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Também de esquerda

Espaço destinado a reflexões (geralmente) inspiradas na actualidade e na Literatura.

Também de esquerda

Espaço destinado a reflexões (geralmente) inspiradas na actualidade e na Literatura.

Memórias de Adriano: um monumento literário

(ficha de leitura)

Memórias de Adriano (2).jpg

 

A palavra escrita ensinou-me a escutar a voz humana, assim como as grandes atitudes imóveis das estátuas me ensinaram a apreciar os gestos. Em contrapartida, e posteriormente, a vida fez-me compreender os livros. Marguerite Yourcenar, Memórias de Adriano, Livros RTP, p. 40

O verdadeiro lugar de nascimento é aquele em que, pela primeira vez, se lança um olhar inteligente sobre si mesmo: as minhas primeiras pátrias foram os livros. Memórias de Adriano, Livros RTP, p. 48

Sou como os nossos escultores: o humano satisfaz-me; nele encontro tudo, até o eterno.” Memórias de Adriano, Livros RTP, p. 126

 

Trajano morre; sucede-lhe seu primo e filho adoptivo Adriano, que endereça este longo discurso ao filho adoptivo[1] e sucessor – Marco Aurélio.

Livro enorme esta carta-romance de Marguerite Yourcenar[2] para cuja leitura o excelente prefácio de Isabel Alçada nos proporciona preciosa ajuda, ao mesmo tempo que limita a tentação de alinhavar aquela meia dúzia de notas com que, habitualmente, o escriba satisfaz irrefreável pulsão comentarista. O escriba contentar-se-á com um breve comentário e muitas citações. E é deste prefácio que sublinha, desde já, estas palavras: “o essencial do pensamento humano resiste ao tempo e permite neutralizar uma distância de dezoito séculos.” (10) De facto, o que mais impressiona na leitura destas “memórias” é mesmo a permanência: aquele homem do século II é o meu vizinho, o meu amigo, sou eu. Não necessariamente com toda a panóplia de ocupações e de preocupações atinentes ao exercício das funções imperiais (os detentores de cargos político-administrativos terão algumas delas, mutatis mutandis), mas com as hesitações, fraquezas, perspectivas, volições que caracterizam o homem de todos os tempos. Para mais, deparamos com um imperador cuja modernidade pode ser aferida pela preterição da política de conquista a favor da paz[3], pelas leis aprovadas a favor das mulheres e pelo reconhecimento da inconveniência das desigualdades sociais (as excessivas, é verdade, que a infra-estrutura não permitia então a formação da consciência que só viria a vingar dezassete séculos mais tarde).

Claro que, por detrás deste Adriano do século II que se nos dirige por interposto Marco Aurélio está uma Marguerite Yourcenar do século XX, profunda conhecedora quer da cultura clássica quer do seu e nosso tempo. É, pois, natural que sintamos a sua personagem tão próxima de nós que chegamos a duvidar da sua autenticidade e sentimo-nos tentados a atribuir à autora, que não à figura histórica, grande parte daquilo que, no texto, é assacado a esta última, até na modernidade da linguagem. Os “Apontamentos sobre as Memórias de Adriano” e a “Nota bibliográfica”, ambos da autora, são, porém, tão esclarecedores, quer sobre todo o processo de maturação do projecto e de redacção, quer sobre as fontes, pormenorizadamente inventariadas e comentadas[4], que forçoso é acreditar na argúcia e génio do imperador. O que não invalida uma observação complementar: ao absorver a este ponto a cultura clássica e o pensamento do imperador, a autora tornou-se o seu legítimo e fiel porta-voz – uma espécie de alter ego.

Nestas circunstâncias, não se estranhará, por exemplo, a agudeza introspectiva que ressalta deste passo, como de muitos outros, que a psicologia moderna não desdenharia:

“Quanto à observação de mim mesmo, obrigo-me a isso, quanto mais não seja para entrar em composição com este indivíduo junto do qual estarei forçado a viver até ao fim, mas uma familiaridade de sessenta anos comporta ainda muitas probabilidades de erro. No seu aspecto mais profundo, o meu conhecimento de mim próprio é obscuro, interior, inexpresso, secreto como uma cumplicidade. No seu aspecto mais impessoal, tão gelado como as teorias que eu posso elaborar acerca de números: emprego o que tenho de inteligência para ver de longe e de mais alto a minha vida, que se torna então a vida de um outro. Mas estes dois processos de conhecimento são difíceis e requerem, um, uma penetração no nosso íntimo, outro, uma saída de nós mesmos. Por inércia, tendo, como toda a gente, a substituí-los por meios de pura rotina, por uma ideia da minha vida parcialmente modificada segundo o conceito que o público forma dela, por juízos feitos, quer dizer, mal feitos, como um molde antecipadamente preparado a que um alfaiate desajeitado adapta laboriosamente um tecido que é nosso. Equipamento de valor desigual; utensílios mais ou menos embotados; mas não tenho outros: é com eles que eu construo, melhor ou pior, uma ideia do meu destino de homem.” (42)

***

Magísteres, filósofos e poetas: da necessária superação

Notáveis, pela sua modernidade e acutilância, são as referências críticas à vacuidade de magísteres

“ […] cada um encerrado nos estreitos limites do seu saber, [desprezando] os colegas que, tão estreitamente como eles, sabiam outra coisa” (48)

e à mediocridade de filósofos:

“Em muitos pontos, aliás, o pensamento dos nossos filósofos parecia-me também limitado, confuso ou estéril. Três quartos dos nossos exercícios intelectuais não passam de bordados no vácuo; perguntava a mim mesmo se essa vacuidade crescente era devida a um abaixamento da inteligência ou a um declínio do carácter […] ” (197).

Em relação à disciplina necessária ao trabalho poético, a sua opinião é taxativa:

“ […] os lugares-comuns aprisionam-nos: começava a compreender que a audácia do espírito não basta, só por si, para nos desembaraçarmos deles, e que o poeta só triunfa sobre as rotinas e impõe às palavras o seu pensamento graças a esforços tão longos e tão assíduos como as minhas obras de imperador” (194)

A família e as leis: cepticismo

Curiosa, no mínimo, é a sua descrença nas virtudes da família, decorrente do exercício de funções como “juiz do tribunal encarregado dos litígios por causa de heranças” (53):

“Maridos contra mulheres, pais contra filhos, colaterais contra toda a gente; o pouco respeito que tenho pessoalmente pela instituição da família não resistiu muito a isso” (55).

Não menos curiosa, a sua descrença nas leis assenta em raciocínio que não andará longe do que juristas dos nossos dias poderiam partilhar:

“Devo confessar que acredito pouco nas leis. Demasiado duras, são transgredidas com razão. Demasiado complicadas, o engenho humano encontra facilmente maneira de se escapar por entre as malhas dessa nassa monótona e frágil” (111)

O amor, os amores

Adriano chega “à idade em que a vida se torna, para cada homem, uma derrota aceite” (26) e começa “a avistar o perfil da [sua] morte” (27). Na juventude, não lhe terão faltado relações com patrícias casadas, amores em que, na opinião de Serviano, seu “velho cunhado”, “havia mais ambição e curiosidade que propriamente amor”, já que “ a intimidade com as esposas [o] introduzia pouco a pouco nos segredos políticos dos maridos” (71). Mas agora, ele sabe que “o desejo de conhecer exactamente as riquezas que cada amor nos traz, de o ver mudar, talvez de o ver envelhecer, concilia-se mal com a multiplicidade das conquistas” (35), e o culto que votou a Antínoo parece, efectivamente, atestar uma fidelidade a que a morte prematura do efebo, “belo lebréu ávido de carícias e de ordens” (144) não terá propiciado demorada afirmação. Recorda a Idade de Ouro (145) desta relação nestes termos:

“Naquela época punha em fortalecer a minha felicidade, apreciá-la, e também em julgá-la, a atenção que sempre dispensara aos mais pequenos pormenores dos meus actos; e que é a própria voluptuosidade senão um momento de atenção apaixonada do corpo? Toda a felicidade é uma obra-prima: o menor erro falseia-a, a menor hesitação altera-a, a menor deselegância desfeia-a, a menor estupidez embrutece-a. A minha não é responsável em coisa alguma por aquelas das minhas imprudências que mais tarde a quebraram. Julgo ainda que teria sido possível a um homem mais hábil que eu ser feliz até à morte.” (152)

 

Aprendizagem da sabedoria: da ambição à moderação

 

Não é apenas no amor que Adriano amadurece. À ambição de poder, de dinheiro e de glória sucede o gosto da moderação e do serviço público:

 

“Deixei Atenas seca e loura pela cidade onde homens encapotados em pesadas togas lutam contra o vento de Fevereiro, onde o luxo e a devassidão não têm encantos, mas onde as menores decisões tomadas afectam a sorte de uma parte do mundo, e onde um jovem provinciano ávido, mas não demasiadamente obtuso, julgando a princípio obedecer apenas a ambições bastante grosseiras, devia pouco a pouco perdê-las à medida que as realizava, aprender a ser moderado relativamente aos homens e às coisas, a comandar e, o que finalmente é talvez um pouco menos fútil, a servir.” (52/53).

 

De resto, a sua natureza parece ter constituído desde sempre fértil alfobre para que tais qualidades medrassem:

 

“toda a explicação lúcida me convenceu sempre, toda a delicadeza me conquistou, toda a felicidade me tornou moderado” (111)

 

Ele apreende a permanência do homem histórico para lá da efemeridade do homem biológico, e capta essa supervivência nos testemunhos materiais que vamos deixando:

 

“Construir é colaborar com a terra […]. Abrir portos era fecundar a beleza dos golfos. Fundar bibliotecas era ainda construir celeiros públicos, acumular reservas contra um Inverno de espírito, cuja aproximação certos sintomas me fazem prever, mau grado meu […]. A nossa vida é breve: falamos sem cessar dos séculos que precedem ou se seguem ao nosso como se nos fossem totalmente estranhos; contudo eu tocava-lhes nos meus manejos com a pedra. Aquelas paredes que seu escorava estão ainda quentes do contacto com corpos desaparecidos; mãos que ainda não existem acariciarão estes fustes de colunas: Quanto mais meditei sobre a minha morte, e sobretudo sobre a de um outro, mais tentei acrescentar às nossas vidas estes prolongamentos quase indestrutíveis […] Cada pedra era a estranha concreção de uma vontade, de uma memória, por vezes de um desafio. Cada edifício era o plano de um sonho.” (122/123/124)

 

A condição humana: anverso e reverso

As referências menos abonatórias sobre alguns dos seus contemporâneos não são raras:

“Encontrei na maior parte dos homens pouca consistência no bem, mas sem terem mais no mal” (55).

