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Também de esquerda

Espaço destinado a reflexões (geralmente) inspiradas na actualidade e na Literatura.

Também de esquerda

Espaço destinado a reflexões (geralmente) inspiradas na actualidade e na Literatura.

DA COMUNICAÇÃO À OPINIÃO (ou: o intricado processo de legitimação dos poderes)

I

A capacidade de formar, de informar e de influenciar os cidadãos do Estado moderno foi, desde há muito, universalmente reconhecida, e a designação de «quarto poder» veio juntar-se aos tradicionais poderes legislativo, executivo e judiciário cuja separação Montesquieu defende. Longe de ser um revolucionário, o autor de De l’esprit des lois, de 1748, aspirava a uma «monarchie tempérée», algo que, traduzido para o nosso século, equivaleria à «democracia liberal» ou ao «Estado de direito» (com rei ou presidente), isto é, ao sistema dominante no que, sem maiores especificações, poderíamos designar por Ocidente. Em cada época, a diferentes condições materiais de existência correspondem – ressalvadas todas as influências recíprocas – diferentes modos de pensar e diferentes ordenamentos jurídicos, políticos e sociais.

Se, já no Século XVIII, a imprensa desempenha um papel importante na divulgação das Luzes, nunca como hoje os massa media tiveram o poder que têm. Ultrapassado e destronado, Guttenberg foi remetido para um desprezível terceiro ou quarto lugar no campeonato universal dos meios de comunicação de massa encabeçado pela televisão, por sua vez secundada pelas redes sociais.

Se ainda estivesse entre nós, o barão de Montesquieu estaria provavelmente a defender a versão actual da sua «monarquia moderada» e a desancar a «tirania» autocrática de certos «regimes». Salvo se, como excepcionalmente acontece com os privilegiados, reconhecesse o embuste em que facilmente caímos, quando a descendência colateral da maquineta de Guttenberg nos oferece, vinte e quatro horas por dia, um manancial infindo de notícias, reportagens entrevistas e comentários que, qual feixe de luz atravessando lente convergente, incide sobre a zona que a alguns importa iluminar, deixando na penumbra ou na noite mais negra todas as outras.

Como logo se percebe, vem isto a propósito da nossa comunicação social e do papel convincente, eficaz e avassalador que ela desempenha na formação da “opinião pública”. É o processo de legitimação do poder político, do poder comunicacional e até do meu modesto poder, enquanto receptor, que importa aqui indagar, excluindo, por ora, a problemática da exploração dos bons sentimentos dos cidadãos a favor da guerra das audiências e da captação de publicidade – o que ficou recentemente bem demonstrado, aquando do caso do menino marroquino morto no fundo de um poço – e dos seus maus sentimentos, quando se trata de promover a intolerância ou o ódio para com aqueles que divergem da maioria.

II

Rendida, na sua esmagadora maioria, à versão dos acontecimentos que a televisão, em particular, profusamente lhe serve, a opinião do público, homogeneizada, adquire o estatuto de verdade incontestável. Não obstante não ter sido construída graças a um intenso trabalho de pesquisa e análise, de confrontação de dados e concomitante reflexão, essa opinião reivindica a “coincidência” com a versão dominante dos acontecimentos para justificar a sua autenticidade. O senso comum corrobora este raciocínio dedutivo, já que reconhece sistematicamente a razoabilidade da posição maioritária e vê com enorme desconfiança o que contraria o paradigma. Abundam, na história da humanidade, opiniões (um universo com quatro mil anos de existência, espécies animais e vegetais tiradas do nada tal como são hoje, casal primordial de que todos descendemos, Terra plana no centro do universo, etc.) que eram as verdades oficiais de cada época, partilhadas por multidões, e que a ciência paulatina (e sacrilegamente) desconstruiu, arrostando com a repressão, a perseguição e a morte.

Indo além disso, não se limitando a ser verdadeira, a opinião do público é ainda SUA, no pleno sentido do possessivo. Porquê? Porque, obnubilada a consciência de que a versão em causa lhe foi transmitida por um agente exterior, a opinião de cada um e de todos (de facto, da esmagadora maioria) adquire o estatuto de opinião autónoma. Autónoma, porque fundada em “dados objectivos”, constantes de reportagens e entrevistas aos quais atribui validade inquestionável; autónoma, também, porque assente num esboço de reelaboração pessoal subsequente, pouco importando que o crivo do escrutínio crítico do seu possuidor, na melhor das hipóteses, tenha intervindo muito fugazmente e não lhe tenha ocorrido questionar os critérios subjacentes às escolhas de intervenientes, de locais, de momentos. (Quem desconhece a prática televisiva que consiste em filmar zonas previamente definidas de um comício, de uma manifestação, etc., ou a entrevista informal feita a um transeunte previamente auscultado?)

Longe de lhe suscitar dúvidas quanto à genuinidade de uma opinião de facto veiculada por canais informativos que dão uma visão filtrada da realidade, (sendo que, aqui, “filtrada” é necessariamente sinónimo de “truncada”) a constatação pelo receptor de que a sua opinião coincide com a dos concidadãos, reforça a sua convicção de que ela é autónoma e de que essa coincidência a valida definitivamente. Uma vez que aquilo que lhe é, demorada e criteriosamente, instilado acaba por ser sentido como seu, o cidadão fica sinceramente persuadido de que pensa pela sua cabeça. No fundo, trata-se de um processo com muito de semelhante ao processo educativo: se a educação incute princípios, crenças e modos de ver o mundo, orientando o nosso foco observacional e condicionando o nosso comportamento, a partir da infância, os massa media “educam-nos”, na idade adulta.

A versão oficial dos acontecimentos é, pois, legitimada pelo seu carácter dominante. Sendo partilhada, ab initio, pelo maior número de receptores, duvidar da sua autenticidade, recusar a evidência mediática, constitui como que um acto de rebeldia sujeito à censura social, e o opinante minoritário é visto como elemento associal. De resto, o discurso oficial beneficia, à partida, da legitimação resultante de ser o discurso do poder político, poder este que, se hoje já não carece da bênção eclesiástica, não deixa de ser percepcionado como reflexo do poder divino na esfera temporal. Com efeito, ele usufrui de uma aura que reflecte o freudiano “complexo paterno”, com raízes na horda primitiva e no “assassínio do pai”. O sentimento de culpa / pecado é permanentemente alimentado pelo discurso religioso, de par com o dever de observância da autoridade (verdadeiro “imperativo categórico”, incondicional) já que esse poder político é o executor de um mandato outorgado pelo Criador, a fim de assegurar a prossecução dos Seus desígnios na Terra («o príncipe é ministro de Deus para bem teu». S. Paulo, Epístola aos Romanos). E todo o aparelho institucional (Igrejas, Escola, Órgãos de comunicação) participa activamente na reprodução ininterrupta dessa crença.

Recapitulando: aceite a versão oficial como verdade incontestável e assimilada à opinião pessoal de cada um, esta passa a gozar de um acréscimo de legitimação: ao invés de ser percepcionada como reflexo de uma opinião pré-existente, a adesão ao discurso oficial é sentida como coincidência deste discurso com a sua própria opinião e, se o discurso dos media coincide com a sua opinião pessoal, não só esta é necessariamente verdadeira como beneficia da carga emotiva suplementar resultante da gratidão por se ver reconhecida: não sou eu que partilho a visão dos media; são os media que partilham a minha visão dos acontecimentos. Nada poderia ser mais gratificante.

