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Também de esquerda

Espaço destinado a reflexões (geralmente) inspiradas na actualidade e na Literatura.

Também de esquerda

Espaço destinado a reflexões (geralmente) inspiradas na actualidade e na Literatura.

ELOGIO DA UTOPIA

 

Há homens que lutam um dia e são bons,
Há outros que lutam um ano e são melhores,
Há os que lutam muitos anos e são muito bons,
Mas há os que lutam toda a vida e estes são imprescindíveis.
Bertolt Brecht

 

Cepticismo, agnosticismo, niilismo andam de mãos dadas na infrene tarefa de julgar tudo pela mesma bitola e de tudo meter no mesmo saco. A rasoira céptico-agnóstico-niilista nada poupa à sua sanha igualizadora.

 

Harari, que é seguramente um homem culto, participa de forma convincente na referida tarefa, metendo ideologias, religiões, objectos como o dinheiro e conceitos como os direitos humanos na mesma grande sacola das “realidades imaginadas intersubjectivas”. São importantes “forças motrizes da história” (verdadeiras «forças materiais, quando se apoderam das massas», como diria outro homem culto, esse do século XIX e que mudou a face do mundo), mas não passam de crenças numa “ordem sobre-humana”. Não discordando de boa parte das observações e reflexões de Harari, contesto outras, pelo menos em parte, por questões de razão pura e de razão prática.

 

Relativamente à razão pura, creio ser, de todo, absurda a classificação da utopia de uma sociedade sem classes, por exemplo, na categoria das religiões (neste caso, «religiões da lei natural», Harari, Sapiens, Parte III, 12). A religião, herdeira da magia e do totemismo primitivos, tem como traço fundamental a crença idealista na sobrenaturalidade, isto é, num mundo de algum modo especular do nosso (“especular” - de espelho), mas imaterial e totalmente alheio às nossas percepções sensoriais; o materialismo dialéctico, obviamente, não parte desse pressuposto, nem se inspira em mitos como os da Idade do Ouro ou do Éden, conforme insinua Eliade, no seu O Sagrado e o Profano, ainda que propugne a “conquista do céu”, ou seja, a realização do “Éden” possível na Terra. Fá-lo com base no estudo das sucessivas formas de organização da sociedade humana e nomeadamente dos seus sucessivos modos de produção material, infra-estrutura de todas as construções culturais (leis, ideologias, religiões, …). Chamar a isto religião é dar ao termo uma extensão que o bom senso e o dicionário não consentem, mas que serve interesses menos desinteressados (…), configurando uma espécie de argumento ad hominem: «Dizes-te ateu e defendes o comunismo, que não passa de uma religião?!»

 

Quanto à razão prática, encontramo-nos perante a dificuldade inerente aos conceitos de “imperativo categórico” (Kant) e de “ordem moral” (Nietzsche / Sartre). Por muito “imaginárias” que sejam as construções mentais do homem, elas são projectos que visam a prossecução de fins mais ou menos justos, mais ou menos nobres. Vilipendiar a “ordem moral”, muito por aversão figadal ao cristianismo (Nietzsche) ou, mais serenamente, negá-la, por indução decorrente da inexistência de Deus (Sartre) não significa que a vida em sociedade seja possível sem o respeito de normas que limitam a liberdade individual. Não havendo «essência humana», cabe a cada um de nós, no uso da nossa liberdade, criar essa essência (Sartre); não havendo «ordem moral», cabe-nos inventá-la.

 

Do mesmo modo, o projecto de construção de uma sociedade sem classes – utopia não determinada geneticamente no ser humano, «realidade imaginada», como qualquer projecto de natureza política ou social – pode ser objecto de controvérsia, de desvios, de desconfiança. Porém, ser equiparado a invenção mistificadora é, no mínimo, pretensão destituída de fundamentação séria. O cristianismo, entendido apenas como utopia da fraternidade e da solidariedade entre os homens (valores que Nietzsche abomina e atira para debaixo dos pés do seu super-homem), sem a sua componente propriamente transcendental, não se distinguirá substancialmente daquela por que lutam encarniçados ateus.

 

Por outro lado, a frase «o homem é o lobo do homem» compaginada com o conceito de «natureza humana» subjacente às referências à «ganância humana» e ao «princípio de sobrevivência» (Gabriel Meiller) remetem para uma realidade insofismável, sim, mas dentro de uma contextualização infra-estrutural: a chamada «natureza humana» não existe como dado apriorístico (Sartre); ela é função das condições materiais em que nos movemos (Marx, Engels), e, se a história conhecida foi sempre marcada por profundas desigualdades determinantes de comportamentos adaptados a essa realidade, uma realidade estruturalmente diferente determinará uma consciência necessariamente diferente. Por outras palavras: numa selva, eu serei obrigado a matar para sobreviver (metáforas da sociedade capitalista); numa sociedade organizada em moldes totalmente diferentes das que conhecemos até hoje, o meu egoísmo “natural” deixa de ser “necessário”, porque não só eu terei aquilo de que necessito sem ter de o disputar ao meu semelhante, como me estará vedada (enquanto a minha consciência não tiver evoluído o suficiente) a possibilidade de obter mais do que aquilo de que necessito, em detrimento desse meu semelhante. O meu semelhante, por seu turno, ver-se-á impossibilitado de usar da sua astúcia, em detrimento da minha ingenuidade, porque uma super-estrutura estatal dissuasora lhe fará sentir que aquela sociedade não é para velhacos.

 

«A história da humanidade é a história da luta de classes» (Marx), mas é também a história de uma demorada infância da qual a humanidade ainda não saiu. O capitalismo corresponde a uma fase de desenvolvimento do modo e das relações de produção que conhece crises cíclicas sistémicas e que não é o apregoado “fim da história” de Fukuyama. É absolutamente certo que a História não avança de forma linear, sempre no sentido de maior harmonia, justiça e bem-estar. Somos um animal hiper-complexo e “crísico” (Morin). Como qualquer criança e adolescente, fazemos uma longa aprendizagem. De vez em quando, da acumulação de contradições que o sistema vai acomodando resulta uma mudança qualitativa positiva (esclavagismo, servidão, assalariado), mas também se verificam recuos, geralmente mais ou menos camuflados pela alteração do quadro envolvente (o assalariado goza de direitos que o servo da gleba não tinha, mas é vítima dos desmandos próprios da sua contemporaneidade). É claro que a classe dominante tem múltiplas armas à sua disposição para assegurar o seu domínio, desde as armas propriamente ditas até ao aparelho ideológico, bem mais subtil e de difícil denúncia, que vai da telenovela diária à homilia dominical, das «tribos, modismos, símbolos» aos «restaurantes, shoppings, bordéis, etc.» (Gabriel Meiller). Ou à mistificação que consiste em amalgamar o que não é confundível. E fá-lo de forma tão convincente que leva atrás de si, muitas e muitas vezes, aqueles a quem menos interessa embarcar em tais teorias, aqueles que «nada têm a perder e têm um mundo a ganhar».

 

A resposta à insidiosa lei da inevitabilidade («o mundo sempre foi assim e sempre há-de ser») não é a deserção. A história da humanidade é também a demonstração de que a utopia de hoje é a realidade de amanhã. E são os homens que detêm a pedra filosofal capaz dessa transmutação.

 

 

Imperativo categórico, tabu, Nietzsche e Freud

Questão delicada, esta do “imperativo categórico”.

Nietzsche, que flagela violentamente Kant, no seu «Anticristo», escreve:

«Uma virtude deve ser nossa invenção, nossa defesa e nossa necessidade pessoais: tomada em qualquer outro sentido não passa de um perigo. Aquilo que não é uma condição vital é prejudicial à vida: uma virtude que não existe senão por causa de um sentimento de respeito pela ideia de “virtude”, como Kant a queria, é perigosa. A “virtude”, o “dever”, o “bem em si”, o bem com o carácter da impersonalidade, do valor geral – quimeras onde se exprime a degenerescência, o último enfraquecimento da vida, a chinesice de Conisberga. As mais profundas leis da conservação e do crescimento exigem o contrário: que cada um invente a sua própria virtude, o seu imperativo categórico.»

E Freud, por sua vez, em «Totem e Tabu» (II, 1):

«Suspeitamos que o tabu dos selvagens polinésios não se acha tão longe de nós como pensávamos inicialmente, que as proibições morais e tradicionais a que obedecemos poderiam ser essencialmente aparentadas a esse tabu primitivo e que o esclarecimento do tabu lançaria luz sobre a obscura origem do nosso próprio “imperativo categórico”.

(«[…] “Tabu” é uma palavra polinésia [que designa] «algo reservado, exprime-se em proibições e restrições, essencialmente.)

«[…] O castigo para a violação de um tabu era originalmente deixado para uma instância interior, de efeito automático. O tabu ferido vinga a si mesmo. Mais tarde, quando surgiram ideias de deuses e espíritos com os quais o tabu ficou associado, esperava-se que a punição viesse automaticamente do poder divino. Em outros casos, provavelmente devido a uma ulterior evolução do conceito, a própria sociedade assumiu a punição dos infractores, cuja conduta pôs em perigo os companheiros. Assim, os mais velhos sistemas penais da humanidade podem remontar ao tabu.»

***

Não surpreende que o dionisíaco Nietzsche verbere qualquer tipo de imperativo que escape aos ditames da energia vital, do instinto, e que o faça de forma categórica… De facto, para Nietzsche, o único “imperativo categórico” válido seria o da plena concretização das potencialidades humanas, no total alheamento de qualquer consideração de tipo mítico ou outro e sem submissão a uma ”ordem moral” que considerava, e com razão, uma construção cultural, uma «linguagem de signos, uma semiótica» («O Crepúsculo dos Ídolos»).

De Nietzsche, conhecemos o círculo familiar, o percurso educativo, as relações de amizade, as enfermidades, a toxicodependência, o egocentrismo delirante, o elitismo («Toda a educação superior pertence apenas à excepção: deve ser-se privilegiado para se ter direito a tão elevado privilégio. Todas as coisas grandes, todas as coisas belas não podem jamais ser bem comum» («O Crepúsculo dos Ídolos»), a crença na sua própria divindade («Ecce Homo»), etc. Ele viveu, de facto, num limbo que o distanciou da vida concreta dos seus contemporâneos mais desfavorecidos (como sempre, a esmagadora maioria) e  distante do “contacto com a realidade”, pecha que ele imputa à religião e à moral cristãs («Anticristo», 15).

Freud está nos antípodas atitudinais de Nietzsche: sereno, ponderado, avançando com prudência, estribando-se em investigações sérias dos seus predecessores no estudo das sociedades primevas, anunciando o carácter provisório das suas deduções, enunciando os resultados da sua prática psicanalítica sem agressividade verbal, antes desmontando com rigor os mecanismos psíquicos que condicionam fortemente as nossas crenças, as nossas convicções, o nosso comportamento.

Se Nietzsche foi um arrebatado e genial propagandista de um ideário eivado de contradições tais que acabou reivindicado por anarquistas e nazis, Freud foi um profundo e genial analista do nosso psiquismo, tendo dado um contributo incomensurável para a compreensão dos “mistérios” que nos confundem e nos levam, tantas vezes, a dar respostas que não passam de evasivas narcotizantes.

***

Enfim – e para voltar ao “imperativo categórico”, à moral e ao dever –, é claro, para quem tem os pés assentes na terra, que a vida em sociedade seria impensável sem restrições à liberdade individual. A liberdade de cada um acaba onde começa a dos outros, e a do todo, em última análise, sobrepõe-se à de cada uma das partes. Em sociedades estruturadas em condições de significativa diferenciação material, não há uma “moral” única. O meu “imperativo categórico”, ditado por uma consciência que é, ela própria, resultante das condições em que me movo, não coincide necessariamente com o do meu vizinho, o que suscita inevitáveis dissensões. Essas dissensões são resolúveis pelo diálogo pacífico, a nível individual. Na história, tese e antítese logram, de longe a longe e por via menos pacífica, uma síntese superior a que chamamos progresso.

