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Também de esquerda

Espaço destinado a reflexões (geralmente) inspiradas na actualidade e na Literatura.

Também de esquerda

Espaço destinado a reflexões (geralmente) inspiradas na actualidade e na Literatura.

Coração modelado em labareda, de Domingos Lobo  – uma labareda modelada em livro

Coração modelado em labareda, Domingos Lobo 2023-01-12 001 (1).jpg

Até há poucos dias, de Domingos Lobo, eu conhecia apenas alguns textos de crítica literária dos que vem publicando ao longo dos anos e que, provavelmente, escaparão até à maior parte dos amantes da literatura, atraídos por endereços diversos daquele que Domingos Lobo elegeu. Textos reveladores de uma sólida cultura literária, histórica, política – mas não me alongarei aqui num encómio de que o autor não carece e que não é o objecto deste meu apontamento[1].

O que me traz é a surpresa da descoberta. Da descoberta de um ficcionista, para além de poeta, que eu ignorava e que me encheu as medidas, se tal expressão é permitida nestas lides da crítica.

Li coração modelado em labareda[2] em três ou quatro dias, que este é daqueles livros que não nos deixam a alma em descanso, quero dizer, que nos põem a vontade aos saltos, a querer saber o que virá a seguir, se aquele fôlego torrencial, vertido num léxico de fazer inveja a muitos, é coisa para ser levada até ao fim, sem quebra nem definhamento, se as experiências próprias de uma adolescência intensamente vivida vão ser testemunhadas com a verdade que a vida tem, se o quadro circunstancial de um Portugal enfronhado na beatice salazarenta e na tacanhez de um horizonte agarrado à ponta do nariz corresponde àquilo que a idade, a mim também, proporcionou, ainda que em muito menor escala, se a expressão dos sentimentos que nos aproximam uns dos outros – amigos, irmãos, família, inimigos até – era aquela que eu gostaria de saber usar, não fossem escassas as palavras de que disponho. E sim. Lido em três ou quatro dias, o «diário marginal de um adolescente no país do ‘botas’» (subtítulo do livro) dá-nos mesmo um retrato vigoroso e genuíno de uma certa e, por assim dizer, natural marginalidade de um adolescente, no país onde punha e dispunha o Botas, o Manholas. Tudo num registo de fazer inveja ao Roth, ou ao Luiz Pacheco, entre outros cultores de um léxico e de uma exposição imoderada, a exigir bola vermelha.

Há, neste “diário marginal”, um jogo de sombras que se anuncia num Aviso Prévio cheio de ironia e ambiguidade: finge dizer o que não diz ou não dizer o que diz, já que as personagens «terão ou não existido» e a imaginação do narrador as terá burilado «até delas restar sequer o cheiro». Cabe ao leitor tê-lo presente, para cabal entendimento do subtítulo. É que o olhar desabusado que o “diário” extensamente revela, sobretudo na parte referente à infância e aos primeiros anos da adolescência, não é propriamente compatível com a tenra idade do narrador. O que temos, de facto, voltando aos termos do Aviso, é um narrador adulto cuja “imaginação delirante” burila as suas personagens “até delas restar sequer o cheiro”, processo a que nem a personagem-narrador escapa. Adolescente ou adulto, o narrador recupera memórias da infância e da adolescência em Nagosela. O poema de abertura, poema da “memória essencial”, envolve-as no manto fulgurante da metáfora. Transcrevo dele os versos iniciais, que dão o tom ao conjunto:

sou destes caminhos de pedra ferida / de lagares de granito / odores antigos / a mosto e a resina no esconso dos assombros / de vinho nas conversas de vagares / onde se cumpre o tempo os rituais da terra e da saudade / com broa quente sobre toalhas de linho / e beijos roubados no ventre dos lameiros (p. 15)

Não me alongarei em pormenores de natureza diegética, mas, para além do já exposto, abro as três seguintes excepções, para apresentar a parte mais significativa do núcleo familiar do narrador:

Tendo ou não existido, o que, para o leitor, nem será questão relevante (sê-lo-á para o historiador da literatura, mas sobretudo para o historiador tout court ou para o biógrafo), «o pai sonhava, era uma ausência, uma suspensão sentada frente à sopa que arrefecia» (p. 21), isto logo no início, quando ainda pouco mais do que assemantema[3], que, com o desenrolar da acção, será mais do que sonhador ausente – contestatário do regime sem tento na língua, tanto quanto infractor da moral e bons costumes, cumprindo um «ritual de infidelidade […] com safadeza tal que só a cegueira atarefada da mãe, perdida nos labirintos das suas rotinas de anacoreta do efémero, não via de tão evidente» (p. 124). O pecado valer-lhe-á a censura do filho.

Já com o avô materno, cujo oposicionismo político parece assentar em bases mais sólidas do que as do genro e se conjuga harmoniosamente com a libertinagem serôdia, o adolescente condescende:

enrolado nas rugas, o sorriso sacana de quem se está marimbando para o mundo e seus códigos, lamento cínico no cerzido das entrelinhas: o puto é um homem, um Lobo, há que fazê-lo macho antes que tu [a filha] o estragues com homilias à Virgem e hosanas ao manholas. (p. 29)

Igual a tantas outras mães, nascidas e criadas para o santo sacrifício do matrimónio e da servidão doméstica, a mãe assegura a reprodução – da espécie, da crença religiosa e do respeito acrítico da autoridade política. Mas desenganemo-nos, se pensarmos que o seu papel é meramente reprodutor da natureza e do que a super-estrutura ideológica comporta de negativo. Contrariando a cartilha pífia do quanto mais me bates, mais gosto de ti, a mãe não condescende com a infidelidade. São, por outro lado, enternecedores os episódios em que o narrador com ela contracena, e uma marca de verticalidade do filho a condenação da injustiça que afecta a condição feminina numa sociedade patriarcal e de costumes pouco brandos. Entre outros passos, o seguinte é bem ilustrativo de uma marginalidade adolescente que não desconhece as marcas da mais lídima ternura:

«O chinelo voador da mãe é castigo a que me não vergo. Ela corre ao derredor da mesa, como os burros da nora na quinta do avô, eu avanço, passos bem medidos para que o chinelo me não atinja, aos pinotes, gargalhada feliz, até que ela se cansa de tanta volta infrutífera, calça o chinelo, bebe um copo de água e trinca, vencida, tu matas-me, rapaz, uma maçã. […] Apercebo-me, no final destas pelejas caseiras, enquanto a mãe me barra a torrada com marmelada, da puerilidade do meu gesto, beijo-a, peço-lhe desculpa e rendo-me no seu colo, desfeito de ternura. Podes bater, mãe, eu não fujo. Ela passa-me as mãos pelos cabelos e a serenidade da tarde enche a casa da paz dos dias frágeis.» (p. 92)

Importa, enfim, referir um aspecto particularmente impressivo da técnica narrativa do autor, que o emparelha, em modernidade, com alguns dos grandes ficcionistas nossos contemporâneos: a versatilidade dos discursos vs dinâmica das “vozes”, isto é, a rápida sucessão de enunciados da responsabilidade de diferentes instâncias enunciativas (o narrador e outras personagens), o que passa pela omissão da utensilagem tradicional do discurso directo, conforme se vê no exemplo seguinte:

«[Voz da mãe:] Safado, que nem por ele ódio sinto, só desprezo e comiseração, mais nada. Que se sente só e angustiado, [voz do pai:] é de ti que gosto, mas tu repeles-me, e eu um homem carente de ternura, [voz da mãe:] desde o berço, a fazer-se vítima, o tratante, olhos melados, de boi manso. [Voz do narrador:] Vejo-a cansada, uma ruga a vincar-lhe a nostalgia num rosto que de repente envelhece. [Fala da mãe:] Agora sai, pequeno, que me vou à deita.» (p. 37)

Domínio de um léxico rico e de registos variados, ductilidade do discurso narrativo e testemunho documentado da nossa história recente fazem deste coração modelado em labareda um esplêndido ponto de encontro com Domingos Lobo.

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[1] A faceta da crítica literária aflora, de resto, algumas vezes, neste livro. Para citar apenas dois exemplos, leia-se, na pág. 51, a referência a Dostoiévski, Tolstói e Gorki e à sua “arte da introspecção”, e, nas pág. 150-151, a digressão sobre o “ruralismo ingénuo e romântico de Júlio Dinis, cujas Pupilas do Senhor Reitor alimentaram um folhetim da Emissora Nacional em 1961.

[2] Página a Página, Lx.ª, Junho 2022. O título coração modelado em labareda foi retirado do poema de Egito Gonçalves «Dói este vocábulo», conforme se assinala na pág. 6 desta edição.

[3] Cf. Philippe Hamon, Para um estatuto semiológico da personagem, in Categorias da Narrativa, Arcádia, Lx.ª, 1976, p. 100, ou V. M. de Aguiar e Silva, A Estrutura do Romance, Almedina, Coimbra, 1974, p. 36

Ronaldo e a namorada; você, Senhor Francisco; o Engenheiro e a sociolinguística

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Foi a insistente ocorrência do termo “namorada”, na nossa comunicação social, a propósito de Georgina Rodríguez, que me sugeriu as seguintes considerações (que valem o que valem).

 

Há múltiplos factores que afectam o uso que fazemos da língua (do que se ocupam a sociolinguística e a pragmática linguística), mas, a não observarmos um certo número de regras e convenções que a constrangem, corremos o risco de cair na mesma algaraviada que os pobres Babilónios, quando Deus lhes escaqueirou a torre bíblica (segundo algumas fontes), ou, no mínimo, de suscitar algum ridículo.