Em suma, aquilo que não passava, à partida, de uma versão truncada e tendenciosa dos acontecimentos torna-se a opinião universal, serve os interesses imediatos de uma das partes envolvidas nos acontecimentos e, de caminho, legitima um aparelho de guerra ideológica que enverga o camuflado diáfano de “órgão de comunicação social”.

III

A questão da legitimação é importante, se não mesmo fundamental, por representar um valor acrescentado de prestígio e de aceitabilidade irrecusável: o que é legítimo funda-se na razão e está naturalmente justificado.

No caso concreto da informação sobre a Rússia e a Ucrânia, nos dias que precederam a intervenção militar russa, só muito raramente uma voz dissonante se fez ouvir ou ler e introduziu os ruídos de uma “revolução laranja” que teria sido um golpe de Estado, em 2014; de um nazi de nome Stepan Bandera arvorado em herói nacional; de milícias neonazis integradas na guarda nacional ucraniana; de ataques a populações russófonas nas províncias separatistas; de um cerco à Rússia montado pela NATO, …). Todas estas notas dissonantes foram desvalorizadas, relativizadas ou silenciadas, quer pelos comentadores, invariavelmente defensores da superioridade moral do modelo de desenvolvimento económico e de organização político-social do Ocidente, quer pelo foco permanente em movimentações e entrevistas de cidadãos ucranianos, cujos receios eram legítimos e compreensíveis, mas cujas opiniões são formadas segundo modelo certamente muito semelhante àquele que nos cabe em sorte.

Após a invasão do território ucraniano pelas tropas russas, a cobertura televisiva apenas redobrou de empenhamento na promoção da sua perspectiva, desta feita, porém, gozando de uma justificação: a clara violação do direito internacional pela Rússia, facto objectivo e indesmentível.

O que retira legitimidade à justificação é que, noutras violações claras e indesmentíveis do direito internacional (na Jugoslávia, no Iraque, na Líbia, na Síria) a cobertura noticiosa primou pelo recato, pela discrição, pela urbanidade. O parti pris da visão maniqueísta mantém-se; objectividade e isenção dispensam-se.

Não se trata aqui de exprimir surpresa ou decepção; nem sequer discordância. Trata-se de constatar que é assim mesmo que a comunicação social funciona nas democracias liberais, sendo que a distinção em relação ao tratamento dado aos conteúdos informativos no regime autocrático russo passa pela comparação entre os respectivos graus de verosimilhança: a informação deste último é, em muitos casos, facilmente sentida como instrumental e inverosímil (a mensagem da comunicação social russa é muito pouco convincente), enquanto a das democracias liberais, que conta, à partida, com uma grande aceitação por parte do receptor, é objecto de um savoir-faire inegável, o que lhe confere um elevado grau de confiabilidade.

Na sua obra O Estado, Georges Burdeau explica assim a evolução do mecanismo de legitimação do poder político:

«Se os chefes dão tanto valor a que os considerem legítimos, é porque a legitimidade lhes traz um acréscimo de autoridade que eles não podem receber senão daí. Ao Poder que se impõe, ela acrescenta a qualidade que se liga a um Poder consentido, porquanto ninguém tem a possibilidade de se pretender autoridade legítima se não for reconhecido como tal. […] Enfim, ela introduz o Poder no universo mágico das representações e das crenças dotando-o de todos os prestígios que lhe vêm do que os homens julgam ser a natureza dele. Metamorfose moderna da sacralização do Poder, a legitimidade laiciza o seu fundamento sem lhe enfraquecer a solidez, visto que substitui a investidura divina pela consagração jurídica.»

Se o poder político se legitima pela consagração jurídica (agora que a “investidura divina” passou à História), o poder mediático legitima-se pela apropriação individual de que a sua mensagem é objecto: feita “opinião pública”, perdida a relação causal entre essa mensagem distorcida e a “opinião” que ela gera, o poder mediático ascende à condição de sentir do povo, de expressão da consciência colectiva. Está consumada a sua função mistificadora e alienante.

Neste contexto, os defensores de uma visão dos acontecimentos não inteiramente sobreponível à dominante são genericamente tratados como estando desfasados, fora da História, e como defensores de regimes autocráticos, quando não acusados de coisas piores. Alguns militares que se distinguiram ultimamente por introduzir no comentário televisivo variáveis de análise que se caracterizam por trazer à colação aquilo que o discurso normativo silenciara são desqualificados e sistematicamente apodados de colaboracionismo com o regime russo.

É possível descortinar nestas acusações alguma justificação, uma vez que os opinantes minoritários dão, geralmente, maior ênfase, no caso do conflito em curso, aos desmandos dos EUA/EU/NATO do que aos de Putin. Porém, dar maior ênfase a uns não significa ignorar ou aprovar os outros. Enfatizar significa, sim, que os opinantes minoritários entendem, tudo ponderado, que a parte que goza da simpatia da comunicação social dominante poderá ter (ou tem, inequivocamente) uma responsabilidade no desencadear do conflito que é geralmente ocultada, não lhes cabendo, a eles, amplificar o conhecido coro uníssono, pois, nesse caso, abdicariam de acrescentar algo à leitura oficial dos acontecimentos.

Em abono desta perspectiva, é notório que os defensores das democracias liberais omitem pormenores relevantes para uma cabal compreensão do que está em jogo:

