A CULPA É DO MARCELO?
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Estive a ouvir, enquanto me entregava à apaixonante tarefa de cozinhar para a minha querida cadela – de nome Maria, em honra da Virgem Santíssima – e para mim, de nome Fernando – já não me lembro por que raio de razão – o «Geometria Variável», com a Maria Flor Pedroso, moderadora, o Carlos Coelho, do PSD, e a Marisa Matias, do BE, sucessora de Nuno Severiano Teixeira, do PS. Enternecedor.
A simpática Marisa Matias e o Carlos Coelho que me desculpem estes artigos definidos antepostos aos seus nomes, mas a sua convivialidade tão cortês leva-me a tratá-los com a deferência devida àqueles que estimamos, ainda que, por vezes, também, com a acrimónia justificável pelo desconforto que nos causa o que vemos, ouvimos e lemos (e não podemos ignorar).
O parentético parágrafo anterior justifica-se apenas pelo que segue e que contraria, de modo algo grosseiro, o adjectivo com que termino o primeiro.
Foi, com efeito (locução muito usada no ping-pong, se bem me recordo), esclarecedor constatar (do fr. “constater”) que os dois presumíveis contendores emitiam sistematicamente opiniões convergentes sobre as mais diversas matérias, desde os desempenhos dos aspirantes à Suprema Magistratura até à guerra na Ucrânia e à NATO. De tal modo e com tal coerência discursiva que qualquer observador via auditiva (recurso sinestésico, para quem se lembra dos tropos) teria alguma dificuldade em distinguir a filiação e militância partidária de qualquer deles.
Ora bem. Onde o escriba quer chegar é ao ambicioso desiderato, que vem já a seguir e que obedece ao desígnio de contribuir para a aproximação daqueles que, formalmente separados (de corpos, alguns bens e muitos projectos), têm tanto a uni-los que bem fariam em juntar os trapinhos e criar uma Associação, Bloco ou Frente que lhes potenciasse a ascensão eleitoral até patamares inimagináveis. Descodificando: em vez de um Partido adjectivado de Social-Democrata e de um Bloco, preposicionado de Esquerda, por que não uma Frente de Esquerda Social-Democrata Atlantista e Bruxelense (FESDAB)?
Estou certo de que a troika líder da EU – Úrsula, Kallas e Consentes – rejubilariam (eventualmente, até regurgitarem, como sucedeu à nossa repórter no Vaticano, há uns anos). Já não estou tão certo de que o facto de as esquerdas europeias, com a honrosa excepção dos malditos comunistas, se fundirem tão homogeneamente com as direitas – uns e outros reclamando-se convictamente de uma social-democracia que tem por objectivo final assegurar a sobrevivência do capitalismo – constitua um factor de progresso social e de eliminação das desigualdades sociais.
Também é verdade que não acredito no Pai Natal, apesar de ainda há dias ter visto um no Fórum Algarve.
E siga a dança.
(O Boeing 747SP é da Wikipédia)
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A primeira associação que ocorreu a este leitor, ao folhear o livro de Pedro Tadeu e ao ver que todos os capítulos têm uma epígrafe do Manifesto Comunista foi a do livro Porque é que Marx Tinha Razão, de Terry Eagleton, onde todos os capítulos têm uma espécie de epígrafe (do próprio autor) que consiste na reprodução de uma crítica ou acusação frequentemente feita a Marx. Neste último caso, o autor refuta essas acusações; no primeiro, Pedro Tadeu expõe o seu pensamento sobre questões da actualidade, à luz do marxismo e a partir de passos do Manifesto relacionados com essas questões. É possível que aconteça com muita frequência os autores recorrerem a epígrafes convenientes já depois de terem o capítulo, ou os capítulos, redigidos. Pode muito bem ter acontecido isso com ambos estes marxistas, ou apenas com um deles, ou nenhum, e isto não tem relevância na apreciação dos respectivos livros. Trata-se de um aspecto formal, de estruturação do livro, mas com pertinência didáctica. De facto, a epígrafe nunca é inocente; mantém com o texto que se lhe segue uma relação de significação e de implicação mútua que deve ser apreciada. Na entrevista «A democracia ocidental está ferida de morte» de Ana Marques Gastão a José Saramago, no Diário de Notícias de 25 de Março de 2004, entrevista subsequente à publicação do Ensaio sobre a Cegueira[1], a dada altura, a entrevistadora formula a seguinte pergunta ao escritor:
Há um fio entre as epígrafes de História do Cerco de Lisboa («Enquanto não alcançares a verdade, não conseguirás corrigi-la. Porém se a não corrigires, não a alcançarás. Entretanto, não te resignes.»), de Ensaio sobre a Cegueira, na qual se diz «Se podes olhar, vê» e de Ensaio sobre a Lucidez: «Uivemos, disse o cão.» Acha que devemos uivar?
A esta pergunta, Saramago responde:
Digo, às vezes, que o mais importante nas minhas obras são as epígrafes. Peço ao leitor que não se limite a ficar por aí; que leia e pense […]
A entrevista é riquíssima. Vinte e um anos depois, é ainda mais verdadeira. Vale a pena revisitá-la, pelo que anexo digitalização das suas quatro páginas. Passados estas anos, as coisas talvez não se tenham encaminhado no melhor dos sentidos, e Pedro Tadeu pede-nos que leiamos, que pensemos e já agora… que uivemos. Porque urge corrigir a verdade, sem nos resignarmos, e não fingirmos que não vemos, quando podemos olhar.
Outra observação que não tem particular relevância prende-se com o título Porque sou Comunista. Ele suscita imediatamente uma dúvida, pelo menos a quem se preocupa exageradamente com questões de relativa importância, talvez por efeito de deformação profissional: este “Porque” é interrogativo, explicativo ou causal? A resposta está no início de cada capítulo, onde um antetítulo pergunta “Porque sou comunista?” e, logo a seguir, se responde com o título: “Porque os comunistas querem muito mais do que liberdade”, “Porque os comunistas são combatidos, mas não se calam”, etc.
Para esgotar o rol de minudências que não interessam a ninguém, o escriba arvorado em crítico observa que Pedro Tadeu usa o símbolo da foice e do martelo desde a capa até à última página do livro, perto de quarenta vezes. Para um “jornalista burguês” que se “confessa” (as palavras são dele, logo na capa), é obra. Melhor dizendo: é desafio ao sistema que se pretende democrático e respeitador da liberdade de expressão, mas que tantas e tantas vezes claudica deliberadamente na execução prática do que alardeia; é quase provocação; é, sobretudo, afirmação, reiterada vezes sem conta, de adesão a um ideal que a muitos valeu prisão, sofrimento e morte.
