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Também de esquerda

Espaço destinado a reflexões (geralmente) inspiradas na actualidade e na Literatura.

Também de esquerda

Espaço destinado a reflexões (geralmente) inspiradas na actualidade e na Literatura.

Companhias

À minha prima A., finou-se-lhe o marido. Ficou só neste mundo. Não obstante, dizia estar sempre acompanhada. Por Deus. Ignoro se Deus a acompanhava em todos os cómodos da casa, como soía acontecer com o marido, presumo, mas tal ideia afigura-se-me blasfema. Nem quero imaginar o quão inconveniente seria a presença de Deus naqueles momentos em que todos ansiamos pelo maior recato. Além de que o voyeurismo divino se me afigura inconsistente com a alta ideia que faço de Deus. Convenho, por isso, que o “estar sempre acompanhada” será força de expressão. Ainda que o ser omnividente, tomado à letra e entendido com o rigor a que a presente reflexão aspira, implique o escrutínio mais absoluto de todos os esconsos da nossa existência. Enfim, desisto de dirimir esta questão, cuja complexidade me assusta.


Também eu, quando fiquei sozinho, passei a estar sempre acompanhado. Pela rádio. Em cada cómodo da casa, um receptor: no quarto, aceso, ao levantar e ao deitar; na casa de banho, sempre que a permanência é um pouco mais demorada do que a exigida por um chichi; na cozinha, quando atamanco uma refeição; na sala, quando a tomo; no escritório (que fino!), baixinho, quando escrevo ou leio. Às vezes, há dois ou mesmo três receptores ligados – quando me desdobro em tarefas, de um lado para outro, qual fada do lar, descontado o desencontro de género. Estou sempre acompanhado, geralmente por vozes de que gosto, de pessoas que geralmente não conheço. São apenas vozes, mas eu sei que pertencem a pessoas que existem mesmo; não são criações do meu espírito. E essas pessoas, por muito que não queiram (claro que elas nem pensam nisso), fazem-me companhia. As vozes delas trazem-nas a elas para dentro da minha casa e para dentro de mim. Como não hei-de estar-lhes grato? Sem isso, ia tantas vezes ser difícil aguentar a solidão de que só gosto quando lhe vislumbro o fim próximo.


Postas as duas situações – a minha e a da senhora minha prima – em paralelo, falta apenas tirar ilações, o que faço com ponderação e gravidade q.b., que o assunto não é para menos: o que nem ela nem eu suportamos é a condição de Robinsons, encalhados numa ilha perdida. E como a necessidade aguça o engenho, inventamos um Sexta-Feira: ela, um transcendente; eu, um tecnológico. A ela, vale-lhe Deus; a mim, a telefonia.

 

Multiversal, de José Estêvão Cruz – a poesia e a sua circunstância

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A poesia de circunstância, geralmente seguidora do cânone convencional da rima, da métrica e genericamente denotativa, sempre desempenhou um papel de relevo na afirmação identitária da comunidade e, se os tempos agora são outros, ela não deixa de constituir, em momentos de celebração, um factor suplementar de coesão na liturgia da festa. Entende-se, assim, que uma “oração de sapiência” da Confraria do Atum (!), proferida em 3 de Março de 2018, no Centro Cultural António Aleixo de VRSA, possa integrar o multiversal, último livro de José Estêvão Cruz.

 

O volume arranca com uma composição de inspiração camoniana vertida em estrofes de oitava rima, “estilo grandiloco e corrente”, a imitar a epopeia nacional, ainda que o autor prescinda da invocação às ninfas, que não têm as do Guadiana a fama e o reconhecimento de que gozam as Tágides. A habilidade versificatória e a soma de conhecimentos sobre o ciclo de vida do atum não deixam dúvidas e espraiam-se pelos demais poemas do primeiro painel, acrescentando-se-lhes o saber da vida dos que vivem das fainas do mar, tudo isto numa morfossintaxe sacudida e prenhe dum falar que inevitavelmente lembra o Raul Brandão de Os Pescadores.

 

Voltada esta página, com “Multiverso” e a radical mudança de estilo, o leitor encontra a provável resposta à dúvida sobre o significado do título do volume, já que, se “versal”, segundo o dicionário, denota “letra maiúscula, capital, capitular” – o que não parece hipótese interpretativa fiável –, o sujeito afirma-se, neste poema, capaz de exercer o seu múnus poético de formas múltiplas: “de enxada na mão”, “a fazer uma bomba”, “de cruz em riste”. E, de facto, a variedade de formas e de temas confirma a “multiversalidade” do volume, primeiro muito apegado a referências geográficas locais (praia, rio, doca, …), depois, progressivamente, afastado dessa concretude e içado para voos mais próprios da reflexão sobre o ser e a condição humana, o homem e a sua circunstância, o amor, enfim.

 

É no termo desta caminhada para uma linguagem transgressora dos vínculos significativos da referencialidade que surge aquilo que já é um universo desafiante das leis da física e do raciocínio silogístico: “Não sei / em qual Outono / ficaram escondidas / as pérolas do teu olhar”. Estamos, enfim, no prólogo dessa aventura a que se chama poesia.

 

Um espectro assombra a Europa - o espectro do Brexit

Ao projecto de fundação da União Europeia, desde os balbuceios da Comunidade Europeia do Carvão e do Aço, em 1951, presidiu o objectivo da burguesia europeia não só de procurar resolver as suas contradições pela via do diálogo e evitando a continuação da política pelos meios a que se refere Clausewitz, mas também o de travar a atracção exercida pelo socialismo sobre as massas trabalhadoras e a intelectualidade e o consequente avanço do socialismo na Europa.


