, para pensar ou para sonhar. Regra geral (discurso denotativo), os qualificativos usados para o nome “pobreza” apontam para o observador (ela é “confrangedora” ou “lastimável”) ou, se têm sentido reflexo, exprimem o grau em que se situa o substantivo assim qualificado (“pobreza extrema”, “pobreza absoluta”), ou ainda os sentimento ou emoções vivenciados pela vítima (“pobreza envergonhada”). Em “pobreza imperturbável”, ficamos na dúvida, porque as pessoas, sim, podem mostrar-se imperturbáveis – mas a pobreza? E, então, absorto, disposto a melhorar o seu grau de conhecimento da língua, do mundo, da vida e do que é a literatura, o leitor congemina se a pobreza não será a personificação de qualquer entidade relativamente abstracta, uma revisitação da personagem mitológica, ou se, pelo contrário, ela é “imperturbável” porque as condições materiais da existência dos Velho são aquelas e não estão criadas condições para as “perturbar”, o que só virá a acontecer uns decénios mais tarde. Com a “obviedade” dos olhos de Sebastião, mesma estranheza do leitor, porque há olhos castanhos, azuis, brilhantes, bonitos, tristes, talvez até inteligentes, cativantes, sedutores e por aí fora, mas… óbvios?! Pois é. Para esses, há que chamar Carlos Campaniço à colação.

Poderia multiplicar exemplos e fastidiosos desenvolvimentos explicativos[4]. Não vou prosseguir nessa senda. Ninguém teria paciência para me acompanhar. Nem sequer eu. Mas se enveredei por estas explicações de carácter algo técnico não foi sem propósito. O conceito que, como aspirante a crítico literário nas horas vagas, tenho da crítica é que ela deve ter uma dimensão pedagógica, esclarecedora, promotora da abertura de horizontes, escalpelizadora. Dizer três gentilezas sobre um livro em galanteio de salão é certamente acto louvável e cai sempre bem, mas não qualifica significativamente o autor das gentilezas, enquanto crítico, nem transmitirá ao autor do livro a sensação seguramente mais gratificante para quem escreve que é a de sentir que os seus leitores se não limitaram a passar os olhos”, mas que “falaram” com ele, ainda que ele os não ouvisse, e, para cúmulo, não se limitaram a “falar”: quiseram tirar todos os nabos da púcara.

Há alguns anos, e a propósito do também grande romance A Desumanização de Valter Hugo Mãe, citei o escritor espanhol Carlos Castán que, em entrevista ao Público, afirmava: «Dizem que há escritores do como e outros do quê. Eu serei mais um escritor do como.»[5] Creio que posso retomar esta citação para dizer que Carlos Campaniço é escritor do «quê» e do «como»: de um «quê» que arrebata, e de um «como» que enfeitiça.

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(*) Só uns dias mais tarde, relendo-me, me apercebi da desastrosa redundância...

[1] Pretérito de discutível pertinência.

[2] Terry Eagleton, Como Ler Literatura, Edições 70, Junho de 2021, pp. 246-247

[3] «En face d’un enfant qui meurt, La Nausée ne fait pas le poids.»

[4] Abdicando dos desenvolvimentos, eis mais meia dúzia de exemplos: “… em redor da primeira campa, gizou um rectângulo de saudade”, pp. 31-32; “não tinham espaço nos olhos para tantas novidades”, p. 40; «… limpou a despreocupação ao lenço« (p. 57), «Vinha vestida de serenidade» (p. 84), «uniformes de oficiais, pejados de condecorações, fixadas ao peito com alfinetes de orgulho», p. 84; «com os cotovelos sobre a madeira cansada», p. 91

[5] Ípsilon, 3 de Julho de 2015

 

DA COMUNICAÇÃO À OPINIÃO (ou: o intricado processo de legitimação dos poderes)

I

A capacidade de formar, de informar e de influenciar os cidadãos do Estado moderno foi, desde há muito, universalmente reconhecida, e a designação de «quarto poder» veio juntar-se aos tradicionais poderes legislativo, executivo e judiciário cuja separação Montesquieu defende. Longe de ser um revolucionário, o autor de De l’esprit des lois, de 1748, aspirava a uma «monarchie tempérée», algo que, traduzido para o nosso século, equivaleria à «democracia liberal» ou ao «Estado de direito» (com rei ou presidente), isto é, ao sistema dominante no que, sem maiores especificações, poderíamos designar por Ocidente. Em cada época, a diferentes condições materiais de existência correspondem – ressalvadas todas as influências recíprocas – diferentes modos de pensar e diferentes ordenamentos jurídicos, políticos e sociais.

Se, já no Século XVIII, a imprensa desempenha um papel importante na divulgação das Luzes, nunca como hoje os massa media tiveram o poder que têm. Ultrapassado e destronado, Guttenberg foi remetido para um desprezível terceiro ou quarto lugar no campeonato universal dos meios de comunicação de massa encabeçado pela televisão, por sua vez secundada pelas redes sociais.

Se ainda estivesse entre nós, o barão de Montesquieu estaria provavelmente a defender a versão actual da sua «monarquia moderada» e a desancar a «tirania» autocrática de certos «regimes». Salvo se, como excepcionalmente acontece com os privilegiados, reconhecesse o embuste em que facilmente caímos, quando a descendência colateral da maquineta de Guttenberg nos oferece, vinte e quatro horas por dia, um manancial infindo de notícias, reportagens entrevistas e comentários que, qual feixe de luz atravessando lente convergente, incide sobre a zona que a alguns importa iluminar, deixando na penumbra ou na noite mais negra todas as outras.

Como logo se percebe, vem isto a propósito da nossa comunicação social e do papel convincente, eficaz e avassalador que ela desempenha na formação da “opinião pública”. É o processo de legitimação do poder político, do poder comunicacional e até do meu modesto poder, enquanto receptor, que importa aqui indagar, excluindo, por ora, a problemática da exploração dos bons sentimentos dos cidadãos a favor da guerra das audiências e da captação de publicidade – o que ficou recentemente bem demonstrado, aquando do caso do menino marroquino morto no fundo de um poço – e dos seus maus sentimentos, quando se trata de promover a intolerância ou o ódio para com aqueles que divergem da maioria.