Em abono da verdade, Pedro Tadeu esclarece tudo aquilo que atrás se enuncia em termos mais ou menos dubitativos, num primeiro capítulo de natureza prefacial, intitulado “Porque é que eu, no século XXI, sou comunista?” Fica-se a saber quando, como e porquê Pedro Tadeu aderiu ao PCP, como surgiu a ideia de escrever este livro, que conteúdos o integram, por que razão, no subtítulo, se intitula “jornalista burguês”, etc.
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Para quem se ocupa frequentemente com a problemática do mito e da religião e que até dirigiu, em Fevereiro de 2022, uma mensagem privada a Pedro Tadeu, na sequência de um «Radicais Livres» em que Jaime Nogueira Pinto afirmava a incompatibilidade da crença religiosa com a afirmação de ideais marxistas, enquanto Pedro Tadeu redarguia que o comunista, enquanto homem livre, podia ter as crenças que quisesse, foi surpreendente ler o primeiro capítulo do livro «Porque sou comunista? Porque os comunistas ultrapassam a religião.»
A religião é um assunto que me embaraça. […] Mas o meu embaraço é provocado por outra razão: pelas muitas pessoas que amo ou respeito e, genuinamente, têm fé num Deus, algumas delas comunistas. Há uma boa parte da personalidade delas que não entendo, que não atinjo, e isso cria um fosso e uma distância inultrapassáveis entre nós. É uma angústia. (p. 13)
O meu camarada Pedro Tadeu respondeu-me gentilmente, com referências aos clássicos e à atitude de Lénine, durante o processo que culminou na Revolução de Outubro. É um facto que nunca os comunistas da época, como os de hoje, fizeram do ateísmo uma condição para a adesão ao Partido ou a participação nas lutas sociais. Consideram, sim, a crença como um assunto privado e defendem a separação das esferas da Igreja e do Estado. O contrário seria absurdo. Em O Socialismo e a Religião, Lénine escreve:
A unidade desta luta realmente revolucionária da classe oprimida pela criação do paraíso na terra é mais importante para nós do que a unidade de opiniões dos proletários sobre o paraíso no céu.
Contudo, no tal «Radicais Livres» de há três anos e meio, quem tinha razão, do ponto de vista meramente filosófico, era mesmo Jaime Nogueira Pinto: a crença religiosa é intrinsecamente idealista, logo, contraditória com os princípios do materialismo dialéctico, filosofia que enforma o marxismo e que assenta, obviamente, na ideia de que a matéria é o princípio primeiro, e não um qualquer espírito – imaterial, por definição. Pedro Tadeu expende, depois, uma série de considerações sobre a crença religiosa, o presente e o futuro da humanidade que concitam, suponho, a inteira adesão de qualquer comunista. Por vezes, recorre à ironia, como quando imagina o que poderá acontecer na hora da morte, sabendo-se quão propícia é ao abandono do ateísmo por parte de alguns ateus[2]: «Talvez, quando chegar a minha vez, acabe por fazer o mesmo. Acho que não, mas… e se Ele existe? Ficará muito zangado comigo? Afinal, eu até sou bom rapaz. E uma eternidade no inferno é uma carrada de tempo… Que embaraço!» Não é de crer que Pedro Tadeu dê o dito por não dito. Se o fizesse, eu não o deixaria sossegar, quando nos encontrássemos para os lados do Sexto Círculo, onde Dante situa os heréticos…
Onde PT faz uma síntese muito feliz do assunto é quando escreve:
Deveríamos encontrar o divino em nós, na capacidade colectiva de construirmos um presente digno para as nossas vidas e um futuro esperançoso para a perpetuação da Humanidade, guiados pela justiça, pela bondade, pela busca incessante da felicidade. Pelo bem de todos nós, não para o bem de Deus. Para o bem da comunidade, como acham os comunistas. (p. 15)
E, aqui, não posso deixar de citar Giorgio Agamben, que me foi dado a conhecer por Albino Matos[3], em tradução de Amanhã, a Idade Média:
Há quase dois séculos - quando Hegel e Nietzsche lhe declararam a morte - o Ocidente ficou sem o seu deus. Mas aquilo que perdemos foi só um deus a que pudéssemos dar uma identidade e um nome.
A morte de Deus, em verdade, tem a ver com a perda dos nomes divinos (‘faltam os nomes divinos’, lamentava Hölderlin). Para além dos nomes, sobra o mais importante, o divino. Enquanto formos capazes de perceber como divinos uma flor, um rosto, um pássaro, um gesto ou uma fibra de erva, poderemos prescindir de um Deus que possamos nomear.
Basta-nos o divino, importando mais o adjectivo que o substantivo. Não é bem ‘um Deus’, mas antes: ‘só o divino nos pode salvar’.
Bonita, esta ideia de Agamben: não é nenhum deus, mas sim o divino (enquanto adjectivo: aquilo que é divino) que nos pode salvar. É o divino que os comunistas perseguem, na sua luta pela concretização da utopia da sociedade sem classes, porque só ela nos pode salvar.
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No capítulo «Porque os comunistas querem muito mais do que liberdade», o A. questiona a autenticidade (ou a relativa vacuidade) do conceito de liberdade na sociedade capitalista. É a velha dicotomia do formal e do substantivo: a democracia liberal brande sistematicamente as suas liberdades – de expressão do pensamento, de reunião, de associação, de circulação, de comércio, de tudo e mais alguma coisa. É uma gritaria enorme que tem como objectivo ensurdecer os cidadãos e obliterar a real falta de liberdade substantiva, porque, de facto, as liberdades reais estão nas mãos da classe possidente e esta classe detém os meios necessários e suficientes para induzir na maioria o pensamento único que condiciona o voto e conduz à reprodução ininterrupta do sistema. Isto, desde a educação recebida na família aos conteúdos ministrados no ensino e à “informação” veiculada pelos media. A burguesia tudo controla, e apresenta-se como um sofisticado big brother, capaz dessa proeza, sem ter de assumir a forma caricatural do 1984 orwelliano, no fundo, no fundo, muito pouco imaginativo. Como diz P.T.:
Para alguns, porém, há algumas liberdades decisivas na vida de todos, mas são relativas à economia: a liberdade de movimento de produtos e mercadorias, a liberdade de movimento de serviços ou a liberdade de movimento de capital. As liberdades dos fazedores de dinheiro dominam a sociedade, mas condicionam muitas outras liberdades e limitam a própria democracia. (p. 20)
Uma problemática afim desta surge mais lá para o fim do livro, a páginas 113 e seguintes, num capítulo sobre a chamada democracia liberal onde P.T. denuncia a contradição flagrante entre a pretensa bondade do sistema e a realidade da violência racista, da exploração da força de trabalho, do colonialismo, dos privilégios de classe, do fim da vida privada.