Todavia, não deixa de reconhecer que

O nosso grande erro é querer encontrar em cada um, em especial, as virtudes que ele não tem e desinteressarmo-nos de cultivar as que ele possui.” (55)

“Cada um de nós tem mais virtudes do que os outros supõem, mas só o êxito as torna notórias, talvez porque se espera então que deixemos de as praticar.” (104)

“E nunca prestei grande atenção às pessoas bem-intencionadas que dizem que a felicidade excita, que a liberdade enfraquece e que a humanidade corrompe aqueles sobre quem é exercida. Pode ser: mas, no estado habitual do mundo, é como recusar a alimentação necessária a um homem emagrecido com receio de que alguns anos depois ele possa sofrer de superabundância. Quando se tiver diminuído o mais possível as servidões inúteis, evitando as desgraças desnecessárias, continuará a haver sempre, para manter vivas as virtudes heróicas do homem, a longa série de verdadeiros males, a morte, a velhice, as doenças incuráveis, o amor não correspondido, a amizade recusada ou traída, a mediocridade de uma vida menos vasta que os nossos projectos e mais enevoada que os nossos sonhos: todas as infelicidades causadas pela divina natureza das coisas.” (111)

 

Envelhecimento e morte

 

Adriano começa “a avistar o perfil da [sua] morte” (27):

 

“Tinha feito durante toda a vida boa união com o meu corpo; tinha implicitamente contado com a sua docilidade, com a sua força. Esta estreita aliança principiava a dissolver-se; o meu corpo cessava de fazer um só com a minha vontade, com o meu espírito, com aquilo que é forçoso que eu chame, desastradamente, a minha alma; o camarada inteligente de outrora não era mais que um escravo que faz má cara à sua tarefa.” (215)

 

Pensa, então, no suicídio:

 

“Já me não sinto com o vigor de que precisaria para espetar a adaga no lugar exacto, marcado outrora a tinta vermelha sob o seio esquerdo; não teria feito mais que acrescentar ao mal presente uma repugnante mistura de ligaduras, esponjas ensanguentadas, cirurgiões discutindo ao pé do leito. Precisava de pôr na preparação do meu suicídio as mesmas precauções que um assassino para praticar o seu crime.” (241)

 

Porém, a falta de vigor leva-o a procurar nos seus próximos o aliado capaz de lhe proporcionar um fim sem acréscimo de sofrimento, o que não só não consegue porque estes se lho recusam como porque “ao pequeno grupo de amigos dedicados que [o] rodeiam, o suicídio pareceria um sinal de indiferença, talvez de ingratidão” (243). Aceita, por isso, a sua sorte com estoicismo:

 

“Confiei toda a minha vida na sabedoria do meu corpo; procurei saborear com discernimento as sensações que este amigo me proporcionava: tenho por dever apreciar também as últimas. Já não recuso esta agonia feita para mim, este fim lentamente elaborado no fundo das minhas artérias, herdado talvez de um antepassado, nascido do meu temperamento, preparado pouco a pouco por cada um dos meus actos ao longo da minha vida. A hora da impaciência passou; no ponto em que me encontro, o desespero seria de tão mau gosto como a esperança. Renunciei a precipitar a minha morte.” (243)

 

A (relativa) imortalidade

 

A recordação de Antínoo, “embalsamado no fundo da [sua] memória”, mas cuja imagem permanece em moedas da Bitínia e em amuletos que as mães penduram ao pescoço de recém-nascidos, assim como a iminência do seu fim suscitam-lhe estas reflexões sobre a relatividade do conceito de imortalidade:

 

“uma imagem, um reflexo, um fraco eco sobreviverá pelo menos durante alguns séculos. Não se faz melhor em matéria de imortalidade.” (246)

 

“Os nossos livros não desaparecerão todos; as nossas estátuas quebradas serão restauradas; outras cúpulas e outros frontões nascerão dos nossos frontões e das nossas cúpulas; alguns homens pensarão, trabalharão e sentirão como nós; ouso contar com esses continuadores colocados a intervalos irregulares ao longo dos séculos, com essa intermitente imortalidade.” (251)

 

A “alma”: cepticismo e ironia

 

A sua curiosidade leva-o a recomeçar o estudo da anatomia, “aflorado na [sua] juventude”, mas agora focado nas “regiões intermédias em que a alma e a carne se fundem, em que o sonho responde à realidade e, por vezes, a ultrapassa, onde a vida e a morte trocam os seus atributos e as suas máscaras.” (166)

Contrariamente ao que acontece com a generalidade dos crentes, para quem a existência da alma se impõe como axioma, Adriano adopta uma postura céptica, próxima do materialismo:

 

“ […] não será a alma apenas o supremo resultado do corpo, frágil manifestação da dor e do prazer de existir? É, pelo contrário, mais antiga que este corpo modelado à sua imagem, e que, melhor ou pior, lhe serve momentaneamente de instrumento? […] Todos os sábios mudam de opinião sobre estes assuntos vinte vezes por ano; em mim, o cepticismo discutia com o desejo de saber e o entusiasmo com a ironia” (166)

 

“[Os filósofos] apresentavam arrogantemente como um facto a imortalidade daquela entidade vaga quer nunca vimos funcionar na ausência do corpo antes de ter o trabalho de lhe provar a existência.” (187)

 

“Esta estreita aliança [com o meu corpo] principiava a dissolver-se; o meu corpo cessava de fazer um só com a minha vontade, com o meu espírito, com aquilo que é forçoso que eu chame, desastradamente, a minha alma” (215)

 

 

A religião: tolerância e pragmatismo

 

Adriano é absolutamente tolerante, em matéria religiosa, e recebe da autoridade cristã o protesto da sua fidelidade ao Estado:

 

“Foi por essa época que Quadrato, bispo dos cristãos, me enviou uma apologia da sua fé. Tinha tido por princípio manter para com aquela seita a mesma linha de conduta estritamente equitativa que Trajano seguira nos seus melhores dias; acabava de lembrar aos governadores das províncias que a protecção das leis se estende a todos os cidadãos, e que os difamadores dos cristãos seriam punidos se fizessem contra eles acusações sem provas. Mas toda a tolerância concedida aos fanáticos faz-lhes acreditar imediatamente na simpatia pela sua causa; custa-me a crer que Quadrato esperasse fazer de mim um cristão; de qualquer forma quis provar-me a excelência da sua doutrina e sobretudo a sua inocuidade relativamente ao Estado.” (195)

 

Acredita, com razão, na força da fé[5] e prova a realidade dos “milagres”:

 

“Julgam-me deus, como nos tempos da minha felicidade; continuam a dar-me esse título no mesmo momento em que oferecem ao céu sacrifícios pela Augusta Saúde. Já te disse por que razões esta crença tão benéfica me não parece insensata. Uma velha cega veio a pé da Panónia; tinha empreendido aquela exaustiva viagem para me pedir que tocasse com o dedo nas suas pupilas extintas; recuperou a vista sob as minhas mãos, como o seu fervor esperava; a sua fé no imperador-deus[6] explica esse milagre. (244)

 

Por outro lado, revela uma notável clarividência quanto à equivalência das religiões e às vicissitudes da História:

 

“Chábrias preocupa-se com a ideia de ver um dia o pastóforo de Mitra ou o bispo de Cristo implantar-se em Roma e substituir ali o sumo pontífice. Se por desgraça esse dia chegar, o meu sucessor ao longo da riba vaticana terá deixado de ser o chefe de um círculo de filiados ou de um bando de sectários para se tornar, por sua vez, uma das figuras universais da autoridade. Herdará os nossos palácios e os nossos arquivos; diferencár-se-á de nós menos do que poderá parecer. Aceito com calma essas vicissitudes da Roma eterna.” (251)

 

 

 

O génio político de Adriano

 

A política imperial conduzida por Roma nos vastos territórios que conquistou inspira demoradas considerações a Adriano, aqui e ali com estranhas ressonâncias na nossa própria conjuntura histórica, como seja a pretensa missão civilizadora de um povo para com os outros, vistos como bárbaros. Distinguem-no da actualidade os escrúpulos que manifesta e o ideal de paz, se bem que uma paz assente no domínio imperial:

 

“O patriotismo romano, a inabalável crença nos benefícios da nossa autoridade e a missão de Roma de governar os povos assumiam nesses profissionais da guerra formas brutais a que me não habituara ainda.” (59)

 

“Queria que a imensa majestade da paz romana se estendesse a todos, insensível e presente como a música do céu em marcha; que o mais humilde viajante pudesse vaguear através de um país, de um continente a outro, sem formalidades vexatórias, sem perigos, na certeza de encontrar em qualquer parte um mínimo de legalidade e de cultura […] Este ideal, modesto, em suma, seria muitas vezes quase atingido se os homens pusessem ao seu serviço uma parte da energia que despendem em trabalhos estúpidos ou ferozes; circunstâncias felizes permitiram-me realizá-lo parcialmente durante este último quarto de século.” (129)

 

Subscreve o ideal espartano de Terpandro, o seu “modo de vida perfeito”, que se pauta pela exclusão da miséria e da brutalidade nas relações entre os homens:

 

“Toda a miséria, toda a brutalidade deviam ser interditas como insultos ao belo corpo da humanidade” (129)

 

A crença na superioridade de Roma leva-o a relativizar a negatividade da escravatura e da servidão. Há, contudo, no seu pensamento algo de muito moderno, a saber, a multiplicidade de formas de que a servidão se pode revestir, podendo chegar a confundir-se com a liberdade[7]:

 

“Duvido de que toda a filosofia do mundo consiga suprimir a escravatura: o mais que poderá suceder é mudarem-lhe o nome. Sou capaz de imaginar formas de servidão piores que as nossas, por serem mais insidiosas: seja que consigam transformar os homens em máquinas estúpidas e satisfeitas, que se julgam livres quando estão subjugados, seja que desenvolvam neles, com exclusão do repouso e dos prazeres humanos, um gosto pelo trabalho tão arrebatado como a paixão da guerra entre as raças bárbaras. Prefiro ainda a nossa escravidão de facto a esta servidão do espírito ou da imaginação.” (113)

 

 

Finalmente, o seu génio político fá-lo impulsionar medidas de planeamento económico como sejam:

 

  • Uma reforma agrária e da mineração, com a racionalização dos procedimentos agrícolas e a entrega da terra e das minas a quem as faz produzir:

 

“As nossas terras são apenas cultivadas ao acaso: só regiões privilegiadas, o Egipto, a África, a Toscana e algumas outras souberam criar comunidades camponesas sabiamente exercitadas na cultura do trigo ou da vinha. Um dos meus cuidados era amparar esta classe, tirar dela instrutores para populações aldeãs mais primitivas ou mais rotineiras, menos hábeis.” (115)

 