 

1. Esposa, mulher, companheira e namorada

 

Até há uns anos, “namorada” era aquela pessoa do sexo feminino com quem se tinha uma relação amorosa mais ou menos duradoura, mas que não dera ainda lugar à vida em comum. Pouco nos importa, hoje, o grau de intimidade da relação, mas não faria sentido, há uns anos, dizer-se que Fulano vivia com a namorada. Se vivia com a namorada, sem estarem casados, era porque a namorada se tornara “companheira”; se se tinham casado, ela era a mulher dele, e era como “mulher”, e não “esposa” que ele a ela se devia referir; os outros membros da comunidade, dando-se o caso de estarmos num meio social privilegiado, à “mulher” de Fulano de Tal deveriam referir-se como “esposa” (“Cumprimentos à esposa do Senhor Doutor…”). É ridículo um indivíduo referir-se à sua mulher dizendo “a minha esposa”, como é ridículo chamar-se namorada à mulher com quem se vive e de quem se tem filhos, como suponho ser o caso do casal Georgina-Ronaldo, e como tem acontecido na comunicação social. Quanto a poder-se continuar a namorar após o casamento ou união de facto, nada a objectar. Que os parceiros de uma relação se refiram um ao outro como “namorados”, ainda bem, é sinal de que são felizes na relação. Entre eles, até podem tratar-se por bichanos ou quiduchos ou queriduchos, e adoptar um léxico íntimo que estimule potencialidades insuspeitas. É lá com eles. Mas, para quem está fora da relação, o vocabulário há-de respeitar o necessário distanciamento. Quanto a “marido”, ouvem-se cada vez mais mulheres casadas, de camadas sociais que não as mais desfavorecidas (como acontecia noutros tempos), a referir-se ao marido dizendo “o meu homem” – facto que reflecte a evolução sociológica no sentido da democratização e da igualdade de género.

 

 2. Você, Senhor Francisco

 

Generalizou-se também entre nós o uso de “você”, como se este pronome não tivesse herdado do passado uma aura significativa da familiaridade que é de norma entre amigos ou pessoas muito próximas, em termos de idade, de estatuto social ou de interacção no quotidiano. Por muito que a sociedade tenha evoluído no sentido da democratização das relações entre cidadãos (teoricamente, iguais perante a lei), o facto é que a preferência por “o Senhor / a Senhora”, em detrimento de “você”, continua a ser sentida como indiciadora de marca de cortesia e respeito, por uma boa parte dos falantes do português de Portugal. Por enquanto, no uso de “você”, o emissor deve ter em atenção a sensibilidade do seu interlocutor.

 

Por outro lado, é descoroçoante o tratamento pelo nome próprio (“Senhor Francisco”, “Senhor João”), nas relações entre clientes e empregados do comércio, entre utentes de serviços públicos e os respectivos funcionários. Ao lhe ser sonegado o sobrenome, o Senhor Francisco é reduzido à condição de um qualquer homónimo, equiparado a todos os outros Franciscos da terra, tão insignificante que se deve contentar com aquele rótulo – é uma espécie de genérico, sem marca.

 

3. O Engenheiro

 

Nos antípodas do que precede está o tratamento insistentemente dado por estes dias ao treinador recém-dispensado da Selecção Nacional. Toda a gente sabe que Fernando Santos é engenheiro. Até eu sei! O que já não sei é por que carga de água à comunicação social lhe deu agora para chamar à baila o canudo do treinador a todo o instante. Ou melhor, sei. É marca de cortesia e de gratidão para com o técnico que deu tantas alegrias ao povo, e bem sabemos que as alegrias futebolísticas são emocionalmente muito compensadoras da falta delas em tantos outros domínios. Agora, se no lugar do Engenheiro estivesse o Jorge Jesus, não sei a que canudo os nossos jornalistas recorreriam. Esse outro treinador seguiu um percurso menos académico, mas, que diabo!, também terá dado algumas alegrias a muitos Portugueses – julgo eu, que de futebol sei menos do que de astrofísica. O José Mourinho, que julgo ser licenciado, se vier a ser treinador da Selecção com êxito, mais ano menos ano lá vai ser apelidado de Doutor ou, no mínimo, de Licenciado, designações que, para além de marcas de cortesia, parecem representar um acréscimo significativo de informação para quem as ouve: ganhar-se um campeonato com um treinador licenciado é outra coisa…

ABUSOS E ATEÍSMO NA IGREJA

Os padres não comem criancinhas - J César das Neves.jpg

A lamentável história dos abusos sexuais de menores por gente ligada à Igreja Católica constrange-nos a uma dolorosa constatação: afinal, os vigários de Cristo, seus acólitos e demais gente devota não são crentes; são muito provavelmente ateus. Eu explico-me:

Pouco antes da Revolução Francesa, Voltaire, que, a propósito de Deus, dizia «cumprimentamo-nos, mas não nos falamos», dizia também «Deus não existe, mas não digam isso ao meu criado, não vá ele matar-me durante a noite» e dizia ainda «se Deus não existisse, seria preciso inventá-lo». Independentemente do carácter aparentemente contraditório destas afirmações – o que se prende com o conceito deísta de Deus, muito diferente da concepção cristã – Voltaire tinha alguma razão. Para além do facto de o termos efectivamente inventado (em qualquer das acepções deístas e teístas), a burguesia em ascensão, prestes a assumir o poder, bem carecia do imprescindível anteparo da crença religiosa para, futuramente, assegurar a defesa da (sua) propriedade e do (seu) Estado. Nada melhor do que o medo do castigo divino para assegurar a paz social, pondo o criado ao abrigo de intenções malévolas.

No século seguinte, Dostoievski escreveria «Se Deus não existisse, tudo seria permitido» (Os Irmãos Karamazov). Creio que tinha, igualmente, alguma razão, e Sartre não deixou de lha reconhecer, em O Existencialismo é um Humanismo, embora numa perspectiva oposta: Deus não existe, logo não há uma “natureza humana” definida por Deus à partida, logo não há ordem moral pré-definida, logo tudo é, efectivamente, permitido ao homem, que goza de inteira liberdade para definir a sua essência.

Bem antes de Sartre, o anarquista Bakunine, contemporâneo de Dostoievski, subverteria as palavras de Voltaire e do compatriota, escrevendo, em Deus e o Estado, «Se Deus existisse, seria preciso aboli-lo». Como bom anarquista, abominava todas as formas de autoridade – a do Estado como a da Igreja, como qualquer outra – e a ideia de um ditadorzeco, dono disto tudo, instalado nas profundezas do infinito a mexer os cordelinhos do universo, “revolvia-lhe as entranhas” (expressão de Peter Atkins, em Como Surgiu o Universo).

Mais ou menos pela mesma altura, Marx e Engels, estribados no materialismo dialéctico e no seu conhecimento vivido das condições materiais em que vegetava o proletariado industrial, compreenderam que o “ópio do povo” (Marx, Crítica da Filosofia do Direito de Hegel) fazia falta aos trabalhadores para suportar a dureza da exploração capitalista, mas sublinhavam que urgia acabar com essa “felicidade ilusória” (idem), o que passaria por suprimir as cadeias que acorrentavam os trabalhadores a um sistema alienante caracterizado pela apropriação das mais-valias produzidas pelo seu trabalho e remunerados na estreita medida necessária à reposição da sua força de trabalho.

Num registo panfletário, próprio de diletante oriundo de uma família muito ligada ao protestantismo (pai e avô pastores luteranos) e com relações de amizade na aristocracia e na alta burguesia da época, Nietzsche “mataria” Deus, desancando a natureza mórbida e deletéria do cristianismo, com o seu «ódio ao espírito, ao orgulho, à coragem, à liberdade, à “libertinage“ do espírito; […]; o ódio contra os sentidos, contra a alegria dos sentidos, contra a alegria em geral…» (O Anticristo). Não obstante, idealizou um além-homem ou super-homem (übermensch), que, tal como ele próprio, parece aspirar à condição divina. A prosápia nietzschiana de auto-elogio, o seu marcado elitismo e o seu ódio àqueles que lutam pela emancipação do proletariado não deixam dúvidas quanto à sua opção de classe.  

No século XX, Freud assestou mais um golpe no corpo já amplamente chagado do mito, mostrando em pormenor a filiação da crença religiosa no complexo paterno – a nossa “herança arcaica” (assassinato do pai na horda primitiva, in Totem e Tabu, 1913) – e a natureza neurótica obsessiva das práticas religiosas (Actos Obsessivos e Práticas Religiosas, 1907). Mas não deixa de assinalar a importância de um compromisso neurótico que, como Morin (O Paradigma Perdido) e até um poeta anglo-americano sublinhariam mais tarde, era necessário para suportarmos o duro impacto da realidade («human kind cannot bear very much reality», T.S. Eliot, Four Quartets)

Aqui chegados, impõe-se-nos o seguinte raciocínio: se, para tantos sacerdotes e leigos ligados à Igreja, tudo é permitido, até servir-se de crianças para satisfazer a sua concupiscência, destruindo-lhes a vida de uma assentada, isso só pode entender-se porque, para eles, como para qualquer bom ateu, Deus não existe. A não ser assim, como compaginariam eles a sua prática criminosa com a crença num Deus omnisciente que os não pouparia no Dia do Juízo Final e os condenaria, sem apelo nem agravo, às duras penas do inferno? Se fossem crentes, certamente não se sujeitariam ao castigo de Deus, do mesmo modo que o criado de Voltaire e os “precursores do ulterior proletariado” não ousariam desafiar as autoridades da época.