  1. Os “regimes autocráticos”, que dizem ser defendidos pelos minoritários, são geralmente países que enveredaram por modelos de desenvolvimento económico e de organização político-social não alinhados com os do Ocidente. Como, entre os Romanos, os bárbaros, esses “regimes” não falam a língua do Império. São, por isso, sujeitos a sanções e sabotagens tais que se vêem impedidos, durante longos períodos, de ascenderem aos níveis de vida a que todos aspiramos. Os casos da Cuba socialista, da Venezuela bolivariana, da Síria martirizada, da Líbia que recuou no tempo, são casos paradigmáticos de bloqueio, embargo e acções desestabilizadoras por parte dos EUA, insensíveis às atrocidades cometidas pelos seus amigos sauditas, no Iémen, e israelenses, na Palestina. E, se a tão aclamada liberdade de expressão das democracias liberais é, de facto, fortemente condicionada em muitos “regimes autocráticos”, a honestidade intelectual suscitaria algumas perguntas e arriscaria algumas respostas: 1.º, a liberdade de expressão que nós conhecemos não é, ela mesma, o expoente máximo do condicionamento da liberdade? Parece que sim, uma vez que logra a proeza de nos levar a considerar “nossa”, “pessoal”, “autêntica”, a opinião que nos foi inculcada pela comunicação social. Por outro lado, alguém conhece algum órgão de comunicação social que dê ao contraditório o espaço mínimo necessário, não sequer para contraditar, mas simplesmente para completar a informação? 2.º, sem o condicionamento da liberdade de expressão nos tais “regimes”, seria viável um modelo de desenvolvimento e de organização político-social distinto do que vigora nas democracias liberais? O Chile de Allende, a Bolívia de Morales, a Venezuela e a Síria parecem dizer-nos que não; 3.º, a autocrática Federação Russa é equiparável a “regimes” onde, por vias diversas, se propugna a construção do socialismo? Não. O capitalismo russo não é diferente do capitalismo americano ou europeu, assim como o capitalismo da Alemanha nazi não era diferente do capitalismo das democracias ocidentais que, em 1938, e em Munique, pactuaram, pondo a União Soviética à margem. Não são diferentes, mas têm interesses próprios, contraditórios – e a geopolítica dá-lhes expressão.
  2. As pessoas que buscam refúgio e melhores condições de vida nas democracias liberais foram, quantas vezes, obrigadas a fugir das suas pátrias – vítimas do colonialismo, do neocolonialismo, das missões ditas humanitárias, de intervenções militares dessas mesmas democracias e do terrorismo que tudo isso tem incentivado, por via da humilhação a que esses povos têm sido sujeitos ao longo de décadas – para não trazer à colação as cruzadas e a defesa da fé e do império, que têm séculos de história. Relativamente ao terrorismo islâmico, como não recordar Mário Soares, que, um dia, disse não justificar, obviamente, mas não deixar de compreender, esse terrorismo, o terrorismo dos que têm a bomba, mas não o bombardeiro. O incómodo sentido por aqueles que não justificam o terrorismo, mas não se limitam a condenações liminares, porque o contextualizam no âmbito das humilhações infligidas ao mundo muçulmano, e por isso o compreendem, tem alguma semelhança com o que hoje sentem e exprimem em relação à invasão russa da Ucrânia: injustificável, mas explicável, isolá-la do contexto é apagar esse contexto. Mário Soares foi gentilmente criticado, na altura; os que hoje não justificam, mas compreendem, arriscam-se a ser lapidados.
  3. As democracias liberais, apresentadas como inultrapassáveis modelos de virtude e de bem-estar, ergueram-se e mantêm-se hoje, em larga medida, graças à exploração das riquezas alheias e de um proletariado deslocalizado para o Terceiro Mundo. De resto, para se ter uma ideia dos níveis de desigualdade e injustiça social que caracterizam a sociedade capitalista e a sua configuração democrática liberal, os números seguintes são esclarecedores: « […] os EUA oferecem um exemplo perfeito. Os 50% mais pobres possuem 2% da riqueza do país, mas o 1% mais rico, que possuía ligeiramente menos de 25% da riqueza do país no final dos anos 70, possui agora mais de 40%. E o 0,1% de americanos mais ricos, um grupo de umas 160 mil pessoas, possui cerca de 22% da riqueza do país e conseguiu captar mais de metade da riqueza gerada nos EUA entre 1986 e 2012. […] os EUA estão hoje numa situação em que o 0,1% mais rico detém tanta riqueza como os 90% mais pobres todos juntos.» O autor das palavras que acompanham estes números, tão esclarecedores quanto aterradores, é insuspeito, suponho: Daniel Susskind, autor de Um Mundo sem Trabalho, trabalhou com o Governo britânico como conselheiro político da Strategy Unit do primeiro-ministro, como analista de políticas na Policy Unit no n.º 10 de Downing Street e como analista político sénior no Cabinet Office.
  4. O afastamento do espectro da guerra na Europa, com o advento da Comunidade / União Europeia, e deixando de lado o episódio de bombardeamento e desmembramento da Jugoslávia, em 1999, tem servido de alimento à ficção de que a construção de uma Europa de paz se deve a esse processo de integração. Obnubila-se, assim, a realidade dos múltiplos conflitos em diferentes continentes que têm como causas próximas ou remotas as políticas implementadas pelo imperialismo, na sua busca constante de controlo dos recursos energéticos imprescindíveis à reprodução de uma economia predadora. As deslocalizações não se limitaram ao aparelho produtivo e ao respectivo proletariado; também as guerras foram deslocalizadas para regiões distantes, preservando o casto olhar democrático e liberal das atrocidades comprometedoras da boa consciência ocidental.

Porém, nada disto impressiona a auto-suficiência e a arrogância dos prosélitos do liberalismo ou de uma social-democracia que vai da direita educada a uma esquerda bem-pensante, acima de tudo empenhada em preservar os sacrossantos alicerces do capitalismo. Mesmo quando reclamam a herança de Jean Jaurès, esquecem-se oportunamente do discurso em que este, nas vésperas do deflagrar da I Guerra Mundial, exortando os socialistas a evitar a guerra, proferiu a célebre frase «le capitalisme porte en lui la guerre comme la nuée porte l’orage». Em 1914, como hoje, vingou a União Sagrada dos prosélitos de Fukuyama – com o capitalismo, a História chegou ao fim.

«Metamorfose moderna da sacralização do Poder, a legitimidade laiciza o seu fundamento sem lhe enfraquecer a solidez, visto que substitui a investidura divina pela consagração jurídica», diz Georges Burdeau, a propósito da “legitimação” e da “autoridade”. A comunicação social que impera entre nós não carece da “investidura divina” e goza, naturalmente, de “consagração jurídica”, mas, acima de tudo, beneficia do processo insidioso de legitimação da sua autoridade atrás descrito. Essa “autoridade” assenta na instilação contínua de um conjunto de valores veiculados por um discurso codificado: temos um “governo português” ou uma “administração americana”, mas um “regime” cubano, russo, venezuelano… Os “oligarcas”, são quase sempre Russos que enriqueceram graças à apropriação de património do Estado, na sequência da derrocada da URSS, e que têm influência na condução do país, mas alguém alguma vez ouviu chamar “oligarca” aos banqueiros, aos gestores, aos ministros e outros responsáveis políticos e respectivas famílias que, se não conduziram à derrocada da República, têm-na comprovadamente prejudicado, locupletando-se com o dinheiro de todos nós e deixando-a no estado que sabemos?

Termos em que, mais do que órgãos de comunicação social, temos órgãos de mistificação social, o que é natural, numa democracia em que os cidadãos gozam da ampla liberdade de votar livremente naqueles que os ludibriam e exploram, graças à preciosa cooperação da tal comunicação social.

Surpreendente? Nem por isso. A comunicação social ou é propriedade privada dos detentores de fortunas e meios de produção ou é propriedade pública do conselho de administração dos seus negócios – aquilo a que damos o nome de Estado.

20 de Março de 2022

Fernando Martins

CARTA ABERTA AO PAI-NOSSO (Com conhecimento a Sua Excelência o Senhor Ministro dos Negócios Estrangeiros, zeloso administrador dos santos interesses do Mundo Livre)

 

CARTA ABERTA AO PAI-NOSSO

(Com conhecimento a Sua Excelência o Senhor Ministro dos Negócios Estrangeiros, zeloso administrador dos santos interesses do Mundo Livre)

 

Pai-nosso que estais nos céus, santificado seja o vosso nome.

Bem sabeis quão pouco dado sou a dirigir-vos a palavra, que a consciência culposa de um insano ateísmo militante, ma tem arredada de tão exultante exercício.