“Pus termo ao escândalo das terras deixadas em alqueive por grandes proprietários pouco ciosos do bem público: todo o campo não cultivado há cinco anos passou a pertencer desde então ao cultivador que se encarrega de o fazer produzir.” (115)

 

  • Implementação das trocas comerciais:

 

“O apoio dado aos armadores duplicou as trocas com as nações estrangeiras” (116)

 

  • Combate aos intermediários:

 

“Nenhuma lei que permita reduzir o número de intermediários que abundam nas nossas cidades será demasiadamente dura: raça obscena e pançuda segredando em todas as tabernas, encostada a todos os balcões, pronta a minar toda a política que lhe não dê vantagens imediatas.” (116)

 

  • Controlo da inflação e incentivos à organização dos produtores:

 

“Uma distribuição judiciosa dos celeiros do Estado ajuda a travar a escandalosa inflação dos preços em tempo de penúria, mas eu contava sobretudo com a organização dos próprios produtores, dos vinhateiros gauleses, dos pescadores de Ponto Euxino, cuja miserável pitança é devorada pelos importadores de caviar e de peixe salgado, que engordam à custa dos seus trabalhos e dos seus perigos. Um dos meus mais belos dias foi aquele em que persuadi um grupo de marinheiros do Arquipélago a associar-se numa corporação e a tratar directamente com os mercadores das cidades. Nunca me senti mais utilmente príncipe.” (116)

 

Humildade no poder

 

Contrariamente ao que seria de esperar de um imperador-deus, senhor de um império e das suas gentes, Adriano entende o poder como um instrumento para servir:

 

“Somos funcionários do Estado, não somos Césares. Tinha razão aquela queixosa, que eu me recusei um dia a escutar até ao fim, quando gritou que se me faltava o tempo para a ouvir me faltava o tempo para reinar. As desculpas que lhe apresentei não foram simples formalidade.” (118)

 

***

 

Feita esta circum-navegação temática do romance, acrescente-se uma palavra sobre o estilo. Marguerite Yourcenar não se entrega a experimentalismos de linguagem nem de construção: narrativa linear de factos e episódios da vida da personagem, profusamente vivificada pelo seu rico pensamento, dificilmente se encontrarão nestas Memórias exemplos de rebusca formal, pelo menos no sentido da indagação de relações inesperadas entre diferentes signos na cadeia sintagmática. Não são os tropos que a autora persegue, antes a formulação exacta da verdade da sua personagem, o que, aliás, também decorre das características atinentes ao espaço e ao tempo da acção.

 

[1] “[…] o nosso Estado soube formar uma regra de sucessão imperial, a adopção é essa regra: reconheço aí a sabedoria de Roma” Memórias de Adriano, p. 222

[2] Projecto esboçado em 1924; publicação em 1951

[3] “O patriotismo romano, a inabalável crença nos benefícios da nossa autoridade e a missão de Roma de governar os povos assumiam nesses profissionais da guerra formas brutais a que eu me não habituara ainda.” Memórias de Adriano, p. 59

[4] “As duas fontes principais para o estudo da vida e da personagem de Adriano são o historiador grego Díon Cássio, que escreveu as páginas da sua História Romana consagradas ao imperador cerca de quarenta anos depois da morte deste, e o cronista latino Espartiano, um dos redactores da História Augusta […]. Estes dois autores baseavam-se em documentos que depois se perderam, entre outros as Memórias publicadas por Adriano sob o nome do seu liberto Flegon e uma colecção de cartas do imperador reunidas por este último.” Memórias de Adriano, p. 280

[5] dezassete séculos mais tarde, Marx dirá que uma ideologia que se apodera das massas se transforma em força material.

[6] A propósito do conceito de imperador-deus: o que ele faz ressaltar é que a divindade é a face simbólica do poder político.

[7] Mais uma vez, séculos mais tarde, alguém daria a tal facto o nome de alienação.

VAI FICAR TUDO BEM? NEM POR ISSO.

Quando a paPraça de S. pedro vazia.jpgndemia suscita graves questões sobre modelos de desenvolvimento, sobre relações de produção, sobre a organização político-social, são numerosas as almas bondosas que multiplicam com denodado ímpeto acções benfazejas tendentes a tranquilizar almas congéneres de seus semelhantes: DJs em varandas intentam recriar ao ar livre o ambiente festivo das discotecas de outros tempos, suscitando a participação generalizada da vizinhança; grupos de cidadãos bem-intencionados aclamam profissionais de saúde conscienciosamente votados ao desempenho das suas tarefas profissionais; cantores e profissionais da comunicação repetem-nos, dia após dia, que tudo, mas mesmo tudo, vai ficar bem, umas vezes porque somos os maiores, outras vezes porque Deus está connosco. A culminar tão ruidosa pletora de generosidade e reconhecimento, a frasezinha epidural do “Vai ficar tudo bem!” induz invariavelmente a recordação dos tempos de infância de qualquer um, quando, perante pequeno arranhão sangrento no joelho e inconsolável pranto, os progenitores do sinistrado lhe sussurravam o balsâmico “Vai ficar tudo bem!”. Descontada a crueza, exagero e impropriedade da comparação, o que isto lembra também é o suicida do arranha-céus: até agora, tudo bem, que a queda ainda vai a meio. Num registo mais sério, se bem que não mais tranquilizador, todas estas manifestações parecem relevar de uma mentalidade mítica. E se é verdade que uma ideologia que se apodera das massas se transforma em força material (Marx, claro), não é menos claro que, no caso vertente, a ideologia em causa é uma força de bloqueio. Enquanto estivermos maioritariamente infectados pelo Covid das ficções religiosas e buscarmos consolo em fetiches linguísticos, nenhum cordão sanitário nos salvará. Para cúmulo, esta infecção generalizada, longe de garantir a imunidade de grupo, o que garante é a maior alienação de qualquer grupo.


Já agora, se imagens como a da Praça de São Pedro sem vivalma se mantiverem na Páscoa do próximo ano, das duas, uma: ou o vírus nos levou a todos, ou a humanidade saiu finalmente da sua multimilenária infância. Esperemos que a primeira hipótese se não concretize, já que é de todo improvável confirmar-se a segunda.

SERÁ O CORONAVÍRUS SOCIALISTA?

Para alguns frequentadores do facebook, a pergunta será provocatória; para outros, retórica, ingénua ou desnecessária. Entre estes últimos estará o autor do belo naco de prosa (descontados os solecismos e outros atentados à gramática), susceptível de ser degustado em https://www.facebook.com/fernanda.guadalupe.712


Porém, a verdade é que o anúncio de nacionalizações a serem levadas a cabo pelos governos francês e italiano em consequência dos efeitos catastróficos deste malfadado vírus que resolveu vir perturbar a paz remansosa da nossa alegre casinha nos põe no olfacto o odor de outras nacionalizações, umas claramente atentatórias da livre iniciativa e visando a instauração de economias planificadas, rumo ao socialismo – caso das nossas, no pós-25 de Abril –, outras talvez menos ousadas, mas não menos inspiradas em concepções que contrariam a sacrossanta liberdade de iniciativa da economia de mercado. Neste último caso estarão aquelas a que o Governo Provisório francês procedeu, a seguir à Libertação da França, em 1945 e 1946, quando o Programa do Conselho nacional da Resistência prescrevia “le retour à la nation des grands moyens de production monopolisée, fruits du travail commun, des sources d’énergie, des richesses du sous-sol, des compagnies d’assurances et des grandes banques".


Acontece que, em 1945, como agora, o estado de calamidade parece consumar-se. Não temos o número de baixas nem a destruição verificados na altura e esperamos todos nunca lá chegar, mas os efeitos na economia serão devastadores e as vítimas mortais, milhares (ainda que em número muito inferior ao daqueles nossos semelhantes que todos os dias sucumbem aos vírus da fome, da doença, do desemprego e das péssimas condições de vida que as nossas sociedades lhes proporcionam sem regatear).


Ora é precisamente quando o estado é de calamidade que os arautos da iniciativa individual e ferozes detractores dos vícios do Estado cessam de clamar por menos Estado e que os seus representantes nos conselhos de administração dos seus negócios (aos quais se costuma dar o nome de Governos) assumem a eventual necessidade de adoptar medidas de cariz socialista, v.g., as nacionalizações.


Forçado se é, nestas circunstâncias, a concluir que o socialismo (entendido, aqui, como etapa na construção de uma sociedade sem classes e em que os principais meios de produção são propriedade colectiva de todos os cidadãos) apresenta a virtude de responder às necessidades dos povos não apenas em tempos de normalidade, mas ainda quando flagelos se abatem sobre todos. Agora, como em 1945.

 

A CIGARRA E A FORMIGA em versão solidária

A Cigarra e a Formiga.jpg

Tendo a Cigarra cantado
o tempo que o Verão durou,
maldisse o seu triste fado
quando a invernia chegou.
Não tinha nem um pedaço
de mosquinha ou de minhoca,
– E agora, o que é que eu faço?,
perguntou da sua toca.
Foi, então, bater à porta
da camarada Formiga,
que encontrou quase morta,
tal era a sua fadiga.
Quis pedir-lhe um grão que fosse
para não morrer de fome;
antecipa-se a voz doce
da Formiga, que diz “Tome!”
E, não contente com isto,
volta-se para a Cigarra
e sussurra-lhe: – Desisto.
Agora, o que eu quero é farra!
Pega lá nessa viola,
enche-me este coração,
e não tomes por esmola
o que é obrigação.
É que se amealhar
sempre dá um certo jeito
não vale menos cantar
– cada coisa o seu proveito.
Eu recolho para comer,
mas a vida é mais do que isso
e é preciso lazer,
para se manter o viço.
Como me falta o talento
que em ti sobeja, cigarra,
és tu que me dás alento,
tu e a tua guitarra.
Ficou assim demonstrado
que o trabalho faz sentido,
quando não exagerado
e quando é repartido.
O que a Cigarra fazia
nada mais era, afinal,
do que uma mais-valia,
mais-valia emocional.

(Versões desta fábula deve haver dezenas, se não centenas. É só mais uma. A imagem é da Wikipédia)

21/01/2020

 

VIAGENS NA MINHA GRAMÁTICA

1. Preposicionando
Ela adoptara uma preposição até com contra o que sempre fizera. Se alguém lhe pedisse para perante por, também ela anuía prontamente sem sob e muito menos sobre trás. Uma coisa lhe repugnava, contudo – voltar a ante após, à procura de desde, sobretudo se estivesse em entre.