A ideia fez a sua caminhada. Monnet, Schumann e Adenauer estariam hoje provavelmente muito satisfeitos com o que se lhes ofereceria ver, mas a sua felicidade ver-se-ia toldada pelo comportamento desviante da pérfida Álbion, que dá um péssimo exemplo aos parceiros que sempre manteve à distância.


Se a assinatura e entrada em vigor do Tratado de Maastricht, em 1992/1993, fora já precedida de um referendo em que a maioria dos eleitores se haviam pronunciado pelo não, o que “obrigara” à sua repetição, indispensável para o prosseguimento do processo, agora, a azáfama que impele os dirigentes da Europa para negociações e renegociações tão depressa definitivamente encerradas como logo a seguir reabertas (ou anunciadas como susceptíveis de o serem) e o tremendismo com que se descreve a saída do Reino Unido sem acordo parece indiciar que a burguesia europeia se prepara para reeditar a receita de Maastricht: “devolver a voz” aos súbditos de Sua Majestade, na esperança de que, à segunda, eles se mostrem mais compreensivos para com os desígnios da classe dominante. É que o resultado do referendo já realizado parece ter-se ficado a dever a uma lamentável falta de informação, sobretudo de eleitores mais idosos e indiferenciados, que agências de (des)informação estrangeira levaram à certa, logo, eleitores de segunda. Ao proceder desta forma, os dirigentes da Europa que tanto puxam pelos seus galões democráticos denunciam o seu parentesco ideológico com aqueles seus antepassados que, por um belo dia de Julho de há quase duzentos e trinta anos, viram uma bastilha tomada de assalto e lá tiveram de conceder ao Terceiro Estado o direito de se imiscuir nos negócios da nação. Mais dia, menos dia, lá terão os sans-culottes de envergar o barrete frígio. Menos anacronicamente: lá terão de tomar de assalto o Palácio de Inverno. Menos ainda: lá terão de reinventar um mundo sem fronteiras e onde liberdade, igualdade e fraternidade sejam mais do que votos piedosos de uns quantos.

POURPRE VOIX, de Adão Contreiras

Pourpre Voix, Adão Contreiras (2).jpg

 

Presses Sorbonne Nouvelle acaba de publicar, em edição bilingue, Pourpre Voix, de Adão Contreiras, originalmente publicado em Maio de 2017, pela Lua de Marfim, com o título Púrpura Voz.


Sobre a poesia de Adão Contreiras, enquanto aventura da palavra, tive já a oportunidade de me pronunciar por ocasião da publicação dos seus três primeiros livros (Página Móvel com Texto Fixo, 2013; Ouro e Vinho, 2014; Mostruário de Títulos para Poemas, 2016)* e ainda por ocasião da Feira do Livro, no Centro de Trabalho do PCP, em Dezembro de 2016 e em Faro. Os poemas que integram o presente volume indiciam claramente o prosseguimento do autor na senda de uma poesia caracterizada pelo estilhaçar das relações entre significante e significado e concomitante cintilação de uma miríade de metáforas que geram surpreendentes universos visuais. Nesta circunstância, limitar-me-ei a sublinhar a excelência da tradução e da introdução de Catherine Dumas, professora emérita da Sorbonne, e a qualidade gráfica do livro, isento das gralhas e erros que tão frequentemente conspurcam as nossas edições, comprometendo o prazer da leitura e a imagem do autor.
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*Respectivamente em:
https://tambemdeesquerda.blogs.sapo.pt/pagina-movel-com-texto-fixo-de-adao-38451
https://tambemdeesquerda.blogs.sapo.pt/ouro-e-vinho-de-adao-contreiras-43024
https://tambemdeesquerda.blogs.sapo.pt/a-liberdade-livre-da-poesia-de-adao-64172

A misteriosa Sovieta Ulianova, de José Estêvão Cruz


A misteriosa Sovieta Ulianova, J.E.Cruz (1).jpg

 Em A misteriosa Sovieta Ulianova, J. E. C. reedita os seus dotes de narrador, desta feita com um acentuado pendor historicista contemporâneo. A intriga deste seu último romance tem, de facto, como pano de fundo, o Portugal dos anos finais do marcelismo, a Revolução e a contra-revolução, bem como o fim da União Soviética, após a implementação da Perestroika, e o autor não é nada parcimonioso na explanação dos factores políticos, económicos e sociais que subjazem quer à evolução da situação portuguesa, quer ao rumo que tomou a extinta união de repúblicas.

 

O romanesco desta narrativa consiste numa curiosa e bem montada história em que o protagonista, feliz no amor e na vida profissional, sucumbe à sedução de uma beldade eslava que o arrasta para uma deriva sentimental pouco menos do que platónica e sem grande futuro. As peripécias sucedem-se, dando, por vezes, a sensação de que se lê uma novela policial ou de espionagem, mas o cerne da intriga está mesmo na indagação dos meandros do comportamento das personagens, pelo que a vertente psicológica supera a do suspense.

 

O encadeamento das acções no discurso narrativo não é linear. O narrador começa por um momento já significativamente avançado no tempo da história, recorrendo depois ao flash-back para a narração do lapso temporal anterior ao do início do romance.

 

Para além do manifesto à-vontade com que o autor despende informação e considerações de natureza histórica, política e geográfica, é ainda notória a facilidade com que elabora sobre operações financeiras e o ramo imobiliário.