Circunstâncias excepcionais, porém, me induzem a fazê-lo. Sabeis, necessariamente (ou não fosse, por definição, omnisciente a Vossa infinita sabedoria) da pavorosa insídia que seitas heréticas oriundas da estepe gelada congeminam e activamente promovem contra inofensivos cordeiros que apenas buscam um abrigo no acolhedor redil da santíssima NATO – parente chegada da Virgem Maria, também conhecida por Mãe de Deus, ainda que não exactamente Vossa Mãe.

Ouvi, pois, Deus meu: quão indesculpável seria a Vossa santíssima sabedoria, negando a santa oportunidade de defender os valorosos combatentes da Santa Madre Igreja da Liberdade Ocidental contra os satânicos cossacos do Leste! Aproveitai a ocasião, se me é permitido usar de formulações tidas por marca de oportunismo humano, e permiti que um denodado combatente pela liberdade (de iniciativa) e pela soberania (do capital financeiro) – daqueles que, ao fim-de-semana, se treinam nos arredores de Kiev, com armas feitas de pau, e acompanhados pelos miúdos, futuros émulos dos colegas de Columbine – seja oportunamente municiado pelo consórcio Biden-EU-NATO, de modo a atingir, por descuido, o torpe ismaelita, aliás russo, do outro lado da fronteira, que, se Vós quiserdes, cairá na tentação de ripostar.


No fundo, fareis, com isso, algo como uma reedição do assassinato do arquiduque, em Sarajevo, ainda que num cenário um pouco menos bucólico, desta feita, mas, em compensação, com um saldo superior aos quinze milhões de almas levadas à época para os santos aposentos que, para nós, tendes destinados no Céu.


A Vossa Providência logrará livrar a Europa dos problemas de sustentabilidade da Segurança Social, e o caminho da reconstrução, reconhecidamente proveitoso para a recuperação de altos níveis de desenvolvimento, estará assegurado.


Concluo, solicitando ainda que venha a nós o Vosso arsenal de curto e médio alcance e que seja feita a Vossa vontade, assim na terra, como no mar e no ar, pelos três ramos das forças armadas.


Perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos àqueles que se queixam da nossa comunicação social e dos comentadores aleivosamente caluniados e não nos deixeis cair na tentação, mais livrai-nos do Eixo do Mal. Amem.

RAYAN, A TENSÃO NA FRONTEIRA DA UCRÂNIA COM A RÚSSIA, O PODER DAS TVS E OUTRAS COISAS À MISTURA

RAYAN, A TENSÃO NA FRONTEIRA DA UCRÂNIA COM A RÚSSIA, O PODER DAS TVS E OUTRAS COISAS À MISTURA

 

Durante dias, as televisões mantiveram-nos amarrados aos ecrãs dos nossos receptores com as imagens comentadas das operações de salvamento de uma criança marroquina que ninguém conhecia no mundo inteiro, com a excepção dos seus parentes e vizinhos.

Sem detenças desnecessárias na afirmação de bons sentimentos, (que a morte de uma criança é sempre motivo de dor e compaixão, mesmo para aqueles que nunca a viram), há dois aspectos, aliás interdependentes, que merecem uma curta reflexão:

Aspecto 1. O poder descomunal que têm as tvs de activar as nossas glândulas lacrimais, quando isso serve os seus interesses económicos (guerra das audiências e mercado publicitário)

Quanto a este ponto, basta pensar-se, a contrario sensu, na nossa reacção à notícia da morte de crianças palestinianas por acção de soldados israelitas. As TVs relatam a ocorrência com a brevidade própria do flash e do fait-divers, parcimónia de pormenores e referência às versões contraditórias das partes (objectividade jornalística oblige): os soldados atiraram a matar / a criança lançou-lhes pedras ou integrava um grupo de manifestantes anti-sionistas. São crianças, mas não lhes é concedido o estatuto mítico do anjo, de mais uma estrela no céu e blá-blá-blá. Reacções dos espectadores: «Não há meio de se entenderem!», «Não aceitam a coexistência pacífica com o Estado de Israel!...», «São terroristas!», e etc. Nem a recente evolução do discurso da Amnistia Internacional, que já fala do «apartheid» israelense, alterará a opinião solidificada.

Aspecto 2. A eventual replicação do fenómeno, no plano político, embora com a intervenção de outras glândulas e com consequências mais destrutivas.

Esta abordagem carece, obviamente, de maior ponderação, mas, não sendo este texto um rascunho prévio a uma tese de doutoramento, arriscaria o seguinte, recorrendo ao prato forte da actualidade internacional, a chamada “tensão na fronteira entre a Ucrânia e a Rússia”:

a) As nossas TVs, quando está em causa uma relação potencialmente conflitual entre aquilo a que chamam “regimes”, isto é Estados não alinhados com o figurino institucional do Ocidente capitalista e, particularmente, com as suas parcelas estado-unidense e europeia unida, adoptam invariavelmente o ponto de vista das últimas, que são apresentadas sob a luz da mais imaculada democracia e insusceptíveis de questionamento quanto às suas virtudes. Os Estados que enveredaram por outras vias de desenvolvimento e de organização política, ou que, simplesmente, entendem não aceitar o policiamento dos EUA/UE/NATO, esses, merecem um tratamento cáustico, denunciador de uma rejeição apriorística, ou não estivessem as TVs cientes de que o seu endoutrinamento fez o seu curso e a aceitação acrítica pelos telespectadores da sua visão tendenciosa é um dado adquirido.

Este estado de coisas é perfeitamente compreensível, numa sociedade onde, naturalmente, os meios de comunicação, públicos ou privados, são detidos pela classe dominante. Por conseguinte, a parcela minoritária da população que se apercebe da acção mistificadora da comunicação social acaba por adoptar uma de duas atitudes: ou verbaliza o seu desgosto, através da censura expressa, ou exprime friamente a sua convicção de que o papel desta comunicação social é aquele que lhe cabe na sociedade que é a nossa e só a abolição dos seus fundamentos permitirá outro estado de coisas. Em ambos os casos, a TV, em particular, ignorará tais reacções, e, não passando na TV, elas não existirão. O que não existe para a TV, pura e simplesmente não existe. As próprias vítimas da mistificação / alienação, não tendo consciência dela, tenderão a ver, nos críticos não desistentes, uma espécie de quixotes empenhados em combater gigantes que não passam de moinhos de vento. Do mesmo modo que tenderão a ver, nas considerações sobre a informação distorcida, enviesada, tendenciosa e, no limite, criminosa, sobre as “tensões” internacionais, uma reflexão distorcida, enviesada, tendenciosa e, no limite, criminosa, tendente a branquear a política agressiva de uma potência que já foi comunista e que poderá não se ter desfeito totalmente dessa herança. Ora, em relação ao comunismo, estamos conversados: tivemos quarenta e oito anos seguidos de quase mais outros tantos para dele conhecermos todas as malfeitorias. Já em relação às invasões, ingerências, intervenções ditas humanitárias, promoção de acções desestabilizadoras de “regimes” pouco recomendáveis levadas a cabo pela democrática sociedade EUA/EU/NATO, de pouco vale a memória dos que se lembram ainda das pinochetadas, das armas de destruição maciça, e por aí adiante.