 

Divagações em torno do conceito de belo

Divagações em torno do conceito de belo

O nosso apego ao regular e harmonioso, características geralmente integrantes do conceito de belo, terá a ver com a filogénese?

Se os nossos avós se empenharam em fabricar rudes instrumentos de pedra lascada não o fizeram por serem belos, mas por serem úteis para a sua sobrevivência. As “facas” que fabricaram não eram objectos laboriosamente burilados, com fins estéticos; eram pedras angulosas, mas feriam, laceravam, facilitavam a tarefa de reduzir a pedaços susceptíveis de serem ingeridos os animais que caçavam. Comparadas com os seixos polidos e policromáticos do riacho, eram menos belas, mais desagradáveis ao toque, mas mais úteis. Cumprida essa tarefa urgente de refazer energias, e talvez numa curta pausa digestiva, os seixos ali ao lado terão espoletado, num ou noutro dos nossos avós menos friamente materialistas, uma agradável sensação a que, largos milénios mais tarde, viríamos a chamar emoção estética.

Mas as pedras não foram tudo na nossa filogenia, e, sem querer ofender metade da humanidade – e até um pouco mais, ao que parece –, ocorre-me dizer que a mulher terá sido, para a outra metade da humanidade, um pouco como a “faca” e os seixos do riacho, com a particularidade de juntar a utilidade de uma, ainda que de modo desigual, à agradável sensação provocada pelos outros.

Naqueles tempos remotos, as nossas avós prescindiam dos acessórios que, uns tempos mais tarde, viriam a ser disponibilizados pela Moschino, pela Versace, pela Courrèges ou, para abreviar e descer vários patamares na liquidez da compradora, pela corriqueira Zara. Dispunham de assaz densa pelagem, capaz de rivalizar com os mais caros casacos de peles daquelas ou de outras marcas (que, em tal matéria, o autor é mais ignorante ainda do que em matéria de filogenia), quanto mais com um casaco matelassê de punhos canelados da Canada Goose (passem todas estas publicidades desinteressadas). Ora, se com uma calça jeans da Agolde os netos dos nossos avós se dão imediatamente conta da indizível harmonia que jaz sob a ganga azul deslavada, sendo, acto contínuo, acometidos de agradável emoção estética, os avós dos netos de hoje, ao vislumbrarem as formas arredondadas das nossas avós, inevitavelmente as associavam a perspectivas prazerosas, com o que a persistente impressão neles deixada pelo redondo, pelo simétrico, pelo aveludado, se terá “instalado” definitivamente em nossos genes, à maneira do instinto que, no animal, é herdado à nascença, dispensando aprendizagem.

Esta divagação sofre, evidentemente, de um defeito importante (a adicionar a todos os outros): é eminentemente sexista, no sentido em que veicula uma visão masculina e heterossexual. Que pensará disto uma mulher, um ou uma homossexual? Ter-se-á o conceito de beleza consolidado, sobretudo, a partir da experiência existencial masculina? Difícil de aceitar. Certo é que a homossexualidade estava presente na horda primitiva (as circunstâncias que precederam o célebre parricídio “de” Freud tê-la-ão favorecido), e não é menos certo que a harmonia corporal poderia ser igualmente identificada com o prazer sexual, em sentido distinto do que descrevi antes, por nossos avós de ambos os sexos, nos corpos de seus companheiros e companheiras. (Com pedido de perdão por mais um parêntesis sobre a sexualidade, se Freud menciona explicitamente a relação homossexual, Engels, em Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado, escreve: «Morgan, ao reconstituir assim a história da família, recua, de acordo com a maior parte dos seus colegas, até um estado de coisas primitivo em que relações sexuais sem peias reinavam no interior de uma tribo, de tal modo que cada mulher pertencia a cada homem e cada um dos homens a cada uma das mulheres.»)

Continuando, julgo ter algumas vezes ouvido dizer que a mulher, mais do que a beleza física, valoriza, no homem, a inteligência, a cultura, a verve (galicismo de significado bem conhecido, contrariamente ao latiníssimo “facúndia”). Tal pretensão padece de uma ambiguidade: pode indiciar que a mulher tem a superior aptidão de ajuizar do outro a partir de indícios mais subtis do que o arredondado das formas físicas, tão facilmente capturável pela simples observação, mas pode igualmente insinuar que os atributos da tal verve e sobretudo os da inteligência, foram mais generosamente distribuídos entre os humanos do sexo masculino, levando as humanas vantagem naquilo que, supostamente, não exige grande esforço ou particular aptidão.

Também me parece ter ouvido algumas vezes que é a força viril espelhada na musculatura que empolga a mulher. O belo, neste caso, será novamente a harmonia corporal.

Tem tudo isto fundamento e condicionantes genéticas? Se tem, é claro que tudo foi matizado por factores culturais e que essas condicionantes foram amenizadas e, no limite, contrariadas: até o homem mais sensível à beleza feminina se poderá deixar seduzir (…) pelo brilhantismo, pela verve, pela inteligência, de uma mulher insusceptível de ser enquadrada nos padrões de beleza feminina do nosso tempo.

Mas isto são divagações que, de científico, poderão ter um poucochinho mais do que a teoria geocêntrica. Só um poucochinho.

 

Um artigo magistral de Cavaco Silva

 

Aníbal Cavaco Silva, que, na longa noite que antecedeu a madrugada libertadora de Abril, se notabilizou pela inquebrantável coragem com que combateu a ditadura fascista, publica hoje, no Expresso, um admirável artigo em que,”sem margem para dúvidas”, seu timbre de sempre, denuncia a “estagnação económica e o empobrecimento” a que nos têm conduzido sucessivos Governos socialistas”, dos quais os últimos contaram com o indesejável apoio dos partidos de “extrema-esquerda”. Com efeito, “o combate à pobreza nunca foi uma prioridade efectiva do Partido Comunista e do Bloco de esquerda”.

Prevê o insigne Professor que, a seguirmos neste rumo suicidário, rapidamente sejamos ultrapassados por democracias tais como a Polónia e a Hungria, entre outras vítimas “de décadas de sujeição ao estatismo comunista”, mas, sobretudo, lamenta os “salários baixos, salários insuficientes para reter jovens com ambição de subir na vida, […], desigualdades sociais e elevado nível de pobreza, cuidados de saúde de baixa qualidade para quem não dispõe de recursos para acesso à medicina privada e degradação do ensino público.” Tudo realidades imensamente distantes dos elevados padrões de qualidade a que nos habituara durante a vigência dos seus governos e que lhe valeram a veneração dos trabalhadores portugueses, em geral, e dos bancos, em particular, bancos esses que, sem o precioso concurso do estadista e dos continuadores da sua obra, v.g., Passos Coelho, Maria Luís, Paulo Portas, Assunção Cristas, entre outros, se viram impossibilitados de levar a cabo a sua missão humanitária, uma vez que “não dispunham de recursos para financiar as empresas e as famílias”, não obstante disporem deles para fins que o autor não refere – por falta de espaço ou lapso de memória.

A calamitosa situação atrás descrita foi, em boa hora, invertida pelo governo Passos/Portas já referido. A benéfica inspiração recebida do autor do artigo explica que este Governo se tenha distinguido, como é do conhecimento público e todos os Portugueses recordam, pela “criação de emprego”, bem como pela “reposição de salários e pensões atingidos pela situação de emergência financeira herdada do Governo socialista”.

O estadista verbera, depois, o clima de pavor instalado na sociedade portuguesa: medo de criticar o Governo, medo de perder o emprego, medo da privatização dos transportes públicos e consequente medo dos seus trabalhadores, sempre que pensassem em greves desestabilizadoras da tranquilidade social. Enfim, no seu conjunto, o retrato de uma “democracia deficitária, com falhas, claustrofóbica, amordaçada.”

Malgrado o que alguns mal-intencionados críticos lhe apontaram, em tempos, como défice cultural (o número de cantos dos Lusíadas era então matéria para a qual a esposa estaria mais habilitada a responder), decorre da leitura do artigo que ACS enriqueceu a sua bagagem, neste domínio, com o conhecimento do princípio de Peter: «Para algumas pessoas, de coluna vertebral mais frágil, o encosto ao Governo socialista é visto como a melhor posição para subirem além do princípio de Peter.» Documentável também, no artigo, é uma insuspeitada atracção pelo género policial: «Filmes policiais têm mostrado como uma pessoa amordaçada consegue emitir gritos de socorro.»

O comentador conseguiu, graças à leitura do precioso artigo, emitir vibrantes gargalhadas. Agora, sonha com uma mordaça, ou rolha, estopa ou qualquer outro meio de calafetagem que o ponha a salvo dos dislates professorais, pelo menos enquanto humoristas bem mais qualificados nos proporcionarem momentos de boa disposição.

DEFESA E ILUSTRAÇÃO DA CIÊNCIA (Manifesto anti-agnosticismo)

Ser estruturalmente anti-agnóstico pode significar acreditar em "Deus", sendo-se ateu, e, até, ser ateu graças a "Deus".

Explicando: o homem é capaz de tudo, e disso tem dado bastas provas. Ninguém imaginava, tirando uns raros visionários, que pudéssemos um dia fazer aquilo que hoje se tornou comum e muito menos aquilo que está em vias de se tornar comum ou que vai acabar por sê-lo. Exemplos?! Seria um nunca mais acabar! E, no entanto, o homem conseguiu-o. Donde a crença do anti-agnóstico no Homem – criador omnisciente e omnipotente, matéria nascida da matéria, realidade criadora de mitos. Ora o reconhecimento desta ilimitada capacidade da razão humana leva o anti-agnóstico a inferir a potencial reversão de todo o desconhecido. O mistério tem os dias contados, mesmo que esses dias valham anos ou séculos. É uma questão de tempo para que todas as utopias se tornem realidades.

Assim, ao anti-agnóstico, o agnosticismo afigura-se-lhe uma declaração de desistência, de demissão, ou de falta de coragem. O agnóstico acredita na força da razão humana até certo ponto; chegado aí, deixa-se impressionar por fenómenos inexplicáveis, no estado actual da ciência, ou insusceptíveis de explicação científica, pura e simplesmente por serem falsidades – está-se perante um agnóstico demissionário. Outro agnóstico é o timorato, aquele a quem a coragem falece: na dúvida, ele abstém-se de afirmar o primado da razão, não vá ser punido por um ser que só a irracionalidade da fé pode conceber. Assim, o agnóstico vacila – entre a razão e a fé. E, ao vacilar, claudica. E, ao claudicar, perde a oportunidade de reivindicar a quota-parte de divindade que cabe a cada ser humano. Ou, pelo menos, restringe a sua parcela pessoal dessa divindade – entendida como capacidade ilimitada de desvendar o desconhecido. A curto, a médio, ou a longo prazo.

Onde, no parágrafo precedente, se alude à “irracionalidade da fé”, longe do intuito de insultar os crentes, define-se a natureza da crença que prescinde da intervenção da razão – significado primeiro de “irracionalidade” –, o que constitui motivo suficiente para o anti-agnóstico ateu imputar ao imaginário Deus o seu ateísmo: ele é ateu graças ao que considera ser uma ideia de Deus que dispensa a razão, ou, em versão encurtada, graças a Deus. E o anti-agnóstico ateu não o faz gratuitamente; antes se respalda na lição de um Padre da Igreja: a asserção “Credo quia absurdum” é atribuída a Tertuliano (a sua obra aponta nesse sentido) e significa que a fé, ao contrário da ciência, não é do domínio da razão; ignora a razão e até a contraria: “acredito porque é absurdo!” O ateu, reconhecido, bendiz a franqueza do Padre e recomenda-o aos agnósticos, para que se determinem: razão e irrazoabilidade gozam de idêntico estatuto? A metafísica é mais do que o reino do absurdo?

