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Também de esquerda

Espaço destinado a reflexões (geralmente) inspiradas na actualidade e na Literatura.

Também de esquerda

Espaço destinado a reflexões (geralmente) inspiradas na actualidade e na Literatura.

O POEMA TRISTE DE DEUS, de Fernando Cabrita, ou A LUCIDEZ DO PADRE ETERNO


O poema triste de Deus.jpg

"O Padre Eterno não está velho, está morto. Morto e enterrado. Para que vais tu, poeta, reabrir o sepulcro fechado há séculos […]?” Desta pedrada foi alvo Guerra Junqueiro que, no prefácio à 2.ª edição de A Velhice do Padre Eterno, responde: “Morreu o Padre Eterno? Não. Apesar de contar seis mil anos de idade e de ter já feito, à cautela, dois Testamentos, esse velho Sr. Deus dos Exércitos está ainda muito bem disposto a enterrar-nos a nós todos e aos nossos descendentes, durante esta meia dúzia de séculos mais chegados […]” (1). É de supor que Fernando Cabrita comunga da mesma opinião, e tem razão, porque esta criação humana tem mais fôlegos do que os sete do gato. O nosso apego à fantasia e a tendência para a diluição de fronteiras entre o sonho e a realidade deve vir já do erectus, se não mesmo do habilis, e o sapiens não descartou a herança. Daí, a importância de reabrir o sepulcro e de malhar no defunto. Sem dó nem piedade.

Feita a observação, passemos ao “poema triste”. Não é um carvalho este deus desconhecido que Fernando Cabrita nos dá a conhecer numa edição bilingue (castelhano e português) da Asociación Cultural GARVM. E também não é aquele com que o jacobinismo do poeta de Freixo de Espada à Cinta acirrou o debate religioso nos finais do século XIX, ainda que lhe possamos encontrar uma ou outra afinidade. O deus deste poema, menos triste do que o autor nos quer fazer crer, está tão próximo das suas criaturas que o ateu mais empedernido não desdenharia com ele travar um debate de ideias ou até convidá-lo para jantar. Mas entremos no pormenor.
O “Poema Zero” dá o mote e serve de aviso à navegação: o que aí vem é pouco menos do que impróprio para leitores desprevenidos, sobretudo aqueles que mantêm o hábito do santo sacrifício da missa, e iria concitar o fogo e a fúria do Tribunal do Santo Ofício, se o Marquês o não tivesse devidamente encaminhado para o Index.

Transcrevo:

Da solidão de deus.
E disse deus: meu deus, meu deus, meu deus!
Quem abraçarei no Inverno?
A que ouvido sussurrarei poemas tontos de amor?
A que pés deporei des perles de pluie
venues d’un pays où il ne pleut pas?
A quem, meu deus, a quem cantarei ne me quitte pas?

Poema de um deus solitário e como que ressabiado (“Raios partam a eternidade e quem nela ande!”, p. 52), este poema revela-nos, sem embargo, um deus honesto e detentor de uma notável capacidade autocrítica. Se o seu vocabulário, pontualmente, descamba para um registo mais próprio daquele que conhecemos em varinas, marçanos, carroceiros e outros profissionais habitualmente referenciados como hábeis propaladores de impropérios e interjeições que as gramáticas escolares não recenseiam, isso deve-se apenas ao facto de este deus levar a sua honestidade ao ponto de partilhar com as suas criaturas os sociolectos que o livre arbítrio lhes permitiu criarem. A título de exemplo:

“Naquele tempo disse deus, pousando os halteres:
Não me aborreçam nem me peçam parábolas ou
sentenças do alto.
Estou muito cansado;
e doem-me os abdominais.
e os glúteos.
É mais fácil a um rico entrar no reino dos céus
que a um deus
fazer 100 estiramentos nesta merda do GAP.
Puta que pariu o tipo que inventou a coisa…” (p. 24)

Mas não se pense que este deus tão nosso semelhante (perdoe-me, leitor educado, tão abusiva e ofensiva generalização) debita permanentemente considerações de teor tão rasteiro, ou não fossem das partes baixas os músculos citados. Não. Fernando Cabrita não faria a tão sublime e transcendente personagem a injustiça de lhe atribuir um léxico tão retintamente vicentino e preocupações de ordem tão egoisticamente material. Pelo contrário, o Criador de que o autor nos dá vibrante testemunho apresenta-se-nos supinamente consciente da sua condição de humilde criatura, que não de criador, e superlativamente lúcido das suas imperfeições e lacunas, alguém tão capaz de se entregar aos pequenos prazeres da vida como cada um dos seus criadores terrestres e tão crítico dos seus acríticos seguidores que pede meças ao humanista de Roterdão e a todos os que a este último seguiram as pisadas não só já na denúncia da vacuidade dos teólogos, mas potenciando-as ainda na apologética do ateísmo. Atente-se nestes excertos:

“A minha vida é muito sossegada.
Também passo muitos dias no café do Mike,
a olhar as vastas planícies do céu,
[…]
A verdade é que em muitos dias acordo
com um mau sabor na boca,
um ácido fremente de dias e anos desperdiçados
a moldar Mundos,
e sinto entre os dentes vestígios de planetas
que ficaram por criar,
e por vezes digo coisas sem sentido,
talvez porque ainda esteja mal desperto
ponho-me à janela dos céus e proclamo,
enquanto me espreguiço.
Toda a nudez será castigada!
Não cobiçarás a mulher do próximo!,
e sinto que cada palavra vem de mim com
o rugir de uma roda dentada,
e em verdade vos digo que no meu particular
paraíso existe
um fidelíssimo sistema de som que amplifica
cada frase, cada sentença.
[…]” (pp. 8 e 10)

Não. Definitivamente. Este deus até manda pôr a mesa às lagartas e cobrir a Terra “de um verde verde até mais não” (p. 18), porque “ainda que nada do que [conheçamos] permaneça […] sempre a primavera retornará, incólume e serena” (p. 20) “e nunca pensará ela que há outro deus que não o / seu rumor de abelhas / e o seu marulhar de arroios. / E nunca falará em nome de qualquer deus / que não no seu próprio nome / transitório e terno (2) . Nunca falará em outro nome que não esse.” (p. 22) Um deus assim é um deus que vai connosco à bola; por outras palavras, é um deus que recusa a mistificação da sobrenaturalidade e que manda a metafísica às urtigas. E, porque se humaniza, ganha o direito ao nosso convívio.

É verdade que ele se confessa orgulhoso “e vaidoso, pois como não. / E contente e agradecido, evidentemente, / por que [lhe atribuamos nós outros], criadores da [sua] divina criatura, / que seja [ele] o autor do mundo e das regras que o / conformam […]” (p. 58). Fugaz contentamento, contudo, logo a seguir contrariado pela lucidez divina: “cada passo que dais na descoberta do mundo / é uma ruga na minha face a cavar-se, / e uma ideia de deus que se desvanece, / e uma oração a menos nos lábios de alguém. […] Esse que fui, agigantado e duro, / imprevisível e cru, / borbulha hoje nestas pipetas e nestas lamelas.” (pp. 62 e 64) Até que “um dia [talvez depois de volvida a tal meia dúzia de séculos mais chegados] vós todos percebereis quem é a Criatura. / E quem é o Criador.” Tamanha lucidez, tamanho desprendimento, tamanha honradez quase nos levam a crer que Deus existe.