 

Em termos romanescos puros, é de assinalar o enviesamento da trama narrativa patente no capítulo 40, ou seja, a opção de fuga ao desfecho expectável, que relança o enigma, potenciando o interesse do leitor exigente, embora o devaneio místico de Sovieta nos pareça pouco consentâneo com as suas convicções.

 

A desfavor do romance, apenas isto: um descambar ocasional para o estilo afadistado (veja-se, p. ex., pp. 250, 251) e alguns desencontros com o léxico e a gramática, pechas que uma revisão competente teria apagado.

 

AS PALAVRAS

AS PALAVRAS

Chegam-nos palavras que logo se desvanecem. Como corpos frágeis, não resistem ao impacto; desintegram-se no alvo. Outras percutem-nos com força e ressoam – palavras-diapasão. "As palavras são seixos que rolo na boca antes de as soltar. São pesadas e caem", diz Ruy Belo. E não agem sós as palavras. Organizam-se em bandos – por vezes, gangues, quando enveredam por sintaxes criminosas. Outras vezes, insurgem-se contra regras que as não deixam dar asas à sua busca de infinito. E são sensíveis, as palavras. Se as acolhes de braços abertos e lhes mostras regozijo, à chegada, elas entregam-se-te num esplendor de significados. Ficam tristes, macambúzias e interditas, se à recepção falta calor. "São como um cristal, as palavras. Algumas, um punhal, um incêndio", diz Eugénio de Andrade – que elas brilham, sabemos, mas às vezes ferem e matam. São como tijolos também, as palavras. Com elas edificamos as casas onde moram nossos sonhos. Umas, janelas, levam-nos o olhar demasiado preso ao aqui para paisagens de ali. São sóis e são mares. Cometas, diz o poeta. São cascatas de sílabas que se despenham em horizontes de azul. São muros, algumas. Muralhas. Espreitam-nos pelas ameias. Cavalos fogosos, tomam o freio nos dentes e levam-nos à desfilada por temporais de granizo. Fazem-nos esperas, se as desfeiteamos, e não toleram a indiferença. Algumas, comedidas, dissimulam-se na timidez dum gesto; outras, insinuantes, fitam-nos com arrojo. São curiosas como crianças vorazes. Levemo-las, pois, a ver as coisas que elas dizem. E andemos sempre com elas. "Com elas eu me deito, me levanto", diz o Egito Gonçalves. Palavras leva-as o vento, diz toda a gente. Convém, por isso, resguardá-las. E não só no tempo frio, que são outros os frios que as flagelam.

Com palavras eu me digo, eu te digo. Com palavras me chego a ti. A ti e a ti. E muitas ficam por dizer.

O escabroso em Literatura

 

O Complexo de Portnoy, P. Roth (1).jpg

Lolita, V. Nabokov (1).jpg

 

Na Ásia, para onde tinha sido levado por um questor, quando prestava serviço militar, instalei-me numa hospedaria, em Pérgamo. Estava muito satisfeito, não só porque a casa era muito elegante, mas porque o hospedeiro tinha um filho de grande beleza e eu meditava um plano para me tornar seu amante, a ocultas do pai. Sempre que à mesa se discutia o amor dos belos rapazes, indignava-me com tanta violência, recusava-me tão severamente a dar ouvidos a essas conversas indecentes que a mãe, sobretudo, considerava-me um dos sete sábios. A tal ponto que me incumbiram de acompanhar o jovem ao ginásio, de vigiar os seus estudos, de o instruir e aconselhar, zelando para que nenhum sedutor fosse admitido em casa.” O Satíricon, Petronio[i]

 

A aproximação de dois romances tão “especiais”, passe a vacuidade do adjectivo, quanto o são Lolita, de Vladimir Nabokov, e O Complexo de Portnoy, de Philip Roth, romances em que a temática sexual irrompe como força avassaladora bem demonstrativa dessa “energia fundamental do ser vivo” que é a libido, suscita a problematização do papel da linguagem na percepção do indecoroso em Literatura. Há, com efeito, uma diferença muito significativa entre as duas obras no que respeita ao uso que os respectivos autores fazem do léxico, mas importa verificar até que ponto o seu afastamento lexical determina uma substancial diferença na percepção que o leitor tem do escabroso, admitindo-se que tal designação é apropriada para catalogar o conteúdo de ambos.

O tema daria para uma tese de doutoramento. Não se trata aqui, porém, nem de fazer (mais) uma história do género, nem de dirimir a ambiguidade que, ao longo dos tempos, tem acompanhado a definição dos termos com que é habitual classificar-se as obras em que sobreleva tal temática, desideratos que a indisfarçável impreparação do autor torna inalcançáveis.

As definições que os dicionários dão de “erotismo” têm uma amplitude semântica tal que recobre quase todo o leque de possibilidades que se oferecem no âmbito das experiências e comportamentos sexuais: desde a vaga sensualidade emergente dos sentidos até à devassidão e libertinagem, passando pela voluptuosidade, pela lubricidade, pela lascívia, pela luxúria, tudo parece caber no conceito de erotismo, que, assim, fagocita o próprio conceito de pornografia, como atentado ao pudor e à moral, sendo de presumir que moral e pudor remetem para conceitos estritamente vinculados ao tempo ‒ que, por definição, sempre flui.

Por outro lado, cada um dos utilizadores da palavra dá-lhe a extensão que a sua sensibilidade autoriza. Se, para o pudibundo e não só, o erótico está na estreita dependência da simples sugestão e se anula na passagem desta à exibição, para outros, mais do que a exibição, será a ostentação provocatória a marcar a fronteira entre o erótico e o pornográfico.