II

Rendida, na sua esmagadora maioria, à versão dos acontecimentos que a televisão, em particular, profusamente lhe serve, a opinião do público, homogeneizada, adquire o estatuto de verdade incontestável. Não obstante não ter sido construída graças a um intenso trabalho de pesquisa e análise, de confrontação de dados e concomitante reflexão, essa opinião reivindica a “coincidência” com a versão dominante dos acontecimentos para justificar a sua autenticidade. O senso comum corrobora este raciocínio dedutivo, já que reconhece sistematicamente a razoabilidade da posição maioritária e vê com enorme desconfiança o que contraria o paradigma. Abundam, na história da humanidade, opiniões (um universo com quatro mil anos de existência, espécies animais e vegetais tiradas do nada tal como são hoje, casal primordial de que todos descendemos, Terra plana no centro do universo, etc.) que eram as verdades oficiais de cada época, partilhadas por multidões, e que a ciência paulatina (e sacrilegamente) desconstruiu, arrostando com a repressão, a perseguição e a morte.

Indo além disso, não se limitando a ser verdadeira, a opinião do público é ainda SUA, no pleno sentido do possessivo. Porquê? Porque, obnubilada a consciência de que a versão em causa lhe foi transmitida por um agente exterior, a opinião de cada um e de todos (de facto, da esmagadora maioria) adquire o estatuto de opinião autónoma. Autónoma, porque fundada em “dados objectivos”, constantes de reportagens e entrevistas aos quais atribui validade inquestionável; autónoma, também, porque assente num esboço de reelaboração pessoal subsequente, pouco importando que o crivo do escrutínio crítico do seu possuidor, na melhor das hipóteses, tenha intervindo muito fugazmente e não lhe tenha ocorrido questionar os critérios subjacentes às escolhas de intervenientes, de locais, de momentos. (Quem desconhece a prática televisiva que consiste em filmar zonas previamente definidas de um comício, de uma manifestação, etc., ou a entrevista informal feita a um transeunte previamente auscultado?)

Longe de lhe suscitar dúvidas quanto à genuinidade de uma opinião de facto veiculada por canais informativos que dão uma visão filtrada da realidade, (sendo que, aqui, “filtrada” é necessariamente sinónimo de “truncada”) a constatação pelo receptor de que a sua opinião coincide com a dos concidadãos, reforça a sua convicção de que ela é autónoma e de que essa coincidência a valida definitivamente. Uma vez que aquilo que lhe é, demorada e criteriosamente, instilado acaba por ser sentido como seu, o cidadão fica sinceramente persuadido de que pensa pela sua cabeça. No fundo, trata-se de um processo com muito de semelhante ao processo educativo: se a educação incute princípios, crenças e modos de ver o mundo, orientando o nosso foco observacional e condicionando o nosso comportamento, a partir da infância, os massa media “educam-nos”, na idade adulta.

A versão oficial dos acontecimentos é, pois, legitimada pelo seu carácter dominante. Sendo partilhada, ab initio, pelo maior número de receptores, duvidar da sua autenticidade, recusar a evidência mediática, constitui como que um acto de rebeldia sujeito à censura social, e o opinante minoritário é visto como elemento associal. De resto, o discurso oficial beneficia, à partida, da legitimação resultante de ser o discurso do poder político, poder este que, se hoje já não carece da bênção eclesiástica, não deixa de ser percepcionado como reflexo do poder divino na esfera temporal. Com efeito, ele usufrui de uma aura que reflecte o freudiano “complexo paterno”, com raízes na horda primitiva e no “assassínio do pai”. O sentimento de culpa / pecado é permanentemente alimentado pelo discurso religioso, de par com o dever de observância da autoridade (verdadeiro “imperativo categórico”, incondicional) já que esse poder político é o executor de um mandato outorgado pelo Criador, a fim de assegurar a prossecução dos Seus desígnios na Terra («o príncipe é ministro de Deus para bem teu». S. Paulo, Epístola aos Romanos). E todo o aparelho institucional (Igrejas, Escola, Órgãos de comunicação) participa activamente na reprodução ininterrupta dessa crença.

Recapitulando: aceite a versão oficial como verdade incontestável e assimilada à opinião pessoal de cada um, esta passa a gozar de um acréscimo de legitimação: ao invés de ser percepcionada como reflexo de uma opinião pré-existente, a adesão ao discurso oficial é sentida como coincidência deste discurso com a sua própria opinião e, se o discurso dos media coincide com a sua opinião pessoal, não só esta é necessariamente verdadeira como beneficia da carga emotiva suplementar resultante da gratidão por se ver reconhecida: não sou eu que partilho a visão dos media; são os media que partilham a minha visão dos acontecimentos. Nada poderia ser mais gratificante.

Em suma, aquilo que não passava, à partida, de uma versão truncada e tendenciosa dos acontecimentos torna-se a opinião universal, serve os interesses imediatos de uma das partes envolvidas nos acontecimentos e, de caminho, legitima um aparelho de guerra ideológica que enverga o camuflado diáfano de “órgão de comunicação social”.

III

A questão da legitimação é importante, se não mesmo fundamental, por representar um valor acrescentado de prestígio e de aceitabilidade irrecusável: o que é legítimo funda-se na razão e está naturalmente justificado.

No caso concreto da informação sobre a Rússia e a Ucrânia, nos dias que precederam a intervenção militar russa, só muito raramente uma voz dissonante se fez ouvir ou ler e introduziu os ruídos de uma “revolução laranja” que teria sido um golpe de Estado, em 2014; de um nazi de nome Stepan Bandera arvorado em herói nacional; de milícias neonazis integradas na guarda nacional ucraniana; de ataques a populações russófonas nas províncias separatistas; de um cerco à Rússia montado pela NATO, …). Todas estas notas dissonantes foram desvalorizadas, relativizadas ou silenciadas, quer pelos comentadores, invariavelmente defensores da superioridade moral do modelo de desenvolvimento económico e de organização político-social do Ocidente, quer pelo foco permanente em movimentações e entrevistas de cidadãos ucranianos, cujos receios eram legítimos e compreensíveis, mas cujas opiniões são formadas segundo modelo certamente muito semelhante àquele que nos cabe em sorte.