*

Outro poema integra o volume: “Porque se apagaram as luzes”. Se o primeiro é “poema triste”, este poderia o autor tê-lo adjectivado de “deslumbrado”: “Porque se apagaram as luzes / apenas porque se apagaram as luzes num frágil instante do Tempo, / o meu espírito deslumbrou-se para sempre” (p. 94). De facto, no primeiro, é Deus quem profere um discurso laudatório do percurso trilhado pelo Homem num mundo admirável, mas este outro constitui um hino panteísta à grandiosidade do Universo e à aventura humana. O qualificativo de “panteísta” (até o recurso à prosopopeia – p. ex., na pág. 88, “as esferas distraídas” – dá alguma legitimidade ao adjectivo) deve, aqui, ser entendido numa acepção arreligiosa, ou, melhor dizendo e evitando a aparente contradição, como sinónimo de imenso respeito pelo mundo que habitamos e pela extraordinária pegada cultural que de nós faz émulos daquele Deus.

É um apagão banal com a duração de alguns minutos, ocorrido a 29 de Janeiro de 2018, que devolve ao poeta “o céu da [sua] infância […]”, mas “também o céu de todas as infâncias / incluindo a infância do mundo” (p. 70). Porque se apagaram as luzes, foi possível voltar a ver a Luz, a Luz maiúscula, aquela que ilumina o percurso do homem na Terra, pretexto para uma revisitação/inventário da cultura humana, espelho da harmonia universal.

A riqueza lexical e a multiplicidade das referências culturais conferem ao poema a feição de uma oração de sapiência. Com efeito, Fernando Cabrita verbaliza poeticamente a emoção que sempre suscita no homem culto a grandiosidade da aventura humana e a comunhão com os seus semelhantes: “Como, pergunta-me de dentro a alma inquietada, / como puderam esses navegadores antigos / dispersar o mar?” (p. 86)

Sentimento de comunhão profunda com o homem colectivo de sempre e de todos os lugares, “espíritos limítrofes do que é divino, / aventureiros do Futuro” (p. 96), o que acaba por nos remeter para uma forma de religiosidade, entendida em sentido etimológico de ligação ao Outro, um Outro que nos transcende na medida em que se define pela totalidade da espécie: “Convosco sou um desses anónimos marinheiros / de Cortez abismados de imenso quando nos picos de Darian.” (p. 106). O deus de F. C. é a Humanidade, tópico da sua poesia, já bem patente em O Livro da Casa (3) .

Esta imperfeita recensão incorreria em imperdoável erro se omitisse uma referência de carácter político: a iluminação pública que, ao apagar-se, permite ver “claramente […] o que jamais / poderíamos ver” (p. 76) tem neste poema a carga simbólica de uma sociedade assente na ganância, no lucro, na escravidão, na agiotagem, na usura. Por isso, apagando-se, permite ver “tudo o que se obtém pelo sonho / e pela simples observação dos montes e das águas, / tudo o que se não obtém pela ganância, / pelo lucro, pela escravidão, / tudo o que se não obtém pela agiotagem” (p. 80). De resto, “ninguém veio da usura […] e nenhum lintel de ouro nos dá o destino que sonhávamos / tão pouco a formidável emoção cósmica de uma lua plena / e a surpresa de um cometa audaz” (p. 82). A incompatibilidade entre os mundos do sonho e do belo, por um lado, do dinheiro, por outro, fica, assim, claramente expressa. Bem como a aspiração do poeta a esse mundo belo, de sonho, de comunhão fraterna entre homens iguais. Como diz a bela epígrafe de Mário Quintana que encima o poema,


Se as coisas são inatingíveis… ora!
Não é motivo para não querê-las…
Que tristes os caminhos, se não fora
A presença distante das estrelas!

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1. Guerra Junqueiro, A Velhice do Padre Eterno, Livros de Bolso Europa-América, pp. 19 e 24
2. O tradutor espanhol traduziu “terno” por “terrenal” (terreno). Creio que o fez criteriosamente, corrigindo provável lapso.
3. https://tambemdeesquerda.blogs.sapo.pt/o-livro-da-casa-de-fernando-cabrita-um-68440

O comer e o amar – as duas faces da moeda da vida?

Comeres com Poemas, A. Murteira.jpg

 