Segundo Jean-Jacques Pauvert, “foi considerada juridicamente ‘erótica’ durante muito tempo no ocidente toda a literatura:

  1. Que ofendesse os bons costumes (e/ou por algum tempo a religião);
  2. Cuja intenção ‘evidente’ fosse a de excitar as paixões sexuais;
  3. Que negasse ‘os princípios fundamentais da moral social, familiar ou individual’ (julgamento de Sade, 1955);
  4. Cuja linguagem, cenas, descrições, etc. fossem ‘indecentes’, ‘pornográficas, ‘licenciosas’ ou ‘obscenas’ (ou um outro qualificativo que correspondesse à impressão produzida)[2].

Para Alexandrian, “Hoje em dia, frente às mais infrenes produções literárias ou cinematográficas, em vez de se invocar a virtude como antigamente, pretende-se distinguir entre o erótico e o pornográfico. A nova forma da hipocrisia consiste em dizer: se este romance ou este filme fosse erótico, eu inclinar-me-ia diante da sua qualidade; mas é pornográfico, de modo que o rejeito com indignação. Um tal raciocínio é tanto mais estulto quanto ninguém consegue explicar a diferença aí entrevista. O que, aliás, não admira, pois não há diferença. A pornografia é a descrição pura e simples dos prazeres carnais; o erotismo é esta mesma descrição revalorizada em função de uma ideia do amor ou da vida social. Tudo o que é erótico é necessariamente pornográfico, com alguma coisa acrescida. É muito mais importante fazer a distinção entre o erótico e o obsceno. Neste caso, entende-se que o erotismo é tudo o que torna a carne desejável, a patenteia no seu esplendor ou na sua frescura, desperta uma impressão de saúde, de beleza, de jogo deleitável; ao passo que a obscenidade avilta a carne, lhe associa a sujidade, as mazelas, os gracejos escatológicos, as palavras indecentes.”[3]

No meio desta parafernália definitória, ganha vulto e consistência a fórmula umas vezes atribuída a Chris Marker, outras vezes a Alain Robbe-Grillet ou ainda a Breton[4] de que “a pornografia é o erotismo dos outros”. Nada mais verdadeiro. Jamais o nosso erotismo pessoal seria por cada um de nós identificado com a pornografia, sendo certo também que fazemos, em princípio, questão de o manter na esfera do estritamente privado.

Feito este intróito, com certeza excessivo para a natureza e alcance do que se lhe segue, vejamos, num rápido sobrevoo, como se nos apresenta a pulsão amorosa no romance de Roth, através de um curto excerto que talvez nem seja o mais desbragado, mas que permite aferir a presença de elementos pertinentes de análise:

“Então parou um táxi e fomos para o apartamento dela, onde ela tirou a roupa e disse: “Avança.”

A minha incredulidade! Como é que uma coisa daquelas me podia estar a acontecer! E o que eu comi! De repente, era como se a minha vida fizesse parte de um sonho lúbrico. Ali estava eu, lambendo finalmente a cona da estrela de todos os filmes pornográficos que tinha produzido a minha cabeça desde a primeira vez que pusera a mão na minha própria piça... «E agora eu», disse ela, «amor com amor se paga», e, doutor, essa desconhecida desatou a chupar-me com uma boca que devia ter andado nalguma universidade especial para aprender as coisas maravilhosas que sabia. Que achado, pensei, eu, ela sorve-o até à raiz! A goela em que eu fui cair! E falavas tu de oportunidades! E ao mesmo tempo: Sai daqui! Vai-te embora! Sabes lá quem é e do que é capaz esta criatura!”[5]

Que há de indecoroso neste passo do romance, um dos inúmeros que juncam a obra? Antes de mais, a própria descrição crua, ostensiva, da cena de sexo (naquela modalidade que Bill Clinton, em tempos, afirmou não ser sexo), cena essa que ocorre escassos minutos volvidos sobre o encontro inicial das personagens, perfeitas desconhecidas. Longe de procurar travestir o relacionamento sexual com o “manto diáfano da fantasia”, Roth escancara a porta da realidade e põe a descoberto a “nudez forte da verdade”. O léxico usado, remetendo sempre para o mesmo contexto, pertence, contudo, a duas categorias distintas: por um lado, verbos banais (“avançar”, “comer”, “chupar”) são investidos de forte conotação sexual; por outro, os genitais de ambos os sexos são designados pelos plebeísmos mais obscenos que os dicionários atestam.

A acção decorre a ritmo acelerado, vertida em períodos curtos, com várias frases exclamativas a traduzirem a torrente de emoções do narrador, que mantém um significativo distanciamento em relação à sua parceira, distanciamento esse patente na ironia da referência à “universidade especial” e, sobretudo, no confinamento da mulher à condição de “boca” e de “goela”.

Voltando a Alexandrian, parece pertinente equacionar aqui a eventual prevalência da obscenidade sobre o erotismo – sublinhe-se “equacionar” – já que a evolução dos costumes, até na banalização do palavrão, atenua consideravelmente o impacto do obsceno.