Há, talvez, uma falha neste raciocínio (quando digo uma, é só para obnubilar todas as outras): poderá dar-se o caso de o sacerdote ou leigo ligado à Igreja ter fé na misericórdia divina e esperar dela a absolvição no tal Dia do Juízo. Melhor do que ninguém, Deus, que nos criou e nos deu o livre arbítrio), sabe a que ponto somos fracos e passíveis de ceder às tentações do seu mais directo e insidioso adversário, o malfadado Satanás. Esse conhecimento poderá, pois, levá-lo a condescender e a perdoar crimes de criaturas que têm a atenuante de Lhe terem sido úteis na doutrinação do seu rebanho. No fundo, uma troca de favores ou remuneração por serviços prestados. Como Deus escreve direito por linhas tortas, não há que estranhar, e não foi assim há tantos séculos que as indulgências plenárias compraram a muitos um lugar à direita do Senhor, quando em vida tinham abusado a torto e a direito de fiéis e infiéis de todas as idades.

Para encurtarmos caminho, dêmos inteiramente razão a Dostoievski: como tudo é permitido, até àqueles que têm por missão promover o culto e a veneração do Criador, os abusos na Igreja e fora dela são a melhor prova da inexistência de Deus. Palavra de ateu. Mas de ateu para quem, como para tantos outros que não se fazem passar por crentes, nem tudo é permitido. E não por medo das penas do Inferno.

Ite, missa est.

Visuais, invisuais e outros que tais

Visuais, invisuais e outros que tais

Uma conversa de circunstância sobre a “ressonância” pejorativa de “perneta” e “maneta” (incómoda rima com “cheta”, “peta”, “ranheta”, “treta”,…), e o meu desconhecimento de alternativas de “sonoridade” mais científica trouxe-me à memória um “Contraditório” (programa da Antena 1) de há uns anos, em que Ana Sá Lopes, contrita, se penitenciava por ter, em programa anterior, usado a conhecida expressão “não dava para mandar cantar um cego”, a propósito de certo valor monetário. Creio que a Associação dos Cegos e Amblíopes de Portugal protestara, com alguma razão, por se recorrer a uma expressão que veicula um velho preconceito em relação aos seus associados – o de que cego é sinónimo de mendigo que canta para sobreviver.

Não é aí que reside a razão deste post, mas sim no aparente desconforto que hoje parece vigorar, quando se faz referência às pessoas privadas do sentido da visão, chamando-lhes “cegos”. Para ultrapassar o incómodo, usa-se o termo “invisual”. Para além de me parecer um neologismo canhestro, “invisual” tem o defeito suplementar de nem semanticamente corresponder ao que se pretende nomear.

“Invisual”, como “visual” são, para começar, adjectivos. Uma sensação é visual ou auditiva, ou qualquer outra coisa, e quem é privado de sensações visuais pode dizer (vamos lá!...) que só tem sensações invisuais (olfactivas, tácteis, gustativas, etc.), qualificativo algo abstruso e absconso, mas aceitável, num registo irónico, caso o sujeito em questão encontrasse no sentido de humor redenção fugaz para a sua infelicidade. O problema surge, porém, quando nominalizamos o adjectivo, dizendo do cego que é um “invisual”, pois a “visualidade” do cego tem a sua sede em quem o vê e não nele mesmo. Por outras palavras: para quem tem a capacidade de o ver, o cego é perfeitamente visual e não invisual. A “invisualidade” do cego existiria, de facto, se ele fosse invisível para os demais. Porém, é para o cego que aqueles que vêem são invisuais, invisíveis ou insusceptíveis de ser vistos, sendo certo que essa invisibilidade não é característica dos que vêem, mas se deve à incapacidade de quem não vê, e a única excepção conhecida é a do cinematográfico Homem Invisível.

Admito que tudo isto possa parecer uma charada de mau gosto, mas não é assim que o entendo, e, se o meu raciocínio vos parece incoerente, revelador de deficiente conhecimento da língua ou até indiciador de desrespeito por quem padece de cegueira, quero garantir que a minha intenção é séria e respeitosa.

Os Franceses, tanto quanto julgo saber (mas posso estar desactualizado) continuam a chamar “aveugle” a quem não vê e não me consta que tenham optado pelo termo “invisuel”. O que têm é dois substantivos diferentes para designar duas formas de cegueira – “cécité” e “aveuglement”. A primeira é a cegueira propriamente dita, isto é, a que priva de sensações visuais; a segunda é a cegueira do espírito: não ser capaz de ver, compreender ou aceitar aquilo que, na perspectiva de quem acusa, é óbvio. Quanto aos Ingleses, creio que também se contentam com a “blind person”, sem problemas de maior.

Muito provavelmente, esta aversão pelo termo “cego”, assim como pelo termo “deficiente”, agora substituído pela perífrase “pessoa com deficiência” ou “pessoa portadora de deficiência” (definição dicionarística com recurso vicioso à flexão do termo a definir) radica no politicamente correcto, moda que institui uma novilíngua pretensamente despojada de conotações negativas herdadas do passado. Na verdade, os “invisuais”, as “pessoas com deficiência”, os “colaboradores” das modernas empresas, os “auxiliares de acção médica, educativa, etc.” são tão cegos, deficientes e operários como os de outrora, porque o mundo mudou, sim, mas não tanto quanto os “novilinguistas” querem fazer crer.

Voltando, para concluir, ao “invisual”, o Grande Dicionário da Língua Portuguesa, da Sociedade de Língua Portuguesa, coordenação de José Pedro Machado (1981), e o Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa, do mesmo J. P. Machado (3.ª edição, 1977) não contemplam a entrada “invisual”. Já o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, pelo menos desde a 6.ª edição, de 1984, define “invisual” como «adj. e s. 2 gén. que não vê; s. 2 gén pessoa cega (de in+visual)», ao mesmo tempo que define “visual” como «adj. 2 gén. referente à vista ou à visão […]». Em princípio, a derivação por prefixação negativa deveria ter conferido a “invisual” o significado contrário a “visual”, isto é, «não referente à vista ou à visão». Mas não. Em algum momento da história da língua, aparentemente nos anos 80, um qualquer abalo sismicolinguístico derrubou o poder instalado da lógica gramatical e instaurou uma nova ordem semântica: o cego, cuja definição tem tudo a ver com a vista e a visão, passou a ser “invisual”, ou seja, «não referente à vista ou à visão».

Diz o Professor Fernando Venâncio que «não são as línguas que evoluem, são os seus falantes que as modificam». Tem razão. As línguas faladas sofrem a evolução que os seus falantes lhes conferem. Às vezes também sofrem tratos de polé. Esperemos não deparar, um dia destes, com uma nova mutação genética que faça dos surdos “inauditivos” e, de quem está privado de sensações gustativas, tácteis e olfactivas, respectivamente, ingustativos, intácteis e inolfactivos.

CREDO QUIA ABSURDUM - natureza e poder da religião, apetência pelo mito - uma visita guiada

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A génese, a natureza e o poder da crença religiosa, mas também, numa perspectiva mais ampla, a apetência que o ser humano desde sempre manifestou pelo mito, bem como as implicações que as representações fantasiosas tiveram e têm na história da humanidade constituem o objecto central deste livro. Não se tratando de um trabalho académico nem de uma compilação de reflexões pessoais sobre a matéria em questão, ele configura-se como uma “visita guiada”: qual cicerone empenhado em chamar a atenção para a riqueza e diversidade de um qualquer património, o autor conduz o leitor ao encontro das obras de pensadores e de investigadores que se debruçaram sobre a temática, num périplo que vai das objurgatórias de Bakunine e Nietzsche às aturadas investigações de Marx, Engels, Freud, Eliade, Morin, Onfray, passando por Sartre, Bettelheim, Dawkins, Eagleton, Fukuyama, Harari e outros, o que significa que se trata de uma abordagem multidisciplinar (filosófica, psicológica, sociológica, económica, antropológica, psicanalítica), visando a compreensão do que está na origem do fenómeno e da sua universalização. Um capítulo sobre projectos tecnológicos e científicos em curso, particularmente no domínio da física e da medicina, e as extraordinárias perspectivas que se nos deparam, proporciona o confronto de um corpus de natureza essencialmente filosófica com dados experimentais, menos sujeitos à variabilidade especulativa própria das ciências humanas. Quer o conteúdo genericamente designado por “filosófico”, quer o de carácter científico-experimental são, finalmente, equacionados em termos de organização político-social, tendo como pano de fundo o futuro da humanidade e a grande interrogação sobre a viabilidade de uma sociedade adulta e harmoniosa.

Credo quia absurdum - natureza e poder da religião, apetência pelo mito - uma visita guiada | Livraria Atlântico (livrariaatlantico.com)

Perversidades do Velho Testamento

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O Cântico dos Cânticos é, no Velho Testamento, um texto singular, um hino ao amor. Tão poético que causa estranheza encontrá-lo no meio de tanta perversidade, crueldade e imundície. Este último termo é do Levítico, que define um considerável rol de medidas sanitárias relacionadas com o sexo. A mulher, em particular (como podia deixar de ser?!), é sujeita a um período de isolamento profiláctico de sete dias, sempre que lhe advém o mênstruo. Durante esse período, todo o contacto com ela ou com objectos em que ela tenha tocado é tido por “imundo” ou “poluto” (XV). A misoginia judaico-cristã teve aqui, certamente, uma boa fonte de inspiração, sendo certo que Eva se pôs a jeito, ao incitar Adão, no Éden, a comer do fruto da árvore do conhecimento, isto é, a contrariar o diktat divino que condenava a humanidade a um futuro sem História.