São, depois, enumerados alguns casos de discriminação de militantes comunistas que, pela sua qualidade intrínseca, assumem cargos de algum relevo no actual sistema democrático-liberal. Discriminação persecutória imbuída do ódio próprio de quem vê nos comunistas os defensores mais estrénuos de uma sociedade em que os privilegiados são privados das suas prebendas. Esses actos de malevolência e de maledicência compreendem-se no quadro da luta de classes e do ódio visceral já referido, ideia que é reforçada no capítulo “Porque os comunistas têm um partido”, no qual se denunciam os desvios que sofreu o processo de construção de um sistema verdadeiramente democrático, que era o anunciado pela Revolução de Abril.
Vem, depois, o feminismo de salto alto, isto é, a crítica do discurso libertador da mulher (libertador, relativamente à cultura da sociedade patriarcal), mas que enferma de uma contradição insolúvel: a mesma feminista, que defende a libertação da mulher das amarras culturais sexistas, mantém comportamentos que traem a dependência, ainda que inconsciente, dessas amarras.
No mesmo capítulo, a denúncia do wokismo de esquerda, que, graças ao radicalismo do policiamento censório da língua, acabou por «fazer sair do armário» (p. 41) racistas, sexistas, etc., que se sentiram, por assim dizer, desculpabilizados. De facto, as mudanças vocabulares, as novilínguas, não reflectem necessariamente mudanças da realidade para melhor, podendo até ser contraproducentes, na perspectiva da esquerda.
O capítulo sobre o jornalismo equaciona a possibilidade de um jornalismo isento, num contexto em que se confunde cada vez mais informação com opinião e em que os meios de comunicação de massa estão concentrados «num número cada vez menor de capitalistas ou de grupos económicos» (p. 51). A pandemia de Covid-19 foi, e a guerra na Ucrânia é, entre outros acontecimentos, motivo para um condicionamento dificilmente escamoteável das restrições à liberdade de informação. No caso desta última, o cancelamento de canais de informação do “inimigo” tornou-se banal e passa hoje despercebido pela maior parte do público.
Pior: jornalistas que tentaram noticiar o que se passava do outro lado do campo de batalha foram perseguidos e um deles foi mesmo preso durante dois anos e cinco meses: o espanhol Pablo González, que ao serviço do jornal Público de Espanha foi preso pelas autoridades da Polónia, supostamente por espionagem, sem que lhe tivesse sido feita uma acusação formal ou, sequer, apresentado provas concretas dessas alegações. (p. 48)
O que não obstou a que o inestimável José Milhazes, comentador residente da SIC, sem referir qualquer prova, se tenha servido precisamente deste caso para denunciar a malignidade do livro de Pedro Tadeu, nome que lhe custou pronunciar, mas bizarramente fazendo a sua publicidade e reincidindo na ridícula actuação que o caracteriza, movido por uma sanha irracional.
Guerras são coisas de que os comunistas não gostam, até porque são delas vítimas frequentes – eles e os povos cujos direitos eles defendem. A guerra faz, todavia, parte da história da humanidade. Em particular a guerra de classes. «A história de toda a sociedade até aqui é a história de lutas de classes.», lê-se no Manifesto Comunista, citado pelo A. a p. 59. Mas os comunistas sabem distinguir as guerras, e, no caso da Ucrânia, como no da Palestina, não se ficam pelas datas convenientes àqueles que as fomentam. Se reconhecem a invasão da Ucrânia pela Rússia, também sabem identificar o contínuo processo de cerco montado pelos EUA/NATO/UE à Federação Russa, renegando a Aliança Atlântica compromissos assumidos por dirigentes dos países que a integram, por ocasião da dissolução da URSS e do Pacto de Varsóvia. Do mesmo modo, sabem que o infindável tormento do povo palestiniano não começou com o acto condenável de Outubro de 2023, mas, no mínimo, com a implantação de um Estado num território sob domínio colonial, à custa do esbulho do povo autóctone. E se, de um lado, há terrorismo tout court, do outro, há terrorismo de Estado – expressão não autorizada na comunicação social libérrima que temos.
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A “dilatação da fé e do Império” – que serviu de justificação oficial ao colonialismo português, que “deu novos mundos ao mundo” e que Camões canta na epopeia nacional – faz parte da nossa história. Não podemos nem devemos apagá-la. Mas podemos encará-la com a devida distância e sem a pretensão de que os “heróis do mar” foram ou são uma espécie de semideuses, resultantes do cruzamento entre Júpiter e Maria Ermelinda, natural de Miragaia (qualquer semelhança com pessoa existente é pura coincidência). Que nos baste a mítica recompensa que Camões nos ofertou no seu Canto IX. Assim, vandalizar a estátua do Padre António Vieira, que defendeu os índios do Brasil, mas não se compadeceu com os africanos escravizados nos engenhos do açúcar, não é coisa que se faça. Mas também não é justo escamotear o tráfico dos negreiros, que arrancou tantos milhares de seres humanos das suas terras, “transplantando-os” para um continente desconhecido e sujeitando-os a toda a sorte de maus-tratos. Pedro Tadeu escreve:
Porém, vou continuar a ter orgulho de ser português, mesmo se cortarem a cabeça ao Infante D. Henrique: qual é, afinal, o povo que não homenageia gente discutível do seu passado colectivo? Qual é, afinal, à luz da moral dos dias de hoje, o povo com uma história totalmente inocente de maldade?... (p. 62)
É verdade, Pedro Tadeu, no tocante à crítica daqueles que se indignam com a vandalização de certas estátuas e se congratulam com a destruição de outras. Também na apreciação do passado colectivo dos povos: grandezas e misérias, como no título de Aquilino. Mas, camarada, esse sentimento de “orgulho” não o perfilho: prefiro constatar que o povo A fez isto, no contexto X, enquanto o povo B fez aquilo, no contexto Y. Constato, objectivamente; descrevo as circunstâncias históricas X e Y em que os povos A e B fizeram o que estava ao seu alcance. É de crer que, noutras circunstâncias, nomeadamente temporais, o que o povo A fez poderia ter sido feito pelo povo B ou C ou D. Exaltar um por ter feito o que fez é sempre, de algum modo, menosprezar o outro, por não o ter feito. Quando, afinal, é tudo obra do homem. E nós até somos internacionalistas. E o Manifesto, assim como o livro de P. T., até termina com o apelo «Proletários de todo o mundo, uni-vos!» Teremos um bem melhor motivo de orgulho, quando os proletários do mundo inteiro se unirem na construção de uma sociedade sem classes, sem guerras, sem desigualdade, sem injustiça.