Mas compare-se com Lolita, num excerto que se julga representativo do nível geral de descodificação patente no romance:

“Comecei a chegar-me para ela, preparado para uma decepção e sabendo que seria melhor esperar, mas incapaz disso. A minha almofada cheirava aos seus cabelos. Fui-me chegando para o vulto vagamente luminoso da minha querida, parando ou recuando sempre que me parecia que se mexia ou estava prestes a mexer-se. Uma brisa do país das maravilhas começara a afectar os meus pensamentos, que pareciam alinhados em itálico, como se a superfície que os reflectia estivesse encrespada pelo fantasma da tal brisa. Uma e outra vez, a minha vigília enfraqueceu, o meu corpo agitado penetrou na esfera do sono para logo sair, e cheguei até a dar comigo a deixar-me embalar por um ressonar melancólico. Neblinas de ternura envolviam montanhas de desejo. De vez em quando, parecia-me que a presa encantada estava prestes a encontrar-se com o caçador encantado a meio do caminho, que o seu quadril se ia chegando para mim sob a areia macia de uma praia remota e fabulosa. Mas depois o seu vulto mexia-se e eu ficava com a certeza de que ela estava mais longe de mim do que nunca.”[6]

Aqui, todos os cuidados são poucos, e a aproximação faz-se por etapas (“comecei a chegar-me”, “fui-me chegando”), a fim de esconjurar a decepção. Os sentidos do olfacto e da visão são chamados a intervir, mas com moderação (o cheiro dos cabelos, “o vulto vagamente luminoso”). O pensamento do narrador e protagonista sofre o efeito da atmosfera lúbrica, oscila entre a vigília e o sono, e transpira onirismo. Finalmente, a decepção.

Que prevalecerá aqui – o erotismo ou a obscenidade?

Se fizermos de conta que ignoramos a identidade da “minha querida” e lhe atribuirmos uns hipotéticos dezoito anos, conviremos que há aqui um erotismo moderado, de bom-tom, matizado pela fantasia do grande escritor. Porém, logo que nos lembramos de que a Lolita ainda não completou doze anos de idade e que o seu “caçador encantado” é um quarentão, dificilmente poderemos deixar de considerar a cena descrita como obscena e pornográfica. Obscena e pornográfica, sem que haja no romance um único palavrão, uma única cena de sexo explícito, como aliás se refere no “prefácio” que o autor atribui a um tal John Ray Junior, doutor em Filosofia, e que explica cabalmente a inevitabilidade das cenas “afrodisíacas”, sem as quais não haveria romance, dado o seu carácter “estritamente funcional”, na perspectiva da consecução da “apoteose moral”:

“Considerado simplesmente como romance, Lolita trata de situações e emoções que permaneceriam irritantemente vagas para o leitor se a sua expressão se tivesse estiolado pelo recurso a evasivas banais. É verdade que não se encontra em todo o livro um único termo obsceno, de tal sorte que o robusto filisteu, condicionado pelas modernas convenções a aceitar sem repugnância a prodigalidade de palavras porcas de um romance banal, ficará absolutamente escandalizado com a sua ausência aqui. Se, no entanto, para tranquilidade da consciência desse paradoxal moralista, se tentasse diluir ou omitir cenas a que um certo tipo de mentalidade poderia chamar «afrodisíacas» (ver a tal respeito a monumental decisão proferida, em 6 de Dezembro de 1933, pelo meritíssimo juiz John M. Woolsey acerca de outro livro de linguagem muito mais franca e clara), o melhor seria desistir por completo da publicação de Lolita, pois as cenas que absurdamente se poderiam acoimar de prenhes de conteúdo sensual próprio são o mais estritamente funcionais possível no desenrolar de uma história trágica que se encaminha, inabalável e resolutamente, para nada menos do que uma apoteose moral. Os cínicos poderão dizer que a pornografia comercial afirma exactamente o mesmo e os entendidos poderão ripostar que a apaixonada confissão de H. H. é uma tempestade num tubo de ensaio; e que, pelo menos, doze por cento dos varões adultos americanos - cálculo «moderado», segundo a Dr.ª Blanche Schwarzmann (comunicação  verbal) - gozam anualmente, de uma maneira ou de outra, a experiência especial que H. H. descreve com tanto desespero, e que, se o nosso dementado diarista tivesse, no fatal Verão de 1947, consultado um psicoterapeuta competente, não haveria tragédia nenhuma ‒ mas, nesse caso, também não haveria este livro.”[7]

A literatura é sempre, de algum modo, o espelho de uma sociedade, seja porque intenta reflecti-la com o rigor fotográfico da tradição naturalista, seja porque o criador, necessariamente parte dessa sociedade, trilhando os caminhos da inovação, é impulsionado pelo ambiente que o rodeia ou por sentimentos de desgosto ou de rejeição para com esse ambiente. Através da sobrevalorização de um ou outro aspecto da realidade, o criador revela em que medida esta o afecta e, de caminho, dá-nos pistas sobre a sua idiossincrasia autoral. No caso destes dois romances, como certamente no caso de todos os grandes romances, e sem cair na armadilha de confundir a figura do autor com a do narrador, conjugam-se as vertentes do retrato e da denúncia: retrato de um ser humano tantas vezes joguete de pulsões que não controla; denúncia de uma sociedade em que imperam relações de dominação e de opressão entre (intrinsecamente) iguais em dignidade e em direitos. Circunstância em que, mais do que denunciar o escabroso em literatura, urge denunciar o escabroso da sociedade.

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[1] O Satiricon, Petronio, Livros de Bolso, Europa-América, pp. 93,94.

“Não se sabe com exactidão quem é esta personagem [Petronio]. Considera-se, contudo, geralmente, que se trata de C. Petronius Arbiter, um familiar de Nero, que esteve implicado na conjura de Pison e se suicidou em 65 d.C.” R. Morisset, G.Thévenot, Les Lettres Latines, Magnard, Paris, 1966.