No fundo, o agnóstico censura ao homem a sua insuficiência, exige-lhe a omnisciência integrante do conceito de Deus. Não aquela omnisciência relativa (passe a contradição) a que se alude mais acima e que vai sendo paulatinamente conquistada, com avanços, hesitações e recuos. Não. O agnóstico parece partir do pressuposto inexpresso de que é imprescindível a existência de um ser que disponha duma omnisciência propriamente dita, isto é (passe o pleonasmo), duma omnisciência total e absoluta, o que equivale a dizer que o agnóstico é um crente que não se assume frontalmente, mas que o faz nas entrelinhas, e que o agnosticismo é uma crença idealista rendida ao poder do absurdo e disfarçada de rigor epistemológico.

De cada vez que a ciência dá um novo passo, desbravando o desconhecido, o agnóstico sente-o como uma devassa, uma ameaça, uma derrota. Talvez não o agnóstico displicente, que, confortavelmente instalado na sua crença num incognoscível inexpugnável, pouco se importará com o progressivo aluimento do desconhecido. Mas seguramente o agnóstico militante, aquele que faz da sua crença na metafísica um postulado equiparável às leis naturais. Para este, as vitórias da ciência constituem, no mínimo, um incómodo irritante; em casos mais sérios, um abalo telúrico. À maneira do mostrengo que está no fim do mar, interrogam-se «Quem é que ousou entrar / nas minhas cavernas que não desvendo / meus tectos negros do fim do mundo?». Ao que o homem do leme, ignorando de todo o Senhor Dom João Segundo, responde que preza o sonho e não desdenha a fantasia, mas os sabe pôr no seu devido lugar.

Não se pense, contudo, que os agnósticos de hoje são os de todos os tempos. Não. Quando Galileu teve de abjurar, um agnóstico de que a História não regista o nome ter-lhe-á dito: «A Igreja sabe, desde sempre, que o Sol gira em torno da Terra; tu e, antes de ti, o teu antecessor Copérnico afirmais que é, pelo contrário, a Terra que gira em torno do Sol; sois todos crentes nas vossas crenças, e eu não tenho meios para destrinçar. Isso do funcionamento do universo está muito para além da física!» Ao que Galileu terá retorquido com uma frase já sussurrada antes, ao sair do Santo Ofício, e que toda a gente conhece. Hoje, o agnóstico sabe que a Terra gira em torno do Sol, mas há ainda um sem-número de mistérios insondáveis que ele encara com pavor. Até porque o Santo Ofício foi extinto fisicamente, mas continua bem presente dentro de nós. Que o diga aquele santo austríaco, padroeiro dos ateus e tão pouco agnóstico, que escreveu isto: «muito facilmente o nosso intelecto erra sem disso se aperceber, e […] nada há em que acreditemos mais facilmente que naquilo que, sem atender à verdade, vem ao encontro das nossas ilusões e desejos.» (Freud, Moisés e o Monoteísmo).

 

O Auto das Barcas, de Gil Vicente, em leitura de Noémio Ramos

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N.B. Este texto foi redigido em 1 de Julho de 2019, mas publicado apenas nesta data. Em Outubro de 2019, o autor publicou Auto das Barcas: Inferno, Purgatório, Glória - estudo não contemplado por este post.

Noémio Ramos é um estudioso. E um polemista. Com uma já vasta produção no domínio da investigação vicentista (desde 2008, publicou mais de dúzia e meia de livros sobre a obra do dramaturgo), acaba de lançar um novo volume, desta feita sobre Inferno, a primeira parte do Auto das Barcas, no ano em que passam quinhentos anos sobre a sua publicação. E é precisamente neste título ‒ Inferno ‒ que reside uma das primeiras farpas do polemista à “académica erudição vicentista”[1] instalada e às Direcções Gerais das Artes e da Educação, pois, contrariamente ao que se tornou regra afirmar, não há um Auto da Barca do Inferno, mas sim um Auto das Barcas composto de três partes ‒ Inferno, Purgatório e Glória ‒, à maneira da Divina Comédia, de Dante, inspirador de Gil Vicente para a estrutura da obra[2], sendo que, no florentino, é Paraíso, e não Glória, a designação do espaço de bem-aventurança.

Outra divergência de fundo do investigador, relativamente à profligada erudição vicentista prende-se com a ideia feita de que as personagens do Mestre seriam tipos (sociais), isto é, apresentando feições características de diferentes grupos integrantes da sociedade coeva, representá-los-iam: o Fidalgo, o Usurário, o Frade, o Judeu, etc.[3] Para Noémio Ramos, que encontra na Suma Teológica de Tomás de Aquino a fonte de Gil Vicente no domínio da doutrina moral da Igreja, as personagens vicentinas são alegorias de pecados de que o doutor da Igreja elaborou exaustiva catalogação. E apoia a sua tese em numerosas e extensas citações, que, aliás, seja dito à conta de crítica benévola, talvez devessem ter sido resumidas pelo autor, poupando ao seu leitor uma leitura bastas vezes algo fastidiosa. O mais curioso da questão é que tal tese, parecendo entrar em contradição com o reconhecimento de Gil Vicente como digno representante da nossa Renascença (o teocentrismo e a religiosidade, em geral, são mais próprios da mentalidade medieval)[4], vai, no entanto, e por interposto pecado, ao encontro de uma mais tardia concepção da personagem teatral, que terá uma das suas concretizações mais exemplares quiçá na comédia de caracteres de Molière, em pleno século XVII, com o Tartufo, o Avarento, etc.

Seja como for, Noémio Ramos fustiga, por um lado, o zelo com que a “elite de eruditos” sonega ao público os “dados da pesquisa científica”, onde se incluem as “fontes”[5], e, por outro, os “sucessivos académicos de renome, em geral responsáveis pela Educação em Portugal, que cimentaram as ideias de religiosidade e devoção das obras de Gil Vicente (politicamente impostas em 1562, seguindo as orientações do Concílio de Trento), muitos e diversos palpites e as mais fantasiosas ideias sobre o Autor e o seu Teatro, inculcadas na História da Literatura Portuguesa, ainda hoje cristalizadas nas enciclopédias, produzindo grande lamaçal na Internet, nos manuais escolares, etc. […]”[6].

Tese cara a Noémio Ramos, e tese apoiada em “demonstrações”[7] é a de que a obra de Gil Vicente se apresenta como uma “história da Europa”. Veja-se, a título de exemplo, em Gil Vicente, Carta de Santarém, 1531, e Sobre o Auto da Índia[8], de que modo o autor defende a interpretação segundo a qual o Auto da Índia, criado e encenado em 1509, celebraria a vitória portuguesa na Batalha Naval de Diu, ocorrida em 3 de Fevereiro desse mesmo ano, sendo que as personagens em cena, dotadas de dimensão alegórica, representariam, entre outros, o povo português, Espanha e a baixa nobreza portuguesa[9]. De igual modo, no caso em análise, “Gil Vicente procurou realizar, com o todo do Auto das Barcas, uma Peça de Teatro para representar o momento histórico e cultural, político e ideológico do seu Tempo, com um objectivo equivalente ao reconhecido estatuto sócio-cultural que obteve o Poema de Dante, denominado Comédia, para o Tempo e momento histórico, cultural e político, do poeta florentino”[10]. É assim que Noémio Ramos vê na figura do Frade folião, que entra em cena com Florença pela mão, nada menos do que o Papa Leão X (nascido a 11 de Dezembro de 1475, em Florença, e falecido a 1 de Dezembro de 1521, em Roma)[11] e na figura do Sapateiro não um consertador de calçado, mas sim (pasme-se!) um banqueiro. Com efeito, “Sapateiro era, naqueles tempos, o epíteto injurioso ‒ a contumélia ‒ dado aos Banqueiros, e daí a ira nesta figura”[12].

Definitivamente, é um dramaturgo imbuído da mentalidade dos novos tempos, profundo conhecedor da realidade europeia e empenhado na denúncia da corrupção reinante que irrompe desta leitura de Noémio Ramos, em oposição à imagem tradicional que dele nos legou o ensino ‒ mais conforme à de animador da corte, decerto lúcido, mas ainda assim muito apegado ao pensamento medieval: “GV configura [no Auto das Barcas], não uma moralidade medieval, mas uma Comédia altamente erudita, que, na sua habitual humildade, ao se referir a si próprio, a Autor denomina por Auto de moralidade […]. Salta à vista a incongruência de classificar a peça como obra maior da Idade Média europeia, quando Gil Vicente retoma a Comédia de Dante, avança com a crítica da época à filosofia de Tomás de Aquino (tal como Erasmo, mas com outra perspectiva e fundamentos) e apresenta a glória artística de Florença com o representante familiar dos seus mais destacados mecenas, trazendo-a pela mão em grande esplendor. Portanto, partindo do berço (Dante) à magnificência quinhentista da Renascença.”

E é assim que a “erudição vicentista” é desapiedadamente zurzida, em toda a “simpleza” de uma “alma simples” ‒ termos com que Noémio Ramos, ironicamente, se designa e designa a sua atitude. Esperando não vir a ser desapiedadamente desancada, a alma ingénua que alinhavou estas poucas linhas impregnadas de simpleza quer chamar a atenção de Noémio Ramos para o bem que teria representado uma criteriosa revisão do seu texto, no sentido de o expurgar de indesejáveis obscuridades de expressão, de todo incompatíveis com a valia do conteúdo.

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[1] Ramos, Noémio, Sobre o Auto das Barcas de Gil Vicente – Inferno… a interpretação, Lógos, Março de 2018, p. 4

[2] “[…] reconhecemos as semelhanças: pela estrutura global da peça, Gil Vicente segue a Comédia de Dante, apresentando os principais vícios capitais na primeira parte, Inferno.” (p. 38). “[…] a Divina Comédia, de Dante, constitui apenas um dos recursos de suporte do Auto das Barcas, de Gil Vicente, e é de facto uma das ditas ‘fontes’ que a erudição vicentista tem subtraído ao leitor comum.” p. 43

[3] “[…] somos obrigados a descartar a ideia de figuras tipo, uma ideia que com muita insistência a erudição vicentista tem induzido no público em geral […]. As personagens são simplesmente alegorias aos pecados capitais.” p. 48

[4] Será conveniente recordar que o Renascimento italiano precede em muito o ibérico.

[5] P. 12

[6] P. 23

[7] “demonstração” é, justamente, o título de um dos capítulos da presente obra, que explica em pormenor a ‘démarche’ interpretativa do autor.

[8] Ramos, Noémio, Gil Vicente, Carta de Santarém, 1531, e Sobre o Auto da Índia, Edição Inês Ramos, 2010, p. 44 ou ainda www.gilvicente.eu

[9] https://tambemdeesquerda.blogs.sapo.pt/a-farsa-chamada-auto-da-india-em-46296

[10] P. 44

[11] “[…] Gil Vicente figura na personagem o Papa Leão X e se, ainda assim, alguém quiser colocar quaisquer dúvidas, o nome de Florença para a dama desfaz as hesitações” p. 92

[12] P. 78

A ciência, um bule de chá, Deus e outras minudências (resposta a um post do site Freud & Nietzsche)

Suponho que as definições de ciência dadas pelos dicionários e pelos compêndios escolares dirão todas mais ou menos isto: conhecimento obtido a partir da observação e da experimentação. A observação, só, não chega: os nossos antepassados observavam a Terra e achavam-na plana (alguns nossos contemporâneos parece terem ainda essa crença), ainda que muitos já tivessem percebido que não era assim, muito antes da viagem de circum-navegação, que foi uma espécie de experimentação.