De resto, o capítulo «Porque os comunistas detestam o pensamento único» (p. 66) é bem exemplificativo do que a classe dominante portuguesa e as suas congéneres mundiais congeminam e praticam, em detrimento da maioria das suas populações, mas em benefício do chamado “bloco central de interesses” (expressão sinónima de classe dominante): destruição de “inúmeras produções na indústria, na agricultura e nas pescas” (p. 67), por efeito da adesão à CEE; enriquecimento da banca, nomeadamente através da generalização do crédito bancário à habitação; entrega da «soberania portuguesa ao directório europeu» (p. 68), etc., etc. Tudo isso con-sen-sual-men-te, porque a tal classe é hábil em tornar natural, necessário, indispensável e incontornável todas as políticas que servem os seus interesses, independentemente da nocividade que representam para a maioria das populações.
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No PCP, pode parecer haver “pensamento único”, mas só para quem não entende nada do que é o PCP, onde o centralismo democrático representa a assunção pela generalidade dos militantes de uma decisão decorrente do confronto de opiniões múltiplas e do reconhecimento individual de que a transformação social não se compadece nem com um questionamento teórico ininterrupto nem com o exercício de uma liberdade individual estéril, porque inviabiliza a unidade na acção transformadora. O debate ocorre, mas não se cai no erro dos monges bizantinos: discutir o sexo dos anjos com os bárbaros às portas da cidade não é a atitude mais acertada, quando o objectivo é transformar o mundo.
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No capítulo «Porque os comunistas rejeitam a sociedade da traição», P.T. começa por expor o seu sentir relativamente à traição generalizada na nossa sociedade, lançando mão de um exemplo que, à partida, nos pareceria falho de pertinência, dada a sua banalização: a traição em contexto de relação amorosa ou conjugal. Rapidamente, contudo, passa deste registo para o da política. E se, no amor, «um remoto pudor […] nos obriga a encontrar um álibi para a traição […] – a carência, […] na profissão e na política, a traição tem outro álibi – “projecto”» (p. 76). Foi sob pretexto de «salvar a democracia» (p. 76) que Mário Soares, em 1978, meteu o socialismo na gaveta, convidando o CDS, «único partido que votou contra a Constituição de 1976» (p. 77), e que o fez nomeadamente porque o «caminho para uma sociedade socialista» (p. 77) era coisa que não interessava, nem interessa, ao partido do Centro Democrático Social. Com a mesma falta de coerência e abundância de insídia, «o CDS, em 1978, meteu três ministros no II Governo que juraram cumprir com lealdade as funções que lhes foram confiadas, apesar de, dubiamente, o seu partido garantir ter como objectivo primordial da sua acção política liquidar a Lei Fundamental» (p. 77). Os exemplos de traição da direita e de alguma esquerda abundam, mas será difícil encontrar algum no PCP, que «pode errar, às vezes gravemente, mas não trai» (p. 77).
Vem, depois, o capítulo da luta de classes (p. 78) que, a dada altura, me assusta. É agora que me vou zangar com o meu camarada? Pois não é que ele escreve que um «mundo capitalista minimamente leal» teria um leque salarial mais equilibrado e uma melhor distribuição da riqueza. Isso seria «um capitalismo mais aceitável» (p. 79) Um capitalismo leal?! Um capitalismo aceitável?! Ó Pedro, por favor! Mas o Pedro, que nem me ouviu, põe logo os pontos nos ii:
mas não está na sua natureza submeter-se à exigência de repartição da riqueza, a não ser quando se sente ameaçado – e por isso a luta de classes é mesmo necessária.
Respiro de alívio.
Como não vai acontecer um “mundo capitalista minimamente leal”, como isso nunca acontece, como isso não surgirá… como poderei eu acreditar no capitalismo? Como posso deixar de achar que a solução está no comunismo? (p. 79)
Segue-se o inventário das lealdades e aceitabilidades do capitalismo, desde a nossa entrada para o euro: as imposições relativas ao défice – válidas para países como o nosso, mas perfeitamente ultrapassáveis para países como a Alemanha; a crise financeira de 2008, resultante da utilização por grandes banqueiros das poupanças de inúmeros depositantes e investidores em operações financeiras tão credíveis quanto as da dona Branca; para acabar, o reforço do Orçamento da Defesa, que pode desfalcar o OE sem problema.
Ou seja: quem, no final, pagou a crise de 2008/2010 provocada pelos ricos foram os trabalhadores, os pobres. Quem no futuro vai pagar a crise actual serão os mesmos trabalhadores, os mesmos pobres… (p. 81)
E o capítulo acaba com P. T. a desancar a “meritocracia”, essa espécie de talismã do nosso tempo, que não passa de um disfarce linguístico para obnubilar a desigualdade económica e social.
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Impossível falar de luta de classes ou de comunismo sem falar de greves. Na nossa democracia liberal, o direito à greve é reconhecido constitucionalmente como um direito inalienável, mas sistematicamente denunciado como um atentado às liberdades individuais e à boa saúde do país, o que gera um discurso esquizofrénico: sendo um pilar da democracia, devemos prescindir dele, porque gera sempre inconvenientes para alguém. Muito dificilmente prescindível em qualquer tipo de construção, parece que a democracia liberal se sustentaria com um pilar virtual, uma espécie de fato nem sequer domingueiro – para usar apenas uma vez em cada ano bissexto.
O direito à greve foi assim transformado numa inalienável hipocrisia constitucional: um grevista é sempre, a priori, acusado … de estar a fazer mal ao país. E em qualquer empresa privada quase ninguém faz greve pois arrisca, logo, o desemprego (p. 84)
Em certas empresas (a Autoeuropa é um bom exemplo), explica P. T., recorre-se a processos que, apesar de conhecidos de ginjeira, continuam a produzir resultados, isto é, o condicionamento dos trabalhadores por outros trabalhadores, que se dispõem a prestar esses serviços ao capital. A Comissão Permanente da Concertação Social, por sua vez, logra obter um desiderato semelhante, mas a nível nacional, através da central sindical UGT, sempre disposta a acatar as decisões responsáveis, razoáveis e benfazejas de sucessivos governos do seu espectro político “socialista” e “social-democrata”. Tudo isto poderia fazer algum sentido, se os dados relativos ao aumento da riqueza das pessoas acompanhassem de perto os relativos ao aumento da riqueza do país. Mas não. Pedro Tadeu dá-nos os números da Pordata, que mostram uma realidade um pouco diferente: o aumento do Rendimento das Famílias, entre 1985 e 2019, foi um pouco mais de metade do aumento do PIB nacional – respectivamente 7,6 vezes e 12,3 vezes.