Voltando à Ucrânia, quase apetece sugerir a Lavrov que proponha aos seus interlocutores da NATO o seguinte acordo: a Ucrânia adere à NATO e, em contrapartida, “regimes” da América Central como Cuba, a Venezuela bolivariana, a Bolívia evo-moraliana são convidados a aderir à Organização do Tratado de Segurança Colectiva. Como irá reagir o farol da democracia? Que leitura isenta e objectiva farão disso as nossas TVs?

IN NOMINE PATRIS ET FILII ET SPIRITUS SANCTI

«Engraçado..! Porque será que os demônios só existem na cabeça das pessoas que acreditam em deus? O pior é que dizem que foi o próprio deus quem criou o demônio! Ironicamente penso eu que; deus após criar o mundo, deve ter se sentido muito enfadonho, sentiu que após todos os seus feitos, precisava de um desafio ainda maior.. e em razão disso, resolveu conceber uma entidade para ser um inimigo de si próprio. Ou seja; uma criatura para ser o contraditório de si mesmo! Bom..! Acho isso uma grande ironia.. para não dizer outra coisa!!»

Magno Erasmo Teixeira, in Freud & Nietzsche

 

O monoteísmo judaico-cristão tem destas bizarrias: um Deus trino (Pai, Filho e Espírito Santo), um Demónio, anjos e arcanjos, santos e santas padroeiros disto ou daquilo – tudo entidades que partilham o poder divino, como acontecia nas mitologias politeístas. No caso de Satanás, é até mais do que partilhar – trata-se de autêntica concorrência. O poder demoníaco é tal que lhe devemos a nossa existência, enquanto seres dotados de História. Com efeito, foi ele quem, disfarçado de serpente, tentou Eva, que, por sua vez, tentou Adão e os levou, ambos, à expulsão do Éden. Ora a saída do Éden corresponde ao surgimento da humanidade sofredora e criadora, que é a nossa condição. Sem o Demónio e a coragem indómita de Eva (que cobardolas, aquele nosso Pai Adão!), ainda hoje* estaríamos a perambular num romântico jardim, repleto de flores e de gorjeios, mas sem qualquer capacidade de iniciativa, insípidos e desenxabidos como qualquer santo de macacaúba, limitados a uma contemplação acrítica, abúlica e aparvoada. Sem História. Dêmos graças à mãe Eva que, muito antes de Nietzsche, não só anunciou como executou, de facto, a morte de Deus, acedendo à Ciência. É de elementar justiça reconhecer igualmente a importância do autor moral – Satanás, conforme já ficou expresso e conta com a certificação da Bíblia Sagrada.

O Diabo está, pois, presente, desde o Génesis, e só pode ter sido obra de Deus. Uma criação de tal modo bem sucedida que acabou ultrapassando o seu criador. (Não é raro os alunos ultrapassarem em sapiência e notoriedade os seus professores…). O que não significa que não devamos reconhecer as Suas qualidades. Uma delas, raramente referida, é o gosto pela leitura.

Embora não disponha de informação certificada sobre a matéria, estou em crer (…) que Deus terá lido as catilinárias de Nietzsche sobre Ele e sobre a religião, bem como as obras em que Freud revela segredos perturbadores sobre a Sua origem nas mentes humanas. Tudo isto ainda antes da expulsão dos nossos pais primordiais. Como nos admirarmos, então, daquela ira que O levou a pôr querubins e uma espada inflamada em redor do Éden para que os desobedientes não mais lá pudessem voltar?

Porém, uma vez refeito da afronta, Deus reconsiderou. Reconsiderou (o que é sempre sinal de bom senso) e, ao reconsiderar, lembrou-se de ter lido também Hegel e Marx. Ora, ao lembrar-se do que lera, percebeu, na Sua infinita sabedoria, que tudo o que criara encerrava em si a contradição dialéctica: a afirmação do fruto é a negação da flor, a espiga afirma-se negando a semente que lhe deu origem, e por aí adiante. Logo, o progresso só é possível pela luta dos contrários: Ele era a Tese, o Diabo, a Antítese, e como a Tese era idealista e a antítese materialista, a síntese que somos ficou embebida de vestígios genéticos da Tese e fortemente impregnada da forte carga material da Antítese, o que é facilmente observável sem recurso a sofisticados instrumentos de observação, quer nas redes sociais, quer nos contactos presenciais com os nossos semelhantes.

Fiquemos, pois, gratos ao Demónio e a Eva, por nos terem livrado daquela parvalheira do Éden, e a Deus por ter assimilado divinamente os princípios do materialismo dialéctico.

Amen.

***

Post Scriptum: embora possa parecer, a intenção não é nem de convencer nem de ofender quem quer que seja; apenas a de exprimir com alguma ironia uma opinião pessoal desassombrada. Contudo, se for entendido como ofensivo, apelo para a compreensão e generosidade cristãs de quem assim o entender, no sentido de fazer o seguinte exercício: imagine a violência a que está sujeito o não crente, no seu dia-a-dia, num mundo repleto de fórmulas e designações sagradas, de profissões de fé, de liturgias. É como viver no Inferno.

 

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* Aproximadamente seis mil e vinte e cinco anos depois da Criação, segundo o bispo Meath, chanceler-mor da Sé de S. Patrício, que situa a Criação no mês de Outubro do ano 4004 antes de Cristo.

SEMÁFOROS E JUSTIÇA

Há uma curiosa semelhança entre o funcionamento dos semáforos que passam a vermelho quando se excede o limite de velocidade e o funcionamento da sociedade em que vivemos.

Acontece-me com frequência ficar retido num daqueles semáforos, não por ter excedido o limite de velocidade, mas, pelo contrário, porque, tendo-o respeitado, alguém me segue a velocidade mais elevada e passa ainda com o verde. Com isso, lucra o prevaricador e é penalizado o cumpridor. Como a perfeição não é qualidade que eu possa reivindicar, confesso que também já me aconteceu cometer idêntica transgressão. Empenho aqui, todavia, a minha palavra de honra: foi por distracção. Ora a justificação da inadvertência não é coisa que me esteja reservada. Admito, por isso, que possa acontecer o mesmo com qualquer outro cidadão, tal como eu, incapaz de cumprir a sua caminhada existencial sem que se lhe possa apontar o mínimo deslize. Mas também acredito que haja alguns condutores, ainda menos isentos de imperfeições, que o fazem deliberadamente, sabendo que seguirão em frente, deixando os cumpridores retidos. Uma vez por outra, talvez aconteça um agente camuflado nos arbustos aplicar ao infractor a merecida coima.

Feita a observação com as devidas advertências, o que mais importa é pôr agora em evidência a estreita semelhança entre o que se passa com estes semáforos e o que se passa com a nossa sociedade.