2. O remorso do substantivo abstracto
Era uma tarde fresca de Outono. O substantivo abstracto, encafuado, desde a véspera, na sua mansarda com vista para as nuvens, sacudiu a enxaqueca e resolveu-se a descer os vários andares que o separavam da rua, questão de ver gente e espairecer. Dois passos não tinha dado, já um adjectivo biforme o assediava com flexões de género para aqui e de número para acolá. Chiça! Que ferro! Irritava-o ter de se prestar a concordâncias espúrias, mais próprias do concreto e do comum. Aliás, era sempre com relutância que se via envolvido com qualificativos, e já por mais de uma vez os repelira com interjeições apimentadas. Ali e naquele momento, porém, não quis deixar de se mostrar urbano – limitou-se a sussurrar um deliquescente ai de mim, valha-me Deus! que o adjectivo nem ouviu. E, por não ter ouvido, lhe dirigiu a palavra, anunciando-lhe a próxima chegada de certa conjunção coordenativa copulativa que tinha interesse em conhecê-lo, a ele, substantivo abstracto. Muito agradecido pela informação, disse-lhe este, desejoso de deixar aquela conversa mole por ali e, de resto, pouco interessado em articuladores, desde que uma disjuntiva o separara de uma subordinativa integrante que, essa sim, era senhora das qualidades que ele ansiava para uma frase em comum. Pouca sorte a sua, que a vira galanteada e sequestrada por um verbo transitivo directo muito senhor de si, assertivo e até imperativo, ainda que no modo indicativo. É verdade que, depois, ainda teve um caso com uma consecutiva, outro com uma concessiva, ambas por assim dizer trucidadas por algumas adversativas aliadas ao advérbio de modo, que agira mal e até pessimamente. Pior do que tudo foi a chegada do determinante, possessivo até mais não, que as abarbatou enquanto o diabo esfregava um olho. Por fim, o adjectivo lá se afastou, agastado por tão ostensiva desatenção. E foi então que o abstracto sentiu um baque no coração e se deu conta de que se comportara como um reles solecismo.

ISABEL DOS SANTOS SALGADO MADOFF?

O encarniçamento da nossa comunicação social contra Isabel dos Santos não me parece ter paralelo no tratamento de casos igualmente graves de nepotismo, de prevaricação ou de corrupção pelo mundo fora, Portugal incluído. É de crer que isso se deve ao facto de Angola ter sido nossa colónia durante séculos, o que nos arma, até talvez inconscientemente, de uma íntima e inconfessável sanha para continuarmos a tutelar aquela terra de cafres, tão longe da maioridade civilizacional. Com o barulho das luzes mediáticas perde-se contudo de vista o que será o essencial da questão: Isabel dos Santos, Ricardo Salgado ou Bernie Madoff são apenas bons alunos de um sistema que, sob a forma democrática ou sob a forma selvagem, premeia os cidadãos mais “dinâmicos” (na acepção neoliberal de Luís Montenegro, na noite eleitoral), em detrimento da esmagadora maioria dos que sofrem de hipodinamismo e escasso empreendedorismo. Se o contraste entre a fortuna de Isabel dos Santos e a miséria dos seus conterrâneos é chocante, que dizer do contraste entre os rendimentos de muitos dos gestores das nossas empresas e as nossas pensões de sobrevivência ou os nossos salários mínimos? Só lá se vislumbra uma diferença de grau. Além de que o enriquecimento dos mais dinâmicos, podendo até ser sinal de especial protecção divina, é factor relevante de estímulo à economia, o que nunca é despiciendo. Façamos então um exercício de humildade democrático-capitalista e aceitemos que o nepotismo, quando nasce, nas sociedades capitalistas, é para todos.

O SONHO DE UMA PORTA

"Hegel observa algures que todos os grandes acontecimentos e personagens históricos se repetem, por assim dizer, uma segunda vez. Esqueceu-se de acrescentar: a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa." Karl Marx, O 18 de Brumário de Luís Bonaparte

― Ide-vos, que manchais a pureza desta terra com a vossa presença espúria. Ide-vos, que comprometeis a ressurreição da genuinidade pátria com a vossa ilegitimidade. ― Assim sentenciaram os juízes da Suprema Autoridade Genuína. Assim fizeram eles. E aqui vão. No terceiro dia de viagem.

São como cachos. Pequenos cachos de homens e crianças, de mulheres e crianças. E são gavinhas que os prendem, não vão perder-se, que são pedregosos os caminhos da desesperança. «Já falta pouco», diz o David ao mais pequeno, que não pára de tossir. Dá-lhe a mão Sara, que, na outra, carrega um saco. Ou falta muito? Que pouco e muito são tudo nada, quando o destino é coisa vaga. O Marcel, à frente, marca a cadência. Leva a mais nova pela mão. Logo a seguir, vem a Amena. A mochila puxa-lhe os ombros para trás, com o que o peito se lhe avantaja.
― Deixa-me levar-te a mochila.
― Não, eu vou bem.
O cansaço não lhe tolhe a delicadeza dos traços, nem a inteligência do olhar. Ao lado, o mais velho. Com quinze anos já não precisa que a mãe lhe dê a mão. Quinze anos tinha ela, quando tudo começara. Mas é ele, agora, quem lhe dá a mão, sempre que lhe parece que a mãe não vai resistir a uma subida mais íngreme. Porque não é fácil, para quem julgara ter já esgotado o seu quinhão de agruras, voltar a galgar montes e vales, debaixo do Sol, no meio da chuva, dentro do vento. Tudo isto menos tormentoso, porém, do que naqueles tempos da outra fuga. O Egeu, um mar tão grande. («Tão grande, não. É ali. Não vês Lesbos? Já falta pouco.») Faltava tão pouco e para tantos, no Egeu como no Mediterrâneo, ali ao lado, foi quanto faltou para que nunca mais voltassem a perguntar se faltava muito.
Uma porta. Procuravam uma porta. De preferência de madeira e maciça. Pesada. Grande e pesada. De que pudessem vir a ter a chave, mais dia menos dia, e que não lhes exigisse uma senha de fábula. Só uma porta. Como qualquer outra porta. Que pudessem franquear mediante simples rodar da chave na ranhura. Isso e reencontrar o significado de estar em casa. Só isso. Porque a Europa acabara. Pelo menos aquele primeiro mundo compendiado para uso de gerações sucessivas geradoras de novos mundos. ("Para onde foi essa Europa humanista, paladina dos direitos humanos, da democracia e da liberdade?", perguntava, muitos anos antes, aquele Papa argentino que parecia querer salvar a própria Igreja de uma mal escondida conivência com os senhores de um mundo sórdido, vergado ao culto da cupidez e do dinheiro). Perdida a História, nada mais restava do que a Geografia. E, dessa, uma parte ficariam eles a conhecê-la, quase como as palmas das suas mãos. A leste, a norte e a sul, vitórias sucessivas e esmagadoras das forças ditas de Afirmação da Genuinidade Europeia, no Reino Unido, na Alemanha, na Áustria, no Benelux, na Noruega, na Suécia, na Finlândia, na Polónia, nos demais Estados do Báltico e nos do antigo Pacto de Varsóvia, na Grécia, em Itália, haviam ditado o fim da União Europeia. Apenas a oeste, algo de novo: Espanha e Portugal, antigas potências de uma cristandade que não primara pela tolerância, ousavam destoar do coro geral de perseguição a todos quantos recusavam adoptar um catecismo que prescrevia o ódio intransigente ao Outro e propugnava a guerra rácica e civilizacional: um só Homem, uma só Civilização, um só Deus ‒ presumindo-se ser o Homem branco, a Civilização, a fundada por Gregos e Romanos, e Deus, o Javé do Velho Testamento. Os dois Estados ibéricos não tinham esperado pelo desmoronamento da União. Anos antes do desmembramento, exauridos por sucessivas políticas de austeridade, os dirigentes ibéricos haviam decidido inverter o rumo histórico da separação e unir os seus destinos numa confederação que, voltando costas à restante Europa, retomara a sua tradicional vocação atlântica, estabelecendo sólidos laços de natureza económica e política com o seu antigo império colonial, desta vez no respeito pelas soberanias e pelos legítimos interesses de cada Estado. Ora Portugal até era conhecido por ser um país de brandos costumes – dizia-se – e nenhum outro país europeu gozava então de tal fama. Enfim, algum rumo haviam de tomar. Foi, por isso, o caminho da Península Ibérica que eles seguiram, quando, após a vitória da Frente da Afirmação Ocidental, em França, foram expulsos da Administração Pública, das empresas, dos jornais, dos hospitais, das escolas, e escorraçados de terra em terra, nunca mais tendo encontrado um local onde se abrigar e a que pudessem chamar seu. Ironia da História ‒ a cristianíssima Península, em tempos idos, palco das mais bárbaras perseguições religiosas e, em pleno século XX, alfobre de fascismos persistentes, surgia agora, lá longe, como Terra Prometida. Seria, pois, para lá que os seus passos os encaminhariam. Já não esperavam encontrar em França aquela porta de madeira maciça por detrás da qual estariam em casa.
― Ainda falta muito, papá?
― Vês aquela montanha? É a nossa porta.
― Porque dizes que é uma porta, papá? Não vejo porta nenhuma.
― Maneira de falar, Quando estivermos do lado de lá, vamos poder descansar. E tu vais ter amigos. Vais poder brincar com eles.