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No capítulo sobre a Festa do Avante! somos levados a visitar teóricos que se debruçaram sobre a natureza da festa e sobre a distinção entre festa e espectáculo, de Bakhtine a Duvignaud e aos Enciclopedistas franceses, entre outros. A Festa do Avante! distingue-se do espectáculo e da festa burguesa, na medida em que é a festa de um Portugal novo, uma festa em que «os participantes se celebram a si próprios, celebram o facto de estarem juntos, de reconhecerem a capacidade de se juntarem, se reunirem, de, enfim, serem o que querem ser» (p. 96, em citação de Bakhtine, que retoma, salvo erro, a caracterização de Rousseau).
Seguem-se capítulos sobre o culto da personalidade, que o PCP sempre manteve à margem da sua prática política, e a Revolução de Outubro, pelo contrário, sempre celebrada pelos comunistas portugueses, porque, para além do voto universal (já existente em países do Norte da Europa e na Nova Zelândia), ela trouxe direitos até então ignorados:
habitação, assistência médica e educação gratuitas, legalizou-se o divórcio, terminou a distinção entre filhos legítimos e ilegítimos, promoveram-se direitos das crianças e dos idosos, proibiu-se o trabalho infantil, as jornadas de trabalho foram limitadas a oito horas diárias, houve férias pagas, segurança social, estabeleceu-se salário igual para trabalho igual entre homens e mulheres (p. 106).
As conquistas da Revolução Bolchevique condicionaram o desenvolvimento do sistema capitalista no sentido de travarem a atracção exercida sobre os seus trabalhadores pela nova sociedade em construção no Leste da Europa. O que não obstou, naturalmente, a que tudo o que de menos bom ou mau se passou na URSS tenha sido habilmente e insidiosamente usado para desacreditar o primeiro país do mundo a encetar a construção de uma sociedade assente em princípios radicalmente diferentes dos seguidos até então. Um dos casos mais badalados pelos críticos do socialismo é o da fome do início dos anos 30 do século passado, sempre usada como crime deliberado contra milhões de ucranianos, escamoteando-se o facto de também terem morrido um milhão de russos e de tal se ter devido, até segundo um conhecido historiador anticomunista – Robert Conquest – ao facto de Estaline ter privilegiado o “interesse soviético”. Aos críticos da URSS e das ocorrências mais dramáticas da Revolução, conviria debruçar-se um pouco sobre as questões da violência e das medidas de defesa inevitáveis num processo revolucionário que os governos dos países capitalistas, naturalmente, combateram.
Um capítulo sublinha a “originalidade” do PCP, no tocante à abordagem, nomeadamente em momentos congressuais, dos reais problemas dos trabalhadores; outro, explica a diferença entre o 25 de Abril libertador e o 25 de Novembro que alguns pretendem equiparar-lhe; outro ainda, sublinha o papel desempenhado pela 5.ª Divisão e a sua Dinamização Cultural; outro, põe em evidência o carácter revolucionário do PCP, característica que o distingue de todos os outros partidos nacionais, incluindo da esquerda dita radical, que sempre recorrem ao bordão da responsabilidade, para assegurar a sobrevivência de um sistema caduco; um, ainda, que denuncia o sonso processo de destruição do SNS e de entrega da saúde aos negociantes da doença, processo em que a comunicação social participa activamente, ou não fosse propriedade da classe dominante; depois, um que explica a diferença entre ser putinista e ser comunista, ao mesmo tempo que evidencia a grande paciência de P. T., ou não fosse esta amálgama um dos procedimentos de que a comunicação social dominante faz sistematicamente uso, na sua magna tarefa de condicionamento da opinião, como os fascismos históricos sempre fizeram.
A recensão já ultrapassou os limites do razoável, mas não há como fugir a um penúltimo capítulo sobre a recusa do despotismo norte-americano pelos comunistas:
Confirmou-se que a Europa Ocidental se transformou numa colónia informal dos Estados Unidos da América. (p. 152)
A frase é curta e ocorre logo no início de um capítulo extenso que equaciona os desenvolvimentos ocorridos no mundo, nos últimos anos, com a emergência de outra globalização e de um mundo multipolar em que os BRICS, com potências diversas do chamado Sul Global a eles progressivamente aliadas, disputam com os EUA a capacidade de decisão a nível geopolítico. P. T. não esconde a sua dúvida quanto à natureza futura desta nova realidade, que poderá, eventualmente, vir a substituir uma globalização por outra, mantendo, contudo, os princípios do neoliberalismo. O que não o impede de verberar quer a política belicista da União Europeia, quer a atitude de muita gente dita de esquerda que alinha sistematicamente com a direita em questões candentes quais sejam a Ucrânia, a Venezuela, Cuba, a deposição de Evo Morales, na Bolívia, etc., esquecendo-se de contextualizar devidamente cada uma destas situações.
E, finalmente, a alternativa: impérios e regimes caíram, ao longo dos séculos, sem que a história se tenha esgotado ou chegado ao fim, como pretendia Fukuyama. No presente, a classe dominante tem logrado induzir em parcelas significativas de trabalhadores a ideia de que são «colaboradores» ou «empreendedores», segundo o léxico conveniente da novilíngua neoliberal. Esses trabalhadores não têm consciência de classe, o que inviabiliza a sua participação num combate unitário por uma alternativa à globalização neoliberal e à sociedade de classes. Mas essa alternativa existe e chama-se comunismo.
[1] Entrevista de que guardei cópia dentro da primeira edição do romance pela Caminho.
[2] Leia-se O Drama de Jean Barois, de Roger Martin du Gard, e Fátima (Cartas ao Cardeal Cerejeira), de Tomaz da Fonseca, que cita Renan. Todos eles (a personagem de Martin du Gard, Tomaz da Fonseca e Renan) tomaram as necessárias precauções, enquanto lúcidos ateus…
[3] Facebook, 21 de Março de 2025
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De cada vez que leio um livro que valha a pena (…), sinto-me na obrigação de escrever sobre ele. É uma espécie de compromisso íntimo e secreto – leste, gostaste ou não, agora desembucha! –, mas também o resultado de uma espécie de imperativo categórico: o de mostrar que o tempo e o esforço gastos por quem o escreveu não terão sido em vão; ao menos, o livro teve um leitor atento e virtuoso (!). Se me agradou, mostro ao seu autor esse agrado; caso contrário, digo-lhe o que deveria mudar; em ambos os casos, o autor nada verá, nada ouvirá, não serei lido, e daí não virá nenhum mal ao mundo. Nem Kant, morto e enterrado, se queixará de mim, por malbaratar o seu tão querido conceito.