Não é segredo para ninguém que, todos os dias, um sem-número de honestos cidadãos cumpridores da lei e dos ditames da decência penam no seu dia-a-dia laborioso para assegurar a sua difícil sobrevivência, pagando as suas contas e esforçando-se por nada ficar a dever a ninguém. Eles até podiam invocar a inadvertência, para omitirem o pagamento de uma factura aqui, outra acolá; podiam mesmo prevalecer-se da pouca sorte de terem nascido pobres para justificar o eventual assalto a uma instituição financeira ou a conivência de amigos bem colocados para transaccionarem influências e coisas do género – mas não! Preferem permanecer fiéis a normas de conduta que lhes foram incutidas e a que eles conferem o carácter categórico do imperativo kantiano. Ao mesmo tempo, todos os dias (ou quase) somos bombardeados com notícias de banqueiros, ministros, CEOs de grandes empresas, dirigentes desportivos, altas individualidades (como se usava muito dizer), gente importante, enfim, que desrespeitou, não o limite de velocidade, mas os limites da legalidade, da honestidade e da decência, durante anos, usufruindo de enormes somas de dinheiro e de toda a espécie de bens e regalias, sem que tenham sido retidos ou, neste caso, mais propriamente, detidos. Por via de regra, só depois de terem demoradamente usufruído daquilo que lhes não pertencia são instados a prestar declarações, em processos que se arrastam o tempo necessário para que atinjam o fim do seu trajecto existencial sem grande perturbação do seu modus vivendi.

Parece ficar assim demonstrada a discutível eficácia dos semáforos. E a da justiça. Não tanto aquela cuja administração incumbe ao sistema judiciário, mas antes a justiça inerente à natureza do sistema tout court. Como, em relação a esta última, não vejo qualquer possibilidade de correcção, dentro do actual quadro sociopolítico, sugiro às entidades competentes que revejam o funcionamento dos semáforos: uma hipótese seria retirar ao vermelho a sua carga proibitiva e fazer dele a cor indicativa de que se pode avançar.

Declaração de interesses: o vermelho é a minha cor preferida.

ENUNCIADO PERFORMATIVO E OMNIPOTÊNCIA DO PENSAMENTO

ENUNCIADO PERFORMATIVO E OMNIPOTÊNCIA DO PENSAMENTO

(Adenda ao post Convenções sociais, bordões linguísticos e mitologias degradadas)

Em linguística, designa-se enunciado performativo aquele que, no acto da elocução, “faz” aquilo que diz. Por exemplo, quando dizemos a alguém «Obrigado!», estamos, de facto, a agradecer (dizer é fazer). Com os votos de «Bom ano» e outros, essa dimensão performativa ocorre também (aliás, também dizemos «faço votos por que…», ou seja, mais do que “dizer”, “faço”), mas suponho que, a esta dimensão performativa, subjaz uma outra, mais profunda e inconsciente, de carácter mágico. O locutor, sem disso se aperceber, crê na omnipotência do seu pensamento, isto é acredita que, com alguma sorte, o seu voto de bom ano tenha o poder de se concretizar.

Mitologia degradada (Eliade), omnipotência do pensamento (Freud), «o papel espantoso, disfuncional e funcional, da irracionalidade na racionalidade (e a inversa)» (Morin). Alguma vez renunciaremos ao mito?!

Convenções sociais, bordões linguísticos e mitologias degradadas

Exceptuando os casos – em princípio, raros – de isolamento voluntário ou forçado, como animais gregários, que somos, vivemos em sociedade e cumprimos certo número de convenções que constituem como que uma senha de acesso ao convívio com nossos semelhantes. Uma dessas convenções, talvez a mais generalizada, consiste em saudar. «Salve» e «Ave» estando hoje circunscritas ao registo religioso ou irónico, dispomos do «Bom dia», «Boa tarde», «Como está?», etc., correspondentes laicas das anteriores saudações. Não saudar o concidadão de uma maneira ou de outra representa uma falta de cortesia ou até manifestação de desprezo, apenas desculpável se o objecto da nossa interpelação for de pouca importância, de rápida resolução e introduzido por uma fórmula desculpabilizante: «Perdão, sabe dizer-me se o autocarro já passou?» Frequentemente, a saudação nem sequer constitui um primeiro passo no entabulamento de qualquer comunicação formal; funciona, então, como sinal de identificação comunitária: ao chegar à paragem do autocarro, digo apenas «Bom dia!» aos presentes; porém, a mensagem implícita é bem menos lacónica: «Não nos conhecemos, mas pertencemos à mesma comunidade de pessoas sérias e empenhadas no bem colectivo, pelo que me compraz terdes um bom dia de trabalho, de estudo ou de lazer.» Havendo poucas pessoas à espera do autocarro, é provável que me retribuam a saudação, como sinal de que sou bem-vindo. O cão talvez abanasse a cauda, e o gato … sei lá, arqueava o dorso? O que é certo é que todo o inexpresso está bem escondido – eventualmente, no sistema límbico –, e apenas aflora o «Bom dia!».

 

Nas chamadas quadras festivas, a estes cumprimentos de todos os dias juntam-se os votos: é o «Feliz» ou «Santo Natal», o «Bom ano», as «Boas Entradas em 2022», a «Páscoa Feliz». Não são saudações, mas não deixam de ser uma convenção, e o cidadão que se abstém de desejar um «Bom ano» ao seu vizinho será visto, no mínimo, como antipático.

 

Acontece que, se o «Bom dia» e «Boa tarde» não transportam consigo nenhuma carga emotiva que emissor e receptor percepcionem conscientemente, pouco mais representando, em geral, do que um livre-trânsito para a entrada em diálogo com quem quer que seja, já os votos de «Bom Natal» ou «Bom ano» encerram frequentemente uma significativa carga de júbilo. Em muitos casos, há ainda um grande despojamento na formulação do voto (o emissor pretende apenas dar mostra de cortesia para com o receptor), mas é, de facto, frequente essa formulação estar fortemente impregnada de um sentimento de comunhão com o outro, como se aquele concidadão, até aí indiferente, apenas mais uma das pessoas com quem diariamente interagimos esporádica e superficialmente, adquirisse naquele instante uma dimensão excepcional, e ele passasse a ser, por instantes, um verdadeiro irmão, numa relação de comunhão connosco, qualitativamente diferente da identificação comunitária dos utentes de transportes públicos.

 

Suponho que este substancial acréscimo de afectividade na pragmática linguística tem uma motivação de carácter mítico que procurarei esclarecer.

 

Mircea Eliade caracteriza de forma magistral a diferente percepção que temos do tempo, em função da nossa relação (ou ausência dela) com a divindade: Enquanto «o homem religioso vive em duas espécies de tempo, a mais importante das quais, o Tempo sagrado, se apresenta sob o aspecto paradoxal de um Tempo circular, reversível e recuperável, espécie de eterno presente mítico que o homem reintegra periodicamente pela linguagem dos ritos», o homem não religioso – que também «conhece uma certa descontinuidade e heterogeneidade do Tempo», (o tempo do trabalho e o do lazer ou da festividade; o tempo da recreação; o tempo do encontro com a pessoa amada, etc.) – não vê no tempo «nem ruptura nem mistério: o Tempo constitui a mais profunda dimensão existencial do homem, está ligado à sua própria existência, portanto tem um começo e um fim, que é a morte, o aniquilamento da existência.»

 

Com efeito, se o «Bom dia» pode exprimir o desejo de que o dia corra bem ao nosso interlocutor, já o «Bom ano» ou «Bom 2022», dada a extensa sucessão de 365 dias sujeitos a tantos percalços, trai a crença num “recomeço do tempo” – um tempo “descontínuo”, “recuperável” e renovado, que se reveste de uma aura sobrenatural e assume o estatuto de entidade consciente com capacidade para intervir na nossa existência.