Peter Atkins, autor do interessante (e difícil) livro “Como surgiu o universo” (Gradiva), escreve o seguinte, a este respeito: «A ciência é severa: uma única consequência que entre em conflito com a observação basta para condenar uma hipótese à enorme sucata de ideias inúteis da História que se foi acumulando ao longo dos tempos; uma única consequência verificada mais não é do que um incentivo para perseverar na demanda, e não uma garantia de validade. As hipóteses amadurecem tornando-se teorias, à medida que as suas implicações – e nalguns casos previsões – se multiplicam e conformam com a observação, mas mesmo uma teoria que tenha sobrevivido até uma meia-idade confortável pode ser condenada por uma única consequência falsa.

Todas as ideias, em ciência, vivem na precariedade.» (p. 45)

Subscrevo inteiramente esta “descrição” e acrescento que a falibilidade, em ciência, é sinónima, ou factor, de credibilidade. Nada mais contrário à crença religiosa, cuja irracionalidade Tertuliano (pelo menos, é a ele que a frase é, geralmente, atribuída) assumiu com absoluta clareza: “credo quia absurdum”. Eu acredito na ciência porque sei que ela é falível e tem a honestidade de mo dizer, do mesmo modo que confio no médico que me diz receitar-me determinado medicamento ou propor-me certa cirurgia por estar esperançado, tendo em conta a sua experiência, de que resulte comigo. Pode não resultar? Pode. Mas a alternativa (sofrer indefinidamente ou morrer) não é satisfatória. Estando eu debilitado, se ele me prescrevesse uma sangria (como se fazia in illo tempore, e não me refiro à bebida com o mesmo nome), estaria, no fundo, a imitar Tertuliano: acredito que isto o vai curar porque é absurdo.

O que acontece com a “neurose obsessiva universal” (designação que, como saberá, Freud deu à religião, sendo que a vulgar neurose de qualquer um de nós é uma espécie de “religião individual”) é que me pede que acredite porque sim: Deus existe porque só assim se entende a existência do universo e, como somos todos pecadores, há que expiar os nossos pecados, batendo no peito, rezando muito, fazendo penitência, pagando o dízimo ou a indulgência. Enfim, não me alongarei, pois sabe isso tão bem ou melhor do que eu. O que também saberá é que Freud explicou a origem de tudo isto muito bem explicado em textos como “Totem e Tabu”, “Moisés e o Monoteísmo”, “Actos Obsessivos e Práticas Religiosas”, “O Futuro de uma Ilusão”. Obras que também nos permitem compreender a importância das crenças religiosas em geral para uma grande parte da humanidade, que, privada de mitos e fantasias, e não lhe bastando os contos de fadas infantis ou a ficção romanesca, talvez não aguentasse o impacto permanente de uma realidade nem sempre agradável. Quem escreve seriamente sobre isto, também, é Edgar Morin, que cito:

«A formidável colonização da vida humana pelo mito, pela magia, pela religião, testemunha a amplitude e a profundidade de uma solução neurótica, sem a qual a humanidade talvez não tivesse sobrevivido. A fórmula de T. S. Eliot ainda não deixou de ser verdadeira: «human kind cannot bear very much reality» (o género humano não pode suportar muita realidade).» (“O Paradigma Perdido”)

Igualmente com uma posição clara a este respeito, os materialistas dialécticos nunca isolam os aspectos “espirituais” dos puramente materiais. Eles sabem (como os existencialistas ateus) que a existência precede a essência, ou seja, que a infra-estrutura material, o ser social, é determinante, em última análise, da super-estrutura (consciência, ideias, crenças,…). Pragmaticamente, reconhecem que não é aconselhável retirar aos trabalhadores o ópio religioso que lhes alivia os sofrimentos corporais e sociais sem antes criar condições que lhes permitam encarar confiantemente o futuro cuja construção lhes incumbe. Cito Lénine: «(…) o jugo da religião sobre a humanidade é apenas produto e reflexo do jugo económico que existe dentro da sociedade. Não é com nenhuns livros nem com nenhuma propaganda que se pode esclarecer o proletariado se não o esclarecer a sua própria luta contra as forças negras do capitalismo. A unidade desta luta realmente revolucionária da classe oprimida pela criação do paraíso na terra é mais importante para nós do que a unidade de opiniões dos proletários sobre o paraíso no céu.» (“O Socialismo e a Religião”)

Mas o Gabriel Meiller é agnóstico. O que me surpreende em alguém que escreve no site Freud & Nietzsche, porque Freud era ateu, e Nietzsche, para além de ter matado Deus, desancou o cristianismo e todas as suas fantasias de forma violentíssima, para não dizer tresloucada, porque entre Freud e Nietzsche vai uma distância enorme, em termos de postura intelectual: o método de Freud é estritamente científico, e ele sublinha, vezes sem conta, a sua eventual falibilidade, as suas fontes, o cuidado que põe nas conclusões que tira; Nietzsche, pelo contrário, e sem contestar a sua genialidade, é torrencial, aforístico, profeta, parece aspirar a ser o deus que nega, em suma, é um propagandista. Sabemos da sua formação filológica e também da sua hereditariedade, educação, convívios, doenças, etc. Enfim, creio que nenhum deles acataria o seu relativismo conceptual, isto é, a ideia da incapacidade humana para “decidir” sobre a existência ou não existência de Deus.

O mesmo Peter Atkins que citei acima sobre o método científico, escreve isto: «O funcionamento do mundo foi, por alguns, atribuído a um Criador espantosamente metediço, mas incorpóreo, a guiar activamente cada electrão, quark e fotão até aos respectivos destinos. As minhas entranhas revolvem-se perante esta visão extravagante do funcionamento do mundo e a minha cabeça segue o mesmo caminho das entranhas.»

Cientista, Atkins não alimenta pruridos pretensamente filosóficos que, apoiando-se na falibilidade do conhecimento científico, acabam por legitimar qualquer embuste, pondo-o em pé de igualdade com aquilo que paulatinamente se vai sabendo com alguma segurança. Como tudo nos é dado pelos sentidos, a dúvida sobre a fiabilidade das impressões sensoriais levou, como sabe, a filosofia idealista a negar até a própria existência da matéria (Berkeley).

Quanto à impossibilidade de provar a inexistência de Deus, que diabo!!!, há imensas coisas que nós somos incapazes de provar sem que isso prove que elas existem. Conhece a parábola do bule de chá de Bertrand Russell? Não a transcrevo aqui para não me alongar ainda mais, mas pode lê-la na Wikipedia ou em “A Desilusão de Deus”, de Richard Dawkins. Muito resumidamente (a parábola tem outros desenvolvimentos): se me disserem, a mim ou a si, que, entre a Terra e Marte, há um bule de chá muito pequeno, em órbita, nenhum de nós será capaz de provar que não é verdade. Pela parte que me toca, recuso liminarmente a ideia absurda; o agnóstico sente-se na obrigação de provar que não há um bule de chá em órbita.

O cepticismo e a crítica da ciência – volta e meia, em moda nos círculos intelectuais – mais não fazem do que retirar legitimidade àquilo que se sabe (de ciência certa, passe a contradição com a já esclarecida relatividade da verdade…). Quanto aos argumentos da antiguidade e da universalidade, em matéria religiosa (a humanidade, desde sempre, acreditou; quem és tu, ateu, para duvidares daquilo em que a humanidade acredita?), o anarquista Bakunine, em “Deus e o Estado”, dá uma resposta eloquente. Não a resumo aqui, mas bastará recordar Galileu, para se ter uma pequena ideia da justeza das crenças da humanidade.

E, por falar em Galileu, cito um episódio que Stephen Hawking relata na sua “Breve História do Tempo”: em 1981, por ocasião de uma conferência organizada pelos Jesuítas no Vaticano, para a qual foram convidados vários especialistas em cosmologia e tendo como pano de fundo o “arrependimento” pela condenação de Galileu e da teoria heliocêntrica, aconteceu que

«No fim da conferência os participantes foram recebidos em audiência pelo papa, que lhes disse que estava certo estudarem a evolução do universo desde o big bang, mas que não deviam inquirir acerca da natureza do big bang, porque tinha sido o momento da criação e, portanto, trabalho de Deus.»

O que satisfez Hawking foi o papa ter ignorado a sua contribuição para a conferência. É que

«a possibilidade de o espaço-tempo ser finito, mas ilimitado […] significaria que não tinha tido um princípio e que não havia qualquer momento de criação.»

E conclui:

«Não tinha qualquer desejo de partilhar a sorte de Galileu, com quem me sinto fortemente identificado, em parte devido à coincidência de ter nascido exactamente trezentos anos depois da sua morte!»

 

GÉNESIS

GÉNESIS

 

“Como te atreveste, assassino, a contrariar o meu projecto, é assim que me agradeces ter-te poupado a vida quando mataste Abel, perguntou o senhor, Teria de chegar o dia em que alguém te colocaria perante a tua verdadeira face”

José Saramago, Caim

 

 

 

U

sserius, bispo de Meath, arcebispo de Armagh e chanceler-mor da Sé de S. Patrício, citado por Eça de Queirós, cujas palavras reproduzo, no seu conto “Adão e Eva no Paraíso”, afirma que “Adão, Pai dos Homens, foi criado no dia 28 de Outubro, às duas horas da tarde…” Julgo saber, doutra fonte, que o mesmo erudito clérigo irlandês situou a Criação no ano de 4004 antes de Cristo. Se esta última datação não me parece passível de dúvida, já em relação à primeira, pese embora a idoneidade do setecentista prelado anglicano, tenho fundadas razões para a sujeitar ao crivo de uma análise mais fina. Com efeito, o meu ilustre e, infelizmente, malogrado amigo Frei Bento da Anunciação, teólogo de renome no círculo das nossas comuns amizades e autor de copiosa bibliografia nas áreas das ciências cosmogónicas e escatológicas, publicada a expensas do próprio, tinha uma leitura, neste e noutros particulares, heterodoxa. Garantia-me o meu religioso amigo que, naquele dia, e após as trabalhosas ocupações a que entretanto se entregara – a saber: separar a luz das trevas, logo no primeiro dia, criar os Céus, no segundo, colocar Terra e Mares no seu devido lugar e promover o crescimento de plantas, no terceiro, dispor os astros no firmamento, no quarto, e povoar os ares e as águas de aves, répteis e baleias, no quinto, e vigésimo sétimo do mês de Outubro –, Deus considerou que a parte do Seu projecto ainda por concretizar, a criação do homem, era demasiado importante para lançar mãos à obra sem, ao menos, Se conceder um dia, não de descanso, o que a Sua perfeição dispensava (pese embora a lamentável e absurda referência que a Sagrada Escritura faz a tal respeito), mas de reflexão, que essa, sim, é atributo inalienável da divindade. O sexto dia foi, pois, para o Senhor, o dia da reflexão. Ora a reflexão induz geralmente decisões mais judiciosas do que aquelas que a acção irreflectida produz, e foi assim que Deus se viu confrontado com uma angustiosa (mas oh! quão produtiva) dúvida que, quase seis milénios volvidos, isto pelos cálculos do nosso estimado Usserius, pode muito bem ter contaminado o pensamento existencialista, v.g. no particular da angústia existencial. A qual dúvida enunciou nos seguintes termos, decerto imbuídos de plebeísmo e impróprios para Deus, mas cuja fidedignidade o meu amigo Frei Bento asseverava: estando Eu só, num universo que, em cinco dias, tirei do nada, qual a pressa de aqui pespegar um ser decerto repleto de qualidades, ou não fosse minha criação, mas bem menos interessante do que aqueloutro que tenho em mente criar a seguir? E foi assim que, no dia seguinte, sétimo da criação, se bem que vigésimo oitavo do mês de Outubro, Eva foi criada, na douta conclusão do meu amigo teólogo, a quem a determinação da hora do evento motivou aturado estudo, o qual produziu sérios indícios de que teria ocorrido às primeiras horas da manhã, ou não estivesse o seu Autor interessado em desfrutar ao máximo de tão prazenteira criação. E Adão teve de esperar pelo nono dia. Sim, porque o oitavo dia, o oitavo dia já nós veremos, seguindo a lição do meu saudoso Frei Bento, que destino lhe deu o Senhor.