Muitas vezes se interrogara Marcel sobre um enigma que parecia contraditar todas os ensinamentos da História: como fora possível o seu país, herdeiro do Humanismo, berço das Luzes, palco de uma Revolução libertadora, próspero e acolhedor, soçobrar numa nova Idade das Trevas a que nem o trabalho de monges copistas restituiria alguma claridade? Que terríveis erros teriam sido cometidos por governantes e intelligentsia para que, decénios volvidos, milhões de cidadãos cedessem a impulsos primários, incapazes de os mediar pela ponderação de factores de índole cultural? Certo era que as doutrinas da Afirmação Ocidental haviam vingado como erupção vulcânica numa crosta já fracturada por profundos desequilíbrios sociais, e um vento de intolerância e ódio varrera também a nação daquele a quem se atribui aquela frase um pouco afectada ‒ "Não concordo com o que diz, mas bater-me-ei até à morte para que tenha o direito de o dizer". Comprovando, de resto, a que ponto pode ser suicidário bater-se alguém pela liberdade de quem é dela inimigo e confirmando quão mais sensato era Saint Just, por recusar a liberdade aos inimigos da liberdade. Frases assim e outras não menos grandíloquas, se bem que de sentido diverso, eram glosadas em tertúlias de intelectuais e artistas, em cafés, em clubes e em salas de espectáculo. Quando o mundo, já profundamente marcado pela dominação dos mercados, comandado por centros de decisão alheios ao interesse dos povos, se encaminhava para uma ditadura férrea dos poderosos – ainda assim, em grande parte isenta dos tradicionais meios de coacção, e logo, revestindo a aparência da democracia, ou não estivesse a esmagadora maioria dos cidadãos imbuída das razões desses mesmos poderosos e, por conseguinte, destituída da capacidade de os contestar – escritores e aspirantes a escritor compraziam-se em exercícios narcísicos de auto-análise e de exaltação da sua emotividade. O solipsismo arvora-se em escola literária. A poesia, que lograra transformar a palavra em matéria-prima equivalente ao acorde na música, à pincelada na pintura ou ao mármore na estatuária, sem, contudo, se desligar da realidade envolvente, sucumbe a um egotismo extremado e compraz-se na expressão de engenhosos jogos conceptuais inspirados nas composições do século barroco. A ficção romanesca, por sua vez, reservada à inspiração masculina e divorciada de qualquer preocupação social, torna-se género apologético das proezas sexuais do homem, relegando a mulher para um sistemático papel de objecto cujas qualidades e defeitos são avaliados com a mesma fria objectividade com que se aprecia o sabor e a textura de uma peça de carne à refeição. A ensaística esmera-se na especulação em torno de lugares-comuns, antes de se extinguir. Uma novilíngua eufemística e mistificatória, inspirada num léxico já em vigor nos finais do século XX e início do século XXI, vê a luz do dia, travestindo a realidade. Neologismos ou reorientações de significado de palavras já existentes neutralizam invariavelmente a carga odiosa dos signos originais e promovem a assepsia do discurso, sempre que estão em causa medidas lesivas dos interesses dos cidadãos. Tendo-se generalizado a convicção de que apenas estrangeiros, marginais e psicopatas manifestariam interesse na regulação das relações entre cidadãos numa sociedade organizada, a política é relegada para a condição de matéria latrinária. Obviamente, o exercício do poder pela classe dirigente, invariavelmente oriunda da Frente da Afirmação Ocidental, não é tido por uma prática política, mas antes como cumprimento de uma missão de natureza por assim dizer sanitária: tratava-se de higienizar a sociedade, expurgando-a dos corpos estranhos e potencialmente patogénicos. Médicos sociais ‒ assim se designavam estes novos profissionais incumbidos de prevenir enfermidades e epidemias de natureza ideológica. Contraditoriamente, a linguagem usada na comunicação social para noticiar o que se relacionava com o poder era tudo menos hipoalergénica, ainda que à esmagadora maioria do público leitor assim pudesse parecer. De um modo geral, assistira-se, no primeiro quartel do século XXI, à exacerbação do individualismo e ao desenvolvimento de um niilismo cínico e impante: crescentemente, os cidadãos são ganhos para a ideia de que detêm a verdade e de que todos os outros são ingénuos, padecem de debilidade mental e estão errados. Assim, desdenham de toda a afirmação de ideais, que consideram construções ilusórias do espírito, motivadas por interesses veniais e votadas ao insucesso. Cada cidadão é um ideólogo auto-suficiente, imbuído da sua superioridade de pensamento, que se deleita na contemplação do seu próprio raciocínio.

O pequenito tosse e David não sabe que fazer. Nem ele nem Sara, que carrega outra esperança no seu ventre, enquanto a desesperança a acomete mais acima. Que recorda Sara? O Egeu e Lesbos? Não, antes um Mar que se abre, como portas, de par em par, dando-lhes passagem, a ela e ao seu povo, numa fuga bem mais antiga.