Após a invasão do território ucraniano pelas tropas russas, a cobertura televisiva apenas redobrou de empenhamento na promoção da sua perspectiva, desta feita, porém, gozando de uma justificação: a clara violação do direito internacional pela Rússia, facto objectivo e indesmentível.

O que retira legitimidade à justificação é que, noutras violações claras e indesmentíveis do direito internacional (na Jugoslávia, no Iraque, na Líbia, na Síria) a cobertura noticiosa primou pelo recato, pela discrição, pela urbanidade. O parti pris da visão maniqueísta mantém-se; objectividade e isenção dispensam-se.

Não se trata aqui de exprimir surpresa ou decepção; nem sequer discordância. Trata-se de constatar que é assim mesmo que a comunicação social funciona nas democracias liberais, sendo que a distinção em relação ao tratamento dado aos conteúdos informativos no regime autocrático russo passa pela comparação entre os respectivos graus de verosimilhança: a informação deste último é, em muitos casos, facilmente sentida como instrumental e inverosímil (a mensagem da comunicação social russa é muito pouco convincente), enquanto a das democracias liberais, que conta, à partida, com uma grande aceitação por parte do receptor, é objecto de um savoir-faire inegável, o que lhe confere um elevado grau de confiabilidade.

Na sua obra O Estado, Georges Burdeau explica assim a evolução do mecanismo de legitimação do poder político:

«Se os chefes dão tanto valor a que os considerem legítimos, é porque a legitimidade lhes traz um acréscimo de autoridade que eles não podem receber senão daí. Ao Poder que se impõe, ela acrescenta a qualidade que se liga a um Poder consentido, porquanto ninguém tem a possibilidade de se pretender autoridade legítima se não for reconhecido como tal. […] Enfim, ela introduz o Poder no universo mágico das representações e das crenças dotando-o de todos os prestígios que lhe vêm do que os homens julgam ser a natureza dele. Metamorfose moderna da sacralização do Poder, a legitimidade laiciza o seu fundamento sem lhe enfraquecer a solidez, visto que substitui a investidura divina pela consagração jurídica.»

Se o poder político se legitima pela consagração jurídica (agora que a “investidura divina” passou à História), o poder mediático legitima-se pela apropriação individual de que a sua mensagem é objecto: feita “opinião pública”, perdida a relação causal entre essa mensagem distorcida e a “opinião” que ela gera, o poder mediático ascende à condição de sentir do povo, de expressão da consciência colectiva. Está consumada a sua função mistificadora e alienante.

Neste contexto, os defensores de uma visão dos acontecimentos não inteiramente sobreponível à dominante são genericamente tratados como estando desfasados, fora da História, e como defensores de regimes autocráticos, quando não acusados de coisas piores. Alguns militares que se distinguiram ultimamente por introduzir no comentário televisivo variáveis de análise que se caracterizam por trazer à colação aquilo que o discurso normativo silenciara são desqualificados e sistematicamente apodados de colaboracionismo com o regime russo.

É possível descortinar nestas acusações alguma justificação, uma vez que os opinantes minoritários dão, geralmente, maior ênfase, no caso do conflito em curso, aos desmandos dos EUA/EU/NATO do que aos de Putin. Porém, dar maior ênfase a uns não significa ignorar ou aprovar os outros. Enfatizar significa, sim, que os opinantes minoritários entendem, tudo ponderado, que a parte que goza da simpatia da comunicação social dominante poderá ter (ou tem, inequivocamente) uma responsabilidade no desencadear do conflito que é geralmente ocultada, não lhes cabendo, a eles, amplificar o conhecido coro uníssono, pois, nesse caso, abdicariam de acrescentar algo à leitura oficial dos acontecimentos.

Em abono desta perspectiva, é notório que os defensores das democracias liberais omitem pormenores relevantes para uma cabal compreensão do que está em jogo:

  1. Os “regimes autocráticos”, que dizem ser defendidos pelos minoritários, são geralmente países que enveredaram por modelos de desenvolvimento económico e de organização político-social não alinhados com os do Ocidente. Como, entre os Romanos, os bárbaros, esses “regimes” não falam a língua do Império. São, por isso, sujeitos a sanções e sabotagens tais que se vêem impedidos, durante longos períodos, de ascenderem aos níveis de vida a que todos aspiramos. Os casos da Cuba socialista, da Venezuela bolivariana, da Síria martirizada, da Líbia que recuou no tempo, são casos paradigmáticos de bloqueio, embargo e acções desestabilizadoras por parte dos EUA, insensíveis às atrocidades cometidas pelos seus amigos sauditas, no Iémen, e israelenses, na Palestina. E, se a tão aclamada liberdade de expressão das democracias liberais é, de facto, fortemente condicionada em muitos “regimes autocráticos”, a honestidade intelectual suscitaria algumas perguntas e arriscaria algumas respostas: 1.º, a liberdade de expressão que nós conhecemos não é, ela mesma, o expoente máximo do condicionamento da liberdade? Parece que sim, uma vez que logra a proeza de nos levar a considerar “nossa”, “pessoal”, “autêntica”, a opinião que nos foi inculcada pela comunicação social. Por outro lado, alguém conhece algum órgão de comunicação social que dê ao contraditório o espaço mínimo necessário, não sequer para contraditar, mas simplesmente para completar a informação? 2.º, sem o condicionamento da liberdade de expressão nos tais “regimes”, seria viável um modelo de desenvolvimento e de organização político-social distinto do que vigora nas democracias liberais? O Chile de Allende, a Bolívia de Morales, a Venezuela e a Síria parecem dizer-nos que não; 3.º, a autocrática Federação Russa é equiparável a “regimes” onde, por vias diversas, se propugna a construção do socialismo? Não. O capitalismo russo não é diferente do capitalismo americano ou europeu, assim como o capitalismo da Alemanha nazi não era diferente do capitalismo das democracias ocidentais que, em 1938, e em Munique, pactuaram, pondo a União Soviética à margem. Não são diferentes, mas têm interesses próprios, contraditórios – e a geopolítica dá-lhes expressão.
  2. As pessoas que buscam refúgio e melhores condições de vida nas democracias liberais foram, quantas vezes, obrigadas a fugir das suas pátrias – vítimas do colonialismo, do neocolonialismo, das missões ditas humanitárias, de intervenções militares dessas mesmas democracias e do terrorismo que tudo isso tem incentivado, por via da humilhação a que esses povos têm sido sujeitos ao longo de décadas – para não trazer à colação as cruzadas e a defesa da fé e do império, que têm séculos de história. Relativamente ao terrorismo islâmico, como não recordar Mário Soares, que, um dia, disse não justificar, obviamente, mas não deixar de compreender, esse terrorismo, o terrorismo dos que têm a bomba, mas não o bombardeiro. O incómodo sentido por aqueles que não justificam o terrorismo, mas não se limitam a condenações liminares, porque o contextualizam no âmbito das humilhações infligidas ao mundo muçulmano, e por isso o compreendem, tem alguma semelhança com o que hoje sentem e exprimem em relação à invasão russa da Ucrânia: injustificável, mas explicável, isolá-la do contexto é apagar esse contexto. Mário Soares foi gentilmente criticado, na altura; os que hoje não justificam, mas compreendem, arriscam-se a ser lapidados.
  3. As democracias liberais, apresentadas como inultrapassáveis modelos de virtude e de bem-estar, ergueram-se e mantêm-se hoje, em larga medida, graças à exploração das riquezas alheias e de um proletariado deslocalizado para o Terceiro Mundo. De resto, para se ter uma ideia dos níveis de desigualdade e injustiça social que caracterizam a sociedade capitalista e a sua configuração democrática liberal, os números seguintes são esclarecedores: « […] os EUA oferecem um exemplo perfeito. Os 50% mais pobres possuem 2% da riqueza do país, mas o 1% mais rico, que possuía ligeiramente menos de 25% da riqueza do país no final dos anos 70, possui agora mais de 40%. E o 0,1% de americanos mais ricos, um grupo de umas 160 mil pessoas, possui cerca de 22% da riqueza do país e conseguiu captar mais de metade da riqueza gerada nos EUA entre 1986 e 2012. […] os EUA estão hoje numa situação em que o 0,1% mais rico detém tanta riqueza como os 90% mais pobres todos juntos.» O autor das palavras que acompanham estes números, tão esclarecedores quanto aterradores, é insuspeito, suponho: Daniel Susskind, autor de Um Mundo sem Trabalho, trabalhou com o Governo britânico como conselheiro político da Strategy Unit do primeiro-ministro, como analista de políticas na Policy Unit no n.º 10 de Downing Street e como analista político sénior no Cabinet Office.
  4. O afastamento do espectro da guerra na Europa, com o advento da Comunidade / União Europeia, e deixando de lado o episódio de bombardeamento e desmembramento da Jugoslávia, em 1999, tem servido de alimento à ficção de que a construção de uma Europa de paz se deve a esse processo de integração. Obnubila-se, assim, a realidade dos múltiplos conflitos em diferentes continentes que têm como causas próximas ou remotas as políticas implementadas pelo imperialismo, na sua busca constante de controlo dos recursos energéticos imprescindíveis à reprodução de uma economia predadora. As deslocalizações não se limitaram ao aparelho produtivo e ao respectivo proletariado; também as guerras foram deslocalizadas para regiões distantes, preservando o casto olhar democrático e liberal das atrocidades comprometedoras da boa consciência ocidental.

Porém, nada disto impressiona a auto-suficiência e a arrogância dos prosélitos do liberalismo ou de uma social-democracia que vai da direita educada a uma esquerda bem-pensante, acima de tudo empenhada em preservar os sacrossantos alicerces do capitalismo. Mesmo quando reclamam a herança de Jean Jaurès, esquecem-se oportunamente do discurso em que este, nas vésperas do deflagrar da I Guerra Mundial, exortando os socialistas a evitar a guerra, proferiu a célebre frase «le capitalisme porte en lui la guerre comme la nuée porte l’orage». Em 1914, como hoje, vingou a União Sagrada dos prosélitos de Fukuyama – com o capitalismo, a História chegou ao fim.

«Metamorfose moderna da sacralização do Poder, a legitimidade laiciza o seu fundamento sem lhe enfraquecer a solidez, visto que substitui a investidura divina pela consagração jurídica», diz Georges Burdeau, a propósito da “legitimação” e da “autoridade”. A comunicação social que impera entre nós não carece da “investidura divina” e goza, naturalmente, de “consagração jurídica”, mas, acima de tudo, beneficia do processo insidioso de legitimação da sua autoridade atrás descrito. Essa “autoridade” assenta na instilação contínua de um conjunto de valores veiculados por um discurso codificado: temos um “governo português” ou uma “administração americana”, mas um “regime” cubano, russo, venezuelano… Os “oligarcas”, são quase sempre Russos que enriqueceram graças à apropriação de património do Estado, na sequência da derrocada da URSS, e que têm influência na condução do país, mas alguém alguma vez ouviu chamar “oligarca” aos banqueiros, aos gestores, aos ministros e outros responsáveis políticos e respectivas famílias que, se não conduziram à derrocada da República, têm-na comprovadamente prejudicado, locupletando-se com o dinheiro de todos nós e deixando-a no estado que sabemos?

Termos em que, mais do que órgãos de comunicação social, temos órgãos de mistificação social, o que é natural, numa democracia em que os cidadãos gozam da ampla liberdade de votar livremente naqueles que os ludibriam e exploram, graças à preciosa cooperação da tal comunicação social.

Surpreendente? Nem por isso. A comunicação social ou é propriedade privada dos detentores de fortunas e meios de produção ou é propriedade pública do conselho de administração dos seus negócios – aquilo a que damos o nome de Estado.

20 de Março de 2022

Fernando Martins

CARTA ABERTA AO PAI-NOSSO (Com conhecimento a Sua Excelência o Senhor Ministro dos Negócios Estrangeiros, zeloso administrador dos santos interesses do Mundo Livre)

 

CARTA ABERTA AO PAI-NOSSO

(Com conhecimento a Sua Excelência o Senhor Ministro dos Negócios Estrangeiros, zeloso administrador dos santos interesses do Mundo Livre)

 

Pai-nosso que estais nos céus, santificado seja o vosso nome.

Bem sabeis quão pouco dado sou a dirigir-vos a palavra, que a consciência culposa de um insano ateísmo militante, ma tem arredada de tão exultante exercício.