Contudo, a atitude persecutória em relação à mulher está muito longe de ser a única pecha do texto sagrado. Os apelos à crueldade mais brutal abundam, sempre que está em causa o cumprimento da vontade divina ou a fidelidade canina ao “Senhor”. É ainda o Levítico que incita à lapidação dos blasfemos (XXIV), de forma idêntica, aliás, à do Alcorão (em matéria de insensatez, os livros sagrados equivalem-se), e que “regulamenta” a escravidão (XXV). O Génesis, por sua vez, autoriza Lot a entregar suas filhas virgens aos homens de Sodoma, para que “abusem delas como lhes agradar”, salvaguardando dois anjos dos apetites homossexuais sodomitas (XIX). Seguidamente, compraz-se com a caridosa “chuva de enxofre e fogo vindo do céu” sobre Sodoma e Gomorra que mata, indistintamente, homens, mulheres e crianças, transforma a mulher de Lot em estátua de sal, por ter, ao fugir, olhado para trás, e põe as duas filhas de Lot a embriagar o pai, para com ele dormirem e, assim, “salvarem a linhagem” (XIX). Note-se, de passagem, que este Lot é autor de uma proeza de se lhe tirar o chapéu, pois, velho e embriagado a ponto de perder a consciência, logra uma performance sexual invejável, em duas noites consecutivas, só entendível graças à cumplicidade do Todo-Poderoso. Blasfémias à parte, aqui temos nova fonte de inspiração: desta feita, para o recurso ao terrorismo contra os infiéis e contra os desobedientes, bem como para o abuso sexual, tão do gosto dos vigários de Cristo como é do conhecimento público.

Sabemos que o Velho Testamento é uma compilação de narrativas heteróclitas provindas de épocas remotas e que elas reflectem usos e costumes ancestrais, bem como uma sensibilidade nada consentânea com a dos nossos dias. Também sabemos que ele tem a dimensão metafórica própria dos mitos e que é comum a muita da literatura tradicional, originalmente oral. O que impressiona e incomoda é que, malgrado a sua omnisciência, o Senhor não tenha logrado ultrapassar os estreitos horizontes civilizacionais do tempo em que lhe narraram os feitos. Ele, mais do que ninguém, tinha a obrigação de saber que, uns séculos mais tarde, aquelas teimas da misoginia e da intolerância iam ser muito mal vistas pelas consciências esclarecidas e até por muitos dos seus devotos seguidores. O que também incomoda e ofende a consciência, é que os prosélitos do cristianismo, dois milénios volvidos sobre a missionação do “Redentor”, aceitem sem pestanejar a adjunção deste manual da barbárie e repositório de episódios escabrosos aos Evangelhos do Novo Testamento. Evangelhos, aliás, que também não são isentos de perversão, ainda que num outro patamar, ou não radicassem em condições materiais e culturais substancialmente diferentes. Bastará, para disso nos certificarmos, passarmos os olhos por Lucas, que põe Jesus a exigir dos discípulos uma entrega total, com renúncia a pai, mãe, mulher, filhos, irmãos, bens materiais e a própria vida (Lucas, XIV, 26 e 33) ou Paulo, que legitima a autoridade do príncipe, isto é, de todos os poderosos, por serem “ministros de Deus” (Romanos, XIII). O cordão sanitário que o Levítico prescreve para a mulher menstruada ganharia sentido sendo transposto para o Index Librorum Prohibitorum ou, agora que foi abolido, para o Índex da Opus Dei. No mínimo, dever-se-ia pô-lo ao abrigo de olhares indevidos, como sejam os de crianças, os de crentes demasiado condescendentes para com a palavra de Deus e os de padres com irrefreáveis tendências libidinosas.

Valha-nos Deus!

VELHOS LOBOS, de Carlos Campaniço, precedido de nota prévia (*) sobre a apresentação do Professor António Branco

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NOTA PRÉVIA

Comecei a redigir o texto que se segue a esta NOTA PRÉVIA antes da última apresentação do livro de Carlos Campaniço, na Biblioteca Municipal de Faro, a 22 do corrente mês. O Professor António Branco, ex-Reitor da Universidade do Algarve, fez, na oportunidade, uma brilhante exposição, que tentarei resumir, de memória, assumindo todos os lapsos, imprecisões e omissões que provavelmente cometerei e pelos quais peço antecipadamente desculpa.

Antes, porém, pretendo afirmar que, tendo os diálogos entabulados, na altura, entre a mesa e a assistência (numerosa), esclarecido uma ou outra dúvida ou diferente interpretação, ou contrariado um ou outro apontamento crítico da minha parte, decidi não alterar o texto já redigido nem deixar de o completar da forma inicialmente alinhavada, limitando-me a acrescentar-lhe este ponto prévio.

 Começando por qualificar de fabuloso e empolgante o universo romanesco deste livro, o Professor António Branco filiou o género na tradição milenar das histórias que eram, outrora, transmitidas de geração em geração, por via oral, completou o conspecto histórico com a posterior evolução até à consagração dos subgéneros do conto, da novela e do romance, e filiou a obra de Carlos Campaniço na tradição “clássica”, assente na consistência e coesão das categorias acção, personagem, tempo e espaço. De caminho, denunciou o embuste de algumas publicações nossas contemporâneas que se apresentam como “romances”, publicadas a expensas dos respectivos autores e não sujeitas a qualquer crivo crítico editorial, que não passam de subprodutos de uma indústria livreira sem sustentação deontológica.

Pormenorizou as qualidades de Velhos Lobos, enfatizando o facto de Carlos Campaniço nunca ceder ao registo panfletário, nem à tipificação das suas personagens, que estão longe de ser planas, antes são imprevisíveis e avessas a uma lógica determinista, porque estão “vivas”. Sem embargo, e nisso consistirá uma das qualidades do autor, ressalta da narrativa a evidência “telúrica” de que, se os Lobo são os terratenentes, são os míseros Velho quem vive em harmonia com a terra. Este facto constitui, por outro lado, como que uma âncora da narrativa na realidade histórico-social.

Elogiou o uso magistral da língua que Carlos Campaniço faz, o seu recurso frequente aos regionalismos e o registo eminentemente poético da sua escrita. Exemplificando, leu pequenos excertos da obra e, para concluir, dirigiu ainda algumas perguntas ao ex-aluno e autor Carlos Campaniço, que passou com distinção.

***

VELHOS LOBOS

Não sei se terá passado pela cabeça de Carlos Campaniço a ideia do homem lobo do homem, quando ao seu último romance deu por título Velhos Lobos. As duas “famílias desavindas” que contracenam na sua narrativa têm por sobrenome “Velho” – a família pobre – e “Lobo” – a outra, a família abastada –, o que não será razão suficiente para daí se inferir que o autor quis fazer uma versão romanceada da história da sociedade portuguesa no segundo quartel do século XX, numa região onde a propriedade da terra determinou[1] um profundo e doloroso antagonismo entre latifundiários e trabalhadores rurais – desde sempre, lobos uns dos outros. A dúvida é, aliás, irrelevante: a obra publicada goza, a partir da sua difusão, de autonomia e capacidade para empatizar com muita gente. Assim é que, para o leitor-comentador que agora se entrega à ingrata tarefa de redigir esta modesta nota sobre um romance que tem merecido a atenção de gente bem mais qualificada, dos três romances de Carlos Campaniço que teve a oportunidade de ler (As Viúvas de Dom Rufia, Mal Nascer e, agora, Velhos Lobos), este é talvez aquele em que, de forma mais excruciante, se sente como que convocado pela autoridade autoral a dar testemunho de relações sociais caracterizadas por uma violência que pede meças à dos que são lobos de nome, que não de sobrenome.

Irrelevante dúvida que, mesmo assim, não deixa de suscitar, por ínvios caminhos, uma questão de algum relevo: é que a referência inevitável ao latifúndio alentejano, no segundo quartel do século passado, o aqui e agora da narrativa campaniciana (se me é permitido sugerir uma derivação para o patrónimo), suscita a questão da clivagem sempre tão discutida entre o universal e o local, como critério definidor da qualidade de uma obra literária. Um estudioso da literatura inglês, Terry Eagleton, refere-se à coisa nestes termos: «Na verdade, um dos problemas da ideia de que todas as grandes obras literárias tratam do universal e não do particular é que muito poucas emoções humanas estão confinadas a culturas específicas. […] maioritariamente, as paixões e os sentimentos atravessam fronteiras culturais. Uma razão para isso é o facto de se encontrarem ligados ao corpo humano e de o corpo ser a coisa mais fundamental que os seres humanos têm em comum.»[2] De forma mais sucinta e lapidar, Miguel Torga, sentenciou: “universal é o local sem muros”. E o certo é que, transpostas as fronteiras mais cercanas, Jacinto Velho poderia muito bem ser natural de Castilla – La Mancha ou da francesa Provença, e o Francisco d’Almeida Lobo daria um perfeito Francis Wolf na verdejante Cotswolds – onde este leitor nunca foi, se é que a precisão tem algum interesse para o caso e para alguém. Velhos Lobos é, de facto, uma obra literária a que o leitor prefere não pespegar adjectivos que o uso deslustrou, mas à qual vaticina um futuro de leitura, de estudo e de compendiação. Não é menos notável (pese embora o deslustre do adjectivo) o Cavaleiro da Triste Figura, de Cervantes, pelo facto de as suas heróicas aventuras se desenrolarem no planalto manchego, nem a determinada Maria Barnabé, no seu enclave do Montinho: de maneiras decerto diferentes, ambos se nos adentram e por cá ficam, um com as suas loucas fantasias instiladas pelos romances de cavalaria, outra com o seu ensimesmamento, a sua sabedoria bebida na dor do dia-a-dia, a sua pertinaz vontade de se afirmar livre e senhora de si, mal-grado o assédio e as insídias dos irmãos Lobo.