O único livro de receitas que, por razões que não vêm ao caso, me acontece visitar, compulsar e até ler intensivamente foi, até há bem pouco, O Livro de Pantagruel, de Bertha Rosa-Limpo, Jorge Brum do Canto e Maria Manuela Limpo Caetano . Não sendo propriamente um fin gourmet, não desdenho a boa cozinha e até acrescentaria que, ao duplo prazer de comer com a boca e com os olhos, adiciono um outro – o de confeccionar um prato a partir da leitura de uma receita bem redigida, ou não me dessem sempre as más redacções desagradáveis transtornos gastroentéricos.
Posto isto nestes termos gastronómico-sintácticos, cumpre dizer que a estreiteza bibliográfica de que padecia acabou por ser debelada pela leitura de Comeres com Poemas, de António Murteira , subintitulado Para Viver um Grande Amor. O facto de o autor deste livro ter sido autarca e deputado do PCP em duas legislaturas acicatou a minha curiosidade e irreprimível instinto crítico.
Não conheço pessoalmente António Murteira, mas atrever-me-ia a dizer que, se o bon vivant é aquele que ama e exalta os prazeres da vida, é de um bon vivant que se trata. Por certo que não o bon vivant focado na fruição egoísta de quanto de bom a vida pode oferecer-nos, mas antes o fruidor ciente da importância da partilha afectuosa com aqueles que amamos ou que comungam dos mesmos ideais. Ciente e praticante. Com efeito, neste livro de António Murteira , o aparente paradoxo entre a fruição do prazer e o empenhamento no bem comum é constantemente desmentido não só pela denúncia convicta e sentida da barbárie que (ainda) é a sociedade em que vivemos como pela referência frequente ao convívio fraterno com amigos e pela afirmação da necessidade de se caminhar no sentido de uma transformação consentânea com a humana aspiração à felicidade, embora não “se desenhem ainda os contornos das sociedades de amanhã” e quando desconhecemos “que surpresas estarão reservadas à fabulosa espécie animal que conhecemos por Homo sapiens” .
Este sentido do empenhamento no colectivo e de uma solidariedade que não se esgota na sua afirmação verbal está expresso logo no texto prologal, onde o autor, perante a sua própria imagem reflectida no espelho, “homem de onde os laivos da juventude já se ausentaram”, contesta a opinião de Pessoa sobre o acto de escrever como “esquecer” ou “ignorar a vida”, dizendo que, “pelo contrário. […] É a teimosia em não desistir, em continuar a percorrer o labirinto, com ou sem o fio de Ariadne. Em agarrarmos na picareta e, ombro a ombro com os outros humanos, abrir caminho em direcções que os velhos do Restelo dizem não ser possíveis…” . O acto de escrever institui-se, assim, para o autor, como prolongamento do combate que travou noutras circunstâncias históricas, num Alentejo palco da magnífica epopeia da Reforma Agrária que a burguesia latifundista e o seu aparelho estatal se encarregaram de desmantelar .
Ora, se o acto de escrever tem esta importância, “A importância do comer é tão primordial e determinante”, diz A. Murteira, “que, quando um dia conseguirmos colocar comida na mesa de todas as pessoas e famílias, nesse dia o mundo e os humanos iniciarão uma nova era e uma nova civilização, diferente de todas as civilizações vividas. Nova civilização onde a paz poderá reinar e a cultura florescer.” E porque “a comer nos fizemos homens”, lembremo-nos de que “Quando estamos a comer um churrasco ou um peixe grelhado estamos a repetir um ritual celebrado pelos nossos antepassados pré-históricos do Paleolítico.” É que “Saber essa memória torna-o mais simbólico e gostoso” .
Há, nestes Comeres com Poemas, um manancial de informações sobre os produtos agro-alimentares alentejanos e sobre a origem de muitos deles na Ásia Central, no Extremo Oriente, nas Américas, nas Caraíbas, etc. Igualmente sobre as certificações desses produtos, a doçaria conventual e a popular, as ervas aromáticas e as outras. Mas há, sobretudo, uma constante chamada de atenção: “Como regra não se esqueça de que a comida saborosa, como o amor, não pode ser feita à pressa! Lume brando ou médio-brando é o que permite obter os melhores resultados.” E há, ainda, a evocação afectuosa de um tempo volvido, tempo a que a noite fascista não logrou subtrair o bulício da vida e a esperança num amanhã luminoso, como acontece com a descrição do mercado no grande Rossio de Estremoz .
A parte mais substancial do volume está reservada às receitas tradicionais alentejanas, a começar pelas da açorda d’alho, fatias d’alho, sopa de tomate e gaspacho alentejano, que, “num longo período de miséria e opressão que a classe dos latifundiários impôs aos trabalhadores e às populações do Alentejo, do Ribatejo, das Beiras interiores, […] eram as quatro comidas limite, em que do quase nada as […] mães ilusionavam uma comida para mitigar a fome à família” . Porém, A. M. não se contenta com a enumeração de ingredientes e a descrição do modus operandi – invariavelmente, uma colherada de deambulações ora de natureza política ora mais sentimentais ou até brejeiras confere ao seu discurso umas vezes o travo da recordação menos prazenteira, outras, mais frequentemente, o sal e a pimenta da incursão nos prazeres da vida ou de outras carnes. Relativamente às primeiras, refira-se, a título de exemplo, o caldo de espinafres com bacalhau, oportunidade para o autor elogiar festivais e eventos que “constituem estímulos importantes à cultura e à criatividade das gentes, tanto mais que pela região proliferam festejos que se afundam no mau gosto, na adulteração ou esquecimento da cultura e da gastronomia local e regional, na beatice medieva, na pimbalhada mais boçal a roçar o obsceno, em tradições que vivem de maltratar os animais, como as touradas e outras tradições imbuídas de marialvismo” . É ilustrativa da segunda categoria de deambulações a receita da sopa de espinafres com feijão aromatizada de poejo e coentro, que constitui como que um intermezzo erótico a pedir meças a Boccaccio, a Chaucer ou a Bocage (entre muitos outros, claro).
Depois das sopas, cozidos, tomatadas, vêm as entradas de terra e de mar e depois os “comeres da terra”, com as mil e uma maneiras de cozinhar o borrego, as migas de pão, os miolos da matança, a cachola de porco e o tornedó de lombinhos, a galinha tostada, a perdiz frita, o coelho em vinho tinto, a lebre com feijão branco, e depois os “comeres do mar”, caldeiradas, cataplanas, fritadas e arrozes, tudo isto a culminar em “comeres de matizes mediterrânicos, africanos e orientais”: gambas à Teresa-cansada-de-guerra, camarões grelhados à Incomáti, caril de camarão à Índico feito por Gutana (habitante de um muceque, “quase uma menina”) , caril à Inhambane, de Jaime Nugando, “um negro de Inhambane [que] sabia a geografia e a política da África. De como os brancos tinham partido um continente inteirinho aos bocados, tinham partido a África aos bocados, e cada um fazia um país à medida dos seus interesses. Dividiam regiões inteiras, dividiam nações antigas, tribos e etnias, famílias e amigos, terrenos de pastoreio comunitário que há centenas de anos ou milénios eram utilizados por nómadas de diversas tribos e etnias, deixavam o rio ou o poço deste lado da ‘fronteira’ e os do outro lado ficavam sem rio nem poço […] Para já não falar da escravatura humana. Quantos milhões de negros foram levados da África como escravos, o senhor alferes sabe?”
Mas não se pense que a gastronomia política (…) de A. M. se fica pela sanha crítica em relação ao fascismo, ao neoliberalismo e ao colonialismo. Uma “escalivada” (comida grega do Mar Egeu, feita com beringelas, pimentos, alho, azeite e sal) servida no Mar Negro, URSS, serve de digestivo a uma apreciação muito crítica dos vícios e desvios que conduziram à queda do Estado socialista em 1991, nomeadamente a “ausência de democracia interna no partido”, o “dogmatismo” e a “promiscuidade entre partido e Estado” . António Murteira sublinha, contudo, que o que mais lhe custou e custa “não foram os insucessos, não foram as derrotas, por mais amargas que tenham sido”, mas sim a mentira .
São “80 receitas de paixão” a ler, a saborear, a aplicar de vez em quando nos nossos cozinhados e a digerir, sobretudo, no que diz respeito àquilo que não é propriamente gastronómico. Um livro de fazer crescer a água na boca.

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1.Círculo de Leitores, 49.ª edição

2.Edições Colibri, 2012
3.O autor tem várias outras obras publicadas.
4.P. 294

5..p. 295
6.P.11
7.“O proletariado agrícola que representava na ordem de 85% da população activa nos campos, e mais de metade da população da região, já não existe enquanto classe. Teve o momento alto como protagonista na Revolução, na Reforma Agrária, na edificação de um poder local democrático que substituiu o poder local dos agrários. A contra-revolução em Portugal, capitalista e católica, e a Reforma da Política Agrícola Comum (PAC), ao destruírem a Reforma Agrária e parte da agricultura portuguesa, destruíram também o proletariado agrícola enquanto classe maioritária e com um transformador e democrático para o Alentejo.” p. 26
8.P. 34
9.P. 39
10.P. 92
11.“Manhã cedo, íamos ao pitoresco e policromático mercado (…) fazem a água fresca.”, p. 102
12.P. 105
13.P. 141
14.P. 262
15.p. 266/267
16. p. 279
17. p. 281

“TELEMÓVEIS”, DE CONAN OSÍRIS

I


Lembro-me de Osíris quando andava aí no antigo 3.º ano do Liceu (agora, 7.º unificado). Eu andava sempre com o Rui, o Delmar e o Luís; ele, com Ísis e Hórus. Chamávamos-lhes a Santíssima Trindade.


O Rui, o Delmar, o Luís e eu caçoávamos com a professora de História, a quem chamávamos Pernalta, por andar alcandorada numas pernas esguias e muito altas. Uma vez, disse-nos que os Egípcios calculavam a idade das mulheres pela observação dos calcanhares; a partir daí, sempre que a víamos de sapatos abertos atrás, conjecturávamos sobre a idade da senhora, vetusta para nós. Ao meio-dia, ouvia-se um sino a badalar. Ela interrompia então a exposição em curso sobre as civilizações da Antiguidade, aproximava-se da janela junto à secretária, aparentava recolher-se numa comunhão contemplativa e persignava-se. Disse-nos um dia que o marido era oficial do exército e que estava numa das nossas províncias ultramarinas (Portugal era enorme, na época).