 Exposta, pois, esta primeira discrepância, cujas consequências nos calendários só não são devastadoras porque a tese de Frei Bento da Anunciação não logrou ultrapassar os umbrais do mosteiro onde dedicava o seu santo ócio ao estudo destas espinhosas questões, passemos ao meu humilde relato. E que relato me proponho eu fazer, perguntar-me-ás, leitor. Ao que te responderei que, encorajado pelas lúcidas pesquisas de Usserius e alimentado pelas surpreendentes conclusões a que Frei Bento chegou, me persuadi de que, não obstante a pequenez que me tolhe os movimentos e me prende ao barro de que provimos, eu próprio seria capaz de criar um modesto relato dos primeiros tempos que Deus e as suas primordiais criaturas viveram nesse jardim das delícias que era o Éden. Não uso aqui o verbo com o significado que a religião lhe dá – o de tirar daquela espécie de cartola de mágico que é o nada –, mas antes na acepção comezinha com que a humanidade se tem contentado, desde sempre, vedado que lhe está o acesso às artes do Criador, e que é, corriqueiramente, o de haurir algures – o Génesis, Primeiro Livro de Moisés, e o Cântico dos Cânticos, para este efeito – a matéria-prima que, depois de devidamente saboreada, insalivada, isto é, confrontada com os dados fornecidos pelo meu amigo teólogo, e assimilada, é vertida em letra de molde. Vamos, então, aos factos.

Tendo, pois, criado a mulher à Sua imagem, com recurso não só ao pó da terra, como conviria ao seco e desenxabido Adão, mas também aos mais vistosos e suculentos pomos que as árvores do Éden já ostentavam, e tendo “inspirado em seu rosto um assopro de vida”(G: 2,7), Deus a levou a passear no jardim, que dotara da mais variada flora, particularmente de espécies arbóreas com aptidão fruteira, e, mais particularmente ainda, da árvore da ciência do bem e do mal, a qual virá a desempenhar papel de relevo nesta história e, por via disso, na história de todos nós. Ora as árvores carecem de rega e as do Éden não constituíam excepção à regra, razão pela qual, mas também para conceder à Sua criatura a possibilidade de se refrescar, Deus colocou neste Seu jardim um rio com quatro braços, a saber, o Fison, que banhava e rodeava o aurífero país de Evilath, o Gehon, que levava as suas águas à Etiópia, o Tigre, vizinho dos assírios, e o Eufrates. Foi neste último que Eva quis banhar-se, ia o Sol no zénite, depois de ter percorrido, de mãos dadas com o Senhor, as duas léguas que os separavam das terras que, mais tarde, viriam a ser as de Sinear. Eva abandonou a mão do Senhor, que a ficou observando com ternura, enquanto percorria os poucos metros a que estava da margem baixa coberta de agriões e hortelã. Ela tinha já, com seis mil anos de antecedência, a coruscante beleza das criaturas que pululam hoje nas pantalhas dos cinemas. Avançava pé ante pé, com requebros moderados nos quadris desenhados com sábia perícia, detendo-se agora e logo como que a medir a distância do perigo e a ousadia necessária para o enfrentar. Os longos cabelos sedosos pendiam-lhe sobre as costas e esvoaçavam ao sopro ligeiro de um zéfiro tresmalhado. E, à medida que avançava, Deus não parava de bendizer a hora em que lhe acudira ao espírito a ideia de postergar a criação do homem a favor da criação da mulher. Eva entrou na água morna do Eufrates, que, naquele ponto, deslizava com doçura e redemoinhava num refego da margem, e foi avançando até que a água lhe cobria já a curva da anca. Mas quando tudo parecia indicar que a primogénita da humanidade não tardaria a ensaiar as primeiras braçadas, eis que Eva se afunda, volta à tona, se debate e dá sinais de grande aflição. O Criador, por seu turno, ciente da sua proverbial omnipotência, não se inquieta. Eva nada perderia em desconfiar doravante dos perigos que o leito dos rios encerram. Porém, Eva suplicava a ajuda da divina Providência, e o Criador, na Sua imensa sabedoria, conveio que era chegada a hora de lha providenciar. Despida a túnica que Lhe cobria o corpo desde todo o sempre, entrou no Eufrates e nadou até Eva, que se Lhe prendeu ao pescoço com a fúria do náufrago. Deus afagou-a, tranquilizou-a e, vendo-a ali tão perto de Si e tão meiga e sentindo-lhe o aveludado da pele, não pôde evitar um breve devaneio, mais próprio de uma mortal criatura, de que logo se arrependeu: Meu Deus, como é bela a obra que criei. E, ressalvada a incongruência do desvario, digno de exprobração, tinha razão o Senhor, porque de todas as criaturas que, desde o quinto dia da Criação, povoavam a terra, o ar e os mares, Eva era, sem dúvida, a mais perfeita. Não só a mais perfeita. Era também a mais encantadora, no sentido pleno do termo, pois, recém-criada, Eva detinha já esse poder sobrenatural de subjugar e de atrair a si que, nos séculos que se seguiram, não deixaria de aperfeiçoar. Que podia a omnipotência de Deus perante aqueloutra omnipotência? Nada. E o Senhor disse então: Sejamos felizes. E sucumbiu. Sucumbiu ali mesmo, na margem baixa do Eufrates, em leito perfumado de hortelã e agrião.

O Sol, estrela jovem de dois dias, escondera-se já para além das terras que viriam a ser de Lubim, Deus e Eva experimentavam ainda as delícias por que também é conhecido o jardim do Éden. O sétimo dia, o da criação da bem-aventurança, finava-se. Deitados lado a lado, ambos seguiam, na cúpula celeste, o majestoso espectáculo de milhões de minúsculos olhos brilhantes que os contemplavam na Terra. E viu Deus que era bom. E disse a Eva que, ao outro dia – o oitavo, como sabemos – iriam ambos dar um passeio para os lados da terra de Elam, filho de Sem. Ora, vendo-a circunspecta, perguntou-lhe o Senhor o porquê de tal cogitação, ao que Eva retorquiu com a sua ignorância de que, naquele jardim, houvera mais gente. O Senhor apercebeu-se, então, de que, por razões de comodidade, vinha usando a sua omnisciência para nomear terras e criaturas que ainda não existiam, e mostrou-se pesaroso. E Eva achou graça à Sua humilde contrição. E acarinhou o Senhor. E ao oitavo dia foram ver as terras de Elam, filho de Sem. E, quando repousavam num vergel onde um regato rumorejava por entre oliveiras, palmeiras, figueiras e cedros, Deus entendeu, na Sua infinita sabedoria, que era chegada a hora de revelar a Eva a derradeira parte do Seu projecto. E, sentando-se ambos entre os nardos que por ali floriam, disse-lhe o Senhor Deus: Não é bom que a mulher esteja só, far-te-ei um adjutório semelhante a ti. Eva não compreendeu de imediato a necessidade de um coadjutor, mas Deus lhe disse que o jardim do Éden era para lavrar e guardar, e Eva acatou a determinação do Senhor. E assim se passou o oitavo dia, até que a noite chegou. E, tendo-a ambos passado ali mesmo, ao outro dia se puseram a caminho da margem onde, na antevéspera, Eva se fizera à água e fora salva pelo Senhor. E, fosse da violência da marcha, fosse do vigor do sol, Eva, que suava, deixou-se cair sobre pedras angulosas que juncavam o chão e feriu-se. E disse o Senhor que era bom. E, pela primeira vez desde que o mundo era mundo e ela a ele viera, Eva não entendeu o Senhor. Como podia Ele, na Sua tão grande sabedoria, achar bom o sofrimento? E pensou que a atitude do Senhor para com ela era o Mal. E não lhe ficou grata. E por isso, chorou. Chorou e logo adormeceu. Deus recolheu então em Suas mãos uma gota do sangue de Eva, uma gota do seu suor e duas das lágrimas que se lhe escorriam das faces, e com elas amassou uma mão cheia de barro que daquele mesmo chão por eles pisado tirou. E, tendo brevemente esculpido uma figura humana naquele pedaço de nada, ali mesmo lhe insuflou o sopro da vida e o homem foi feito alma vivente. Não tardou muito que Eva acordasse, refeita da queda e do cansaço. E logo percebeu que Deus acabara de criar o seu adjutor, conforme lhe fora prometido. E ambos estavam nus, e não se envergonhavam. E, tendo Deus concluído a Sua obra, afastou-se, deixando-os sós para que se conhecessem.

O nono dia aproximava-se do seu termo e Deus experimentava o renovado sentimento da solidão. Para trás ficavam séculos e séculos de uma existência vazia e absurda a que a Criação viera, enfim, dar um sentido. Concluída a Sua obra, deixados os astros, a terra e os mares, animais e plantas, mulher e homem entregues a si mesmos, nada mais Lhe restaria do que observá-los à distância, seguir-lhes os movimentos e julgá-los pelas suas acções ou omissões. E Deus achou que não era bom. E ficou de ânimo sombrio, como noite tormentosa. E a imagem de Eva volvia-Lhe incessantemente ao espírito, tal presença material. E, no seu sofrimento, sempre que a imagem de Eva se fazia presente ao seu espírito torturado, proferia palavras que ofendiam a sua habitual sensatez e que, invariavelmente, descreviam a harmonia do corpo de Eva, a sua perfeição divina, e a comparavam com tudo o que de mais belo, de mais saboroso, de mais agradavelmente perfumado e de mais enternecedor Ele tinha logrado criar durante os árduos dias daquele primeiríssimo mês de Outubro. O nardo e a madrágora, o incenso e a mirra, o cedro e o cipreste, a açucena, a romã e o açafrão, o aloé e o cinamomo, o mel, o vinho e o leite, o regato e a fonte, a pomba e o cabritinho, o lírio e o jacinto, o marfim e a safira, o mármore e o nácar, a prata e a púrpura – eis os vocábulos que da boca do Senhor manavam como jorros cristalinos brotando de nascente.