Muitos anos haviam passado sobre os funestos acontecimentos que haviam enlutado os EUA, o Reino Unido, a Espanha, a França, a Bélgica, a Europa e o mundo. Aos atentados nas Torres Gémeas, no metro de Londres, na estação da Atocha, em Paris, em Nice, em Bruxelas e em vários países de África e da Ásia, outros haviam sucedido, vitimando agora quase exclusivamente populações originárias do Magrebe e do Médio Oriente, descendentes das multidões de refugiados que, no segundo decénio do século, haviam aportado às praias da Europa. Os meios de comunicação social ocidentais, aquando dessas primeiras grandes vagas de refugiados oriundos sobretudo da Síria, da Líbia, do Iraque e do Afeganistão, de um modo geral, haviam noticiado o infortúnio daqueles seres desterrados e votados ao acaso de uma fuga de destino incerto manifestando sentimentos de humana compreensão e generosa solidariedade. A imagem de Aylan Kurdi, o menino sírio de três anos de idade encontrado morto numa praia turca, gerara mesmo, em 2015, uma tal maré alta de emoção que chegara a calar por alguns dias os frequentadores das redes sociais que, durante meses, haviam assimilado os refugiados a terroristas islâmicos e apelado ao fecho das fronteiras. Paulatinamente, porém, jornais, rádios, televisões tinham vindo a ceder à pressão ideológica das forças da Afirmação Ocidental, acabando por se tornar máquinas de propaganda desta ideologia e por colaborar com aquelas forças no apelo à rejeição de quem quer que não partilhasse os valores do Ocidente, particularmente nos domínios da religião, da estruturação social e da organização económica. O novo mundo que se construía deveria durar mil anos, diziam. Indo mais longe, apelaram abertamente à ostracização de todos quantos manifestassem qualquer veleidade de resistência ao novo regime que se ia insinuando. Ao fazê-lo, iam de resto ao encontro do sentir mais profundo do cidadão comum, nomeadamente o da classe média, a quem as medidas propugnadas pelas elites dirigentes satisfaziam plenamente os instintos de conservação e de engrandecimento patrimonial, mas também o da maioria dos trabalhadores, conformados com um sistema que tinham por único possível, comprovada a inexistência de alternativas credíveis, ou não tivessem falhado as tentativas de construção de sociedades assentes em ideais igualitários, património ideológico do antigo movimento sindical, agora extinto, e de organizações de esquerda, agora reduzidas a militâncias solitárias e clandestinas. Marcel fora, justamente, jornalista de um desses órgãos de comunicação. Um dos mais prestigiados, mas cujas dificuldades financeiras o haviam conduzido à absorção por um grupo transnacional. Ora, desde os anos vinte do novo século, Marcel distinguira-se. Inconformado com as perversões do regime, assinara regularmente uma coluna em que verberava aquilo a que chamava "paradoxo democrático" – em síntese: a descoroçoante teimosia da maioria dos eleitores em usar a sua liberdade de voto para eleger como seus representantes aqueles que mais não fariam do que condená-los a condições de vida degradantes e, em última análise, privá-los da liberdade. A sua denúncia atingia de igual modo uma imprensa que, sob a capa de uma relativa independência e isenção, lograva a suprema perversão de alienar o juízo crítico do público através da denúncia permanente de actos de corrupção, escândalos financeiros e outras situações, ora claramente ilegais, ora de indisfarçável ilegitimidade. À pletora de informação, que, já desde finais do século XX, transmudara o cidadão em receptor pouco menos do que acrítico, incapaz de seleccionar, de hierarquizar, de valorizar e de caldear com a sua própria sensibilidade a superabundância informativa, sucedera, com efeito, o alheamento afectivo relativamente a comportamentos outrora merecedores de censura social, mas agora volvidos banais e tidos como inerentes à natureza humana – ou não aparecessem em cada noticiário, qual acepipe à hora das refeições. Os mais lúcidos verberaram o paradoxo informacional, enquanto o discurso da Afirmação Ocidental enfatizava sistematicamente a superioridade moral do homem do Ocidente, ser humano por excelência. O próprio discurso laudatório perdera, todavia, a acuidade de outros tempos e gerava a mesma apática reacção que o seu antónimo, focado na denúncia dos escândalos. De facto, a informação perdera o impacto de antanho. Espécie de música verbal, passara a ter uma função meramente encantatória. O apego de Marcel a uma imprensa defensora dos valores da liberdade e da solidariedade acabara por lhe ser fatal. Por isso, aqui estava, à procura de uma porta e do significado de estar em casa. Descrente de Voltaire. Ganho para Saint Just.
A ascensão ao poder da Frente da Afirmação Ocidental, em França, contrariamente ao que se verificara na Alemanha e na Hungria, por exemplo, não se traduzira imediatamente pela imposição de medidas de restrição das liberdades e garantias constitucionais. Pelo contrário, os legitimistas recém-empossados na chefia do Estado e no governo esmeraram-se na prossecução de uma política dita de "legitimação progressiva", que, no essencial, se pautara pela pedagogia da assimilação gradual das comunidades de origem estrangeira e pelo incentivo ao incremento do orgulho nacional nos autóctones, de mistura com a apologia de uma colaboração isenta de preconceitos ideológicos entre trabalhadores e detentores dos meios de produção. O intento de aculturação das comunidades muçulmanas acabou, contudo, por se defrontar com a sua oposição, logo que estas compreenderam que o objectivo final era nada menos do que a sua cristianização. Os motins sucederam-se e a violência atingiu extremos nunca antes verificados. Mas com efeitos contraproducentes para estas comunidades, já que a máscara da moderação caiu e o poder legitimista decretou a demolição de todas as mesquitas e o encerramento dos demais locais de culto islâmico em território nacional.
A campanha denegridora da actividade sindical, com a sistemática condenação das greves, por afectarem, invariavelmente, a normalidade da vida de uns ou de outros, levara, entretanto, à diminuição da capacidade mobilizadora e organizadora da contestação social, que fora apanágio dos sindicatos durante todo o século XX e início do século XXI, e à sua posterior criminalização e extinção. A comoção sentida pelos seguidores de Alá levou-os, ainda assim, a observar uma greve selvagem prolongada e que afectou gravemente a produção nacional. Muitas fábricas não mais recuperaram do abalo sofrido, mas a dureza da repressão e a necessidade de granjear um salário acabaram por repor a máquina produtiva nos seus carris, ainda que numerosos trabalhadores norte-africanos tenham optado por regressar aos países de origem, países estes que haviam, entretanto, enveredado pela via de um desenvolvimento sustentado, inicialmente muito subsidiário das tradicionais fontes energéticas, mas paulatinamente mais alicerçado na investigação científica, postergada que fora a religião a favor de uma racionalidade pautada pelo respeito do outro e caldeada no crisol de emoções solidárias. Cumulativamente, o horário de trabalho, que recuara progressivamente até às 30 horas para a generalidade dos trabalhadores, foi aumentado para quarenta e oito horas, a pretexto da grave estagnação seguida de recessão, nos anos vinte, o que teve como principais e expectáveis efeitos um sem-número de despedimentos colectivos, que apenas agravariam a recessão, e uma quebra brutal da natalidade. Quanto aos franceses refractários à nova ordem, e muito especialmente todos os vinculados a organizações políticas de inspiração anti-reformista, defensores de transformações radicais, a polícia dos costumes, corporação decalcada de antigas polícias políticas, reuniu facilmente provas da sua falta de patriotismo, do seu fraco merecimento e do seu comportamento associal. Tudo somado, o veredicto não deixava dúvidas: o seu lugar não era onde sempre tinham vivido, nem os bens adquiridos graças à magnanimidade da França lhes deveriam ser mantidos. A lei do ostracismo, decalcada sobre a que Clístenes criara no século de Péricles, fora, entretanto, repristinada. Àqueles que se recusaram a acatar os ditames da nova ordem instituída restavam, pois, duas soluções: o exílio ou uma resistência que necessariamente passaria pelo recurso à violência armada. Os mais intrépidos, normalmente jovens sem obrigações familiares, optaram por esta via, reeditando a epopeia do maquis e da guerrilha urbana. A reacção do poder genuinista foi, contudo, de tal prontidão e magnitude que rapidamente os centros urbanos onde a resistência se mostrou mais activa e eficaz foram severamente assolados e os novos maquisards transformados em mártires.
Não foi esta a escolha de Marcel. Optimista toda a vida, ele evoca a predição de Malraux sobre a espiritualidade do século XXI. Definitivamente, o século estava transviado. Privados de tudo, excepto do estrito indispensável para a sobrevivência por algumas semanas, aqui iam, pois. Em busca de uma porta. De uma porta que, uma vez franqueada, lhes desse o significado perdido do que é estar em casa.
Estar em casa tinha sido, para Amena, viver em Alepo, onde nascera, depois em Damasco, onde iniciara os estudos, depois em Paris, onde os concluíra e onde conhecera Marcel. Pelo meio, a chegada dos homens armados, o medo das suas armas, o medo das bandeiras negras, o medo das bombas, a fuga desenfreada no meio dos escombros, Esmirna, a travessia, Lesbos, Idomeni e a fronteira da Macedónia fechada. Idomeni e o frio e a lama. E nunca mais ter uma porta. E nunca mais estar em casa. Até que a França lhes dera guarida. E a vida se fora aos poucos reconstruindo e ganhando um sentido: a escola, Marcel, um apartamento, o trabalho, os dois filhos, mil esperanças bafejadas. E mais de vinte anos tinham passado. "Mais il est bien court, le temps des cerises", trauteia Marcel.
― Estamos quase a chegar. ― De novo, David a mitigar a impaciência do pequeno com o aceno de uma pausa. Uma pausa que, para os adultos, mais não é do que o cumprimento de um ritual vazio de conteúdo: faz-se uma pausa para recobrar forças que falecem para prosseguir viagem e atingir um destino; que sentido faz fazer uma pausa para prosseguir uma viagem sem destino ou de destino muito incerto? Não era o caso de Amena, vinte e tantos anos antes, quando a Turquia, o Egeu e até Idomeni eram etapas consistentes de um trajecto deliberado com fim à vista. Ali, tão perto, era a Europa, terra da liberdade e dos direitos humanos. Por essa altura, ainda não lhe tinham chegado ecos das palavras do Papa sobre o descaminho que a Europa levava. Apenas notícias desgarradas sobre a possibilidade do fecho das fronteiras e sobre um acordo firmado entre a União Europeia e a Turquia que parecia não ser mais do que um contrato de aluguer de campos de concentração fora do território da Europa para onde os refugiados seriam deportados, poupando alguma sensibilidade europeia à reedição dos campos de extermínio e de eventuais pogrons. Ouvira também falar de maus tratos infligidos pela polícia húngara. Havia que evitar a Hungria, cujo primeiro-ministro Orbán declarara que deixar entrar toda a gente seria o fim da Europa. Mas tudo isto não passava de rumores. Em contrapartida, lembrava-se bem daqueles tempos da primeira fuga. Quinze anos e uma cara bonita. Quinze anos e olhos verdes. A ela, no café da vila davam-lhe licença para ir à casa de banho que fazia falta no campo. Menos sorte tinham outras mulheres, obrigadas a esconder-se onde calhava. E agora, aqui ia. Em cacho. Presos todos por gavinhas, não fossem perder-se, que são pedregosos os caminhos da desesperança. Falta pouco? Falta muito? Que sentido?
Há cumes nevados à vista. Talvez não seja preciso ir até lá. E eis que atravessam outra vila, esta não muito afectada pela devastação que atingira alguns centros urbanos e, de um modo geral, as vias de comunicação e toda a paisagem das regiões cuja proximidade a Espanha transformara em santuários dos movimentos de resistência armada ao novo regime. Muitas portas fechadas, mesmo assim, de um comércio que terá já sido florescente e agora esmorece. Eles não vêm ainda andrajosos, porque partiram há só uns dias, mas olham-nos com desprezo. Sabe-se o que são estes bandos de indivíduos de aspecto cuidado, ar de quem leu e estudou, e que por isso julga dever opinar e ter direito a chamar os outros à razão. Esses outros até podem ser aqueles a quem foi confiada a chefia da Nação. Ora, se receberam tal missão e incumbência, a todos cumpre venerá-los e obedecer-lhes sem reserva. («Quem vos mandou serdes orgulhosos? Quem vos mandou pordes os nossos valores, as nossas crenças, as nossas tradições ao mesmo nível dos valores, das crenças e das tradições deles? Pagai agora o preço da vossa altivez para com os vossos, que não fostes altivos para com os seguidores de outros credos.») Não, não valia a pena, agora, nenhum deles ir pedir licença para ir à casa de banho do café da vila.
― Falta muito para chegarmos, papá?
― Estamos quase ― repete David, com o filho às costas, como mochila humana, fazendo por esquecer aquela tosse persistente que o pequeno repete vezes sem conta. E, secretamente, espera bem que sim, que estejam quase.
Mais uma noite se avizinha e em nenhum lugar estarão seguros. Corre a notícia de que membros da Juventude da Afirmação Ocidental se emboscam em locais de passagem e assediam os saltimbancos. Saltimbancos ‒ é o que lhes chamam, ainda que não façam acrobacias, mas porque vão de terra em terra. Pouco importa que seja em busca de uma porta, de uma praça, de uma feira. Não tardará a haver caçadas. Para esta juventude educada a execrar o Outro, os saltimbancos alienaram a alma. São, pois, de uma espécie diferente, ilegítima e impura, que convém sujeitar a humilhações e sevícias. Por isso, estamos quase. Quase a chegar, pouco importa onde, porque caminhar é tudo o que agora dá sentido à vida.
Marcel e Amena, David, Sara e os outros. Todos os outros. Os adultos e os pequenos. São os vilipendiados, os deserdados, os condenados, os perseguidos, os amaldiçoados do momento. A História recenseava os que, antes deles, haviam perdido a vida por se recusarem a acatar a estultícia e a desumanidade – era longo o cortejo e maior o sofrimento, uma presença constante no viver dos homens. E, apesar de não lhe serem estranhos os mecanismos que levavam uns a servir-se de outros para que o cortejo se perpetuasse, Marcel não podia esconder o azedume: a humanidade avançava, avançava, e a cada etapa fazia questão de deixar às gerações seguintes a sua herança de horror e crueldade – testemunho de uma infantilidade e de uma infâmia que a não queriam deixar.