A capacidade efabuladora e o inegável domínio da técnica narrativa, com os seus encadeamentos e pontuais alterações da ordem cronológica da acção evidenciam uma mestria que não constitui surpresa para quem leu os anteriores romances de Carlos Campaniço. A literariedade vai, contudo, para lá dessas destrezas, e compreende, nomeadamente, tudo o que se prende com o manejo da linguagem. Neste particular, um curto parágrafo das páginas iniciais do romance (p. 14) servir-nos-á de exemplo do que é uma sintaxe equilibrada, harmoniosa, ritmada, sem excessos, sem sobressaltos:

Criados os filhos, logo partiram para os povoados das redondezas e mais além, cada qual buscando melhor vida do que aquela, de isolamento e pobreza persistente. A excepção foi Jacinto, que ficou por ali até ser o último dos irmãos em casa, esquecido como um utensílio em desuso, encarado como pertença daquele sítio mais do que qualquer outra raiz que ali tivesse vingado.

Cumulativamente à escorreiteza sintáctica, há o tropo, a figura, a conotação, a musicalidade, a sugestão. Dir-se-ia que Carlos Campaniço, no caso deste seu último romance, não quis investir tão generosamente nestes aspectos quanto o tinha feito nos anteriores. Arriscaria mesmo dizer que a verdade crua do drama humano vivido pelas suas personagens em Velhos Lobos o levou a recusar esta espécie de embuste que é o estilo. Como se dissesse: aquilo que aqui pranto perante os vossos olhos é de tal seriedade que me não vou dar ao desfrute de o alindar com metáforas, hipálages e coisas que tais.

Sartre desencadeou certo dia uma polémica, ao dizer que perante uma criança moribunda A Náusea deixava a desejar[3]. Não sendo este o lugar indicado para debater tudo o que esta frase encerra, é aparentemente certo que ela aponta para uma literatura comprometida e que toma partido pelas causas sociais consideradas justas. O autor de Velhos Lobos não enjeita o seu comprometimento com causas justas e poderá, bem dentro do seu foro literário mais íntimo, ter feito uma opção cuja legitimidade não se contesta, o que, de qualquer maneira, não significa, de nenhum modo, ter abdicado da sua capacidade inventiva no domínio da linguagem, a favor duma escrita a aproximar-se do grau zero. Não. O seu talento literário ter-lhe-á – quem sabe? – inspirado subversão semelhante à que Saramago produziu, ao escrever: "sobre o diáfano mundo da fantasia a nua realidade". Porque é, de facto, uma verdade nua e forte (para retomar os termos de Eça), ademais sumamente comovente, a que ressalta das páginas de Velhos Lobos.

Não se pense, contudo, que a economia de meios foi tal que o leitor-comentador se vê impossibilitado de esquadrinhar uns quantos exemplos daquilo a que poderia chamar a filigrana estilística própria do autor. Não. Vejamos algumas ocorrências e a tentativa de explicação da sua originalidade, que é o mesmo que dizer da sua literariedade:

Logo a abrir, há uma “orquestra de pardais-dos-telhados [a] bailar de ramo em ramo, num novelo de júbilo”. Se a “orquestra de pardais a bailar” está ao alcance de muitos, já a expressão “novelo de júbilo” representa uma óbvia subversão da normatividade. Com efeito, ela configura um procedimento a que o autor nos tem habituado e que consiste em promover, através da aproximação sintagmática, a relação osmótica de signos pertencentes a campos lexicais incompatíveis: “novelo” é algo de muito concreto, material, palpável e corrente, ao passo que “júbilo” pertence ao domínio dos sentimentos e emoções. Não há, entre “novelo” e “júbilo”, qualquer possibilidade de conjugação, na perspectiva de um discurso linear, normativo. E é por isso mesmo que, ao meter a foice muito concreta do “novelo” na seara alheia dos sentimentos, o autor produz literariedade, o que já não estará ao alcance de todos.

Na página seguinte, há, pelo menos, duas ocorrências de adjectivação que, não participando exactamente do procedimento anteriormente descrito, representam também uma forma de desvio – essa característica mais óbvia da linguagem literária. A primeira dessas ocorrências é a “pobreza imperturbável” da casa dos Velho; a segunda, é a dos olhos de Sebastião, que “se tornavam mais óbvios com o apetite”. Sempre que um signo linguístico é deslocado da sua contiguidade semântica mais familiar, ele introduz no discurso uma espécie de “ruído”, de perturbação susceptível de fazer o leitor parar, para pensar ou para sonhar. Regra geral (discurso denotativo), os qualificativos usados para o nome “pobreza” apontam para o observador (ela é “confrangedora” ou “lastimável”) ou, se têm sentido reflexo, exprimem o grau em que se situa o substantivo assim qualificado (“pobreza extrema”, “pobreza absoluta”), ou ainda os sentimento ou emoções vivenciados pela vítima (“pobreza envergonhada”). Em “pobreza imperturbável”, ficamos na dúvida, porque as pessoas, sim, podem mostrar-se imperturbáveis – mas a pobreza? E, então, absorto, disposto a melhorar o seu grau de conhecimento da língua, do mundo, da vida e do que é a literatura, o leitor congemina se a pobreza não será a personificação de qualquer entidade relativamente abstracta, uma revisitação da personagem mitológica, ou se, pelo contrário, ela é “imperturbável” porque as condições materiais da existência dos Velho são aquelas e não estão criadas condições para as “perturbar”, o que só virá a acontecer uns decénios mais tarde. Com a “obviedade” dos olhos de Sebastião, mesma estranheza do leitor, porque há olhos castanhos, azuis, brilhantes, bonitos, tristes, talvez até inteligentes, cativantes, sedutores e por aí fora, mas… óbvios?! Pois é. Para esses, há que chamar Carlos Campaniço à colação.

Poderia multiplicar exemplos e fastidiosos desenvolvimentos explicativos[4]. Não vou prosseguir nessa senda. Ninguém teria paciência para me acompanhar. Nem sequer eu. Mas se enveredei por estas explicações de carácter algo técnico não foi sem propósito. O conceito que, como aspirante a crítico literário nas horas vagas, tenho da crítica é que ela deve ter uma dimensão pedagógica, esclarecedora, promotora da abertura de horizontes, escalpelizadora. Dizer três gentilezas sobre um livro em galanteio de salão é certamente acto louvável e cai sempre bem, mas não qualifica significativamente o autor das gentilezas, enquanto crítico, nem transmitirá ao autor do livro a sensação seguramente mais gratificante para quem escreve que é a de sentir que os seus leitores se não limitaram a passar os olhos”, mas que “falaram” com ele, ainda que ele os não ouvisse, e, para cúmulo, não se limitaram a “falar”: quiseram tirar todos os nabos da púcara.

Há alguns anos, e a propósito do também grande romance A Desumanização de Valter Hugo Mãe, citei o escritor espanhol Carlos Castán que, em entrevista ao Público, afirmava: «Dizem que há escritores do como e outros do quê. Eu serei mais um escritor do como.»[5] Creio que posso retomar esta citação para dizer que Carlos Campaniço é escritor do «quê» e do «como»: de um «quê» que arrebata, e de um «como» que enfeitiça.

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(*) Só uns dias mais tarde, relendo-me, me apercebi da desastrosa redundância...

[1] Pretérito de discutível pertinência.

[2] Terry Eagleton, Como Ler Literatura, Edições 70, Junho de 2021, pp. 246-247

[3] «En face d’un enfant qui meurt, La Nausée ne fait pas le poids.»

[4] Abdicando dos desenvolvimentos, eis mais meia dúzia de exemplos: “… em redor da primeira campa, gizou um rectângulo de saudade”, pp. 31-32; “não tinham espaço nos olhos para tantas novidades”, p. 40; «… limpou a despreocupação ao lenço« (p. 57), «Vinha vestida de serenidade» (p. 84), «uniformes de oficiais, pejados de condecorações, fixadas ao peito com alfinetes de orgulho», p. 84; «com os cotovelos sobre a madeira cansada», p. 91

[5] Ípsilon, 3 de Julho de 2015

 

DA COMUNICAÇÃO À OPINIÃO (ou: o intricado processo de legitimação dos poderes)

I

A capacidade de formar, de informar e de influenciar os cidadãos do Estado moderno foi, desde há muito, universalmente reconhecida, e a designação de «quarto poder» veio juntar-se aos tradicionais poderes legislativo, executivo e judiciário cuja separação Montesquieu defende. Longe de ser um revolucionário, o autor de De l’esprit des lois, de 1748, aspirava a uma «monarchie tempérée», algo que, traduzido para o nosso século, equivaleria à «democracia liberal» ou ao «Estado de direito» (com rei ou presidente), isto é, ao sistema dominante no que, sem maiores especificações, poderíamos designar por Ocidente. Em cada época, a diferentes condições materiais de existência correspondem – ressalvadas todas as influências recíprocas – diferentes modos de pensar e diferentes ordenamentos jurídicos, políticos e sociais.