O Satiricon tem perto de dois mil anos e é, no dizer de Jorge Sampaio (Prefácio à edição de O Satíricon em Livros de Bolso da Europa-América, p. 8), uma “história picaresca, narrada por um dos protagonistas, Encólpio, que, na companhia de Ascilte e Giton, dois jovens tão depravados como ele, percorre diversas províncias do império [romano]”. Também R. Morisset e G. Thévenot (op. cit., p. 984), que consideram “o Satiricon, a despeito das obscuridades e das vulgaridades que contém, […] uma obra de arte esmerada, uma das mais directamente acessíveis ao gosto moderno”, o classificam como “romance picaresco”, “romance de costumes” e “romance realista”, chamando contudo a atenção para o facto de se tratar mais de uma caricatura do que de um retrato, dado o exagero posto no relato desta “sucessão de aventuras burlescas”. Exagerado ou não (o pendor orgíaco do império romano é conhecido), facto é que passos como aquele em que Encólpio narra o estratagema de que se serve para seduzir o filho do hospedeiro, em Pérgamo ‒ efebo, de resto, facilmente subornável ‒ dificilmente escapariam à classificação de “licenciosos”. Contudo, não é o léxico do autor que potencia a ofensa ao pudor de quem o lê. Petrónio, fosse ele quem fosse, escolhe as suas palavras com esmero e é parcimonioso no uso de termos menos convenientes; são as interacções das suas personagens que logram esse desiderato.

[2]  A Literatura Erótica, Jean-Jacques Pauvert, Teorema, Lx.ª, 2001, pp. 7 e 8

[3] História da Literatura Erótica, Alexandrian, Círculo de Leitores, 1991, p. 6

[4] Respectivamente, por J.-J. Pauvert, na obra citada, e por Maria Alzira Seixo, em Discursos do Texto. António Guerreiro, no texto “O Anjo da pornografia” da sua “Estação Meteorológica” (sobre Valter Hugo Mãe), Ípsilon de 3 de Fevereiro de 2017, parece atribuir a fórmula a Robbe-Grillet; em crónica intitulada “O patriotismo dos outros”, Ípsilon de 29 de Dezembro de 2017, António Guerreiro refere uma outra possível autoria, a de Breton.

[5] Philip Roth, O Complexo de Portnoy, Leya, 2010, pp. 162, 163

[6] Nabokov, Vladimir, Lolita, Abril/Controjornal/Edipresse, p. 124

[7] Idem, p. 6

A difícil arte de escolher um lado

Para a esquerda social-democrata ‒ isto é, para toda a esquerda reformista, que abomina acima de tudo a ideia da revolução, que acredita num capitalismo reformável (como se as reformas lhe retirassem o carácter intrinsecamente injusto) e para quem a democracia burguesa (dispensando ela o qualificativo) constitui o estádio supremo de evolução dos sistemas de governação ‒ a avaliação da situação na Síria, como em várias outras conjunturas históricas, reveste-se de certa dificuldade. Ela bem condena, sem apelo nem agravo, o regime de Assad, responsável pelo recurso a armas químicas causadoras da morte de civis, com uma estranha incidência em crianças (estranha perversão), em condições de sofrimento atrozes, mas depois ocorre-lhe a tutelar imagem da democracia norte-americana, que é o presidente Donald Trump, e essa esquerda, que não poupava loas ao amistoso Obama, como se o amistoso Obama, com a jovial Hilary, não tivesse patrocinado as mesmas guerras de todos os demais, não resiste a censurar-lhe uma boçalidade dificilmente escamoteável e que descredibiliza a tal democracia (sem qualificativo). Vai daí, tem um assomo frenético de relutância e mete tudo no mesmo saco ‒ monstros sírios e presidentes do sacrossanto mundo livre, sobretudo os alvares, já que os outros são tratados com mais consideração.

 

Na pressa que a move de condenar, dando mostras de uma irrepreensível equidistância em relação aos patifes deste mundo, convoca até o diabo para que venha e escolha. Mas o diabo é avesso a convocatórias, como bem o sabe um primeiro-ministro dum passado infausto, e retruca-lhe com a judiciosa resposta de que é a cada um de nós que cabe escolher o lado em que quer estar, já que para isso nos dotou o Senhor de livre arbítrio. Ora a tarefa de escolher implica necessariamente alguns riscos e certo trabalho: o risco maior é talvez o de nos enganarmos na escolha do lado em que queremos estar, mas isso são os ossos do ofício de viver. Quanto ao trabalho, ele pode passar por estudar inúmeras disciplinas académicas, motivações comportamentais e outras coisas mais. No penúltimo domínio, seguramente o de mais fácil acesso a qualquer observador, impõe-se a constatação de que o “regime” sírio (“regime”, como sempre lhe chama a nossa isenta imprensa) derrotou a conspiração imperialista euro-americana, que financiou, armou e industriou os grupos terroristas que puseram a Síria a ferro e fogo durante anos, tendo reconquistado os bastiões que aqueles grupos ainda detinham nas imediações de Damasco. Nestas circunstâncias, só com um significativo contributo da imaginação é possível descortinar uma motivação para que o “regime” tenha desencadeado um ataque com armas proibidas, para mais sob a ameaça de retaliação, caso o fizesse. Claro que é sempre possível pensar numa manobra de diversão. Mas… para distrair a opinião pública síria dos escândalos sexuais envolvendo o ditador Assad? Azar! Assad está demasiado ocupado a bombardear os civis financiados e armados pelas democracias ocidentais para se dar ao deboche. Em contrapartida, Trump, esse sim, está seriamente comprometido com escândalos dessa e doutras naturezas (que o podem levar ao impeachment), como aconteceu com o culto Bill Clinton, no caso da estagiária Mónica Lewinsky, em 1998. Na altura, como as primeiras páginas dos jornais não largavam o assunto, Clinton ordenou o bombardeamento de uma fábrica de armas químicas no Sudão. Veio depois a saber-se que os químicos em questão eram medicamentos, mas a operação saldou-se por um êxito relativo: as manchettes dos jornais puseram o escândalo em surdina.