O Osíris, porém, não saía do compêndio de História, imóvel, estático, hierático, como o escriba sentado. Não se dava ao desfrute, até porque, mais dia, menos dia, lá chegaria “o dia em que se pesam as palavras perante Osíris, o da voz justa”, como dizia o Livro dos Mortos. Foi, por isso, com espanto que o vi no Festival, travestido de Yoda-Davros-Spock-Vader, a fazer um barulho aborrecido, assim a modos que de influência árabe, mas não me atrevo a ir mais longe na apreciação, porque até agora só consegui ouvir uns escassos segundos do banzé em questão.


Em todo o caso, não duvido de que vai fazer um belo pendant com a galinha do ano passado.

 


II


Acabei por ouvir o Osíris no youtube. Aquilo é pior do que eu pensava quando escrevinhei o último post. Reconheço que sou um analfabeto em matéria musical, mas, meu Deus!, até como provocação aquilo é o nítido nulo e de uma absoluta improbabilidade mesmo numa galáxia distante da nossa. Ainda assim, o que mais espanta é que tal coisa tenha obtido uma pontuação superior a todas as outras coisas, que eu confesso não ter ouvido, mas que estou pronto a reconhecer serem incomparavelmente superiores em termos de musicalidade. Poderão ser igualmente desmioladas no domínio do conteúdo linguístico (não sei se o Osíris usou algum código comunicacional enquadrável na categoria de idioma porque não entendi uma palavra do que propalou), que isso é o que acontece a maior parte das vezes nestas disputas cançonetísticas, mas julgo de todo inconcebível que mais alguma daquelas coisas fosse tão ignaramente dissonante. O facto de a inépcia musical, longe da reprovação, ter concitado o aplauso do júri e do público prova, se necessário fosse, o estado de lassidão mental a que parece termos chegado. É caso para dizer que os bárbaros podem entrar. Nesta Bizâncio, os monges já não discutem o sexo dos anjos; mandam extra-terrestres à Eurovisão.


Fiquem bem, que eu fico a ouvir o Hotel Califórnia. Sim, dos Eagles. “You can check-out any time you like, But you can never leave!” Believe me.


III
(finalmente, uma análise séria)


Tendo, por duas vezes, postado comentários menos abonadores da canção vencedora do recente Festival da Canção, venho hoje emendar a mão com uma análise do respectivo poema, que reputo de portentoso espécime da mais recente produção poética nacional. Faço-o, contrito e desgostoso, reconhecendo a sanhuda soberba crítica a que não soube resistir e definitivamente decidido a não mais azucrinar o nosso garboso, ainda que mal sucedido, representante no certame levado a cabo na Terra Santa de Israel, farol da tolerância e da convivência pacífica entre os filhos de Deus.


Duma singela quadra inicial, algo irregular na métrica (pormenor despiciendo no contexto da poesia hodierna), irrompe um dos mais pungentes gritos de dor e revolta da humanidade, nesta era de divórcio com a espiritualidade: o diálogo com Deus (“céu”, no texto), noutros tempos logrado pelo simples recolhimento ou, no caso de ascetas, anacoretas e místicos, por uma vida de privação e mortificação da carne, via cilício ou burel, longe do século, deveria ser viabilizado através do recurso à tecnologia digital, porém, a tentativa salda-se pelo mau êxito: o sujeito poético pretende uma resposta à dúvida que o atormenta, v.g., saber se mata a saudade, ou se é ele quem morre, presumivelmente às mãos desse leitmotiv incontornável da alma e da poesia nacionais, e não consegue a ligação, o que o leva a partir o gadget. Não sabemos se a ligação não se concretiza por falta de atendimento do céu ou por deficiência na rede, mas as reclamações recorrentes às operadoras e à ANACOM levam-nos a crer que o céu teria atendido a chamada se lá em cima o telemóvel tivesse tocado, sobretudo tendo em conta que se tratava de uma questão de vida ou de morte.


Na sextilha que segue, a anáfora “Quem mata quem” exprime a dúvida angustiante sobre a autoria do putativo homicídio, inviabilizado por presumíveis falhas de comunicação, e o sujeito poético declara abster-se de qualquer tentativa de contacto telefónico, logo que conheça os potenciais envolvidos no (futuramente) lamentável incidente. Trata-se, é claro, de uma decisão que poderá acarretar sérias consequências para o autor, que, mais abaixo, com uma enigmática alusão à “chibaria”, parece querer afastar de si mesmo o opróbrio da delação.


As duas estrofes seguintes trazem à boca da cena duas novas personagens – a vida e um “tu” que começa por nos parecer um desdobramento do eu inicial embrenhado num doloroso diálogo introspectivo indagador das mais profundas inquietações do sujeito poético. A segunda destas estrofes, porém, desfaz cabalmente a dúvida: trata-se, efectivamente, de duas pessoas distintas, cada uma delas com o seu telemóvel, sendo que o sujeito adverte o seu interlocutor de que, na eventualidade da chegada de um sms da vida, partirá ambos os telemóveis (“o teu e o meu”). O carácter atormentativo (adjectivo caucionado pelo dicionário Priberam) do sms em causa é poeticamente transmitido através de nova anáfora (“Se a vida ligar / Se a vida mandar mensagem / Se ela não parar”), e a irritação, ou talvez o desespero, do sujeito transparece enfaticamente da multiplicação de sinónimos do acto de destruir: “estragar”, “partir” e “escangalhar”.


“E se eu partir o telemóvel?”, pergunta, à laia de desafio, o sujeito, no início da estrofe seguinte. E responde: “Eu só parto aquilo que é meu”, dando de barato a ameaça feita na estrofe anterior, a não ser que a dúvida anteriormente assinalada sobre a existência de um só sujeito observador e observado ou de dois seres distintos volte à discussão. Outra dúvida persistente – esta, do sujeito poético, que não do crítico - é a de saber se quem morre é a saudade ou ele próprio. Com efeito, ele reconhece expressamente a possibilidade de ser a vítima, aliás, usando uma expressão de inegáveis contornos literários: “Vai na volta quem morre sou eu”.


A composição poética termina com a assumpção, ou assunção (mas nada a ver com a outra), da autoria do crime, crime esse praticado com uma flecha, anacronismo de evidente interesse estilístico, para sublinhar a dramática clivagem que separa o harmonioso mundo de outrora (flecha) da desumana era tecnológica (telemóvel). O que, aliás, vai ao encontro da afirmação inequívoca de um nobre objectivo de vida expresso no verso “Quero viver e escangalhar o telemóvel”. A canção perfila-se, assim, como arma de combate por uma sociedade mais humana e menos dependente de uma comunicação artificial que acaba por nos afastar do nosso semelhante e nos privar da componente afectiva do relacionamento interpessoal presencial.


Vai na volta, a canção tão injustamente preterida no certame acaba por comover o céu, que, maravilhado, pega no telemóvel e impõe a solução de dois Estados, com capital em Jerusalém.


Bem hajas, Osíris!