Se, já no Século XVIII, a imprensa desempenha um papel importante na divulgação das Luzes, nunca como hoje os massa media tiveram o poder que têm. Ultrapassado e destronado, Guttenberg foi remetido para um desprezível terceiro ou quarto lugar no campeonato universal dos meios de comunicação de massa encabeçado pela televisão, por sua vez secundada pelas redes sociais.

Se ainda estivesse entre nós, o barão de Montesquieu estaria provavelmente a defender a versão actual da sua «monarquia moderada» e a desancar a «tirania» autocrática de certos «regimes». Salvo se, como excepcionalmente acontece com os privilegiados, reconhecesse o embuste em que facilmente caímos, quando a descendência colateral da maquineta de Guttenberg nos oferece, vinte e quatro horas por dia, um manancial infindo de notícias, reportagens entrevistas e comentários que, qual feixe de luz atravessando lente convergente, incide sobre a zona que a alguns importa iluminar, deixando na penumbra ou na noite mais negra todas as outras.

Como logo se percebe, vem isto a propósito da nossa comunicação social e do papel convincente, eficaz e avassalador que ela desempenha na formação da “opinião pública”. É o processo de legitimação do poder político, do poder comunicacional e até do meu modesto poder, enquanto receptor, que importa aqui indagar, excluindo, por ora, a problemática da exploração dos bons sentimentos dos cidadãos a favor da guerra das audiências e da captação de publicidade – o que ficou recentemente bem demonstrado, aquando do caso do menino marroquino morto no fundo de um poço – e dos seus maus sentimentos, quando se trata de promover a intolerância ou o ódio para com aqueles que divergem da maioria.

II

Rendida, na sua esmagadora maioria, à versão dos acontecimentos que a televisão, em particular, profusamente lhe serve, a opinião do público, homogeneizada, adquire o estatuto de verdade incontestável. Não obstante não ter sido construída graças a um intenso trabalho de pesquisa e análise, de confrontação de dados e concomitante reflexão, essa opinião reivindica a “coincidência” com a versão dominante dos acontecimentos para justificar a sua autenticidade. O senso comum corrobora este raciocínio dedutivo, já que reconhece sistematicamente a razoabilidade da posição maioritária e vê com enorme desconfiança o que contraria o paradigma. Abundam, na história da humanidade, opiniões (um universo com quatro mil anos de existência, espécies animais e vegetais tiradas do nada tal como são hoje, casal primordial de que todos descendemos, Terra plana no centro do universo, etc.) que eram as verdades oficiais de cada época, partilhadas por multidões, e que a ciência paulatina (e sacrilegamente) desconstruiu, arrostando com a repressão, a perseguição e a morte.

Indo além disso, não se limitando a ser verdadeira, a opinião do público é ainda SUA, no pleno sentido do possessivo. Porquê? Porque, obnubilada a consciência de que a versão em causa lhe foi transmitida por um agente exterior, a opinião de cada um e de todos (de facto, da esmagadora maioria) adquire o estatuto de opinião autónoma. Autónoma, porque fundada em “dados objectivos”, constantes de reportagens e entrevistas aos quais atribui validade inquestionável; autónoma, também, porque assente num esboço de reelaboração pessoal subsequente, pouco importando que o crivo do escrutínio crítico do seu possuidor, na melhor das hipóteses, tenha intervindo muito fugazmente e não lhe tenha ocorrido questionar os critérios subjacentes às escolhas de intervenientes, de locais, de momentos. (Quem desconhece a prática televisiva que consiste em filmar zonas previamente definidas de um comício, de uma manifestação, etc., ou a entrevista informal feita a um transeunte previamente auscultado?)

Longe de lhe suscitar dúvidas quanto à genuinidade de uma opinião de facto veiculada por canais informativos que dão uma visão filtrada da realidade, (sendo que, aqui, “filtrada” é necessariamente sinónimo de “truncada”) a constatação pelo receptor de que a sua opinião coincide com a dos concidadãos, reforça a sua convicção de que ela é autónoma e de que essa coincidência a valida definitivamente. Uma vez que aquilo que lhe é, demorada e criteriosamente, instilado acaba por ser sentido como seu, o cidadão fica sinceramente persuadido de que pensa pela sua cabeça. No fundo, trata-se de um processo com muito de semelhante ao processo educativo: se a educação incute princípios, crenças e modos de ver o mundo, orientando o nosso foco observacional e condicionando o nosso comportamento, a partir da infância, os massa media “educam-nos”, na idade adulta.

A versão oficial dos acontecimentos é, pois, legitimada pelo seu carácter dominante. Sendo partilhada, ab initio, pelo maior número de receptores, duvidar da sua autenticidade, recusar a evidência mediática, constitui como que um acto de rebeldia sujeito à censura social, e o opinante minoritário é visto como elemento associal. De resto, o discurso oficial beneficia, à partida, da legitimação resultante de ser o discurso do poder político, poder este que, se hoje já não carece da bênção eclesiástica, não deixa de ser percepcionado como reflexo do poder divino na esfera temporal. Com efeito, ele usufrui de uma aura que reflecte o freudiano “complexo paterno”, com raízes na horda primitiva e no “assassínio do pai”. O sentimento de culpa / pecado é permanentemente alimentado pelo discurso religioso, de par com o dever de observância da autoridade (verdadeiro “imperativo categórico”, incondicional) já que esse poder político é o executor de um mandato outorgado pelo Criador, a fim de assegurar a prossecução dos Seus desígnios na Terra («o príncipe é ministro de Deus para bem teu». S. Paulo, Epístola aos Romanos). E todo o aparelho institucional (Igrejas, Escola, Órgãos de comunicação) participa activamente na reprodução ininterrupta dessa crença.

Recapitulando: aceite a versão oficial como verdade incontestável e assimilada à opinião pessoal de cada um, esta passa a gozar de um acréscimo de legitimação: ao invés de ser percepcionada como reflexo de uma opinião pré-existente, a adesão ao discurso oficial é sentida como coincidência deste discurso com a sua própria opinião e, se o discurso dos media coincide com a sua opinião pessoal, não só esta é necessariamente verdadeira como beneficia da carga emotiva suplementar resultante da gratidão por se ver reconhecida: não sou eu que partilho a visão dos media; são os media que partilham a minha visão dos acontecimentos. Nada poderia ser mais gratificante.

Em suma, aquilo que não passava, à partida, de uma versão truncada e tendenciosa dos acontecimentos torna-se a opinião universal, serve os interesses imediatos de uma das partes envolvidas nos acontecimentos e, de caminho, legitima um aparelho de guerra ideológica que enverga o camuflado diáfano de “órgão de comunicação social”.

III

A questão da legitimação é importante, se não mesmo fundamental, por representar um valor acrescentado de prestígio e de aceitabilidade irrecusável: o que é legítimo funda-se na razão e está naturalmente justificado.

No caso concreto da informação sobre a Rússia e a Ucrânia, nos dias que precederam a intervenção militar russa, só muito raramente uma voz dissonante se fez ouvir ou ler e introduziu os ruídos de uma “revolução laranja” que teria sido um golpe de Estado, em 2014; de um nazi de nome Stepan Bandera arvorado em herói nacional; de milícias neonazis integradas na guarda nacional ucraniana; de ataques a populações russófonas nas províncias separatistas; de um cerco à Rússia montado pela NATO, …). Todas estas notas dissonantes foram desvalorizadas, relativizadas ou silenciadas, quer pelos comentadores, invariavelmente defensores da superioridade moral do modelo de desenvolvimento económico e de organização político-social do Ocidente, quer pelo foco permanente em movimentações e entrevistas de cidadãos ucranianos, cujos receios eram legítimos e compreensíveis, mas cujas opiniões são formadas segundo modelo certamente muito semelhante àquele que nos cabe em sorte.

Após a invasão do território ucraniano pelas tropas russas, a cobertura televisiva apenas redobrou de empenhamento na promoção da sua perspectiva, desta feita, porém, gozando de uma justificação: a clara violação do direito internacional pela Rússia, facto objectivo e indesmentível.

O que retira legitimidade à justificação é que, noutras violações claras e indesmentíveis do direito internacional (na Jugoslávia, no Iraque, na Líbia, na Síria) a cobertura noticiosa primou pelo recato, pela discrição, pela urbanidade. O parti pris da visão maniqueísta mantém-se; objectividade e isenção dispensam-se.

Não se trata aqui de exprimir surpresa ou decepção; nem sequer discordância. Trata-se de constatar que é assim mesmo que a comunicação social funciona nas democracias liberais, sendo que a distinção em relação ao tratamento dado aos conteúdos informativos no regime autocrático russo passa pela comparação entre os respectivos graus de verosimilhança: a informação deste último é, em muitos casos, facilmente sentida como instrumental e inverosímil (a mensagem da comunicação social russa é muito pouco convincente), enquanto a das democracias liberais, que conta, à partida, com uma grande aceitação por parte do receptor, é objecto de um savoir-faire inegável, o que lhe confere um elevado grau de confiabilidade.