No caso de Colette, foi assim: sabia que estava na história da literatura francesa, mas nunca a tinha lido. Há umas semanas, porém (como eu gosto desta adversativa!), vi um filme sobre ela e fiquei, como se costuma dizer, fascinado: aquela audácia, aquela versatilidade, aquela (quase) desfaçatez, aquele génio, aquele “je-m’en-foutisme”, relativamente ao que a sociedade (isto é, a hipocrisia) espera de uma mulher… (Quanto ao “fascinado”, sei que é uma corriqueirice, mas, com a idade, fascino-me cada vez mais com o que sobra de decente num mundo onde superabunda o obsceno).
Uma amiga trouxe-me gentilmente de França La Chatte, que lemos alternadamente, em voz moderadamente alta, sentados na areia. Aqui e ali, parávamos, para um comentário, uma troca de impressões, uma mudança de posição do corpo – permitindo aligeirar o esforço da lombar, da dorsal e da cervical –, uma interrogação sobre o comportamento das personagens ou apenas sobre uma frase ou uma palavra, impressionados quanto ao estilo imensamente descritivo, de uma fluidez e riqueza vocabular de causarem inveja, sendo que a história é relativamente simples, despojada, sem peripécias propriamente ditas, e funciona como uma máquina bem oleada. Nas palavras de Nicole Ferrier-Caverivière, “auteure” – como se diz em francês “moderno”, cujo se deve ter inspirado no AO90 – de um esplêndido prefácio : « Tout est fait pour accuser les contrastes entre les personnages d’Alain et de Camille, et par là pour mieux montrer la force de l’incompréhension qui sépare les individus, et que l’amour ne réussit pas à vaincre. » (p.21, na edição Le Livre de Poche).
A acção decorre num lapso de tempo curto, quase impróprio para romance. Nos antípodas do roman-fleuve, poder-se-ia falar aqui de roman-ruisseau, roman-goutte d’eau, mas isso é irrelevante. A contenção de Colette está patente nessa compressão temporal, mas também, e mais espantosamente, na escolha vocabular, sempre que está em causa a conjugalidade de Alain, Camille e Saha, a gata. Uma relação triangular («[Alain était] vaguement inquiet chaque fois qu’il laissait, seules, ses deux femelles», p. 107), com um desfecho nem sequer muito surpreendente – ou surpreendente, apenas, na estrita medida em que a preferência de Alain nos deixa supor que a educação reinante na alta burguesia de pendor aristocrático da primeira metade do século XX era (era?!) indutora de uma sensibilidade esquisita, na pior acepção do termo. Com efeito, a coabitação dos dois jovens recém-unidos pelos laços do matrimónio rapidamente se revela pouco gratificante, quer para um, quer para o outro, já que a presença da gata, em quem Alain investe um capital afectivo manifestamente exagerado, suscita um compreensível ciúme em Camille, que acaba preterida, após tentativa frustrada de eliminação da sua rival felina. Mas, logo na fase inicial de coabitação, temporariamente numa casa cedida por um amigo de Alain, enquanto o casal aguarda o fim das obras de remodelação de uma casa pertencente à família deste, o jovem revela-se um marido excessivamente cioso do seu espaço pessoal, não desinteressado da componente sensual da conjugalidade, mas circunscrevendo-a ao espaço temporal algo minguado do amplexo e dos seus preliminares, refugiando-se, logo depois, na parcela por ocupar, do outro lado da cama, numa atitude que parece denotar um egocentrismo atribuível à educação típica da alta burguesia, sucedâneo moderno da nobreza feudal, por via da alteração do modo de produção social. Em alternativa, a explicação poderá residir num temperamento refractário à convivialidade ou, por outras palavras, à “natureza” da personagem.
Feito este breve conspecto da história, Colette suscita-me uma comparação com Pessoa, o que há-de surpreender. É assim: o Pessoa que conhecemos era, na vida, um homem de hábitos assaz comuns. Traduzia correspondência comercial do inglês, que dominava, interseccionava-se com a menina Ofélia (mas ignoramos os contornos exactos dessa relação, para além da sua expressão literária), andava à chuva (oblíqua), bebia uns golos de absinto, deixava-se fotografar em flagrante delitro, sentava-se naquela mesa do Martinho da Arcada, encontrava-se com alguns dos parceiros do Orpheu, do Exílio, do Centauro, do Portugal Futurista, da Contemporânea, da Athena, etc., mas… dentro daquela cabeça (para já não falarmos do fígado) fervilhava um mundo que nada tinha de pacato. Daí a heteronímia.
Com Colette, dá-se o contrário: a vida dela é um constante sobressalto; ela faz de tudo, desde a escrita ao music-hall, passando pela abertura de um instituo de beleza, onde a maquilhagem, mais do que esconder, revela a “verdade interior” da mulher (Nicole Ferrier-Caverivière), por múltiplas conferências, pela crítica teatral, pela redacção de diálogos para o cinema, etc., e a sua vida íntima conhecida faz dela uma candidata imbatível às profundas do Inferno. Mas lê-se este romance, e parece que a “écrivaine” – segundo o tal francês “moderno” – não passa de uma ajuizada cultora das belles-lettres, aspirante a uma cadeira na Académie Française, e é verdade que acabou por aceder, não a esta, mas a outras Academias. Parece, mas não. Por assim dizer, Colette assumiu a heteronímia como estilo de vida, mas contentou-se com o seu ortónimo para assinar o romance, este e outros, que não todos, já que o seu primeiro marido, Henri Gauthier-Villars, conhecido (não por mim) como Willy, se serviu dela (e de outros) como “nègre”: ela e outros “nègres” escreviam, mas os livros eram publicados em nome de Willy. Uma espécie de homonímia ou, em linguagem mais própria da ciência política, de recurso à força de trabalho e de apropriação da mais-valia produzida pelo proletariado literário.
Uma escritora que merece ser lida, por muito que nos custe o seu posicionamento algo dúbio na imprensa colaboracionista, durante a Ocupação nazi da França, segundo wikipédica informação.
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A sinopse tinha-me despertado o interesse. Não é todos os dias que um filme (premiado com o Urso de Prata do Grande Prémio do Júri, no Festival de Berlim 2024) nos obsequeia com um método alegadamente inovador no ensino de uma língua estrangeira, e Isabelle Huppert, a actriz-protagonista, é uma mulher interessante (não me esqueço do Chérubin, no Mariage de Figaro!).