Entretanto, sozinhos no Éden, Eva e Adão inventavam um léxico para a fauna e a flora de que cada elemento lhes inundava a alma de um indizível deslumbramento. Alternadamente, ora Eva perguntava Que planta é esta? e Adão respondia É o cálamo, ora Adão perguntava Como se chama esta ave, ao que Eva tornava É o flamingo. E esta árvore?, perguntaram ambos, ao deparar com uma que se encontrava no meio do jardim e cujos frutos se assemelhavam a maçãs. Podiam ter-lhe chamado macieira, mas, por razões que escapam à compreensão humana, Eva e Adão hesitaram e decidiram colher um dos seus frutos. Talvez o sabor do fruto lhes desse o significante de que careciam. Porém, aconteceu que o Senhor Deus passeava no jardim pela viração do dia e os viu. Ainda mal tinham erguido o braço na direcção do ramo mais baixo da árvore, quando um trovão os fez estremecer. O Senhor Deus interpelava-os, irado e vociferante: Esta é a árvore da ciência do bem e do mal e esse o seu fruto; não comereis dele, nem nele tocareis, para que não morrais. Transidos de medo, Eva e Adão entreolharam-se e abraçaram-se. E, feita a advertência, o Senhor deixou-os, ainda iracundo, e retirou-se para um canto do universo. Estavam agora cientes de que a desobediência à determinação divina teria um preço. Eva, contudo, recompôs-se rapidamente do pavor experimentado minutos antes. E, caindo em si, considerou que aquela atitude divina não se ajustava à imagem que guardara do Criador desde que Este lhe insuflara a vida. Nenhuma semelhança entre o ser terno e gentil que a levara a conhecer o jardim para os lados da terra de Elam, filho de Sem, que a salvara, quando quase se afogara no Eufrates, e que partilhara com ela tantos afagos, tantos momentos de bem-aventurança, apenas uns dias antes. Naquele pequeno conjunto de memórias, apenas uma, fugaz, mas ainda assim impressiva, destoava: a reacção do senhor perante a sua dor, ao cair e ferir-se. Mas não, uma pequena nota discordante não podia ofuscar toda a soma de lembranças felizes que lhe acudiam. Para Eva, aquela interdição rude e absurda só podia ser chiste. E, mesmo que chiste não fosse, obedecer ao decreto do Senhor também tinha um preço, qual seria o da ignorância para todo o sempre. E aqueles frutos eram magníficos. E não só eram magníficos como eram, o Senhor o dissera, a chave do conhecimento do bem e do mal. Porém, que mal e que bem poderiam ser-lhe dados a conhecer, se ela experimentara já todo o bem que Deus lhe prodigara e o mal, ainda que em menor grau, com a sua queda e, agora, com a proibição de comerem daquele fruto? Eva tinha sede de saber. Não já Adão, que, de cenho franzido, via a mulher meditar e tremia como varas verdes. Afastemo-nos daqui, disse-lhe, que é vontade do Senhor mantermo-nos longe desta árvore. E Eva soube que não podia ceder ao medo que tolhia os movimentos do seu companheiro. Talvez fosse temerário, mas aquele passo havia de ser dado, ou para sempre a torturaria o remorso de haver abdicado do conhecimento. E estendeu o braço, desobedecendo ao Senhor, e comeu o fruto proibido, e o quis dar a provar ao companheiro, que recusou. E Eva, que pressentia a sua omnipotência desde que estivera com o Senhor, acarinhou Adão, e Adão sentiu as suas forças cederem perante a insistência de sua mulher. E provou do fruto proibido. Ora, ambos estavam nus, como sempre haviam estado, desde a sua recente chegada ao paraíso. E, ao comerem do fruto proibido, ambos souberam da sua nudez. Adão teve então um movimento de recuo e quis cobrir as suas partes pudendas com um pâmpano. E Eva sorriu, acarinhou-o, e, percebendo que o conhecimento da nudez era consequência de haverem comido do fruto proibido, o disse a Adão e lhe fez compreender que taparem-se seria denunciar-se, ao que Adão contrapôs a omnisciência do Senhor. E, de novo, sorriu Eva perante a candura de seu companheiro: O Senhor não sabia que íamos colher o fruto da árvore, por isso se irou, e não saberá que comemos do fruto da árvore, enquanto não lhe dermos provas disso. Adão, porém, não se dando por vencido, retrucou com a inconveniência de as criaturas de Deus pretenderem abrir os seus olhos e, com isso, igualar-se-Lhe, conhecendo o bem e o mal. E, desta vez, Eva não retorquiu. Porém, percebeu quão difícil era a arte da persuasão e mais se firmou na convicção de que lhe cabia experimentar tudo aquilo que se lhe apresentasse.

A vida no Éden seguiu o seu curso feito de aprendizagens sucessivas, de repetidos deslumbramentos, de contrariedades momentâneas e de incipientes colóquios. E a afeição entre ambos prosperava, na medida em que crescia o seu conhecimento do jardim. Ora, enquanto isto, nos confins do universo, Deus interrogava-se sobre as razões dos seus actos, sobre o critério das suas opções e, em última análise, sobre a sua própria identidade: Quem sou Eu? Donde venho? Para onde vou? E como as respostas apontassem sempre para Si mesmo, sentia-se só e desacompanhado. Porém, nunca estivera tão acompanhado. E sofria. A eternidade nunca lhe propiciara percalços de maior; a pura consciência deixava-se-Lhe fluir, fora do tempo, num torpor infinito, até aquele momento inaugural em que uma ideia, subitamente, como uma chama, Lhe incendiou o espírito, que era levado sobre as águas (G. 1;2) e Ele disse: Faça-se a luz (G.1;3). Porque a esse momento seguiram-se todos os outros que haviam de ver surgir os céus e a terra, a luz e as trevas, os mares e a erva e as árvores e os luzeiros do céu e os répteis e as aves e os peixes e as bestas da terra. E a mulher. Ora a sua obra era vasta e perfeita, porém o Senhor estava mais só do que nunca e sentia que Lhe faltava uma dimensão, que Eva lhe permitira partilhar. Por isso, sofria, no canto do universo para onde se retirara. E dos lábios do Senhor começaram então a brotar palavras que a Sua omnisciência Lhe ditava, mas que, em boa verdade, só muito mais tarde deveriam ser pronunciadas pela primeira vez, e em contexto profano. E estas palavras, longe de Lhe serem refrigério, desconsolavam-no. Dizia o Senhor: Eis que és formosa, minha amiga, eis que és formosa; os teus olhos são como os das pombas entre as tuas tranças; o teu cabelo é como o rebanho de cabras que pastam no monte de Gilead. Depois, permanecia um instante silencioso, e retomava: Os teus lábios são como um fio de escarlate, e o teu falar é doce; a tua fronte é qual pedaço de romã entre as tuas tranças. Mais uns instantes de mutismo e, de novo, incontrolável, a verve do Senhor: Os teus dois peitos são como dois filhos gémeos da gazela, que se apascentam entre os lírios. E, finalmente, quase num estertor, o olhar perdido nos luzeiros do céu: Que belos são os teus amores, irmã minha! ó esposa minha! quanto melhores são os teus amores do que o vinho! e o aroma dos teus bálsamos do que o de todas as especiarias! Favos de mel manam dos teus lábios, ó minha esposa! mel e leite estão debaixo da tua língua, e o cheiro dos teus vestidos é como o cheiro do Líbano. E, chegado aqui, o Senhor chorou.

Ora foi num destes momentos tormentosos que o Senhor, de si para consigo, disse que não era bom deixar-se abater por tão transcendente provação. E nesse dia desceu ao Éden. E, tendo o Senhor descido no centro do delicioso jardim, ali bem perto da árvore da ciência do bem e do mal, eis que uma serpente dele se acerca e Lhe cicia num silvo: Desobedeceram-te os dois a quem proibiste que comessem do fruto desta árvore, mal os deixaste. Dito isto, a serpente afastou-se, com desdém. Porém, o Senhor confiava na sua omnisciência e à serpente não se lembrava de lhe ter concedido o dom da fala. E o Senhor procurou Eva e o seu adjutório, Adão, para deles saber a verdade. Ora as suas criaturas, ainda maravilhadas com o quotidiano labor de descoberta de tudo quanto as cercava, mostraram-se ao Senhor na sua nudez primitiva e investidos da mais pura ingenuidade, perante o que o Senhor hesitava em fazer-lhes a pergunta que a denúncia da serpente justificava. Adão, contudo, passado o primeiro momento do encontro, dava alguns sinais de nervosismo que não passaram despercebidos ao Criador. E o Senhor disse: Tereis, porventura, desobedecido à minha proibição de comerdes do fruto desta árvore. Ao que Eva, sem hesitar, respondeu negativamente, ao mesmo tempo que, com astúcia, levava Adão a olhar para a árvore da vida ali ao lado. E como, do fruto da árvore da vida, nem um nem outro houvessem comido, Adão pôde, sem temor nem hesitação, dar resposta igual à de sua mulher, com isso deixando tranquilo o Senhor. Não fora, porém, intuito do Senhor, ao deslocar-se ao Éden, inteirar-se das acções de Eva e de Adão. O que o movia era, sim, o desejo que, agora, estando ali, junto deles, se Lhe afigurava medonho, vil e ultrajante, e que era o de estar a sós com Eva. E o Senhor sentia-se incapaz de conter o ímpeto que o arrebatava e impelia na direcção dela. E infundiu, então, um sono profundo em Adão, tão profundo que bem lhe pudera arrancar uma costela que ele nada houvera sentido. E, vendo nos olhos de Eva a mesma chama que o consumia, lhe disse que iriam junto do Eufrates colher a flor do nardo e da açucena e beber um vinho capitoso. Puseram-se ambos a caminho, porém, a urgência do que os impelia não consentia a demora da caminhada. Era agora a viração do dia e, sem mais detença, ali mesmo, a escassa distância das árvores da ciência e da vida gozaram a bem-aventurança que antes haviam experimentado junto do Eufrates. E entregaram-se ao seu terno desvario com a despreocupação própria dos justos e por uma parcela da eternidade. Ora Adão voltara a si e, erguendo-se do leito de urze e rosmaninho onde o sono o embalara, estranhou não ver a companheira nem o Senhor. E não os houvera encontrado, não fora a serpente sair ao seu encontro e, com a mesma ardileza de que dera mostras com o Senhor, lhe ciciar: Seguindo este trilho, bem podes estar seguro que não morrerás de morte e que se abrirão os teus olhos. E Adão não tardou a ver a sua companheira com o Senhor, sem que, todavia, estes o vissem. E no espírito de Adão se formou, então, um desígnio obscuro que se apossou dos seus braços. E Adão ergueu do chão uma pesada pedra e, aproximando-se do Senhor, Lha descarregou na cabeça.

Não deu acordo de si o Senhor, nem nesse infausto dia 17 de Novembro nem no dia que se lhe seguiu. Porém, ao terceiro dia se ergueu com esforço do chão em que jazia. De nada do que se passara antes se lembrava, e, porventura, ter-se-ia posto em marcha para qualquer outro esconso do universo infindo, não tivesse estranhado a poça de sangue que assinalava o exacto sítio onde repousara a Sua divina cabeça ensanguentada. Cogitou então longa e profundamente sobre o que poderia ter acontecido, mas sentia que o Seu espírito nada lograva vislumbrar, para além do que de mais imediato se lhe apresentava, qual fosse o esforço feito para se erguer e a cefaleia que o atormentava. O Senhor sofria, pois. E achou, na Sua agora diminuída sabedoria, que não era bom sofrer fisicamente, nem, muito menos, sofrer por ignorar o que poderia estar na origem de tal sofrimento.

Neste entretanto, Adão fora já severamente admoestado por sua mulher, nossa mãe comum, que lhe fizera sentir a inconveniência grosseira da agressão perpetrada, facto que, para além do mais, lhes poderia valer sérios dissabores na sua caminhada futura por um Éden recém-emancipado da tutela divina e, por essa via, entregue ao acaso. E, para mais vincadamente o levar a capacitar-se da sua iniquidade, recusara-se, desde o dia infausto, a com ele se recostar, o que trazia o inditoso Adão mergulhado numa melancolia infinita. Ora, foi numa das alturas em que Adão se explicava junto da sua agora temível companheira que o Senhor deles se aproximou, curioso que estava de indagar se àqueles dois se propiciara a oportunidade de testemunhar aquilo que o vitimara. E eis que, ao aproximar-se, pôde claramente ouvir o diálogo que aqui fielmente se transcreve, assaz surpreendente pelo precioso do estilo, mas sobretudo esclarecedor, pela riqueza do conteúdo: ─ Não me acuses, Eva, do que mal sabes; se o não matasse, como saber se do homem se de Deus serão, para além de teus, os filhos que conceberes? ─ Se todos os filhos que tivermos serão, como nós, filhos de Deus, como queres fazer tal destrinça? Contenta-te com a suma bênção de partilhar com o Senhor a sementeira que ele quis ter em mim.