Na sua obra O Estado, Georges Burdeau explica assim a evolução do mecanismo de legitimação do poder político:

«Se os chefes dão tanto valor a que os considerem legítimos, é porque a legitimidade lhes traz um acréscimo de autoridade que eles não podem receber senão daí. Ao Poder que se impõe, ela acrescenta a qualidade que se liga a um Poder consentido, porquanto ninguém tem a possibilidade de se pretender autoridade legítima se não for reconhecido como tal. […] Enfim, ela introduz o Poder no universo mágico das representações e das crenças dotando-o de todos os prestígios que lhe vêm do que os homens julgam ser a natureza dele. Metamorfose moderna da sacralização do Poder, a legitimidade laiciza o seu fundamento sem lhe enfraquecer a solidez, visto que substitui a investidura divina pela consagração jurídica.»

Se o poder político se legitima pela consagração jurídica (agora que a “investidura divina” passou à História), o poder mediático legitima-se pela apropriação individual de que a sua mensagem é objecto: feita “opinião pública”, perdida a relação causal entre essa mensagem distorcida e a “opinião” que ela gera, o poder mediático ascende à condição de sentir do povo, de expressão da consciência colectiva. Está consumada a sua função mistificadora e alienante.

Neste contexto, os defensores de uma visão dos acontecimentos não inteiramente sobreponível à dominante são genericamente tratados como estando desfasados, fora da História, e como defensores de regimes autocráticos, quando não acusados de coisas piores. Alguns militares que se distinguiram ultimamente por introduzir no comentário televisivo variáveis de análise que se caracterizam por trazer à colação aquilo que o discurso normativo silenciara são desqualificados e sistematicamente apodados de colaboracionismo com o regime russo.

É possível descortinar nestas acusações alguma justificação, uma vez que os opinantes minoritários dão, geralmente, maior ênfase, no caso do conflito em curso, aos desmandos dos EUA/EU/NATO do que aos de Putin. Porém, dar maior ênfase a uns não significa ignorar ou aprovar os outros. Enfatizar significa, sim, que os opinantes minoritários entendem, tudo ponderado, que a parte que goza da simpatia da comunicação social dominante poderá ter (ou tem, inequivocamente) uma responsabilidade no desencadear do conflito que é geralmente ocultada, não lhes cabendo, a eles, amplificar o conhecido coro uníssono, pois, nesse caso, abdicariam de acrescentar algo à leitura oficial dos acontecimentos.

Em abono desta perspectiva, é notório que os defensores das democracias liberais omitem pormenores relevantes para uma cabal compreensão do que está em jogo:

  1. Os “regimes autocráticos”, que dizem ser defendidos pelos minoritários, são geralmente países que enveredaram por modelos de desenvolvimento económico e de organização político-social não alinhados com os do Ocidente. Como, entre os Romanos, os bárbaros, esses “regimes” não falam a língua do Império. São, por isso, sujeitos a sanções e sabotagens tais que se vêem impedidos, durante longos períodos, de ascenderem aos níveis de vida a que todos aspiramos. Os casos da Cuba socialista, da Venezuela bolivariana, da Síria martirizada, da Líbia que recuou no tempo, são casos paradigmáticos de bloqueio, embargo e acções desestabilizadoras por parte dos EUA, insensíveis às atrocidades cometidas pelos seus amigos sauditas, no Iémen, e israelenses, na Palestina. E, se a tão aclamada liberdade de expressão das democracias liberais é, de facto, fortemente condicionada em muitos “regimes autocráticos”, a honestidade intelectual suscitaria algumas perguntas e arriscaria algumas respostas: 1.º, a liberdade de expressão que nós conhecemos não é, ela mesma, o expoente máximo do condicionamento da liberdade? Parece que sim, uma vez que logra a proeza de nos levar a considerar “nossa”, “pessoal”, “autêntica”, a opinião que nos foi inculcada pela comunicação social. Por outro lado, alguém conhece algum órgão de comunicação social que dê ao contraditório o espaço mínimo necessário, não sequer para contraditar, mas simplesmente para completar a informação? 2.º, sem o condicionamento da liberdade de expressão nos tais “regimes”, seria viável um modelo de desenvolvimento e de organização político-social distinto do que vigora nas democracias liberais? O Chile de Allende, a Bolívia de Morales, a Venezuela e a Síria parecem dizer-nos que não; 3.º, a autocrática Federação Russa é equiparável a “regimes” onde, por vias diversas, se propugna a construção do socialismo? Não. O capitalismo russo não é diferente do capitalismo americano ou europeu, assim como o capitalismo da Alemanha nazi não era diferente do capitalismo das democracias ocidentais que, em 1938, e em Munique, pactuaram, pondo a União Soviética à margem. Não são diferentes, mas têm interesses próprios, contraditórios – e a geopolítica dá-lhes expressão.
  2. As pessoas que buscam refúgio e melhores condições de vida nas democracias liberais foram, quantas vezes, obrigadas a fugir das suas pátrias – vítimas do colonialismo, do neocolonialismo, das missões ditas humanitárias, de intervenções militares dessas mesmas democracias e do terrorismo que tudo isso tem incentivado, por via da humilhação a que esses povos têm sido sujeitos ao longo de décadas – para não trazer à colação as cruzadas e a defesa da fé e do império, que têm séculos de história. Relativamente ao terrorismo islâmico, como não recordar Mário Soares, que, um dia, disse não justificar, obviamente, mas não deixar de compreender, esse terrorismo, o terrorismo dos que têm a bomba, mas não o bombardeiro. O incómodo sentido por aqueles que não justificam o terrorismo, mas não se limitam a condenações liminares, porque o contextualizam no âmbito das humilhações infligidas ao mundo muçulmano, e por isso o compreendem, tem alguma semelhança com o que hoje sentem e exprimem em relação à invasão russa da Ucrânia: injustificável, mas explicável, isolá-la do contexto é apagar esse contexto. Mário Soares foi gentilmente criticado, na altura; os que hoje não justificam, mas compreendem, arriscam-se a ser lapidados.
  3. As democracias liberais, apresentadas como inultrapassáveis modelos de virtude e de bem-estar, ergueram-se e mantêm-se hoje, em larga medida, graças à exploração das riquezas alheias e de um proletariado deslocalizado para o Terceiro Mundo. De resto, para se ter uma ideia dos níveis de desigualdade e injustiça social que caracterizam a sociedade capitalista e a sua configuração democrática liberal, os números seguintes são esclarecedores: « […] os EUA oferecem um exemplo perfeito. Os 50% mais pobres possuem 2% da riqueza do país, mas o 1% mais rico, que possuía ligeiramente menos de 25% da riqueza do país no final dos anos 70, possui agora mais de 40%. E o 0,1% de americanos mais ricos, um grupo de umas 160 mil pessoas, possui cerca de 22% da riqueza do país e conseguiu captar mais de metade da riqueza gerada nos EUA entre 1986 e 2012. […] os EUA estão hoje numa situação em que o 0,1% mais rico detém tanta riqueza como os 90% mais pobres todos juntos.» O autor das palavras que acompanham estes números, tão esclarecedores quanto aterradores, é insuspeito, suponho: Daniel Susskind, autor de Um Mundo sem Trabalho, trabalhou com o Governo britânico como conselheiro político da Strategy Unit do primeiro-ministro, como analista de políticas na Policy Unit no n.º 10 de Downing Street e como analista político sénior no Cabinet Office.
  4. O afastamento do espectro da guerra na Europa, com o advento da Comunidade / União Europeia, e deixando de lado o episódio de bombardeamento e desmembramento da Jugoslávia, em 1999, tem servido de alimento à ficção de que a construção de uma Europa de paz se deve a esse processo de integração. Obnubila-se, assim, a realidade dos múltiplos conflitos em diferentes continentes que têm como causas próximas ou remotas as políticas implementadas pelo imperialismo, na sua busca constante de controlo dos recursos energéticos imprescindíveis à reprodução de uma economia predadora. As deslocalizações não se limitaram ao aparelho produtivo e ao respectivo proletariado; também as guerras foram deslocalizadas para regiões distantes, preservando o casto olhar democrático e liberal das atrocidades comprometedoras da boa consciência ocidental.

Porém, nada disto impressiona a auto-suficiência e a arrogância dos prosélitos do liberalismo ou de uma social-democracia que vai da direita educada a uma esquerda bem-pensante, acima de tudo empenhada em preservar os sacrossantos alicerces do capitalismo. Mesmo quando reclamam a herança de Jean Jaurès, esquecem-se oportunamente do discurso em que este, nas vésperas do deflagrar da I Guerra Mundial, exortando os socialistas a evitar a guerra, proferiu a célebre frase «le capitalisme porte en lui la guerre comme la nuée porte l’orage». Em 1914, como hoje, vingou a União Sagrada dos prosélitos de Fukuyama – com o capitalismo, a História chegou ao fim.