 

Sarkozy, por seu turno, desempenhou papel de relevo na eliminação física do ditador Kadhafi e na destruição da Líbia (decididamente, todos estes democratas ocidentais parecem sofrer da síndrome do 007). Que terá levado Sarkozy a abominar a tal ponto o ditador cruel que anteriormente recebera afectuosamente no Eliseu? Segundo consta, e a esquerda social-democrata sabe-o, o ilustre ex-presidente terá beneficiado do financiamento da sua campanha eleitoral de 2007 por aquele monstro, primo de Assad.

 

Quanto a Thereza May, diz-se que está metida numa camisa-de-onze-varas, com a dor de cabeça do Brexit, e que carece de refrigério. Tudo tão lógico quanto aparenta ser o incompetente envenenamento do espião russo em solo britânico, nas vésperas das eleições presidenciais russas e a três meses do Campeonato do Mundo de Futebol, acontecimento que pode muito bem fazer parte do pacote propagandístico destinado a preparar a opinião pública para mais uma aventura da qual ninguém sabe ao certo como se sairá se as coisas azedarem.

Porém, a esquerda social-democrata não se deixa convencer com constatações tão simplistas; ela busca explicações mais profundas e, sobretudo, ela faz questão de preservar a sua pureza moral, recusando maniqueísmos sempre indiciadores de primarismo. Por isso mesmo, vai tudo corrido com o labéu de fdp’s (o meu dicionário pede-me que substitua o substantivo que tem por inicial um “p” por “pura, luta, pita, pauta ou peta”, mas nenhuma destas palavras traduz com rigor a ideia em questão, além de que é essa a expressão usada no texto que me serve de inspiração, (cf. https://aventar.eu/2018/04/16/se-nao-e-preto-so-pode-ser-branco/ ).

 

A atitude da esquerda social-democrata em relação aos Estados ameaçados na sua soberania tem muito de comum com a de um famigerado governador da Judeia, contemporâneo de Cristo. Também ela se desincumbe da tarefa de julgar passando as mãos por água. É que ela acredita no imperialismo, mas não vê propriamente nele uma fase superior do capitalismo. Para ela, se os EUA são imperialistas, os russos também o são e os soviéticos também o eram. Já os Estados da União Europeia nem por isso ‒ uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa, sendo que as nossas democracias têm a virtude de conjugar a natureza capitalista com a justiça social, o que lhes confere, naturalmente, o galardão de democracias sociais ou social-democracias.

 

Claro que, a montante das motivações próximas no tempo que foram referidas mais atrás, estão as causas remotas e superiores destes conflitos. E lá voltamos ao imperialismo: garantir o acesso aos recursos naturais do planeta e o seu controlo, de modo a assegurar a manutenção e reprodução de sociedades assentes na pilhagem. Sob os pretextos julgados mais verosímeis em cada ocasião, o imperialismo cerca a Rússia, fazendo avançar o seu braço armado para a Europa de Leste e impondo, ou tentando impor, regimes alinhados com os seus interesses no Médio Oriente ‒ na Síria, como na Líbia, no Iraque, no Afeganistão, no Irão, com a preciosa ajuda do regime saudita (perdão, de Riade, pois essa coisa do “regime” é só para a Síria, a Venezuela, Cuba e uns quantos outros países pouco recomendáveis), copiosamente armado pelos EUA para massacrar impiedosamente o Iémen, sem que a nossa imprensa se mostre particularmente chocada, e do Estado sionista, ponta de lança do imperialismo americano no Médio Oriente, que incumpre resoluções da ONU, ocupa parte do território sírio há cinquenta anos, massacra o povo palestiniano (quem se lembra do conluio entre o exército israelita, Ariel Sharon e os falangistas libaneses, na chacina de Sabra e Chatila, em 1982?), o que inclui o uso de bombas de fósforo branco, aliás como prova de que aprenderam bem a lição do amigo americano, perito no uso do Agente Laranja (entre outros medicamentos) nos genocídios que cometeu no Sudeste asiático.

 

Por estas e por outras é que o maniqueísmo faz sentido: há que acreditar mesmo que, de um lado, estão os maus, do outro, os bons. Ainda que, muitas vezes, os bons possam ser apenas menos maus. O que quer dizer que, nas actuais circunstâncias, faz sentido estar do lado de Assad e de Putin, ainda que se discorde das suas políticas em muitas outras. São eles quem se opõe, neste contexto, ao avanço do imperialismo, prestando com isso um notável serviço à humanidade. A esquerda social-democrata achará que é uma execrável visão do mundo a preto e branco, quando ela o vê policromo. Mas a História regurgita de situações em que a esquerda social-democrata se deslumbrou com o arco-íris e perdeu o Norte, mancomunando-se com as forças da regressão social e pactuando com as injustiças inerentes à natureza exploradora e criminosa do capitalismo e do imperialismo. Não será isso mais execrável? 