Circunstâncias excepcionais, porém, me induzem a fazê-lo. Sabeis, necessariamente (ou não fosse, por definição, omnisciente a Vossa infinita sabedoria) da pavorosa insídia que seitas heréticas oriundas da estepe gelada congeminam e activamente promovem contra inofensivos cordeiros que apenas buscam um abrigo no acolhedor redil da santíssima NATO – parente chegada da Virgem Maria, também conhecida por Mãe de Deus, ainda que não exactamente Vossa Mãe.

Ouvi, pois, Deus meu: quão indesculpável seria a Vossa santíssima sabedoria, negando a santa oportunidade de defender os valorosos combatentes da Santa Madre Igreja da Liberdade Ocidental contra os satânicos cossacos do Leste! Aproveitai a ocasião, se me é permitido usar de formulações tidas por marca de oportunismo humano, e permiti que um denodado combatente pela liberdade (de iniciativa) e pela soberania (do capital financeiro) – daqueles que, ao fim-de-semana, se treinam nos arredores de Kiev, com armas feitas de pau, e acompanhados pelos miúdos, futuros émulos dos colegas de Columbine – seja oportunamente municiado pelo consórcio Biden-EU-NATO, de modo a atingir, por descuido, o torpe ismaelita, aliás russo, do outro lado da fronteira, que, se Vós quiserdes, cairá na tentação de ripostar.


No fundo, fareis, com isso, algo como uma reedição do assassinato do arquiduque, em Sarajevo, ainda que num cenário um pouco menos bucólico, desta feita, mas, em compensação, com um saldo superior aos quinze milhões de almas levadas à época para os santos aposentos que, para nós, tendes destinados no Céu.


A Vossa Providência logrará livrar a Europa dos problemas de sustentabilidade da Segurança Social, e o caminho da reconstrução, reconhecidamente proveitoso para a recuperação de altos níveis de desenvolvimento, estará assegurado.


Concluo, solicitando ainda que venha a nós o Vosso arsenal de curto e médio alcance e que seja feita a Vossa vontade, assim na terra, como no mar e no ar, pelos três ramos das forças armadas.


Perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos àqueles que se queixam da nossa comunicação social e dos comentadores aleivosamente caluniados e não nos deixeis cair na tentação, mais livrai-nos do Eixo do Mal. Amem.

RAYAN, A TENSÃO NA FRONTEIRA DA UCRÂNIA COM A RÚSSIA, O PODER DAS TVS E OUTRAS COISAS À MISTURA

RAYAN, A TENSÃO NA FRONTEIRA DA UCRÂNIA COM A RÚSSIA, O PODER DAS TVS E OUTRAS COISAS À MISTURA

 

Durante dias, as televisões mantiveram-nos amarrados aos ecrãs dos nossos receptores com as imagens comentadas das operações de salvamento de uma criança marroquina que ninguém conhecia no mundo inteiro, com a excepção dos seus parentes e vizinhos.

Sem detenças desnecessárias na afirmação de bons sentimentos, (que a morte de uma criança é sempre motivo de dor e compaixão, mesmo para aqueles que nunca a viram), há dois aspectos, aliás interdependentes, que merecem uma curta reflexão:

Aspecto 1. O poder descomunal que têm as tvs de activar as nossas glândulas lacrimais, quando isso serve os seus interesses económicos (guerra das audiências e mercado publicitário)

Quanto a este ponto, basta pensar-se, a contrario sensu, na nossa reacção à notícia da morte de crianças palestinianas por acção de soldados israelitas. As TVs relatam a ocorrência com a brevidade própria do flash e do fait-divers, parcimónia de pormenores e referência às versões contraditórias das partes (objectividade jornalística oblige): os soldados atiraram a matar / a criança lançou-lhes pedras ou integrava um grupo de manifestantes anti-sionistas. São crianças, mas não lhes é concedido o estatuto mítico do anjo, de mais uma estrela no céu e blá-blá-blá. Reacções dos espectadores: «Não há meio de se entenderem!», «Não aceitam a coexistência pacífica com o Estado de Israel!...», «São terroristas!», e etc. Nem a recente evolução do discurso da Amnistia Internacional, que já fala do «apartheid» israelense, alterará a opinião solidificada.

Aspecto 2. A eventual replicação do fenómeno, no plano político, embora com a intervenção de outras glândulas e com consequências mais destrutivas.

Esta abordagem carece, obviamente, de maior ponderação, mas, não sendo este texto um rascunho prévio a uma tese de doutoramento, arriscaria o seguinte, recorrendo ao prato forte da actualidade internacional, a chamada “tensão na fronteira entre a Ucrânia e a Rússia”:

a) As nossas TVs, quando está em causa uma relação potencialmente conflitual entre aquilo a que chamam “regimes”, isto é Estados não alinhados com o figurino institucional do Ocidente capitalista e, particularmente, com as suas parcelas estado-unidense e europeia unida, adoptam invariavelmente o ponto de vista das últimas, que são apresentadas sob a luz da mais imaculada democracia e insusceptíveis de questionamento quanto às suas virtudes. Os Estados que enveredaram por outras vias de desenvolvimento e de organização política, ou que, simplesmente, entendem não aceitar o policiamento dos EUA/UE/NATO, esses, merecem um tratamento cáustico, denunciador de uma rejeição apriorística, ou não estivessem as TVs cientes de que o seu endoutrinamento fez o seu curso e a aceitação acrítica pelos telespectadores da sua visão tendenciosa é um dado adquirido.