Saio da sala sem saber o que pensar. Um misto de estranheza e de insatisfação alia-se à impressão de que arte é arte e não tem que corresponder a expectativas pragmáticas de quem pretende servir-se de um conhecimento obtido pelo preço de uma entrada ou à ingénua convicção de que, em arte, há que respeitar o cânone e escarrapachar o sentido.
Ciente de ter já aprendido o suficiente para estar receptivo a tudo o que é diferente, desfiro um safanão nesta veleidade algo xenofóbica e decido-me a repensar o filme, sem abandonar de vez as reticências já anunciadas, quais são, agora explicitamente:
Primo, a história mostra-se algo inconsistente, falha de fôlego inventivo, pobrezinha. O alegado método consiste em fazer “recitar” tantas vezes quanto possível, a sós, e, de preferência, no silêncio íntimo do quarto, um conjunto de frases, em francês, caligrafadas numa ficha cartonada e gravadas em audiocassete, pela professora, após conversa em que inquire, em inglês, uma jovem aluna, primeiro, uma senhora, depois, acerca do que haviam sentido ao executar uma composição, respectivamente, num piano e numa guitarra: satisfação, orgulho, receio de falhar, etc. Ora, estas são as duas únicas ocorrências de exibição prática do método e são muito semelhantes entre si. A eficácia do procedimento resultará, eventualmente, da adesão afectiva do aprendente àquilo que enuncia de viva voz, em inglês, e que a professora traduziu em francês. O espectador não tem que duvidar: aprende-se mais facilmente tudo aquilo de que gostamos ou que nos toca, no plano emocional. Ok. Mas – isto – não o sabíamos já, todos, desde sempre? E o resultado final? Ora, bem, o filme não no-lo mostra. Ficamos sem saber se a adesão afectiva a frases que vão além das utilitárias «Bonjour, comment allez-vous?», «S’il vous plaît, c’est où les postes?», «À quelle heure arrive le train?» dá o resultado que se espera, ainda que seja expectável que sim, pelo que já foi dito atrás.
Secundo, a sequência do aparecimento da mãe sul-coreana do jovem adulto sul-coreano que partilha o seu apartamento com a protagonista francesa bem mais avançada em idade é ilustrativa de uma certa cultura. Acontece que, no fundo, essa cultura, pelo menos, neste particular, não será assim tão diferente da nossa: imagino sem dificuldade uma mãe portuguesa a ter idêntico comportamento com um filho, jovem adulto português, ou seja, suspeitosa de que haverá ali marosca e de que aquela loira protagonista é uma maldosa sedutora da sua indefesa cria. Admito que um filho natural daqui, do nosso jardim à beira-mar etc. fosse menos paciente e acabasse por se irritar, o que não acontece com o asiático, para mal da Isabelle, que passa uma noite ao relento.
Além disto, há, no filme, duas cenas, salvo erro, com poemas inscritos, um deles numa pedra, o outro, numa parede. Aparentemente, na Coreia do Sul, cultiva-se o gosto pela poesia, o que também não é original. Aqui, onde vivo e onde viveu Emiliano da Costa, há poemas dele em paredes públicas.
Mas, enfim, dir-me-ão, onde está a parte positiva aliada ao misto de estranheza e de insatisfação? Está numa atmosfera poética que envolve as personagens e que supre a carência de paisagem que poderia compensar alguns espectadores. De facto, quem esperasse ficar deslumbrado com uma paleta paisagística ou com ambientes humanos exóticos sairia frustrado. Contudo, a protagonista como que esparge sobre o que a rodeia essa poalha de magia provinda da sua aparente candura natural e o filme faz-se poema. A ler assim, sem preocupações de índole lógica, de coerência narrativa ou de intencionalidade. Pronto. Há por aí alguém que me queira explicar “isto” (sem desprimor para António Ramos Rosa):
A mão
prolonga
o pulso
quando
a água ondula
(in Declives, 1980)
Ah! Já me esquecia: realização e argumento são de Hong Sang-soo.
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Imagem de:
AVENTURAS DE UMA VIAJANTE NA COREIA DO SUL - CinemaCity
Uma amiga, que me sabe ímpio e a quem me queixei do calor infernal que nos assola, aconselhou-me benevolamente a converter-me, a fim de escapar ao castigo térmico: «Fernando, tente aguentar-se. Converta-se e sairá do inferno – diz-me ela». Não este inferno, que é objecto de estudo e previsões do IPMA, mas o que nos espera a alguns de nós, depois do trânsito terreno. Ora convertido estou eu, há muito. Sempre que vejo alguns comentadores da nossa praça televisiva, imediatamente invoco a preciosa ajuda divina: - “Meu Deus!” O mesmo acontece quando me entram pelos ouvidos dentro certas opiniões desconchavadas que tenho de suportar com paciência cristã: - “Santo Deus!”
Talvez a minha invocação tenha um valor sobretudo interjectivo (de interjeição). É como dizer “Bolas!” ou “Chiça! Ou “Apre!”, esta última conotada com a terceira idade, por causa da associação com o mesmo nome. Mas não deixo de invocar o santo nome do Senhor, e, contrariamente a Voltaire, que dizia: “Cumprimentamo-nos, mas não nos falamos”, eu falo com ele, embora naqueles termos lacónicos que referi.
Voltando à conversão: qualquer que seja o entendimento que o Supremo Tribunal do Juízo Final fizer do meu comportamento terreno, não escaparei a uma passagem pelo Inferno. Basta um breve exame de consciência para me certificar.
Chega a minha alma lá abaixo (que o caminho estreito do Céu é ascendente, mas para o Inferno a via é larga e descendente), e, chamuscada como vai, por via da cremação, o Mafarrico franqueia-lhe imediatamente a entrada da recepção, devidamente climatizada. Pergunta-lhe se tem passe verde e manda-a sentar num mocho mal-amanhado, talhado a golpes de canivete. Abana a cauda e os cornos, e pergunta-lhe de chofre:
- Diz-me lá que pecados cometeste em vida!
A minha alma titubeia, trémula e enxofrada, e cicia:
- Em jovem, teria eu uns dezassete anos, que é uma idade do Diabo! ... Peço perdão: é uma idade tramada! Apaixonei-me por uma actriz loura, americana, novinha e bonita como um anjo, como aqueles que só há lá no Céu …. Peço perdão, novamente; bonita que nem uma chama ardente. Era amante de um milionário, milionário que tinha um filho, filho esse que se apaixona por ela e vice-versa e aquilo gera uma confusão dos Infernos. Perdão: gera um conflito intergeracional, acrescido de implicações nas relações intrafamiliares e no domínio patrimonial. Não me lembro do nome dela, nem do título do filme. Só me ficou a recordação desse amor infeliz, a que se seguiram vários outros que não vou contar, porque compreendo a Sua dificuldade em ouvir tantas almas que diariamente por aqui passam.