Anoitece. Inútil procurar no povoado uma hospitalidade cujo significado se desvanecera em meia-dúzia de anos. Pelo contrário, é mais avisado prosseguirem, afastarem-se o suficiente para que os percam de vista, não vá aquela gente tomá-los por aquilo a que a Afirmação Ocidental os reduziu - espécimes sem alma de uma espécie impura. Há, porém, aquela tosse do pequeno e a febre que já não quer ceder. Não haverá na aldeia alguém em quem tenha sobrado uma réstia de humanidade? Como vão eles poder continuar com uma criança que se esvai?
Mas eis que um numeroso grupo de homens se aproxima, em marcha silenciosa. Devem ser homens, a julgar pela estatura e largura dos ombros, mas não se lhes vê a cabeça, encafuada numa cogula branca. Distinguem-se, no lusco-fusco, tochas que, decerto, não tardarão a acender, e vestem hábitos de burel, que mais parecem sambenitos. Por cima de tais vestes, cilícios sobrepostos anunciam penitências. Perto da frente, em padiola que seis homens transportam aos ombros, uma estatueta de madeira pintada representa um casal jovem com duas crianças. Todos brancos e loiros. A seus pés, um letreiro proclama "Exaltemos a raça". A exaltação soa a falso, já que, apesar da proibição da interrupção voluntária da gravidez e até do planeamento familiar, a degradação das condições de vida das populações determinara uma quebra substancial da natalidade, tendo a França regressado a valores de há um século. Mais atrás, uma carroça tosca de madeira, que um cavalo branco puxa com afinco. Parecem livros o que transporta. E são. Dezenas de livros, talvez centenas, muitos deles iguais. O cortejo imobiliza-se no largo da vila, ali perto do adro da igreja, e os homens entoam um cântico que se diria inspirado no antigo gregoriano, ao que se segue um troado de matracas. Alguns deles destacam-se dos demais e dirigem-se à carroça dos livros. Apanham alguns e de seguida os atiram para o chão, a dois passos deles. Um dos homens do séquito aproxima-se da pilha com uma vasilha cujo conteúdo derrama sobre os livros. Outro homem, a escassa distância da fogueira, ergue o rosto para o céu, mas mantém os olhos fechados, em atitude de prece, e pronuncia em voz alta umas palavras indistintas. As matracas não cessam de atroar. A noite cai, entretanto, e as tochas são acesas. Um dos homens inclina, então, sobre os livros a tocha que empunha, e uma labareda chameja. O das palavras sai do seu arrebatamento e, enquanto os livros se vão empilhando, começa a ler, em processionário que empunha com ambas as mãos: «Contra a igualização do que sempre foi e será diferente, pela afirmação da superioridade ocidental, atiro ao fogo os escritos de...». Seguem-se nomes de que Marcel e os demais nunca ouviram falar. Trata-se seguramente de escritores ou jornalistas obscuros, da região, da vila, até. Não os querem ouvir Marcel, nem Amena, nem David, nem Sara, nem todos os outros, que recordam com amargura o auto-de-fé da Sorbonne, pouco tempo antes, ele próprio réplica do Bücherverbrennung da Universidade de Berlim, de há cerca de um século, quando Goebbels ordenou que se queimassem mais de 25 mil livros. Na Sorbonne, foi a vez de Sartre, de Aragon, de Beauvoir, de Camus, de Gide, de Anatole France, de Politzer, de Martin du Gard e até, mais uma vez, de Freud, de Marx, de Trotsky, de Thomas Mann, Heinrich Mann, Walter Benjamin, Bertold Brecht, Erich Maria Remarque, Sigmund Freud, Albert Einstein, entre muitos outros que Goebbels já condenara em 1933.
Por isso, retomam a sua caminhada. Não muito longe dali, o bosque oferece-lhes um tecto, e uma nascente generosa convida-os a ficar. Não é ainda uma porta, não, mas já se sentem menos desprotegidos. Tendas montadas e corpos despojados do pó dos caminhos, sacam das mochilas a ração de combate, acendem o lume e aquecem a sopa. Os pequenos correm em volta da fogueira. Correndo, brincam, aquecem-se e esquecem. Folgam com isso os maiores, a quem a alegria contida dos pequenos retira peso dos ombros. De tal maneira que até Marcel se esquece do desfile de horrores que ainda há pouco lhe ocupava o pensamento. Chama pelos outros e fazem desenhos na rocha: crianças que correm em volta da fogueira, de braços erguidos, cantando uma felicidade que ninguém mais entende. Pouco a pouco, a barulhenta e agitada alegria passa a rupestre: já não é vida, mas vai perdurar naqueles traços incipientes e talvez venha a ser inspiração para outras vidas.
― Já chega. Vamos comer, que amanhã saímos com o nascer do dia.
A refeição é frugal, mas o caldo quente não aquece só o corpo. E são horas do descanso.
― Conta-me uma história, papá ―. Marcel esquece o cansaço que o consome.
― Era uma vez uma menina que nasceu em Alepo...
― Essa é a história da mamã. Já ma contaste tantas vezes...
― Tens razão, Françoise. Então, vou contar-te uma que não conheces. É a história do menino que apagava as fronteiras.
― O que são fronteiras, papá?
― Fronteiras são muros que separam uns países dos outros e que não deixam as pessoas juntar-se livremente. Quando não há muros, há guardas que não deixam ninguém passar.
― Porque é que não deixam passar?
― Espera, Françoise. Já vais ver... Era uma vez um menino que vivia num país longínquo, com fronteiras bem guardadas. Chamavam a esse país a Felicilândia, porque, diziam, era o país mais bonito e perfeito da Terra e onde todos eram felizes. Tão felizes que não imaginavam sequer poder haver pessoas infelizes ou menos felizes do que eles. E a fronteira servia mesmo para evitar que pessoas dos países vizinhos viessem perturbar a felicidade dos Felicilandeses, com as suas dificuldades e queixas. Ora, o nosso menino vivia perto duma dessas fronteiras. Certo dia, andando a brincar lá perto, viu que os guardas se tinham afastado o suficiente para que ele pudesse aproximar-se e ver o que se passava do lado de lá. E foi o que fez. Para seu espanto, viu então que, no país ao lado, também havia prados e jardins, mas o verde dos prados parecia crestado pelo sol e aos jardins faltava o colorido que na Felicilândia fazia deles paletas de pintor; também havia fontes e lagos, só que a água que brotava das fontes e que nos lagos reflectia o céu não tinha a frescura cristalina da que ele conhecia da Felicilândia; e havia aves e flores, rebanhos chocalheiros e gente como ele, embora tudo parecesse mais soturno. Aproximou-se mais. Viu meninos que brincavam, e percebeu que estes meninos viviam em casas que também eram diferentes das que ele sempre conhecera, como se o Sol as desprezasse, e que tinham roupas pouco cuidadas, e que lhes faltava, à mesa, o pão e o leite que ele, às vezes, desdenhava.
Pela primeira vez na sua vida, o menino sentiu-se triste, a tal ponto que descobriu a palavra "infelicidade": se a felicidade era estar alegre e em paz com a vida, a vida daqueles meninos tristes e pobres só podia ser a infelicidade. E o menino achou que não estava certo haver meninos felizes, como ele, e outros infelizes. E sentiu-se infeliz também, apesar de viver num país onde os prados eram verdes, os jardins coloridos, a água das fontes e dos lagos fresca e cintilante, enfim, onde tudo era harmonia e as pessoas eram felizes. Por muito que quisesse, não conseguia esquecer-se do que tinha visto e voltar a sentir-se feliz. Até porque não percebia como era possível um menino ser feliz, quando outros meninos tão perto de si, apesar daquela fronteira, eram infelizes.
Perdido nos seus pensamentos, o menino nem deu pela passagem do tempo, e era muito o que já tinha passado. Havia que regressar a casa, e agora é que as coisas se complicavam, porque os guardas fronteiriços decerto iam querer saber o que ele andava a fazer por ali. Valeu-lhe a inteligência e a sorte: escondeu-se algum tempo numa moita e, de cada vez que os guardas davam meia-volta e marchavam para o lado oposto ao seu, ele corria para a moita mais próxima, até se encontrar longe da vista deles.
Em casa, os pais estavam um pouco inquietos com a demora do menino, mas sabiam que ele gostava tanto de brincar que até se esquecia de comer. Eram muito compreensivos, os pais do menino. Gostavam muito dele, como acontecia com todos os pais da Felicilândia, e queriam que ele fosse sempre feliz, por isso limitaram-se a dizer-lhe que devia ter cuidado, quando brincava, e prometeram dar-lhe um relógio, para ele se lembrar das horas. Jantaram e o menino foi-se deitar e sonhou. Sonhou que tinha umas asas que lhe permitiam voar sobre as fronteiras da Felicilândia e sobrevoar os países à volta. Agora, lá do alto, via as fronteiras de maneira mais nítida: eram umas linhas desenhadas a lápis, que tão depressa seguiam a direito como voltavam para a direita e para a esquerda. Ora o menino não tinha só asas; tinha também uma borracha enorme que até lhe dificultava o voo. Uma borracha?! Sem hesitar um segundo, o menino desatou a apagar todas aquelas linhas sinuosas desenhadas a lápis que não deixavam que os meninos se juntassem e brincassem todos juntos. Foi uma noite feliz.
― Olha, Amena, já dorme. Ficou sem conhecer o fim da história.
― Porquê? Não acaba assim?
― Oh! Achas que um menino sozinho podia acabar com as fronteiras?
― Nas histórias, tudo é possível. Mas conta-me lá o resto, que também fiquei com curiosidade.
― Não estás cansada?
― Prometo não adormecer.
― Então, é assim: No dia seguinte, depois do pequeno-almoço com os pais, o menino foi de novo brincar para os lados onde estivera na véspera. Sentia-se um pouco estranho, como se não tivesse acordado completamente do sonho bonito daquela noite, e esperava já não ver guardas e poder ir ter livremente com os meninos do outro lado do que tinha sido a fronteira. Mas não. Lá estavam os guardas, e dessa vez nem sequer se afastaram para que ele pudesse repetir a proeza do dia anterior. O menino percebeu que as fronteiras não desaparecem só porque se teve um sonho. Porém, era um menino pertinaz: tinha de encontrar uma maneira de acabar com aquelas divisões.
Muito tempo passou. O menino foi crescendo e foi conversando com muitos outros meninos – meninos e meninas, evidentemente – a quem contou o seu sonho. E todos eles acharam que era um sonho bonito. Tão bonito que todos eles passaram também a sonhar que tinham asas e que essas asas lhes permitiam voar sobre as fronteiras. E que tinham uma borracha enorme, com a qual não paravam de apagar linhas desenhadas a lápis, linhas que não deixavam os meninos de todos os países encontrar-se e brincar juntos. E que tinham também lápis e pincéis, com os quais podiam desenhar sorrisos nos lábios dos meninos tristes e dar cores garridas aos jardins e às casas do país ao lado. E todos aqueles meninos e meninas cresceram. Todos eles se fizeram homens e mulheres. Porém, não deixaram de ter sonhos de meninos e meninas, ao crescerem. Continuaram a sonhar com um mundo sem separações, onde todos pudessem viver como irmãos e partilhar a mesma felicidade. Mas se eram muitos e sonhavam todos com esse mundo sem divisões, que esperavam eles para usar a borracha? Foi assim que decidiram juntar-se e avançar para as fronteiras da Felicilândia. Formavam um grupo tão grande e tão compacto que, ao chegarem, os guardas depressa perceberam que de nada lhes serviria usar as armas que tinham. Por isso, resolveram, e bem, juntar-se à multidão. De qualquer maneira, eles também já não sabiam por que razão haviam de impedir as pessoas de estar umas com as outras.
E assim foi possível, graças a um sonho partilhado por muitos meninos e meninas que se fizeram homens e mulheres, acabar com as fronteiras que separam e fazer de muitos países diferentes e inimigos um só país, onde todos foram iguais e felizes.
― Ao menos, nos teus contos, nunca há lobos maus, nem madrastas ciumentas, nem bruxas malfazejas.
― Mas tu queres que ela adormeça ou que tenha pesadelos?!
― Quero sair deste pesadelo que nos tira o sono a todos. O teu Ícaro humanitário é que nos podia tirar deste labirinto.
― Talvez a minha história não seja assim tão fantasiosa. Quantas vezes a humanidade não se tem já tirado de embaraço com asas de cera.
― É, mas eu é que julgava ter-me livrado do Minotauro para sempre.
Marcel anui. Era, de facto, como se sempre um rei Minos espiasse a vida dos homens para lhes impor provação atrás de provação. E nenhuma Ariadne se vislumbrava com um novelo de fio.
― Eu nunca sei se um conto bonito nos ajuda a suportar a realidade ou se a torna ainda mais feia ― conclui Amena.
Françoise dorme. Talvez sonhe com uma borracha mágica. As outras crianças dormem, alguns adultos também. Embala-os o cansaço da caminhada. Os pés doridos guardam-lhes a lembrança do piso pedregoso. Sonharão com uma porta?
― Em que pensas, Amena?
Amena não pensa, apenas permite que a ideia de um deus piedoso proceda como os meninos do conto e lhe apague uma angústia tão pedregosa quanto os caminhos da fuga. E até Marcel se condói. Não, não era altura para lhe censurar a afeição à fé. Longe iam os tempos em que a arreliava com a afirmação de um ateísmo arreigado e combativo: a religião, dizia, era analgésica, relaxante, indutora do sono, mas sobretudo paliativa, sendo certo que, se ajudava a viver, também contribuía, e de que maneira, para a reprodução das injustiças, instilando o perdão de ofensas indesculpáveis e pregando a resignação. E havia que a tomar com moderação, não fosse a habituação diminuir a eficácia da droga. Mas, agora, estava o sarcasmo fora de questão. Se a crença a ajudava a suportar aquele tormento, tanto melhor. Não era esse refrigério, afinal, o que se ia buscar à farmácia? A ele, eram outras as convicções que o amparavam. Acreditava que um sonho partilhado por muitos podia ser uma força imparável. No dia seguinte, iam chegar à fronteira que as borrachas ainda não tinham apagado. Que pareciam até desenhadas não a lápis, mas a tinta, e que iriam perdurar por muito tempo mais.
Já todos dormem. Até a fadiga os embala, e mesmo a tosse do filho de David parece cansada da longa jornada. Porém, também no sono, insidiosa, brota a dor da caminhada. Por isso, aqui e além, um despertar amargurado busca quietação na serenidade nocturna. Até que um grito a dilacera e uma voz a sentença reedita:
― Ide-vos, que manchais a pureza desta terra com a vossa presença espúria. Ide-vos, que comprometeis a ressurreição da genuinidade pátria com a vossa ilegitimidade.
Já ninguém dorme, nem sonha. A Juventude quer divertimento. Apenas isso, para já, que a barbárie ainda hesita. Mais logo, os jovens genuinistas deixarão os saltimbancos naquela paz precária que a noite ainda assegura e que lhes permitirá retomar o sono. E o sonho de uma porta.