Este estado de coisas é perfeitamente compreensível, numa sociedade onde, naturalmente, os meios de comunicação, públicos ou privados, são detidos pela classe dominante. Por conseguinte, a parcela minoritária da população que se apercebe da acção mistificadora da comunicação social acaba por adoptar uma de duas atitudes: ou verbaliza o seu desgosto, através da censura expressa, ou exprime friamente a sua convicção de que o papel desta comunicação social é aquele que lhe cabe na sociedade que é a nossa e só a abolição dos seus fundamentos permitirá outro estado de coisas. Em ambos os casos, a TV, em particular, ignorará tais reacções, e, não passando na TV, elas não existirão. O que não existe para a TV, pura e simplesmente não existe. As próprias vítimas da mistificação / alienação, não tendo consciência dela, tenderão a ver, nos críticos não desistentes, uma espécie de quixotes empenhados em combater gigantes que não passam de moinhos de vento. Do mesmo modo que tenderão a ver, nas considerações sobre a informação distorcida, enviesada, tendenciosa e, no limite, criminosa, sobre as “tensões” internacionais, uma reflexão distorcida, enviesada, tendenciosa e, no limite, criminosa, tendente a branquear a política agressiva de uma potência que já foi comunista e que poderá não se ter desfeito totalmente dessa herança. Ora, em relação ao comunismo, estamos conversados: tivemos quarenta e oito anos seguidos de quase mais outros tantos para dele conhecermos todas as malfeitorias. Já em relação às invasões, ingerências, intervenções ditas humanitárias, promoção de acções desestabilizadoras de “regimes” pouco recomendáveis levadas a cabo pela democrática sociedade EUA/EU/NATO, de pouco vale a memória dos que se lembram ainda das pinochetadas, das armas de destruição maciça, e por aí adiante.

Voltando à Ucrânia, quase apetece sugerir a Lavrov que proponha aos seus interlocutores da NATO o seguinte acordo: a Ucrânia adere à NATO e, em contrapartida, “regimes” da América Central como Cuba, a Venezuela bolivariana, a Bolívia evo-moraliana são convidados a aderir à Organização do Tratado de Segurança Colectiva. Como irá reagir o farol da democracia? Que leitura isenta e objectiva farão disso as nossas TVs?

IN NOMINE PATRIS ET FILII ET SPIRITUS SANCTI

«Engraçado..! Porque será que os demônios só existem na cabeça das pessoas que acreditam em deus? O pior é que dizem que foi o próprio deus quem criou o demônio! Ironicamente penso eu que; deus após criar o mundo, deve ter se sentido muito enfadonho, sentiu que após todos os seus feitos, precisava de um desafio ainda maior.. e em razão disso, resolveu conceber uma entidade para ser um inimigo de si próprio. Ou seja; uma criatura para ser o contraditório de si mesmo! Bom..! Acho isso uma grande ironia.. para não dizer outra coisa!!»

Magno Erasmo Teixeira, in Freud & Nietzsche

 

O monoteísmo judaico-cristão tem destas bizarrias: um Deus trino (Pai, Filho e Espírito Santo), um Demónio, anjos e arcanjos, santos e santas padroeiros disto ou daquilo – tudo entidades que partilham o poder divino, como acontecia nas mitologias politeístas. No caso de Satanás, é até mais do que partilhar – trata-se de autêntica concorrência. O poder demoníaco é tal que lhe devemos a nossa existência, enquanto seres dotados de História. Com efeito, foi ele quem, disfarçado de serpente, tentou Eva, que, por sua vez, tentou Adão e os levou, ambos, à expulsão do Éden. Ora a saída do Éden corresponde ao surgimento da humanidade sofredora e criadora, que é a nossa condição. Sem o Demónio e a coragem indómita de Eva (que cobardolas, aquele nosso Pai Adão!), ainda hoje* estaríamos a perambular num romântico jardim, repleto de flores e de gorjeios, mas sem qualquer capacidade de iniciativa, insípidos e desenxabidos como qualquer santo de macacaúba, limitados a uma contemplação acrítica, abúlica e aparvoada. Sem História. Dêmos graças à mãe Eva que, muito antes de Nietzsche, não só anunciou como executou, de facto, a morte de Deus, acedendo à Ciência. É de elementar justiça reconhecer igualmente a importância do autor moral – Satanás, conforme já ficou expresso e conta com a certificação da Bíblia Sagrada.

O Diabo está, pois, presente, desde o Génesis, e só pode ter sido obra de Deus. Uma criação de tal modo bem sucedida que acabou ultrapassando o seu criador. (Não é raro os alunos ultrapassarem em sapiência e notoriedade os seus professores…). O que não significa que não devamos reconhecer as Suas qualidades. Uma delas, raramente referida, é o gosto pela leitura.

Embora não disponha de informação certificada sobre a matéria, estou em crer (…) que Deus terá lido as catilinárias de Nietzsche sobre Ele e sobre a religião, bem como as obras em que Freud revela segredos perturbadores sobre a Sua origem nas mentes humanas. Tudo isto ainda antes da expulsão dos nossos pais primordiais. Como nos admirarmos, então, daquela ira que O levou a pôr querubins e uma espada inflamada em redor do Éden para que os desobedientes não mais lá pudessem voltar?

Porém, uma vez refeito da afronta, Deus reconsiderou. Reconsiderou (o que é sempre sinal de bom senso) e, ao reconsiderar, lembrou-se de ter lido também Hegel e Marx. Ora, ao lembrar-se do que lera, percebeu, na Sua infinita sabedoria, que tudo o que criara encerrava em si a contradição dialéctica: a afirmação do fruto é a negação da flor, a espiga afirma-se negando a semente que lhe deu origem, e por aí adiante. Logo, o progresso só é possível pela luta dos contrários: Ele era a Tese, o Diabo, a Antítese, e como a Tese era idealista e a antítese materialista, a síntese que somos ficou embebida de vestígios genéticos da Tese e fortemente impregnada da forte carga material da Antítese, o que é facilmente observável sem recurso a sofisticados instrumentos de observação, quer nas redes sociais, quer nos contactos presenciais com os nossos semelhantes.

Fiquemos, pois, gratos ao Demónio e a Eva, por nos terem livrado daquela parvalheira do Éden, e a Deus por ter assimilado divinamente os princípios do materialismo dialéctico.

Amen.

***

Post Scriptum: embora possa parecer, a intenção não é nem de convencer nem de ofender quem quer que seja; apenas a de exprimir com alguma ironia uma opinião pessoal desassombrada. Contudo, se for entendido como ofensivo, apelo para a compreensão e generosidade cristãs de quem assim o entender, no sentido de fazer o seguinte exercício: imagine a violência a que está sujeito o não crente, no seu dia-a-dia, num mundo repleto de fórmulas e designações sagradas, de profissões de fé, de liturgias. É como viver no Inferno.