Foi profunda a surpresa do casal edénico, persuadido que estava do passamento do Criador, e infinita a ira deste. E assim, sem mais detença, o Senhor expulsou o homem do jardim do Éden: ─ Pois que quiseste a morte do teu Senhor, maldita é a terra por causa de ti; com dor comerás dela todos os dias da tua vida. Espinhos e cardos também te produzirá; e comerás a erva do campo. No suor do teu rosto comerás o teu pão, até que te tornes à terra; porque dela foste tomado; porquanto és pó e em pó te tornarás. Depois, ordenou a dois querubins armados de espadas flamejantes que guardassem a árvore da vida, não fosse Adão estender a mão, dela tomar e, comendo do seu fruto, viver eternamente. Não assim com Eva, de quem o Senhor não podia, ainda que quisesse, separar-se para todo o sempre. Recordou, então, os desvarios por que passava sempre que a ausência de Eva o deixava mergulhado na solidão do universo. E, de novo, palavras saídas do mais fundo da sua alma lhe brotavam dos lábios como água cristalina de nascente: Os teus lábios são como um fio de escarlate, e o teu falar é doce; a tua fronte é qual pedaço de romã entre as tuas tranças. E mais: Os teus dois peitos são como dois filhos gémeos da gazela, que se apascentam entre os lírios. E só não sentia o incómodo do plágio porque, em boa verdade, seria Salomão, muito tempo volvido, quem viria a beneficiar de divina inspiração.

Por isso, suplicou a Eva que deixasse o desventuroso Adão entregue à sua sorte, ou não tivesse ele infringido as ordens divinas. Não foi esse o querer da nossa antiga mãe. Ainda se lembrava da reacção do Senhor, aquando da sua queda, quando ambos seguiam para os lados das terras de Elam, filho de Sem, a caminho do Eufrates. Também o rancor patenteado pelo Senhor, ao expulsar Adão do Éden, a chocara. Porém, o que mais verdadeiramente a afastava do Senhor era a convicção de que, com Ele, o seu destino seria o desconhecimento. Ora Eva, já o dissemos, tinha sede de saber. E, isso, o Senhor via-o agora, com toda a clareza. Por isso a fulminou: Tu em dor parirás teus filhos, e estarás sob o poder de teu marido, e ele te dominará.

Começaram, então, para os nossos pais ancestrais os trabalhosos dias da sobrevivência, numa terra inóspita que o Senhor semeara de espinhos e cardos. Do raiar da alva até ao último suspiro do dia, Adão moirejava sob o sol ardente, enquanto Eva o dessedentava, lhe enxugava o suor do rosto e procurava algo mais do que a erva do campo a que o Senhor lhes limitara a dieta. Porém, Eva penava, pesado que estava o seu ventre. E foi assim que veio a parir a Caim. E disse: Alcancei do Senhor um varão. Disse bem Eva, porque apenas três meses eram passados desde que ambos haviam sido expulsos do Éden e aquele primogénito era, efectivamente, filho do Senhor, que não de Adão. O que não obstou a que este o tratasse como se seu fora, mesmo depois do nascimento de Abel, esse, sim, concebido por Eva já muito depois da expulsão do Éden.

Caim e Abel. Irmãos por metade e quão diferentes em tudo. Se Abel brincava com o anho que a mãe trazia para junto do fogo no Inverno, logo Caim lho puxava, querendo-o só para si; se o pai a ambos dava o fruto doce e sumarento da tangerineira, logo Caim privava o irmão da sua parte e lha comia. E assim cresceram, entre birras e disputas, cobiças e despeitos, invariavelmente vindos de Caim. Fizeram-se homens. Caim foi lavrador, Abel, pastor. E tendo Abel levado a pastar as suas ovelhas, uma delas entrou numa leira onde Caim cultivava as berças que, de mau grado, partilhava com a família. Tanto bastou para que Caim se levantasse contra Abel e o matasse. Em vão, tentou o pai chamar Caim à razão, mostrando-lhe a fealdade do seu acto e a vida de pecado para que parecia encaminhar-se. Caim, porém, não mostrou arrependimento, antes decidiu abandonar os pais e errar pela terra.

Para Eva e Adão, esse foi sombrio período de desavença e malquerer. Por certo, nunca Adão pensara em enjeitar a companheira do Éden, nem sequer o primogénito em cujas veias corria um sangue que não era o seu, ainda que lhe não fosse por inteiro estranho. Porém, aquela malquerença de Caim não só o intrigava como o indignava, e nisso Eva tinha a sua quota-parte de responsabilidade, que se mancomunara com um terceiro, inaugurando assim uma tradição que viria a ser cultivada indistintamente pelas suas semelhantes e pelos descendentes de seu homem. Invariavelmente, nas suas quezílias domésticas, o mau carácter de Caim era mote e era refrão. De tal modo que só cento e trinta anos mais tarde, já depois de volvidos os funestos acontecimentos que viriam a enlutar o universo, um novo varão viria amparar a solidão dos nossos pais primordiais e substituir Abel no seu malferido coração. A este terceiro rebento chamariam Seth, e muitos outros filhos e filhas teriam, nos novecentos e trinta anos que Adão viveu.

Mas Caim? Por onde andaria Caim, enquanto os pais, sozinhos, se mortificavam pelo seu comportamento infamante e pelo decesso do irmão assassinado? Caim vagueava por terras a oriente do Éden. E foi vagueando que encontrou sua mulher, a quem nome não foi dado. Ora este encontro fortuito causou profunda consternação no espírito de Caim, intrigado com a existência de um ser semelhante a sua mãe à flor da Terra, não fossem Eva e Adão, seus pais, as primeiras criaturas que a haviam ocupado, sem que, para além de si mesmo, Caim, e de seu irmão assassinado, houvessem procriado fosse quem fosse. E Caim, por muito que sua alma empedernida resistisse ao assalto das emoções, percebeu, mortificado, que o Senhor se entregara a uma abominável mistificação, fazendo crer a seus pais que os havia criado, a eles, exclusivamente, para que, crescendo e multiplicando-se, povoassem montes e vales, outeiros, colinas e combas. Afinal, tal tarefa, incipientemente encetada, revelava-se quase desnecessária. E se, para além de seus pais, de seu irmão malogrado e dele mesmo, havia a sua mulher, quem lhe garantia que não existiriam ainda outras criaturas iguais a eles?

Havia. E Caim soube que o Pai Criador tirara outras Evas do pó da terra, ao qual invariavelmente adicionara os pomos mais vistosos e suculentos das árvores do Éden. E que, com sangue, suor e lágrimas de cada uma delas, moldara um seu adjutor. E que com todas elas se recostara, desencadeando fúrias inconsequentes dos homens e fratricídios semelhantes ao que ele mesmo cometera. E que, doravante, vezes sem conta, os homens se levantariam uns contra os outros, irmão contra irmão, filho contra pai, pai contra filho. E que o seu sangue correria em rios de ódio. E que em Seu nome o pai sacrificaria o filho amantíssimo. E que dilúvios os afogariam. E cidades inteiras seriam consumidas pelo fogo. E disse Caim: Nenhum de nós é filho do homem, todos somos filhos de Deus, e é Ele quem semeia a discórdia entre nós e nos conduz para a guerra. E no espírito de Caim se formou, então, um desígnio obscuro que se apossou dos seus sentidos e pôs uma determinação no seu ânimo: só com a morte do Senhor ele poderia ser livre.

Ora, estando a mulher de Caim entregue às tarefas de sua casa, enquanto Caim labutava no meio da várzea pedregosa, sob o braseiro do sol, eis que o Senhor entra em seu pobre lar. Sobre a mesa tosca onde homem e mulher rilhavam parcos alimentos, o Senhor deixa cair Seu manto. Familiarmente se aproxima da dona de casa ancestral e cicia-lhe algo que a perturba. Ela hesita, mas o Senhor é persuasivo e Sua palavra omnipotente, e ambos se afastam para um esconso da casa. Porém, Caim tem sede, está cansado. Alça a enxada ao ombro e vai em busca de refrigério. Faz fresco no lar, e os poejos colhidos por si ao despontar do dia rescendem na penumbra interior. Eis que Caim atenta no manto. Aquele manto que só pode ser o manto do Criador. E Caim aproxima-se do esconso. Cruel desconfiança lhe corrói o coração. Não se enganou. Ergue, então, no ar a sua pesada enxada e, aproximando-se do Senhor, Lhe fende a cabeça de um golpe certeiro.

No dia em que me contou estes infaustos episódios, o meu amigo Frei Bento da Anunciação pareceu imitar o Criador: se não expirou, pelo menos suspirou, pungido. Aquela era a conclusão a que ele desejara nunca ter chegado: a morte de Deus era também a morte das suas convicções e o ruir do seu ministério. Senti-me na obrigação de o confortar, chegando ao extremo de lhe sugerir, eu que não fui tocado pela graça da fé, a possibilidade de erro na sua investigação, a eventualidade de apocrifia dos documentos em que fundara o seu estudo, a inverosimilhança até de uma morte que deixava o universo à mercê do acaso. Numa última tentativa de o animar, sugeri-lhe que talvez Deus se tivesse humanizado, isto é, que talvez tivesse encarnado na humanidade, entendida no seu todo. Pois não era a humanidade sumamente criadora, sabedora, presente em todo o lado e até imortal? Em vão. Frei Bento estava sinceramente persuadido de que Deus morrera, o que fazia da sua vida um completo absurdo. E, contrariamente ao anacoreta que, movido pela fé, se retirava para o deserto, a fim de aí, na penúria, na mortificação e no isolamento, encontrar Deus e com Ele dialogar, sem ruídos, sem interferências, sem quebra da união mística, ele retirou-se, sim, mas para o descampado da vergonha e da ignomínia, entregue à luxúria mais aviltante e à vileza mais torpe. Deixei de o ver. Soube, há dias, pelos jornais, que fora encontrado sem vida, num aterro sanitário. No crânio, ostentava uma ferida profunda. Como se uma pesada enxada lho tivesse fendido.

 

 

Ça, c’est ma riviére, de Fernando Cabrita - a febre do ter

Ça, c'est ma rivière, F. Cabrita 001 (2) (2).jpg

O bom Maël, unindo as mãos, suspirou:

— Meu filho, está a ver aquele furioso que arranca à dentada o nariz do adversário prostrado e aqueloutro que esmaga a cabeça de uma mulher com um pedregulho?

— Sim, estou a vê-los, respondeu Bulloch. Estão a criar o direito; a fundar a propriedade; a estabelecer os princípios da civilização, as bases das sociedades e os alicerces do Estado.

Anatole France, L’Île des Pingouins

Lê-se de um fôlego este poema de Fernando Cabrita, que ele não se presta a leituras sincopadas e parece ter sido redigido à velocidade a que o proprietário do rio (ou da “riviére”[1], para ficar no registo linguístico original) debita o seu torrencial discurso de posse e exclusivo usufruto. E não é um poema surpreendente para quem se tenha repetidamente dado ao exercício da leitura de FC. Ou, se o é, é necessariamente uma surpresa atenuada pela experiência prévia e pela consciência de que se vai ao encontro da habitual descoberta exaltante.