«Metamorfose moderna da sacralização do Poder, a legitimidade laiciza o seu fundamento sem lhe enfraquecer a solidez, visto que substitui a investidura divina pela consagração jurídica», diz Georges Burdeau, a propósito da “legitimação” e da “autoridade”. A comunicação social que impera entre nós não carece da “investidura divina” e goza, naturalmente, de “consagração jurídica”, mas, acima de tudo, beneficia do processo insidioso de legitimação da sua autoridade atrás descrito. Essa “autoridade” assenta na instilação contínua de um conjunto de valores veiculados por um discurso codificado: temos um “governo português” ou uma “administração americana”, mas um “regime” cubano, russo, venezuelano… Os “oligarcas”, são quase sempre Russos que enriqueceram graças à apropriação de património do Estado, na sequência da derrocada da URSS, e que têm influência na condução do país, mas alguém alguma vez ouviu chamar “oligarca” aos banqueiros, aos gestores, aos ministros e outros responsáveis políticos e respectivas famílias que, se não conduziram à derrocada da República, têm-na comprovadamente prejudicado, locupletando-se com o dinheiro de todos nós e deixando-a no estado que sabemos?

Termos em que, mais do que órgãos de comunicação social, temos órgãos de mistificação social, o que é natural, numa democracia em que os cidadãos gozam da ampla liberdade de votar livremente naqueles que os ludibriam e exploram, graças à preciosa cooperação da tal comunicação social.

Surpreendente? Nem por isso. A comunicação social ou é propriedade privada dos detentores de fortunas e meios de produção ou é propriedade pública do conselho de administração dos seus negócios – aquilo a que damos o nome de Estado.

20 de Março de 2022

Fernando Martins

CARTA ABERTA AO PAI-NOSSO (Com conhecimento a Sua Excelência o Senhor Ministro dos Negócios Estrangeiros, zeloso administrador dos santos interesses do Mundo Livre)

 

CARTA ABERTA AO PAI-NOSSO

(Com conhecimento a Sua Excelência o Senhor Ministro dos Negócios Estrangeiros, zeloso administrador dos santos interesses do Mundo Livre)

 

Pai-nosso que estais nos céus, santificado seja o vosso nome.

Bem sabeis quão pouco dado sou a dirigir-vos a palavra, que a consciência culposa de um insano ateísmo militante, ma tem arredada de tão exultante exercício.

Circunstâncias excepcionais, porém, me induzem a fazê-lo. Sabeis, necessariamente (ou não fosse, por definição, omnisciente a Vossa infinita sabedoria) da pavorosa insídia que seitas heréticas oriundas da estepe gelada congeminam e activamente promovem contra inofensivos cordeiros que apenas buscam um abrigo no acolhedor redil da santíssima NATO – parente chegada da Virgem Maria, também conhecida por Mãe de Deus, ainda que não exactamente Vossa Mãe.

Ouvi, pois, Deus meu: quão indesculpável seria a Vossa santíssima sabedoria, negando a santa oportunidade de defender os valorosos combatentes da Santa Madre Igreja da Liberdade Ocidental contra os satânicos cossacos do Leste! Aproveitai a ocasião, se me é permitido usar de formulações tidas por marca de oportunismo humano, e permiti que um denodado combatente pela liberdade (de iniciativa) e pela soberania (do capital financeiro) – daqueles que, ao fim-de-semana, se treinam nos arredores de Kiev, com armas feitas de pau, e acompanhados pelos miúdos, futuros émulos dos colegas de Columbine – seja oportunamente municiado pelo consórcio Biden-EU-NATO, de modo a atingir, por descuido, o torpe ismaelita, aliás russo, do outro lado da fronteira, que, se Vós quiserdes, cairá na tentação de ripostar.


No fundo, fareis, com isso, algo como uma reedição do assassinato do arquiduque, em Sarajevo, ainda que num cenário um pouco menos bucólico, desta feita, mas, em compensação, com um saldo superior aos quinze milhões de almas levadas à época para os santos aposentos que, para nós, tendes destinados no Céu.


A Vossa Providência logrará livrar a Europa dos problemas de sustentabilidade da Segurança Social, e o caminho da reconstrução, reconhecidamente proveitoso para a recuperação de altos níveis de desenvolvimento, estará assegurado.


Concluo, solicitando ainda que venha a nós o Vosso arsenal de curto e médio alcance e que seja feita a Vossa vontade, assim na terra, como no mar e no ar, pelos três ramos das forças armadas.


Perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos àqueles que se queixam da nossa comunicação social e dos comentadores aleivosamente caluniados e não nos deixeis cair na tentação, mais livrai-nos do Eixo do Mal. Amem.

RAYAN, A TENSÃO NA FRONTEIRA DA UCRÂNIA COM A RÚSSIA, O PODER DAS TVS E OUTRAS COISAS À MISTURA

RAYAN, A TENSÃO NA FRONTEIRA DA UCRÂNIA COM A RÚSSIA, O PODER DAS TVS E OUTRAS COISAS À MISTURA

 

Durante dias, as televisões mantiveram-nos amarrados aos ecrãs dos nossos receptores com as imagens comentadas das operações de salvamento de uma criança marroquina que ninguém conhecia no mundo inteiro, com a excepção dos seus parentes e vizinhos.

Sem detenças desnecessárias na afirmação de bons sentimentos, (que a morte de uma criança é sempre motivo de dor e compaixão, mesmo para aqueles que nunca a viram), há dois aspectos, aliás interdependentes, que merecem uma curta reflexão:

Aspecto 1. O poder descomunal que têm as tvs de activar as nossas glândulas lacrimais, quando isso serve os seus interesses económicos (guerra das audiências e mercado publicitário)

Quanto a este ponto, basta pensar-se, a contrario sensu, na nossa reacção à notícia da morte de crianças palestinianas por acção de soldados israelitas. As TVs relatam a ocorrência com a brevidade própria do flash e do fait-divers, parcimónia de pormenores e referência às versões contraditórias das partes (objectividade jornalística oblige): os soldados atiraram a matar / a criança lançou-lhes pedras ou integrava um grupo de manifestantes anti-sionistas. São crianças, mas não lhes é concedido o estatuto mítico do anjo, de mais uma estrela no céu e blá-blá-blá. Reacções dos espectadores: «Não há meio de se entenderem!», «Não aceitam a coexistência pacífica com o Estado de Israel!...», «São terroristas!», e etc. Nem a recente evolução do discurso da Amnistia Internacional, que já fala do «apartheid» israelense, alterará a opinião solidificada.

Aspecto 2. A eventual replicação do fenómeno, no plano político, embora com a intervenção de outras glândulas e com consequências mais destrutivas.

Esta abordagem carece, obviamente, de maior ponderação, mas, não sendo este texto um rascunho prévio a uma tese de doutoramento, arriscaria o seguinte, recorrendo ao prato forte da actualidade internacional, a chamada “tensão na fronteira entre a Ucrânia e a Rússia”:

a) As nossas TVs, quando está em causa uma relação potencialmente conflitual entre aquilo a que chamam “regimes”, isto é Estados não alinhados com o figurino institucional do Ocidente capitalista e, particularmente, com as suas parcelas estado-unidense e europeia unida, adoptam invariavelmente o ponto de vista das últimas, que são apresentadas sob a luz da mais imaculada democracia e insusceptíveis de questionamento quanto às suas virtudes. Os Estados que enveredaram por outras vias de desenvolvimento e de organização política, ou que, simplesmente, entendem não aceitar o policiamento dos EUA/UE/NATO, esses, merecem um tratamento cáustico, denunciador de uma rejeição apriorística, ou não estivessem as TVs cientes de que o seu endoutrinamento fez o seu curso e a aceitação acrítica pelos telespectadores da sua visão tendenciosa é um dado adquirido.

Este estado de coisas é perfeitamente compreensível, numa sociedade onde, naturalmente, os meios de comunicação, públicos ou privados, são detidos pela classe dominante. Por conseguinte, a parcela minoritária da população que se apercebe da acção mistificadora da comunicação social acaba por adoptar uma de duas atitudes: ou verbaliza o seu desgosto, através da censura expressa, ou exprime friamente a sua convicção de que o papel desta comunicação social é aquele que lhe cabe na sociedade que é a nossa e só a abolição dos seus fundamentos permitirá outro estado de coisas. Em ambos os casos, a TV, em particular, ignorará tais reacções, e, não passando na TV, elas não existirão. O que não existe para a TV, pura e simplesmente não existe. As próprias vítimas da mistificação / alienação, não tendo consciência dela, tenderão a ver, nos críticos não desistentes, uma espécie de quixotes empenhados em combater gigantes que não passam de moinhos de vento. Do mesmo modo que tenderão a ver, nas considerações sobre a informação distorcida, enviesada, tendenciosa e, no limite, criminosa, sobre as “tensões” internacionais, uma reflexão distorcida, enviesada, tendenciosa e, no limite, criminosa, tendente a branquear a política agressiva de uma potência que já foi comunista e que poderá não se ter desfeito totalmente dessa herança. Ora, em relação ao comunismo, estamos conversados: tivemos quarenta e oito anos seguidos de quase mais outros tantos para dele conhecermos todas as malfeitorias. Já em relação às invasões, ingerências, intervenções ditas humanitárias, promoção de acções desestabilizadoras de “regimes” pouco recomendáveis levadas a cabo pela democrática sociedade EUA/EU/NATO, de pouco vale a memória dos que se lembram ainda das pinochetadas, das armas de destruição maciça, e por aí adiante.

Voltando à Ucrânia, quase apetece sugerir a Lavrov que proponha aos seus interlocutores da NATO o seguinte acordo: a Ucrânia adere à NATO e, em contrapartida, “regimes” da América Central como Cuba, a Venezuela bolivariana, a Bolívia evo-moraliana são convidados a aderir à Organização do Tratado de Segurança Colectiva. Como irá reagir o farol da democracia? Que leitura isenta e objectiva farão disso as nossas TVs?