 

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* Aproximadamente seis mil e vinte e cinco anos depois da Criação, segundo o bispo Meath, chanceler-mor da Sé de S. Patrício, que situa a Criação no mês de Outubro do ano 4004 antes de Cristo.

SEMÁFOROS E JUSTIÇA

Há uma curiosa semelhança entre o funcionamento dos semáforos que passam a vermelho quando se excede o limite de velocidade e o funcionamento da sociedade em que vivemos.

Acontece-me com frequência ficar retido num daqueles semáforos, não por ter excedido o limite de velocidade, mas, pelo contrário, porque, tendo-o respeitado, alguém me segue a velocidade mais elevada e passa ainda com o verde. Com isso, lucra o prevaricador e é penalizado o cumpridor. Como a perfeição não é qualidade que eu possa reivindicar, confesso que também já me aconteceu cometer idêntica transgressão. Empenho aqui, todavia, a minha palavra de honra: foi por distracção. Ora a justificação da inadvertência não é coisa que me esteja reservada. Admito, por isso, que possa acontecer o mesmo com qualquer outro cidadão, tal como eu, incapaz de cumprir a sua caminhada existencial sem que se lhe possa apontar o mínimo deslize. Mas também acredito que haja alguns condutores, ainda menos isentos de imperfeições, que o fazem deliberadamente, sabendo que seguirão em frente, deixando os cumpridores retidos. Uma vez por outra, talvez aconteça um agente camuflado nos arbustos aplicar ao infractor a merecida coima.

Feita a observação com as devidas advertências, o que mais importa é pôr agora em evidência a estreita semelhança entre o que se passa com estes semáforos e o que se passa com a nossa sociedade.

Não é segredo para ninguém que, todos os dias, um sem-número de honestos cidadãos cumpridores da lei e dos ditames da decência penam no seu dia-a-dia laborioso para assegurar a sua difícil sobrevivência, pagando as suas contas e esforçando-se por nada ficar a dever a ninguém. Eles até podiam invocar a inadvertência, para omitirem o pagamento de uma factura aqui, outra acolá; podiam mesmo prevalecer-se da pouca sorte de terem nascido pobres para justificar o eventual assalto a uma instituição financeira ou a conivência de amigos bem colocados para transaccionarem influências e coisas do género – mas não! Preferem permanecer fiéis a normas de conduta que lhes foram incutidas e a que eles conferem o carácter categórico do imperativo kantiano. Ao mesmo tempo, todos os dias (ou quase) somos bombardeados com notícias de banqueiros, ministros, CEOs de grandes empresas, dirigentes desportivos, altas individualidades (como se usava muito dizer), gente importante, enfim, que desrespeitou, não o limite de velocidade, mas os limites da legalidade, da honestidade e da decência, durante anos, usufruindo de enormes somas de dinheiro e de toda a espécie de bens e regalias, sem que tenham sido retidos ou, neste caso, mais propriamente, detidos. Por via de regra, só depois de terem demoradamente usufruído daquilo que lhes não pertencia são instados a prestar declarações, em processos que se arrastam o tempo necessário para que atinjam o fim do seu trajecto existencial sem grande perturbação do seu modus vivendi.

Parece ficar assim demonstrada a discutível eficácia dos semáforos. E a da justiça. Não tanto aquela cuja administração incumbe ao sistema judiciário, mas antes a justiça inerente à natureza do sistema tout court. Como, em relação a esta última, não vejo qualquer possibilidade de correcção, dentro do actual quadro sociopolítico, sugiro às entidades competentes que revejam o funcionamento dos semáforos: uma hipótese seria retirar ao vermelho a sua carga proibitiva e fazer dele a cor indicativa de que se pode avançar.

Declaração de interesses: o vermelho é a minha cor preferida.

ENUNCIADO PERFORMATIVO E OMNIPOTÊNCIA DO PENSAMENTO

ENUNCIADO PERFORMATIVO E OMNIPOTÊNCIA DO PENSAMENTO

(Adenda ao post Convenções sociais, bordões linguísticos e mitologias degradadas)

Em linguística, designa-se enunciado performativo aquele que, no acto da elocução, “faz” aquilo que diz. Por exemplo, quando dizemos a alguém «Obrigado!», estamos, de facto, a agradecer (dizer é fazer). Com os votos de «Bom ano» e outros, essa dimensão performativa ocorre também (aliás, também dizemos «faço votos por que…», ou seja, mais do que “dizer”, “faço”), mas suponho que, a esta dimensão performativa, subjaz uma outra, mais profunda e inconsciente, de carácter mágico. O locutor, sem disso se aperceber, crê na omnipotência do seu pensamento, isto é acredita que, com alguma sorte, o seu voto de bom ano tenha o poder de se concretizar.

Mitologia degradada (Eliade), omnipotência do pensamento (Freud), «o papel espantoso, disfuncional e funcional, da irracionalidade na racionalidade (e a inversa)» (Morin). Alguma vez renunciaremos ao mito?!

Convenções sociais, bordões linguísticos e mitologias degradadas

Exceptuando os casos – em princípio, raros – de isolamento voluntário ou forçado, como animais gregários, que somos, vivemos em sociedade e cumprimos certo número de convenções que constituem como que uma senha de acesso ao convívio com nossos semelhantes. Uma dessas convenções, talvez a mais generalizada, consiste em saudar. «Salve» e «Ave» estando hoje circunscritas ao registo religioso ou irónico, dispomos do «Bom dia», «Boa tarde», «Como está?», etc., correspondentes laicas das anteriores saudações. Não saudar o concidadão de uma maneira ou de outra representa uma falta de cortesia ou até manifestação de desprezo, apenas desculpável se o objecto da nossa interpelação for de pouca importância, de rápida resolução e introduzido por uma fórmula desculpabilizante: «Perdão, sabe dizer-me se o autocarro já passou?» Frequentemente, a saudação nem sequer constitui um primeiro passo no entabulamento de qualquer comunicação formal; funciona, então, como sinal de identificação comunitária: ao chegar à paragem do autocarro, digo apenas «Bom dia!» aos presentes; porém, a mensagem implícita é bem menos lacónica: «Não nos conhecemos, mas pertencemos à mesma comunidade de pessoas sérias e empenhadas no bem colectivo, pelo que me compraz terdes um bom dia de trabalho, de estudo ou de lazer.» Havendo poucas pessoas à espera do autocarro, é provável que me retribuam a saudação, como sinal de que sou bem-vindo. O cão talvez abanasse a cauda, e o gato … sei lá, arqueava o dorso? O que é certo é que todo o inexpresso está bem escondido – eventualmente, no sistema límbico –, e apenas aflora o «Bom dia!».