O discurso caudaloso arrebata. Inundam-no as mais diversas imagens veiculadas por uma utensilagem lexical própria de quem maneja a língua com mestria. E, arrebatada, a consciência crítica debate-se entre fórmulas canónicas, em busca da que melhor responde à especificidade do texto em análise: manifesto, requisitório, sermão profano? Talvez os três, que é certo haver aqui exposição de motivos, mas também acusação (sendo que esta ocorre camuflada pela irónica voz em surdina do autor – advogado perverso que induz a sua personagem-constituinte a argumentar incriminando-se) e ainda discurso de fôlego, sustentado, içando-se às alturas retóricas da doutrinação. De resto, se a personagem mal se aventura, agora e logo, num franciú de emigrante, é justo reconhecer que revela uma invejável cultura, expressa naquela língua que o poeta disse ser sua pátria. Por conseguinte, é ainda a voz do autor que aqui nos segreda ao ouvido. E que nos diz ele? Diz-nos que o proprietário, por mais certo que esteja do seu título, ignora de todo donde ele lhe vem:

Não sei quem criou o conceito, esta ideia, esta coisa que chamamos / propriedade, o direito de propriedade, / a defesa da propriedade, / o exercício da propriedade, / direito universal, planetário, galáctico, direito gótico, pletórico, barroco, / marítimo e terrestre, não sei, mas esta porção de terra e / este rio tenho-os para mim como meus. […] (10)

Claro que papéis não lhe faltam, aqueles mesmos que dão corpo e forma ao espírito da lei:

[…] Isto aqui é meu. Meu. Não sei porquê nem / de quando, mas meu. Tenho todos os documentos, / as escrituras que são bem mais sagradas que as Sagradas, / e os registos, / e as cadernetas e os cadastros, e os censos e os inventários, / e todos os marcos, / e as testemunhas que justificarão o que fizer falta ante / quem quiser saber. (11)

Ora, por falar em Escrituras Sagradas, ou seja, na Lei, nada melhor do que invocar a autoridade máxima, essa que, antes mesmo do papiro e do papel, escrevia já direito, ainda que por linhas tortas, ou, no mínimo, apunha a marca indelével do seu inconfundível indicador nos títulos de propriedade:

Eu tenho os papéis e neles está a impressão digital do indicador de Deus. […] Esta certidão é todo um Espírito Santo perito em topografia. (13-18)

É que, antes da monarquia de direito divino, já a propriedade reivindicava o estatuto, e sempre os homens souberam dar cumprimento aos altos desígnios do Senhor, nomeadamente levando a Sua jurisdição aos confins do cosmos. Servo fiel do Criador, o proprietário detém

«uma qualquer prova de como o universo foi / dividido em lotes, uma cópia antiga de Tordesilhas, / e que os homens que o dividiram tinham esse poder, / directamente para isso encarregados por Deus, instruídos por Deus, / assalariados por Deus, / com procuração de Deus com plenos poderes pois / non est potesta nisi a Deo». (15)

Abundam os passos em que o proprietário revela o seu aprofundado conhecimento que tem deste Deus de quem é legatário, Deus cuja natureza se confunde inextricavelmente com a do liberalismo económico – ou não fosse Ele «crente da Escola de Chicago» (21) – e de quem o proprietário cumpre escrupulosamente a incumbência da salvaguarda do lucro, em detrimento dos devaneios pueris:

Deus lucro, Madame. Lucro. Lucro, oui. / Eternidades em forma de lucro […] / Há que estar atento, Madame, evitar encargos desnecessários. / Controlar despesas. Proibir os voos dos pássaros. Abater os sonhadores inúteis. Suprimir derrapagens. (22)

Devaneios pueris de «sonhadores inúteis» que poderiam muito bem ter sido, nos avatares da História, os combates travados contra a forma mais virulenta, e propriamente terrorista, que os detentores e paladinos da propriedade têm por hábito dar ao seu poder, quando não vêem outra forma de o preservar. Sim. Apetece aqui trazer à colação aqueloutro poeta que, a propósito de «voos dos pássaros», foi dizendo «Que nos cubram de ameaças e de espanto / que nos cortem as asas mas o canto / voa muito mais largo do que as penas.»[2] E, já agora, em registo menos opressivo, mencionar que o anseio de posse deste proprietário é tal que não lhe escapa sequer o «pic-nic de burguesas» do Cesário (29) nem a sugestão de certo bicharoco camoniano-pessoano especializado em ameaçar «quem ouse devassar os limites» (29).

Nota disfórica no discurso do proprietário é a que lamenta a fragilidade e a perecibilidade do ter:

Já lhe disse, Madame, que tenho papéis? Acho que sim, que já lhe disse / que a minha fortuna está toda em papéis. Papéis, veja bem! / Hoje não há outra coisa, Madame. O documento é tudo. (30)

Ora o papel é bom condutor, e o proprietário da «riviére» não o ignora:

E sabe do que tenho medo? Um medo avassalador? De um incêndio, Madame! / Tenho medo de um incêndio. De uma labareda a / lamber toda uma vida de negócio e de fortuna registada em papéis consumíveis. /O Fogo horroriza-me, a simples ideia do Fogo. / Bastava-nos, bastava ao mundo, quero dizer, bastavam-nos a Terra, a Água e o Ar.

O discurso é metafórico e, pese embora a importância legal dos documentos em contexto societal, o que aqui sobreleva é a própria inconsistência, se não do conceito pelo menos do sentimento de posse, sentimento este que poderíamos filiar naquilo que o historiador Yuval Harari designa por «ordem imaginada», «força intersubjectiva»[3]. Construção cultural que é, a propriedade só existe porque o homem a criou e a escorou com um edifício jurídico que assegura a sua reprodução ininterrupta. Ininterrupta até que deflagre o incêndio. É que, se a ciência vê mais longe e mais fundo do que os quatro elementos tradicionais, a História mostra-se ocasionalmente acometida de tentações pirómanas, mostrando nessas ocorrências que

Um aquecimento suave, sem archotes, sem vulcões, / sem lavas nem infernos terreais, / nada que pudesse perigar o sacrossanto documento, / sem fogueiras, sem braseiros, sem fósforos ou combustões vivas (31)

serviria tão-só, como o proprietário sabiamente reconhece, para assegurar a continuidade da sua «vida de negócio e de fortuna registada em papéis consumíveis.»

O que não é pouco, convenhamos. O que é mesmo tudo, para sermos exactos, conforme exprime lapidar e sinteticamente o proprietário:

Porque nós somos o que temos, Madame, somos o que temos. / E o que interessa é o que temos. (32)

– princípio filosófico maior de quem não se revê na «corja ululante e despreocupada» daqueles que «só pensam em revoluções e em desvarios de sexo e álcool» (33), isto é, em incêndios que põem em causa a boa ordem política, social e moral.

Não que o proprietário não tenha ele mesmo conhecido tais desvarios:

Também já fui menino, Madame, também / já ouvi esse pão e essa crepitação e esse forno onde levedou um sonho inacabado. (44)

Porém, agora,

É com este fuzil, neste paredão augusto, / é com este ânimo de possuidor que eu velarei para que nada, ninguém, / coisa nenhuma devasse o que a mão de Deus pôs na minha mão. (45)

***

Anterior ao seu O Poema Triste de Deus, publicado em 2019[4], este Ça, c’est ma riviére, de 2015, apresenta uma focalização muito diferente, e não é fácil determinar qual deles se debruça sobre a problemática da relação do homem com a crença na divindade de forma mais percuciente. No Poema Triste, o alvo é um Deus cansado da sua divindade, grandemente humanizado e senhor de uma lucidez que o leva a autocensurar-se e a elogiar a ciência e o poder dos homens; aqui, o Criador aparece, no discurso do proprietário, como cúmplice, ou melhor, como autor moral de todos os desmandos e nomeadamente dos que se relacionam com a propriedade e o ter. É um Deus prosélito do capitalismo, instância suprema legitimadora e protectora de uma ordem social assente «na violentíssima partilha do mundo» (45)

Se o enfoque é diferente, há um procedimento construtivo comum aos dois poemas: as personagens centrais – Deus, no poema de 2019, e o proprietário, no de 2015 – têm uma caracterização antitética: defraudando as mais humanas expectativas, Deus denuncia-se a si mesmo, como fábula infantilizadora, e o proprietário debita um discurso apologético, na forma, mas incriminatório, no conteúdo. Em ambos os casos, é como se a “consciência” da personagem se insurgisse contra a natureza negativa da sua acção e se vingasse através de um continuado lapsus linguae.

De assinalar, enfim, uma certa ressonância proudhoniana pouco menos do que explícita em todo o poema: ao «Ça, c’est ma rivière» do proprietário, uma voz objecta «La propriété, c’est le vol».

Posto isto, Fernando Cabrita bem pode afirmar «Ça, c’est mon poème». Uma vez publicado, ele passou a ser também meu e de todos os seus leitores.

Quid juris?

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[1] Desvios ortográficos e outros são característicos da personagem.

[2] Luís Veiga Leitão, Ciclo de Pedras.

[3] «Como levamos as pessoas a acreditar numa ordem imaginada como o cristianismo, a democracia ou o capitalismo? Primeiro, nunca admitimos que a ordem é imaginada. Insistimos sempre que a ordem que sustém a sociedade é uma realidade objectiva criada pelos grandes deuses ou pela leis da natrureza.» Yuval Noah Harari, Sapiens, Elsinore, 2020,  p. 139. É evidente que todas as outras religiões, ideologias e sistemas são igualmente incluídos por Harari no grande grupo das “ordens imaginadas”.

[4] O POEMA TRISTE DE DEUS, de Fernando Cabrita, ou A LUCIDEZ DO PADRE ETERNO - Também de esquerda (sapo.pt)

Santo Futebol!

Os sportinguistas afirmam o seu sportinguismo com o mesmo fervor com que um cristão afirma o seu cristianismo, e, em ambos os casos, estamos perante o sentimento religioso: o Clube encerra, no sentir dos adeptos, o mesmo poder mobilizador e agregador que Deus para os crentes; num e noutro caso, a abstracção (imaterialidade de Deus ou da mística do Clube) é materializada na instituição (Igreja, com os seus templos, sacerdotes e pessoal auxiliar; Clube, com o seu estádio, dirigentes e demais pessoal). Em ambos os casos, os rituais são para se cumprir: entoar os cânticos devidos, exprimir verbal e gestualmente a sinceridade da crença, celebrar as efemérides – outros tantos signos integrantes da semiótica da fé.

Os jogadores são uma espécie de anjos – quando vencem o campeonato, assim transportando os adeptos para o Céu da vitória –, ou demónios, quando os arrastam para o Inferno da derrota; o treinador é o arcanjo, que orienta a conduta dos jogadores, e o Presidente do Clube é, pois claro, o Papa, representante máximo da instituição, com a diferença de que raramente os fiéis adeptos lhe reconhecem a infalibilidade dogmática do Papa da Igreja em matéria de fé. Menos submissos do que os fiéis da Igreja, os fiéis do Sporting, do Benfica ou do Porto acreditam mais na infalibilidade de cada um deles, e são lestos a despachar anátemas e fatwas contra papas, anjos e arcanjos, sempre que a maldição das derrotas sucessivas se abate sobre os seus corações destroçados.

No futebol como na Igreja Universal, um cisma de cariz reformador/protestante distancia aqueles que adoram imagens, santos de pau ou de barro, cachecóis, bandeiras e toda a espécie de símbolos, dos puritanos que, fazendo o elogio (irónico) da loucura futebolística, vivem a sua mística clubista à maneira luterana, de forma recatada, no mais íntimo das suas almas esféricas.

Entretanto, se as manifestações de fervor religioso, na Europa, pelo menos, já não nos dão o espectáculo degradante de outrora (até os joelhos ensanguentados de Fátima cederam às joelheiras em pista de tartã), já o fervor dos adeptos só é ultrapassado pelos católicos filipinos que se fazem crucificar a cada Páscoa ou pelos muçulmanos xiitas que se autoflagelam e açoitam com correntes.

Contudo, o que as celebrações da vitória sportinguista sugeriram mais percucientemente, ontem, foram as cerimónias que levam milhares de hindus, em plena pandemia descontrolada no país, a banhar-se promiscuamente nas águas do rio sagrado. Parece que até o Ganges resolveu passar por Alvalade.