 

Telemóveis

Eu parti o telemóvel
A tentar ligar para o céu
Pra saber se eu mato a saudade
Ou quem morre sou eu
Quem mata quem
Quem mata quem
Mata?
Quem mata quem?
Nem eu sei
Quando eu souber, eu não ligo a mais ninguém
Se a vida ligar
Se a vida mandar mensagem
Se ela não parar
E tu não tiveres coragem de atender
Tu já sabes o que é que vai acontecer
Eu vou descer a minha escada
Vou estragar o telemóvel
O telele
Eu vou partir o telemóvel
O teu e o meu
Eu vou estragar o telemóvel
Quero viver e escangalhar o telemóvel
E se eu partir o telemóvel?
Eu só parto aquilo que é meu
Tou pra ver se a saudade morre
Vai na volta quem morre sou eu
Quem mata quem
Mata?
Eu nem sei
A chibaria nunca viu nascer ninguém
Eu partia telemóveis
Mas eu nunca mais parto o meu
Eu sei que a saudade tá morta
Quem mandou a flecha fui eu
Quem mandou a flecha fui eu
Fui eu

Companhias

À minha prima A., finou-se-lhe o marido. Ficou só neste mundo. Não obstante, dizia estar sempre acompanhada. Por Deus. Ignoro se Deus a acompanhava em todos os cómodos da casa, como soía acontecer com o marido, presumo, mas tal ideia afigura-se-me blasfema. Nem quero imaginar o quão inconveniente seria a presença de Deus naqueles momentos em que todos ansiamos pelo maior recato. Além de que o voyeurismo divino se me afigura inconsistente com a alta ideia que faço de Deus. Convenho, por isso, que o “estar sempre acompanhada” será força de expressão. Ainda que o ser omnividente, tomado à letra e entendido com o rigor a que a presente reflexão aspira, implique o escrutínio mais absoluto de todos os esconsos da nossa existência. Enfim, desisto de dirimir esta questão, cuja complexidade me assusta.


Também eu, quando fiquei sozinho, passei a estar sempre acompanhado. Pela rádio. Em cada cómodo da casa, um receptor: no quarto, aceso, ao levantar e ao deitar; na casa de banho, sempre que a permanência é um pouco mais demorada do que a exigida por um chichi; na cozinha, quando atamanco uma refeição; na sala, quando a tomo; no escritório (que fino!), baixinho, quando escrevo ou leio. Às vezes, há dois ou mesmo três receptores ligados – quando me desdobro em tarefas, de um lado para outro, qual fada do lar, descontado o desencontro de género. Estou sempre acompanhado, geralmente por vozes de que gosto, de pessoas que geralmente não conheço. São apenas vozes, mas eu sei que pertencem a pessoas que existem mesmo; não são criações do meu espírito. E essas pessoas, por muito que não queiram (claro que elas nem pensam nisso), fazem-me companhia. As vozes delas trazem-nas a elas para dentro da minha casa e para dentro de mim. Como não hei-de estar-lhes grato? Sem isso, ia tantas vezes ser difícil aguentar a solidão de que só gosto quando lhe vislumbro o fim próximo.


Postas as duas situações – a minha e a da senhora minha prima – em paralelo, falta apenas tirar ilações, o que faço com ponderação e gravidade q.b., que o assunto não é para menos: o que nem ela nem eu suportamos é a condição de Robinsons, encalhados numa ilha perdida. E como a necessidade aguça o engenho, inventamos um Sexta-Feira: ela, um transcendente; eu, um tecnológico. A ela, vale-lhe Deus; a mim, a telefonia.

 

Multiversal, de José Estêvão Cruz – a poesia e a sua circunstância

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A poesia de circunstância, geralmente seguidora do cânone convencional da rima, da métrica e genericamente denotativa, sempre desempenhou um papel de relevo na afirmação identitária da comunidade e, se os tempos agora são outros, ela não deixa de constituir, em momentos de celebração, um factor suplementar de coesão na liturgia da festa. Entende-se, assim, que uma “oração de sapiência” da Confraria do Atum (!), proferida em 3 de Março de 2018, no Centro Cultural António Aleixo de VRSA, possa integrar o multiversal, último livro de José Estêvão Cruz.

 

O volume arranca com uma composição de inspiração camoniana vertida em estrofes de oitava rima, “estilo grandiloco e corrente”, a imitar a epopeia nacional, ainda que o autor prescinda da invocação às ninfas, que não têm as do Guadiana a fama e o reconhecimento de que gozam as Tágides. A habilidade versificatória e a soma de conhecimentos sobre o ciclo de vida do atum não deixam dúvidas e espraiam-se pelos demais poemas do primeiro painel, acrescentando-se-lhes o saber da vida dos que vivem das fainas do mar, tudo isto numa morfossintaxe sacudida e prenhe dum falar que inevitavelmente lembra o Raul Brandão de Os Pescadores.

 

Voltada esta página, com “Multiverso” e a radical mudança de estilo, o leitor encontra a provável resposta à dúvida sobre o significado do título do volume, já que, se “versal”, segundo o dicionário, denota “letra maiúscula, capital, capitular” – o que não parece hipótese interpretativa fiável –, o sujeito afirma-se, neste poema, capaz de exercer o seu múnus poético de formas múltiplas: “de enxada na mão”, “a fazer uma bomba”, “de cruz em riste”. E, de facto, a variedade de formas e de temas confirma a “multiversalidade” do volume, primeiro muito apegado a referências geográficas locais (praia, rio, doca, …), depois, progressivamente, afastado dessa concretude e içado para voos mais próprios da reflexão sobre o ser e a condição humana, o homem e a sua circunstância, o amor, enfim.

 

É no termo desta caminhada para uma linguagem transgressora dos vínculos significativos da referencialidade que surge aquilo que já é um universo desafiante das leis da física e do raciocínio silogístico: “Não sei / em qual Outono / ficaram escondidas / as pérolas do teu olhar”. Estamos, enfim, no prólogo dessa aventura a que se chama poesia.

 

Um espectro assombra a Europa - o espectro do Brexit

Ao projecto de fundação da União Europeia, desde os balbuceios da Comunidade Europeia do Carvão e do Aço, em 1951, presidiu o objectivo da burguesia europeia não só de procurar resolver as suas contradições pela via do diálogo e evitando a continuação da política pelos meios a que se refere Clausewitz, mas também o de travar a atracção exercida pelo socialismo sobre as massas trabalhadoras e a intelectualidade e o consequente avanço do socialismo na Europa.


A ideia fez a sua caminhada. Monnet, Schumann e Adenauer estariam hoje provavelmente muito satisfeitos com o que se lhes ofereceria ver, mas a sua felicidade ver-se-ia toldada pelo comportamento desviante da pérfida Álbion, que dá um péssimo exemplo aos parceiros que sempre manteve à distância.


Se a assinatura e entrada em vigor do Tratado de Maastricht, em 1992/1993, fora já precedida de um referendo em que a maioria dos eleitores se haviam pronunciado pelo não, o que “obrigara” à sua repetição, indispensável para o prosseguimento do processo, agora, a azáfama que impele os dirigentes da Europa para negociações e renegociações tão depressa definitivamente encerradas como logo a seguir reabertas (ou anunciadas como susceptíveis de o serem) e o tremendismo com que se descreve a saída do Reino Unido sem acordo parece indiciar que a burguesia europeia se prepara para reeditar a receita de Maastricht: “devolver a voz” aos súbditos de Sua Majestade, na esperança de que, à segunda, eles se mostrem mais compreensivos para com os desígnios da classe dominante. É que o resultado do referendo já realizado parece ter-se ficado a dever a uma lamentável falta de informação, sobretudo de eleitores mais idosos e indiferenciados, que agências de (des)informação estrangeira levaram à certa, logo, eleitores de segunda. Ao proceder desta forma, os dirigentes da Europa que tanto puxam pelos seus galões democráticos denunciam o seu parentesco ideológico com aqueles seus antepassados que, por um belo dia de Julho de há quase duzentos e trinta anos, viram uma bastilha tomada de assalto e lá tiveram de conceder ao Terceiro Estado o direito de se imiscuir nos negócios da nação. Mais dia, menos dia, lá terão os sans-culottes de envergar o barrete frígio. Menos anacronicamente: lá terão de tomar de assalto o Palácio de Inverno. Menos ainda: lá terão de reinventar um mundo sem fronteiras e onde liberdade, igualdade e fraternidade sejam mais do que votos piedosos de uns quantos.