Tempo e festividade

No ensaio O Sagrado e o Profano – a Essência das Religiões[i], Mircea Eliade reflecte sobre a percepção que do tempo têm o homem religioso e o homem não religioso. A dada altura, escreve: “o homem religioso vive em duas espécies de tempo, a mais importante das quais, o Tempo sagrado, se apresenta sob o aspecto paradoxal de Tempo circular, reversível e recuperável, espécie de eterno presente mítico que o homem reintegra periodicamente pela linguagem dos ritos. Este comportamento para com o tempo basta para distinguir o homem religioso do homem não religioso: o primeiro recusa-se a viver unicamente no que, em termos modernos, se chama ‘o presente histórico’; esforça-se por tornar a unir-se a um tempo sagrado que, de um certo ponto de vista, pode ser homologado à ‘Eternidade’. […] Para um homem não religioso esta qualidade trans-humana do tempo litúrgico é inacessível. Isto é o mesmo que dizer que para o homem não religioso o Tempo não pode apresentar nem rotura, nem ‘mistério’: o Tempo constitui a mais profunda dimensão existencial do homem, está ligado à sua própria existência, portanto tem um começo e um fim, que é a morte, o aniquilamento da existência.”[ii]

 

Em festividades como a do Natal, o homem religioso “reintegra” seguramente o seu Tempo sagrado “pela linguagem dos ritos”. A mensagem bíblica é-lhe familiar: a divindade existe efectivamente, ainda que só a alguns se revele, e o Messias fez-se homem para redimir a humanidade. Celebrando a vinda do Menino com a devida solenidade, o homem religioso une-se a esse tempo sagrado da chegada do Redentor e vive-o com intensidade. As manifestações de júbilo a que o homem religioso se entrega são disso testemunho e prova de que “o homem religioso crê que vive então num outro tempo, que conseguiu reencontrar o illud tempus mítico.”[iii] Como é óbvio, na Páscoa, ocorre idêntica “reintegração” do Tempo sagrado, tratando-se então de celebrar a ressurreição de Cristo.

 

Para o homem não religioso, alheio à circularidade do tempo sagrado, a festividade é entendida como tentativa de presentificação cíclica do que ficou num tempo volvido e já só é susceptível de recuperação através da memória, donde o seu alheamento em relação ao júbilo manifestado pelo homem religioso. Mas que acontecerá com a comemoração[iv] de acontecimentos históricos, quando mesmo o homem não religioso como que se transporta para o tempo mítico de uma realização que o empolga, ou, em sentido inverso, presentifica um tempo volvido? Ele sabe que esse tempo é irrecuperável, o que parece não ser impedimento a que o reviva intimamente. Postulemos que tal experiência resulta de uma certa forma de “religião”: o homem não religioso mas detentor de fortes convicções acaba por se sentir “religado” a todos os seus correligionários, numa relação horizontal, de modo algo semelhante ao do homem religioso, só que, esse, numa relação vertical para com Deus. Este postulado redunda, como se vê, na assunção de que mesmo o ateu é “religioso”: decerto, não crente em Deus, mas crente no sentimento de pertença ao todo da humanidade. Ora a humanidade, entendida quer como conjunto de todos os seres humanos, quer como o conjunto dos atributos presentes em todos nós, acaba por corresponder, e de maneira progressivamente mais perfeita, à ideia de Deus omnipresente, omnividente, omnisciente e omnipotente. O que ainda lhe falta de omnisciência, omnipotência, etc., está a ser cada dia conquistado pela ciência, pela técnica, pelo saber. Temos, assim, que o homem participa desta divindade, que lhe é consubstancial pelo simples facto da sua pertença ao todo. Por outras palavras, se o homem não é Deus, é-o a humanidade.

 

[i] Livros do Brasil, Lx.ª, s/d.

[ii] Pp. 82-84

[iii] P. 98

[iv] Note-se que, para o homem religioso, “a festa não é a comemoração de um acontecimento mítico (e portanto religioso), mas sim a sua reactualização.” Op. Cit., p. 93

"Verónica" - xaropada intragável

Pois é. Íamos ver o “The Post”, mas havia um problema qualquer com o filme, que impedia a projecção. «Vá ver o "Verónica" ‒ é de terror, mas é curto.» Na sala ao lado ia o “Cinquenta Sombras”, mas o senhor deve ter achado que já não temos idade para essas coisas. Lá fomos. Uma jovenzita, aluna de colégio de freiras, a braços com um problema de amenorreia e dada a leituras de obscurantismo (associação explosiva de circunstâncias banais), abre inadvertidamente a porta de acesso ao mundo dos vivos a uma coisa que é designada por “espírito” e “por fantasma” e que no fim se presume ser apenas certa forma de neurose histérica a carecer de urgente psicanálise. A história é sobejamente enfadonha e deixaria qualquer ser pensante a dormir em pé não fosse a estridência dos efeitos sonoros que acompanham o surgimento do dito “espírito” ou das suas manifestações, e que, talvez mais do que as imagens, é de arrepiar ‒ e de levar qualquer um a temer pela salvaguarda dos pobres tímpanos. Comparado com isto, os filmes que mostram cenas da vida post mortem, num paraíso estilo berço de bebé, com almas dotadas de corpo, envergando imaculadas túnicas alvas, não ficam nada atrás em patetice, mas têm a inestimável vantagem de um fundo sonoro mavioso, isento de vibrações estapafúrdias, propriamente celestial.

 

Sai-se da sala com a impressão de se ter passado uma hora e tal com alguém que esteve a gozar connosco, isto é, a tomar-nos por adultos com idade mental abaixo dos oito anos. Parece, contudo, que a coisa aconteceu mesmo, há uns vinte e tal anos, em Madrid, e que a jovenzinha acabou por morrer, o que concita o nosso pesar. De duas coisas estamos certos: a pobre não corre o risco de se encontrar com o “espírito” que a perseguiu em vida e o realizador merece ir para o Inferno.