 

«Que o novo ano vos traga isto ou aquilo» significa que, para o emissor do voto, o Tempo é uma entidade com capacidade autónoma para “trazer coisas”; «que o novo ano seja assim ou assado» significa que o Tempo dispõe da possibilidade de modelar a sua feição e de aceder ou não ao desejo de quem emite o voto. Ou seja: a formulação destes votos, aparentemente anódina e simples forma de expressão de cortesia ou de amizade, revela, se passada ao crivo das suas motivações inconscientes, a crença mítica característica da percepção que o homem religioso tem do tempo.

 

Bem sabemos que os bordões linguísticos não passam de auxiliares fáticos do emissor em ruptura momentânea do fôlego discursivo. Que o diga quem inicia qualquer frase com o “portanto”, por menos conclusiva que seja a proposição assim encetada. Porém, o bordão linguístico não contém a energia afectiva dos votos a que me venho referindo. Estes últimos configuram um vestígio do pensamento mítico a que até o homem não religioso dificilmente escapa. É a mitologia degradada de que fala Eliade: mesmo nas sociedades modernas, o homem sem religião «dispõe ainda de toda uma mitologia camuflada e de numerosos ritualismos degradados.» É o que se constata, por ex., por ocasião de festividades e celebrações tais como a passagem de ano, o casamento, o nascimento, a promoção profissional, etc., ou «nos espectáculos que ele prefere, nos livros que lê, [porque] a leitura comporta uma função mitológica». Com efeito, para além de substituir os antigos mitos e a literatura oral de outros tempos, a leitura também lhe permite uma «“saída do Tempo” comparável à efectuada pelos mitos.»

 

Há dias, numa reportagem da tv, uma senhora de 101 anos vacinada num lar respondia a perguntas da jornalista com um remate sistemático: «Não fui infectada, graças a Deus», «Não reagi mal à vacina, graças a Deus», «Sinto-me bem, graças a Deus». A destrinça entre o bordão linguístico e a retoma ritual (Freud diria: neurótica obsessiva) do agradecimento reconhecido à divindade é difícil de fazer. Há, muito provavelmente, algo dos dois. E compreende-se, atentas as características do locutor (a idosa).

 

Quando, ainda hoje, se bem que cada vez mais raramente, ouvimos jornalistas da rádio ou da televisão, nomeadamente as públicas, despedir-se com um “Até amanhã, se Deus quiser», há, todavia, razão para incómodo e para estas interrogações:

Antes de mais, estará o jornalista a par da natureza laica da República?

Admitindo que está disso ciente, a invocação da vontade divina será simples cedência ao hábito arreigado, vindo da infância, e, por conseguinte, não passa de bordão linguístico, o que, para profissionais da comunicação é sinónimo de inabilidade no uso do seu instrumento profissional?

 

Quanto ao autor do post, ai dele, que ousa resistir à convenção imbuída de misticismo (consciente ou inconsciente)! Terá lido muitos romances de cavalaria (ou seus equivalentes mais recentes), e vê gigantes onde só há moinhos de vento. Acabará sacrificado no altar da convenção.

A questão da segurança – na religião e na política

«Para a dialéctica não existe nada de definitivo, de absoluto, de sagrado…» Engels

 

Que o sentimento de segurança é condição de sobrevivência e de pró-actividade num mundo «em perpétuo movimento», ninguém duvidará. São os meios de alcançarmos esse sentimento que não são necessariamente os mesmos para toda a gente. Partamos de uma perspectiva em que se cotejam as atitudes do crente e do não crente, do liberal e do antiliberal.

 

O crente confia – em graus variáveis, é certo – na protecção de uma entidade sobrenatural que ele percepciona como realidade inquestionável, dispensando mesmo os critérios da fiabilidade e da racionalidade, uma vez que a eles sobrepõe o critério da fé. Fá-lo, tendo pragmaticamente em conta condicionamentos da sua existência que pouco ou nada terão a ver com a sua crença, mas a sua fé constitui a derradeira garantia de íntima segurança, quando as circunstâncias da vida lhe não facultam outro amparo.

 

O não crente, por sua vez, e também em graus variáveis, tende a equacionar os elementos conhecidos da realidade envolvente, buscando encontrar neles nexos potenciadores dos equilíbrios necessários à prossecução dos quadros estruturais e conjunturais que viabilizem esse sentimento e essa segurança. Esses elementos – no fundo, definidores do seu ser social – são essencialmente de natureza económica e são percepcionados diferentemente pelo não crente, em função de orientações ideológicas que variam grandemente.

 

A um lado, o liberal propugna a interacção sem constrangimentos das forças que propulsionam as trocas de todo o tipo entre indivíduos e grupos que interagem nos diversos domínios da actividade humana, nomeadamente o económico (livre iniciativa, livre comércio, …), confiantes de que essa interacção conduzirá à auto-regulação e conferindo ao mercado um estatuto algo próximo daquele que o crente atribui à providência divina (Deus vela por nós; o mercado, pelos nossos negócios).

 

Do lado oposto, o antiliberal materialista dialéctico, descrente do potencial de harmonia e de segurança a prazo do liberalismo económico, vê no constrangimento (eufemismo transparente…) das forças destrutivas consabidamente inerentes àquilo a que os liberais chamam a “natureza humana” a chave de um controlo eficaz dos nossos impulsos “reptilianos”, na busca de sínteses que ele sabe passageiras.

 

Afinal, o liberalismo e as doutrinas que promovem o culto da individualidade e a exaltação à outrance da liberdade individual estão para o materialismo dialéctico e histórico um pouco como como o “id” para o “super-ego”, numa transposição talvez algo simplista e caricatural da psicanálise para o plano social, sendo de admitir que, na caricatura, sempre alguns traços de verdade transparecem.

 

 

TABU E IMPERATIVO CATEGÓRICO

Não tomarás o nome do Senhor teu Deus em vão: porque o Senhor não terá por inocente o que tomar o seu nome em vão. Êxodo, 20, 7

É em Totem e Tabu, capítulo/ensaio II, que Freud identifica o tabu dos povos primitivos com o “imperativo categórico”, o dever kantiano.

«Trata-se […] de toda uma série de restrições a que se submetem esses povos. Isso ou aquilo é proibido, não sabemos porquê e também não lhes ocorre fazer a pergunta; eles apenas as cumprem como algo óbvio, e estão convencidos de que uma transgressão será punida automaticamente, de forma severa. Há relatos confiáveis de que a inadvertida desobediência a essa proibição foi realmente punida de forma automática. O inocente infractor – que comeu de um animal para ele proibido, por exemplo – fica profundamente deprimido, aguarda sua morte e então morre de facto. A maioria das proibições diz respeito à capacidade de fruição, à liberdade de movimento e comunicação. Em muitos casos parecem dotadas de sentido, indicam evidentemente certas abstinências e renúncias; em outros casos são de teor incompreensível, contemplam detalhes sem valor, parecem de natureza inteiramente cerimonial. […] é denominado tabu […] algo simultaneamente sagrado, acima do habitual, e perigoso, impuro, inquietante.