POURPRE VOIX, de Adão Contreiras

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Presses Sorbonne Nouvelle acaba de publicar, em edição bilingue, Pourpre Voix, de Adão Contreiras, originalmente publicado em Maio de 2017, pela Lua de Marfim, com o título Púrpura Voz.


Sobre a poesia de Adão Contreiras, enquanto aventura da palavra, tive já a oportunidade de me pronunciar por ocasião da publicação dos seus três primeiros livros (Página Móvel com Texto Fixo, 2013; Ouro e Vinho, 2014; Mostruário de Títulos para Poemas, 2016)* e ainda por ocasião da Feira do Livro, no Centro de Trabalho do PCP, em Dezembro de 2016 e em Faro. Os poemas que integram o presente volume indiciam claramente o prosseguimento do autor na senda de uma poesia caracterizada pelo estilhaçar das relações entre significante e significado e concomitante cintilação de uma miríade de metáforas que geram surpreendentes universos visuais. Nesta circunstância, limitar-me-ei a sublinhar a excelência da tradução e da introdução de Catherine Dumas, professora emérita da Sorbonne, e a qualidade gráfica do livro, isento das gralhas e erros que tão frequentemente conspurcam as nossas edições, comprometendo o prazer da leitura e a imagem do autor.
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*Respectivamente em:
https://tambemdeesquerda.blogs.sapo.pt/pagina-movel-com-texto-fixo-de-adao-38451
https://tambemdeesquerda.blogs.sapo.pt/ouro-e-vinho-de-adao-contreiras-43024
https://tambemdeesquerda.blogs.sapo.pt/a-liberdade-livre-da-poesia-de-adao-64172

A misteriosa Sovieta Ulianova, de José Estêvão Cruz


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 Em A misteriosa Sovieta Ulianova, J. E. C. reedita os seus dotes de narrador, desta feita com um acentuado pendor historicista contemporâneo. A intriga deste seu último romance tem, de facto, como pano de fundo, o Portugal dos anos finais do marcelismo, a Revolução e a contra-revolução, bem como o fim da União Soviética, após a implementação da Perestroika, e o autor não é nada parcimonioso na explanação dos factores políticos, económicos e sociais que subjazem quer à evolução da situação portuguesa, quer ao rumo que tomou a extinta união de repúblicas.

 

O romanesco desta narrativa consiste numa curiosa e bem montada história em que o protagonista, feliz no amor e na vida profissional, sucumbe à sedução de uma beldade eslava que o arrasta para uma deriva sentimental pouco menos do que platónica e sem grande futuro. As peripécias sucedem-se, dando, por vezes, a sensação de que se lê uma novela policial ou de espionagem, mas o cerne da intriga está mesmo na indagação dos meandros do comportamento das personagens, pelo que a vertente psicológica supera a do suspense.

 

O encadeamento das acções no discurso narrativo não é linear. O narrador começa por um momento já significativamente avançado no tempo da história, recorrendo depois ao flash-back para a narração do lapso temporal anterior ao do início do romance.

 

Para além do manifesto à-vontade com que o autor despende informação e considerações de natureza histórica, política e geográfica, é ainda notória a facilidade com que elabora sobre operações financeiras e o ramo imobiliário.

 

Em termos romanescos puros, é de assinalar o enviesamento da trama narrativa patente no capítulo 40, ou seja, a opção de fuga ao desfecho expectável, que relança o enigma, potenciando o interesse do leitor exigente, embora o devaneio místico de Sovieta nos pareça pouco consentâneo com as suas convicções.

 

A desfavor do romance, apenas isto: um descambar ocasional para o estilo afadistado (veja-se, p. ex., pp. 250, 251) e alguns desencontros com o léxico e a gramática, pechas que uma revisão competente teria apagado.

 

AS PALAVRAS

AS PALAVRAS

Chegam-nos palavras que logo se desvanecem. Como corpos frágeis, não resistem ao impacto; desintegram-se no alvo. Outras percutem-nos com força e ressoam – palavras-diapasão. "As palavras são seixos que rolo na boca antes de as soltar. São pesadas e caem", diz Ruy Belo. E não agem sós as palavras. Organizam-se em bandos – por vezes, gangues, quando enveredam por sintaxes criminosas. Outras vezes, insurgem-se contra regras que as não deixam dar asas à sua busca de infinito. E são sensíveis, as palavras. Se as acolhes de braços abertos e lhes mostras regozijo, à chegada, elas entregam-se-te num esplendor de significados. Ficam tristes, macambúzias e interditas, se à recepção falta calor. "São como um cristal, as palavras. Algumas, um punhal, um incêndio", diz Eugénio de Andrade – que elas brilham, sabemos, mas às vezes ferem e matam. São como tijolos também, as palavras. Com elas edificamos as casas onde moram nossos sonhos. Umas, janelas, levam-nos o olhar demasiado preso ao aqui para paisagens de ali. São sóis e são mares. Cometas, diz o poeta. São cascatas de sílabas que se despenham em horizontes de azul. São muros, algumas. Muralhas. Espreitam-nos pelas ameias. Cavalos fogosos, tomam o freio nos dentes e levam-nos à desfilada por temporais de granizo. Fazem-nos esperas, se as desfeiteamos, e não toleram a indiferença. Algumas, comedidas, dissimulam-se na timidez dum gesto; outras, insinuantes, fitam-nos com arrojo. São curiosas como crianças vorazes. Levemo-las, pois, a ver as coisas que elas dizem. E andemos sempre com elas. "Com elas eu me deito, me levanto", diz o Egito Gonçalves. Palavras leva-as o vento, diz toda a gente. Convém, por isso, resguardá-las. E não só no tempo frio, que são outros os frios que as flagelam.

Com palavras eu me digo, eu te digo. Com palavras me chego a ti. A ti e a ti. E muitas ficam por dizer.

O escabroso em Literatura

 

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Na Ásia, para onde tinha sido levado por um questor, quando prestava serviço militar, instalei-me numa hospedaria, em Pérgamo. Estava muito satisfeito, não só porque a casa era muito elegante, mas porque o hospedeiro tinha um filho de grande beleza e eu meditava um plano para me tornar seu amante, a ocultas do pai. Sempre que à mesa se discutia o amor dos belos rapazes, indignava-me com tanta violência, recusava-me tão severamente a dar ouvidos a essas conversas indecentes que a mãe, sobretudo, considerava-me um dos sete sábios. A tal ponto que me incumbiram de acompanhar o jovem ao ginásio, de vigiar os seus estudos, de o instruir e aconselhar, zelando para que nenhum sedutor fosse admitido em casa.” O Satíricon, Petronio[i]

 

A aproximação de dois romances tão “especiais”, passe a vacuidade do adjectivo, quanto o são Lolita, de Vladimir Nabokov, e O Complexo de Portnoy, de Philip Roth, romances em que a temática sexual irrompe como força avassaladora bem demonstrativa dessa “energia fundamental do ser vivo” que é a libido, suscita a problematização do papel da linguagem na percepção do indecoroso em Literatura. Há, com efeito, uma diferença muito significativa entre as duas obras no que respeita ao uso que os respectivos autores fazem do léxico, mas importa verificar até que ponto o seu afastamento lexical determina uma substancial diferença na percepção que o leitor tem do escabroso, admitindo-se que tal designação é apropriada para catalogar o conteúdo de ambos.