Estoi, Julho de 2016

(Publicado pela Lua de Marfim, em edição colectiva intitulada Fronteiras Humanas, de Setembro de 2016)

 

SEXTO SENTIDO

Entre o embate e o tilintar dos vidros ao caírem no pavimento decorrera um segundo, talvez, e a surpresa refreou-lhe o palavrão habitualmente desencadeado pelo erro, pela imprudência ou, simplesmente, pelo que não lhe corria de feição. Na verdade, era mais palavrita do que palavrão. Ainda assim, uma exclamação imprópria para salão e única que lhe ocorria quando se tratava de exprimir alguma irritação.

Já alguns transeuntes se demoravam, embasbacados, a ponderar a extensão dos estragos e o comportamento das partes envolvidas, F. cortou a ignição, abriu a porta do carro e encontrou-se frente a frente com a condutora do veículo atingido. As apresentações estavam feitas: condutor A, o percutor; condutora B, a percutida. Não ia haver discussão nem regateio pela repartição de responsabilidades. Era óbvio que a lacuna no elenco lhe desviara a atenção e não se apercebera de que os carros que o precediam haviam estacado. Minha senhora, as minhas desculpas. Como é evidente, assumo toda a responsabilidade. E pronto. Ela, muito simpática. Dir-se-ia prestes a suplicar perdão por ter sido abalroada. Como se a eventual falta do embate determinasse incumprimento de agenda. O que o obrigava a multiplicar os pedidos de desculpa. Muito calmo, ele, desde a manhã desse dia. Sentia também que tudo o que o rodeava tinha um aspecto ligeiramente diferente do habitual. Pensando melhor, parecia-lhe que via as coisas de modo diferente, não por elas se terem modificado, mas sim porque os seus olhos já não eram os mesmos. O mundo não tinha mudado, só os instrumentos de observação do mundo. Em todo o caso, naquela ocorrência, o que os seus olhos tinham visto eram vidros partidos e chapa amolgada no carro que o precedia, logo, não havia que duvidar das aparências – era ele o culpado. O que o tranquilizava. Nada mais indesejável do que envolver-se numa contenda dialéctica tendente a minimizar a sua parte de responsabilidade, quando é sabido que o veículo que segue atrás deve manter uma distância de segurança em relação ao que o precede. Resolveram encostar, de forma a não dificultar o trânsito. Era preciso preencher a declaração amigável. Ou talvez não. Ia-se ponderar. Ali, mesmo ao pé, aquele barzinho acolhedor. Ele tira um desdobrável do porta-luvas e introdu-lo num portefólio que retira do banco traseiro. Entram e sentam-se.

Ao longo da parede do bar, corre um banco estofado, de napa cor de vinho. Mesinhas baixas pontuam o espaço próximo do banco e, à volta de cada mesa, dois ou três pufes da mesma cor. A empregada tem feições perfeitíssimas e uma maquilhagem que a sua juventude dispensaria.
— Há sempre tão pouca gente a esta hora?
— Os clientes habituais começam a chegar mais tarde — responde.
A condutora abalroada: — É a primeira vez que aqui vem?
E a empregada: — Quer com muito gelo?
— Não, só uma pedra. É. De facto, nunca tinha surgido a oportunidade.
Ele aproxima-se dela. Abre o portefólio. Há, lá dentro, um opúsculo, folhas manuscritas e o desdobrável da declaração amigável. Estão tão perto e tão sós que se justificaria um pequeno cumprimento feito de um Boa tarde apenas ciciado e de sorrisos discretos. De resto, a circunstância do choque não lhes permitira sequer um cumprimento. O seu pedido de desculpas tinha ditado uma sequência dialogada marcada pelo pragmatismo. Mas o sorriso. O sorriso abre-se-lhe no rosto de grande regularidade e irradia felicidade, como é costume dizer-se. É um sorriso como uma anuência hesitante ou convite receoso. Mais ou menos isto: Gostava de te tocar, gostava que me tocasses; dou muita importância ao toque, mas é cedo, respeitemos as conveniências, saibamos dar tempo ao tempo. Ele sente a inconveniência do que vai congeminando: atribuir à sua vítima, por muito simpática que seja, o desejo de que ele a toque, quando lhe tinha desastradamente tocado minutos antes, é de manifesto mau gosto. Porém, os olhos dela, brilhantes, parecem compartilhar da ousada prudência do sorriso, e o decote, generoso, deixa adivinhar-lhe as rolas em que Cesário espeta o ramalhete rubro das papoulas. O decote generoso.

Quase se tinha esquecido da falha de memória matinal e agora inquieta-se novamente. O facto é que, para além de nomes, esquecera o que fizera na véspera. Era a primeira vez que sentia a memória atraiçoá-lo de maneira tão consistente. Uma ou outra vez, esquecer-se de um pormenor, de uma tarefa, de um compromisso, até, era coisa com que não se ralava, mas aquilo parecia-lhe sério. Pensou, então, se não seria do cansaço. Noites seguidas, poucas horas dormidas de um sono mau. Sonhara? Não se lembrava, mas um travo acre embebia-lhe uma recordação vaga de coisas más.

A condutora percutida, ali, perto dele, era um sonho bom. Voltou a relanceá-la, quando ela própria o fazia, e os olhares de ambos cruzaram-se. Sorrisos reeditados. Mulher interessante, pensou, o que o fez lembrar-se do Querubim, no Casamento de Fígaro, que encenara uns anos antes. Quem lhe dera a inventiva de Beaumarchais, a sua verve. Teria ele na vida a eloquência que se via no teatro? – "Tu sais trop bien, méchante, que je n'ose pas oser".

― "Cartas ridículas... suspiros líricos..." ?!
— É. Vou encenar umas cartas do Pessoa* .
Sorriso de um, sorriso do outro.
— Ah, é encenador? Que coincidência, eu sou actriz.
― Não é possível; eu havia de a conhecer.
― Sabe, na realidade, sou uma aspirante a actriz. A nossa troupe vem do tempo da faculdade, mas anda à deriva.
Aquelas troupes vindas do tempo da faculdade. Quantos sonhos, quantas ilusões, quanta ingenuidade. Porém, ouve-a dissertar sobre Stanislavski, Lee Strasberg, o Actors Studio.
São cinco da tarde, como no poema de Lorca. Movimento intenso na rua. Esforça-se por se lembrar do que poderia ter acontecido para estar ali sentado, àquela hora, junto de uma desconhecida que disserta sobre teatro. De facto, não vê razão plausível para isso e até se sente constrangido. Mas ela não pára: depois de Artaud e Brecht, detém-se em João Mota e enfatiza o aplomb de Luís Vicente. Mulher interessante. Lembrava-se agora de que lhe faltava uma Ofélia convincente.

(Conto publicado, em edição colectiva, pela Lua de Marfim, em Outubro de 2016)

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* Texto de Paulo Moreira levado à cena pela ACTA.

ATITUDES

Não era a primeira vez que acontecia. Eu chegava, aproximava-me, ficava a curtíssima distância dela, talvez um metro ou até menos, e nada. Como se não existisse, como se fosse invisível. Absoluta indiferença. Alheamento total. Nem, ao menos, um breve esboço de displicência.


Não esconderei a humilhação que experimentava. Não que eu entenda ser merecedor de particular deferência ou de tratamento diferente do que é dado a qualquer vulgar cidadão sem valimento ou atributo que o distinga dos demais. Não, não é isso. Quem me conhece sabe que não me tenho na conta de alguém cujo mérito justifique a veneração dos concidadãos. Antes pelo contrário, tenho até uma lúcida e pungente percepção das minhas limitações e fraquezas. Mas, que diabo, por muito humilde que se seja, o facto é que atitudes de ostensivo desprezo mordem tanto quanto dentuça de mastim.


Por isso mesmo, não me ficava. Perante aquela insensibilidade esfíngica, eu gesticulava, punha-me na ponta dos pés, afastava-me, como que na esperança de que a desistência provocasse nela alguma pena desencadeadora de reconhecimento, e, depois, reaproximava-me, quase com acinte, enchendo o peito de ar, numa bravata afadistada. Mas quê. Total e absoluto alheamento. Nem o mais reles sinal de ter, enfim, dado por mim. Como se eu fosse espectro, sem massa, sem consistência, incolor e inodoro, existência virtual.


Desta vez, cansado daquele comportamento reiterado, resolvi, finalmente, lançar mão de expediente radical: pedir o livro de reclamações. Um funcionário ia a entrar. Dirigi-me a ele. Com certeza, é só esperar um minutinho. Entretanto, garantimos-lhe que não voltará a acontecer, pois vamos imediatamente tomar as medidas que se impõem. Mas que coisa estranha; ela sempre teve um comportamento absolutamente normal, sempre desempenhou cabalmente as funções que lhe foram cometidas. Aliás, foi condição expressamente consignada para que a aceitássemos ao nosso serviço e patati e patatá. A conversa habitual, sempre que se pede o livro de reclamações. Insisti. Insisti, mas confesso que começava a sentir a humilhação amolecer. Já não era bem mordidela de canídeo, seria mais uma moinha ligeira algures entre o cerebelo e o hipotálamo. Além do mais, também me custava causar embaraço a gente que não queria mais do que ganhar o seu pão quotidiano. Caminhei, de novo, para ela. Tomara a firme resolução de lhe conceder uma derradeira oportunidade, ciente de que, afinal, somos sempre nós mais a nossa circunstância, e inclinado ao perdão. Como reagiria ela, agora que eu me dirigira ao funcionário? Pois bem, reconheceu-me. Recebeu-me de braços abertos. E, quando o funcionário me deu o livro de reclamações, redigi um elogio enternecido daquela porta automática.

ANTIGUIDADES

Conhecemo-nos numa loja de antiguidades. Estávamos ambos num expositor. Eu achei-a logo bonita; ela achou-me não sei que graça.
– Vamos já embora daqui, antes que algum coleccionador nos separe, disse ela.
– ‘bora lá, disse eu.
E foi assim que ambos saímos do estojo, defraudando expectativas do mercado, porém, em benefício de um comércio tão mais justo e gratificante e com uma mais-valia que repartimos irmãmente.