«Nessa palavra e no sistema que ela designa se exprime algo da vida psíquica, algo cujo entendimento ainda não está ao nosso alcance. Antes de tudo, parece difícil nos aproximarmos desse entendimento sem examinar a crença em espíritos e demónios, peculiar a essas culturas tão remotas.

«Mas por que devemos voltar nosso interesse para o enigma do tabu? Acho que não apenas porque todo problema psicológico é digno de uma tentativa de solução, mas também por outros motivos. Suspeitamos que o tabu dos selvagens polinésios não se acha tão longe de nós como pensávamos inicialmente, que as proibições morais e tradicionais a que obedecemos poderiam ser essencialmente aparentadas a esse tabu primitivo, e que o esclarecimento do tabu lançaria luz sobre a obscura origem do nosso próprio “imperativo categórico”.»

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Está fora de questão abordar aqui e agora toda a extensão dos quatro ensaios que Freud reuniu sob o título Totem e Tabu. O seu alcance e profundidade são tais que o leigo se sente compelido, em caso de necessidade, a fazer pouco mais do que a sua síntese vagamente comentada. De resto, o intuito do post é apenas o de insinuar (!…) uma aproximação do conceito de tabu à reacção tantas e tantas vezes verificada, de cada vez que se aborda a problemática da crença religiosa numa rede social. Dir-se-ia que não é apenas incómodo que o crente sente, ao ver a sua crença posta em causa por ateus e outros hereges; é, antes, um sentimento híbrido e contraditório. Por um lado, ele experimenta e exprime solidariedade activa com o seu Deus, cuja existência vê ser posta em causa pelo estranho; por outro lado, sente que, se não o fizer, estará como que a pactuar com uma força demoníaca e, por via disso, a desrespeitar os Mandamentos da Lei de Deus; por outro lado, ainda, e como consequência dos anteriores, o crente sente, provavelmente e em casos extremos, o desejo de fulminar o descrente, embora renuncie facilmente ao seu eventual ímpeto destruidor por receio de incorrer na desobediência ao quinto dos Dez Mandamentos.

Discutir a crença é tabu e, para o crente, o dever de honrar o seu Deus é imperativo, incompatível com a ligeireza do debate numa rede social. Apenas em situações formais, claramente definidas, e garantida a presença de “autoridades” na matéria, quer do lado da crença quer do lado oposto, o crente aceitará pacificamente a discussão, sendo que a presença de “autoridades” em matéria religiosa funciona como factor caucionante e desculpabilizante da sua própria participação, ainda que como mero espectador.

Tabu e imperativo categórico encontram, assim, no debate institucional reservado às “autoridades”, numa espécie de retorno às fronteiras impostas pela escolástica medieval, o seu ambiente. Ao “magister” inimigo de Deus tolera-se a presença e o discurso subversivo, desde que diante dele se encontre o “magister” canónico, advogado de defesa da boa doutrina. Àqueles que, como o autor do post, se apresentam despojados das insígnias do conhecimento certificado e se aventuram a fundar as suas congeminações em citações de cientistas de que talvez apenas tenham um conhecimento superficial, denega-se a legitimidade imprescindível num debate que ultrapassa os estreitos limites da razão humana e entra pelos terrenos metafísicos de que apenas a fé (com a sua dispensa das leis a que o confronto com o mundo físico nos habituou) é dona e senhora.

Enfim, se o imperativo categórico kantiano é a lei moral em que se fundamentam os preceitos morais, o tabu é, no debate religioso e para muitos crentes, a lei que penaliza as violações da sacralidade. Assim como o dever moral se não compadece com a consideração de circunstâncias conjunturais que visem, por exemplo, o afastamento de consequências indesejáveis, também o tabu é, no debate religioso e para muitos crentes, a expressão de uma restrição à violação inaceitável da sacralidade, já que esta se situa num patamar que, como a lei moral fundamental, é insusceptível de compaginação com a problematização conjuntural ou circunstancial. A sacralidade é o imperativo categórico do crente; o tabu é o mecanismo que assegura a preservação da integridade da crença e a manutenção do equilíbrio psíquico do seu detentor (ainda que seja discutível associar compromisso neurótico com a realidade a equilíbrio psíquico…).

GUERRAS DE RELIGIÃO / GUERRAS DE… ATEÍSMO

Acredito que, com muita frequência, a religião tenha sido, e ainda hoje possa ser, mais pretexto do que causa genuína de conflito violento. Interesses puramente materiais, territoriais ou outros, estiveram certamente em jogo em muitos dos conflitos que envergaram o disfarce religioso para lograrem uma legitimação que, de outro modo, seria mais problemática. Há, contudo, um rasto sangrento infindo e indesmentível relacionado com as diferenças de credo, ao longo da História. No passado, foram as Cruzadas que opuseram cristãos e muçulmanos (por vezes, judeus também, apanhados de ricochete, por via da sua proverbial liquidez financeira), numa contenda que durou cerca de dois séculos e ficou marcada por episódios que não lembrariam ao Diabo. Na sua Uma Pequena História do Mundo, capítulo 23, E.H. Gombrich escreve:

«Quando, depois de longos anos de batalhas e dificuldades inimagináveis, [os cruzados, que tinham partido em 1096, liderados por Godofredo de Bouillon] chegaram por fim às muralhas de Jerusalém, diz-se que ficaram tão comovidos ao ver a Cidade Santa, que só conheciam da Bíblia, que começaram a chorar e a beijar o chão. Depois sitiaram a cidade. Os soldados árabes defenderam-na com valentia, mas os cruzados acabaram por conquistá-la.

«Infelizmente, depois de entrarem em Jerusalém não se comportaram nem como cavaleiros nem como cristãos. Massacraram todos os muçulmanos e cometeram atrocidades horríveis. Depois, penitenciaram-se por isso e, cantando salmos, dirigiram-se para o túmulo de Cristo.»

Às cruzadas seguiram-se as guerras entre católicos e protestantes, que devastaram a Europa dos séculos XVI e XVII. Em História Breve da Humanidade, capítulo 12, Yuval Noah Harari refere que

«Todos os envolvidos aceitavam a divindade de Cristo e o seu evangelho de compaixão e amor. No entanto, discordavam quanto à natureza desse amor. Os protestantes acreditavam que o amor divino era tão grande que Deus tinha encarnado e permitido que fosse torturado e crucificado, assim redimindo o pecado original e abrindo os portões do Céu a todos os que professassem a sua fé n’Ele. Os católicos defendiam que a fé, ainda que essencial, não era suficiente. Para entrarem no Céu, os crentes tinham de participar nos rituais da Igreja e praticar boas acções. […]

«Estas disputas teológicas tornaram-se tão violentas que, durante os séculos XVI e XVII, católicos e protestantes mataram-se uns aos outros às centenas de milhares.»

Em pleno século XX, ainda a Irlanda do Norte se debatia com o infindo antagonismo entre a burguesia protestante e o proletariado católico.

Na actualidade, cristãos e muçulmanos guerreiam-se na Nigéria e no Norte de África; no Iraque, são os xiitas e os sunitas; budistas e muçulmanos, na Tailândia; judeus e muçulmanos, em Israel e na Palestina.

Quanto a guerras em que se tenham envolvido ateus, em razão de divergências atinentes ao seu ateísmo, indaguei.

Mas não encontrei.