O tema daria para uma tese de doutoramento. Não se trata aqui, porém, nem de fazer (mais) uma história do género, nem de dirimir a ambiguidade que, ao longo dos tempos, tem acompanhado a definição dos termos com que é habitual classificar-se as obras em que sobreleva tal temática, desideratos que a indisfarçável impreparação do autor torna inalcançáveis.

As definições que os dicionários dão de “erotismo” têm uma amplitude semântica tal que recobre quase todo o leque de possibilidades que se oferecem no âmbito das experiências e comportamentos sexuais: desde a vaga sensualidade emergente dos sentidos até à devassidão e libertinagem, passando pela voluptuosidade, pela lubricidade, pela lascívia, pela luxúria, tudo parece caber no conceito de erotismo, que, assim, fagocita o próprio conceito de pornografia, como atentado ao pudor e à moral, sendo de presumir que moral e pudor remetem para conceitos estritamente vinculados ao tempo ‒ que, por definição, sempre flui.

Por outro lado, cada um dos utilizadores da palavra dá-lhe a extensão que a sua sensibilidade autoriza. Se, para o pudibundo e não só, o erótico está na estreita dependência da simples sugestão e se anula na passagem desta à exibição, para outros, mais do que a exibição, será a ostentação provocatória a marcar a fronteira entre o erótico e o pornográfico.

Segundo Jean-Jacques Pauvert, “foi considerada juridicamente ‘erótica’ durante muito tempo no ocidente toda a literatura:

  1. Que ofendesse os bons costumes (e/ou por algum tempo a religião);
  2. Cuja intenção ‘evidente’ fosse a de excitar as paixões sexuais;
  3. Que negasse ‘os princípios fundamentais da moral social, familiar ou individual’ (julgamento de Sade, 1955);
  4. Cuja linguagem, cenas, descrições, etc. fossem ‘indecentes’, ‘pornográficas, ‘licenciosas’ ou ‘obscenas’ (ou um outro qualificativo que correspondesse à impressão produzida)[2].

Para Alexandrian, “Hoje em dia, frente às mais infrenes produções literárias ou cinematográficas, em vez de se invocar a virtude como antigamente, pretende-se distinguir entre o erótico e o pornográfico. A nova forma da hipocrisia consiste em dizer: se este romance ou este filme fosse erótico, eu inclinar-me-ia diante da sua qualidade; mas é pornográfico, de modo que o rejeito com indignação. Um tal raciocínio é tanto mais estulto quanto ninguém consegue explicar a diferença aí entrevista. O que, aliás, não admira, pois não há diferença. A pornografia é a descrição pura e simples dos prazeres carnais; o erotismo é esta mesma descrição revalorizada em função de uma ideia do amor ou da vida social. Tudo o que é erótico é necessariamente pornográfico, com alguma coisa acrescida. É muito mais importante fazer a distinção entre o erótico e o obsceno. Neste caso, entende-se que o erotismo é tudo o que torna a carne desejável, a patenteia no seu esplendor ou na sua frescura, desperta uma impressão de saúde, de beleza, de jogo deleitável; ao passo que a obscenidade avilta a carne, lhe associa a sujidade, as mazelas, os gracejos escatológicos, as palavras indecentes.”[3]

No meio desta parafernália definitória, ganha vulto e consistência a fórmula umas vezes atribuída a Chris Marker, outras vezes a Alain Robbe-Grillet ou ainda a Breton[4] de que “a pornografia é o erotismo dos outros”. Nada mais verdadeiro. Jamais o nosso erotismo pessoal seria por cada um de nós identificado com a pornografia, sendo certo também que fazemos, em princípio, questão de o manter na esfera do estritamente privado.

Feito este intróito, com certeza excessivo para a natureza e alcance do que se lhe segue, vejamos, num rápido sobrevoo, como se nos apresenta a pulsão amorosa no romance de Roth, através de um curto excerto que talvez nem seja o mais desbragado, mas que permite aferir a presença de elementos pertinentes de análise:

“Então parou um táxi e fomos para o apartamento dela, onde ela tirou a roupa e disse: “Avança.”

A minha incredulidade! Como é que uma coisa daquelas me podia estar a acontecer! E o que eu comi! De repente, era como se a minha vida fizesse parte de um sonho lúbrico. Ali estava eu, lambendo finalmente a cona da estrela de todos os filmes pornográficos que tinha produzido a minha cabeça desde a primeira vez que pusera a mão na minha própria piça... «E agora eu», disse ela, «amor com amor se paga», e, doutor, essa desconhecida desatou a chupar-me com uma boca que devia ter andado nalguma universidade especial para aprender as coisas maravilhosas que sabia. Que achado, pensei, eu, ela sorve-o até à raiz! A goela em que eu fui cair! E falavas tu de oportunidades! E ao mesmo tempo: Sai daqui! Vai-te embora! Sabes lá quem é e do que é capaz esta criatura!”[5]

Que há de indecoroso neste passo do romance, um dos inúmeros que juncam a obra? Antes de mais, a própria descrição crua, ostensiva, da cena de sexo (naquela modalidade que Bill Clinton, em tempos, afirmou não ser sexo), cena essa que ocorre escassos minutos volvidos sobre o encontro inicial das personagens, perfeitas desconhecidas. Longe de procurar travestir o relacionamento sexual com o “manto diáfano da fantasia”, Roth escancara a porta da realidade e põe a descoberto a “nudez forte da verdade”. O léxico usado, remetendo sempre para o mesmo contexto, pertence, contudo, a duas categorias distintas: por um lado, verbos banais (“avançar”, “comer”, “chupar”) são investidos de forte conotação sexual; por outro, os genitais de ambos os sexos são designados pelos plebeísmos mais obscenos que os dicionários atestam.

A acção decorre a ritmo acelerado, vertida em períodos curtos, com várias frases exclamativas a traduzirem a torrente de emoções do narrador, que mantém um significativo distanciamento em relação à sua parceira, distanciamento esse patente na ironia da referência à “universidade especial” e, sobretudo, no confinamento da mulher à condição de “boca” e de “goela”.

Voltando a Alexandrian, parece pertinente equacionar aqui a eventual prevalência da obscenidade sobre o erotismo – sublinhe-se “equacionar” – já que a evolução dos costumes, até na banalização do palavrão, atenua consideravelmente o impacto do obsceno.

Mas compare-se com Lolita, num excerto que se julga representativo do nível geral de descodificação patente no romance:

“Comecei a chegar-me para ela, preparado para uma decepção e sabendo que seria melhor esperar, mas incapaz disso. A minha almofada cheirava aos seus cabelos. Fui-me chegando para o vulto vagamente luminoso da minha querida, parando ou recuando sempre que me parecia que se mexia ou estava prestes a mexer-se. Uma brisa do país das maravilhas começara a afectar os meus pensamentos, que pareciam alinhados em itálico, como se a superfície que os reflectia estivesse encrespada pelo fantasma da tal brisa. Uma e outra vez, a minha vigília enfraqueceu, o meu corpo agitado penetrou na esfera do sono para logo sair, e cheguei até a dar comigo a deixar-me embalar por um ressonar melancólico. Neblinas de ternura envolviam montanhas de desejo. De vez em quando, parecia-me que a presa encantada estava prestes a encontrar-se com o caçador encantado a meio do caminho, que o seu quadril se ia chegando para mim sob a areia macia de uma praia remota e fabulosa. Mas depois o seu vulto mexia-se e eu ficava com a certeza de que ela estava mais longe de mim do que nunca.”[6]

Aqui, todos os cuidados são poucos, e a aproximação faz-se por etapas (“comecei a chegar-me”, “fui-me chegando”), a fim de esconjurar a decepção. Os sentidos do olfacto e da visão são chamados a intervir, mas com moderação (o cheiro dos cabelos, “o vulto vagamente luminoso”). O pensamento do narrador e protagonista sofre o efeito da atmosfera lúbrica, oscila entre a vigília e o sono, e transpira onirismo. Finalmente, a decepção.