 

Nas chamadas quadras festivas, a estes cumprimentos de todos os dias juntam-se os votos: é o «Feliz» ou «Santo Natal», o «Bom ano», as «Boas Entradas em 2022», a «Páscoa Feliz». Não são saudações, mas não deixam de ser uma convenção, e o cidadão que se abstém de desejar um «Bom ano» ao seu vizinho será visto, no mínimo, como antipático.

 

Acontece que, se o «Bom dia» e «Boa tarde» não transportam consigo nenhuma carga emotiva que emissor e receptor percepcionem conscientemente, pouco mais representando, em geral, do que um livre-trânsito para a entrada em diálogo com quem quer que seja, já os votos de «Bom Natal» ou «Bom ano» encerram frequentemente uma significativa carga de júbilo. Em muitos casos, há ainda um grande despojamento na formulação do voto (o emissor pretende apenas dar mostra de cortesia para com o receptor), mas é, de facto, frequente essa formulação estar fortemente impregnada de um sentimento de comunhão com o outro, como se aquele concidadão, até aí indiferente, apenas mais uma das pessoas com quem diariamente interagimos esporádica e superficialmente, adquirisse naquele instante uma dimensão excepcional, e ele passasse a ser, por instantes, um verdadeiro irmão, numa relação de comunhão connosco, qualitativamente diferente da identificação comunitária dos utentes de transportes públicos.

 

Suponho que este substancial acréscimo de afectividade na pragmática linguística tem uma motivação de carácter mítico que procurarei esclarecer.

 

Mircea Eliade caracteriza de forma magistral a diferente percepção que temos do tempo, em função da nossa relação (ou ausência dela) com a divindade: Enquanto «o homem religioso vive em duas espécies de tempo, a mais importante das quais, o Tempo sagrado, se apresenta sob o aspecto paradoxal de um Tempo circular, reversível e recuperável, espécie de eterno presente mítico que o homem reintegra periodicamente pela linguagem dos ritos», o homem não religioso – que também «conhece uma certa descontinuidade e heterogeneidade do Tempo», (o tempo do trabalho e o do lazer ou da festividade; o tempo da recreação; o tempo do encontro com a pessoa amada, etc.) – não vê no tempo «nem ruptura nem mistério: o Tempo constitui a mais profunda dimensão existencial do homem, está ligado à sua própria existência, portanto tem um começo e um fim, que é a morte, o aniquilamento da existência.»

 

Com efeito, se o «Bom dia» pode exprimir o desejo de que o dia corra bem ao nosso interlocutor, já o «Bom ano» ou «Bom 2022», dada a extensa sucessão de 365 dias sujeitos a tantos percalços, trai a crença num “recomeço do tempo” – um tempo “descontínuo”, “recuperável” e renovado, que se reveste de uma aura sobrenatural e assume o estatuto de entidade consciente com capacidade para intervir na nossa existência.

 

«Que o novo ano vos traga isto ou aquilo» significa que, para o emissor do voto, o Tempo é uma entidade com capacidade autónoma para “trazer coisas”; «que o novo ano seja assim ou assado» significa que o Tempo dispõe da possibilidade de modelar a sua feição e de aceder ou não ao desejo de quem emite o voto. Ou seja: a formulação destes votos, aparentemente anódina e simples forma de expressão de cortesia ou de amizade, revela, se passada ao crivo das suas motivações inconscientes, a crença mítica característica da percepção que o homem religioso tem do tempo.

 

Bem sabemos que os bordões linguísticos não passam de auxiliares fáticos do emissor em ruptura momentânea do fôlego discursivo. Que o diga quem inicia qualquer frase com o “portanto”, por menos conclusiva que seja a proposição assim encetada. Porém, o bordão linguístico não contém a energia afectiva dos votos a que me venho referindo. Estes últimos configuram um vestígio do pensamento mítico a que até o homem não religioso dificilmente escapa. É a mitologia degradada de que fala Eliade: mesmo nas sociedades modernas, o homem sem religião «dispõe ainda de toda uma mitologia camuflada e de numerosos ritualismos degradados.» É o que se constata, por ex., por ocasião de festividades e celebrações tais como a passagem de ano, o casamento, o nascimento, a promoção profissional, etc., ou «nos espectáculos que ele prefere, nos livros que lê, [porque] a leitura comporta uma função mitológica». Com efeito, para além de substituir os antigos mitos e a literatura oral de outros tempos, a leitura também lhe permite uma «“saída do Tempo” comparável à efectuada pelos mitos.»

 

Há dias, numa reportagem da tv, uma senhora de 101 anos vacinada num lar respondia a perguntas da jornalista com um remate sistemático: «Não fui infectada, graças a Deus», «Não reagi mal à vacina, graças a Deus», «Sinto-me bem, graças a Deus». A destrinça entre o bordão linguístico e a retoma ritual (Freud diria: neurótica obsessiva) do agradecimento reconhecido à divindade é difícil de fazer. Há, muito provavelmente, algo dos dois. E compreende-se, atentas as características do locutor (a idosa).

 

Quando, ainda hoje, se bem que cada vez mais raramente, ouvimos jornalistas da rádio ou da televisão, nomeadamente as públicas, despedir-se com um “Até amanhã, se Deus quiser», há, todavia, razão para incómodo e para estas interrogações:

Antes de mais, estará o jornalista a par da natureza laica da República?

Admitindo que está disso ciente, a invocação da vontade divina será simples cedência ao hábito arreigado, vindo da infância, e, por conseguinte, não passa de bordão linguístico, o que, para profissionais da comunicação é sinónimo de inabilidade no uso do seu instrumento profissional?

 

Quanto ao autor do post, ai dele, que ousa resistir à convenção imbuída de misticismo (consciente ou inconsciente)! Terá lido muitos romances de cavalaria (ou seus equivalentes mais recentes), e vê gigantes onde só há moinhos de vento. Acabará sacrificado no altar da convenção.