Que prevalecerá aqui – o erotismo ou a obscenidade?

Se fizermos de conta que ignoramos a identidade da “minha querida” e lhe atribuirmos uns hipotéticos dezoito anos, conviremos que há aqui um erotismo moderado, de bom-tom, matizado pela fantasia do grande escritor. Porém, logo que nos lembramos de que a Lolita ainda não completou doze anos de idade e que o seu “caçador encantado” é um quarentão, dificilmente poderemos deixar de considerar a cena descrita como obscena e pornográfica. Obscena e pornográfica, sem que haja no romance um único palavrão, uma única cena de sexo explícito, como aliás se refere no “prefácio” que o autor atribui a um tal John Ray Junior, doutor em Filosofia, e que explica cabalmente a inevitabilidade das cenas “afrodisíacas”, sem as quais não haveria romance, dado o seu carácter “estritamente funcional”, na perspectiva da consecução da “apoteose moral”:

“Considerado simplesmente como romance, Lolita trata de situações e emoções que permaneceriam irritantemente vagas para o leitor se a sua expressão se tivesse estiolado pelo recurso a evasivas banais. É verdade que não se encontra em todo o livro um único termo obsceno, de tal sorte que o robusto filisteu, condicionado pelas modernas convenções a aceitar sem repugnância a prodigalidade de palavras porcas de um romance banal, ficará absolutamente escandalizado com a sua ausência aqui. Se, no entanto, para tranquilidade da consciência desse paradoxal moralista, se tentasse diluir ou omitir cenas a que um certo tipo de mentalidade poderia chamar «afrodisíacas» (ver a tal respeito a monumental decisão proferida, em 6 de Dezembro de 1933, pelo meritíssimo juiz John M. Woolsey acerca de outro livro de linguagem muito mais franca e clara), o melhor seria desistir por completo da publicação de Lolita, pois as cenas que absurdamente se poderiam acoimar de prenhes de conteúdo sensual próprio são o mais estritamente funcionais possível no desenrolar de uma história trágica que se encaminha, inabalável e resolutamente, para nada menos do que uma apoteose moral. Os cínicos poderão dizer que a pornografia comercial afirma exactamente o mesmo e os entendidos poderão ripostar que a apaixonada confissão de H. H. é uma tempestade num tubo de ensaio; e que, pelo menos, doze por cento dos varões adultos americanos - cálculo «moderado», segundo a Dr.ª Blanche Schwarzmann (comunicação  verbal) - gozam anualmente, de uma maneira ou de outra, a experiência especial que H. H. descreve com tanto desespero, e que, se o nosso dementado diarista tivesse, no fatal Verão de 1947, consultado um psicoterapeuta competente, não haveria tragédia nenhuma ‒ mas, nesse caso, também não haveria este livro.”[7]

A literatura é sempre, de algum modo, o espelho de uma sociedade, seja porque intenta reflecti-la com o rigor fotográfico da tradição naturalista, seja porque o criador, necessariamente parte dessa sociedade, trilhando os caminhos da inovação, é impulsionado pelo ambiente que o rodeia ou por sentimentos de desgosto ou de rejeição para com esse ambiente. Através da sobrevalorização de um ou outro aspecto da realidade, o criador revela em que medida esta o afecta e, de caminho, dá-nos pistas sobre a sua idiossincrasia autoral. No caso destes dois romances, como certamente no caso de todos os grandes romances, e sem cair na armadilha de confundir a figura do autor com a do narrador, conjugam-se as vertentes do retrato e da denúncia: retrato de um ser humano tantas vezes joguete de pulsões que não controla; denúncia de uma sociedade em que imperam relações de dominação e de opressão entre (intrinsecamente) iguais em dignidade e em direitos. Circunstância em que, mais do que denunciar o escabroso em literatura, urge denunciar o escabroso da sociedade.

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[1] O Satiricon, Petronio, Livros de Bolso, Europa-América, pp. 93,94.

“Não se sabe com exactidão quem é esta personagem [Petronio]. Considera-se, contudo, geralmente, que se trata de C. Petronius Arbiter, um familiar de Nero, que esteve implicado na conjura de Pison e se suicidou em 65 d.C.” R. Morisset, G.Thévenot, Les Lettres Latines, Magnard, Paris, 1966.

O Satiricon tem perto de dois mil anos e é, no dizer de Jorge Sampaio (Prefácio à edição de O Satíricon em Livros de Bolso da Europa-América, p. 8), uma “história picaresca, narrada por um dos protagonistas, Encólpio, que, na companhia de Ascilte e Giton, dois jovens tão depravados como ele, percorre diversas províncias do império [romano]”. Também R. Morisset e G. Thévenot (op. cit., p. 984), que consideram “o Satiricon, a despeito das obscuridades e das vulgaridades que contém, […] uma obra de arte esmerada, uma das mais directamente acessíveis ao gosto moderno”, o classificam como “romance picaresco”, “romance de costumes” e “romance realista”, chamando contudo a atenção para o facto de se tratar mais de uma caricatura do que de um retrato, dado o exagero posto no relato desta “sucessão de aventuras burlescas”. Exagerado ou não (o pendor orgíaco do império romano é conhecido), facto é que passos como aquele em que Encólpio narra o estratagema de que se serve para seduzir o filho do hospedeiro, em Pérgamo ‒ efebo, de resto, facilmente subornável ‒ dificilmente escapariam à classificação de “licenciosos”. Contudo, não é o léxico do autor que potencia a ofensa ao pudor de quem o lê. Petrónio, fosse ele quem fosse, escolhe as suas palavras com esmero e é parcimonioso no uso de termos menos convenientes; são as interacções das suas personagens que logram esse desiderato.

[2]  A Literatura Erótica, Jean-Jacques Pauvert, Teorema, Lx.ª, 2001, pp. 7 e 8

[3] História da Literatura Erótica, Alexandrian, Círculo de Leitores, 1991, p. 6

[4] Respectivamente, por J.-J. Pauvert, na obra citada, e por Maria Alzira Seixo, em Discursos do Texto. António Guerreiro, no texto “O Anjo da pornografia” da sua “Estação Meteorológica” (sobre Valter Hugo Mãe), Ípsilon de 3 de Fevereiro de 2017, parece atribuir a fórmula a Robbe-Grillet; em crónica intitulada “O patriotismo dos outros”, Ípsilon de 29 de Dezembro de 2017, António Guerreiro refere uma outra possível autoria, a de Breton.

[5] Philip Roth, O Complexo de Portnoy, Leya, 2010, pp. 162, 163

[6] Nabokov, Vladimir, Lolita, Abril/Controjornal/Edipresse, p. 124

[7] Idem, p. 6