- Só isso?! – retruca-me o Mafarrico, com espanto.
- Bem, tenho outros pecadilhos, tudo mais ou menos venial. Não me ocorre nenhum verdadeiramente capital e que valha o tempo que lhe estou a roubar! Ah! Talvez um: fui comunista toda a vida. Aposto que esse não tem remissão!
- Ora! Como te enganas! Comunistas é o lado pra que melhor durmo. Eu até me dou bem com eles. Sobretudo desde que mandei um para o Céu – um tal Karl Qualquer Coisa – que armou aqui um alvoroço insuportável, com greves, comícios e manifestações a toda a hora.
- Ah! Sei quem é. Já ouvi contar essa história. Parece que Deus também não o suportou e finou-se.
- É isso mesmo. Eu fui à missa do sétimo dia e trouxe o Karl de volta, não fosse ele lembrar-se de apelar à união das almas oprimidas de todo o mundo e subverter a ordem sobrenatural das coisas. Aliás, ele disse-me logo que as relações de produção, aqui, são mais equilibradas do que no Céu: eu próprio, entidade patronal, me encarrego do fornecimento da energia, dou uma mãozinha sempre que alguma alma reclama assistência médica, e quando reivindicam aumentos da temperatura ou do horário de trabalho, visitas a almas amigas retidas no Purgatório, etc., assino de imediato a convenção colectiva. No fundo, acabei com as classes, enquanto lá em cima continuam com aquela corte profusa de anjos, arcanjos, querubins, beatos e santos, todos a viver à custa das pobres almas que por lá vagueiam, absortas e ausentes como doentes de Alzheimer. Portanto, já vês: que não seja por isso. Se, no Juízo Final, te deram guia de marcha para aqui, tenho de concluir que o Líder Supremo se equivocou.
E, num sussurro quase imperceptível:
– Acontece aos melhores, com tantos processos em tramitação. O teu lugar é no Céu. Vou já pôr-te a caminho, que tenho mais com que me ocupar. Tens aí o passe verde?
A minha alma não ficou lá muito feliz com a rejeição demoníaca. Neste sítio quente e seco, ela sabia, agora mais do que nunca, que ia encontrar montes de amigos e conhecidos fecundos em malfeitorias. No Céu, eram só almas puras, sem mácula alguma, insonsas e sem graça, mal-grado a Graça divina.
Mark Rutte fez recentemente um hiperbólico elogio ao papá Trump: nunca nenhum outro Presidente dos States logrou a façanha histórica que ele, Trump, cumpriu com inigualável galhardia: levar os europeus a investirem 5% do seu PIB no Orçamento da Defesa. O panegírico não deve ter caído nada bem lá para os lados de Biden e kamala. Por ser injusto. Então, os chamados Democratas não acabariam, mais dia menos dia, por fazer o mesmo, ou parecido, ou pior? É sabido que, nisto de investimentos na Defesa, como em muitos outros domínios, são parentes muito chegados.
Quem não deve ter ficado muito satisfeito foram alguns americanos e outros cidadãos do mundo inteiro, que se lembraram da invasão do Capitólio, das perdas de vidas nessa acção épica, da absolvição plenária de todos os envolvidos e, para cúmulo, da atitude do Senhor Rutte quando, há pouco tempo, na Sala Oval, ouviu da boca do seu papá a intenção de anexar o Canadá, parceiro da NATO, mais a Gronelândia, que o parceiro dinamarquês da NATO administra, em regime de Commonwealth. Como nos lembramos bem, o Senhor Rutte, na ocasião, nem sequer ciciou: – “Olhe que o Direito Internacional … Olhe que a Aliança do Atlético Norte … (em versão nunomeliana) Olhe que o art.º 5.º …” Nadinha. Rabinho entre as pernas e sorriso nos lábios. O Zelensky, se calhar, também não gostou, mas como os States não são a Rússia, tudo bem. Quanto aos Japoneses, que ouviram o Senhor da Sala Oval gabar-se (apesar de não querer usar tais exemplos – cruzes, canhoto!) do óptimo trabalho feito pelo Enola Gay em Hiroshima e Nagasaki, esses também devem ter ficado acabrunhados, mas, lá está!, os States não são a Coreia do Norte. E, entre nós, só muito poucos quisemos saber se o Governo português acha bem colocar o porta-aviões das Lajes ao serviço de uma operação militar especial contra o Irão, violando o Direito Internacional. Mas, lá está, uma vez mais (que chatice!): os States são nossos aliados desde antes do 25 do 4. Se fosse um navio russo a navegar aqui ao largo, a coisa fiaria mais fino, não é, meu Almirante? Lá ia o Mondego atrás dele. Mesmo a meter água pela escotilha. O respeitinho é muito bonito! Oh yes!
Ora este ilustre traste, compatriota do social-democrata ex-presidente do Eurogrupo, Jeroen Dijsselbloem, que considerava a solidariedade um valor extremamente importante, mas que tínhamos obrigações e não podíamos gastar todo o dinheiro em mulheres e álcool para, depois, pedirmos ajuda, este traste, dizia eu, faz um perfeito pendant com os nossos dirigentes comunitários: aquele trio composto por duas senhoras, que representam à perfeição o ideal de sensibilidade e delicadeza do eterno feminino, mais o nosso compatriota que em tempos pôs termo ao ostracismo a que estavam votados os partidos à esquerda do PS, relativamente ao arco da governação, ideal do bloco central de interesses igualmente sensíveis e delicados. Porque é que o fez? Talvez um vaipe ou uma aparição do espectro do pai. Como aconteceu ao Hamlet, num contexto dinamarquês pré-comunitário.
Decididamente, algo está podre no reino da Dinamarca, fora uma série de outros, e cada vez mais sinto, com o João de Melo, que o meu mundo não é deste reino. É certo que o meu respeito por esta gente nunca foi muito, e o que pudesse subsistir levou já sumiço. O nojo tomou-lhe o lugar. A loucura que parece ter-se apoderado (uma vez mais) destes donos das nossas vidas mereceria um acesso colectivo de loucura dos cidadãos. Algo semelhante ao que, algumas vezes, na História, se revelou capaz de inverter o rumo dos acontecimentos e que não me apetece agora explicar.
Uma coisa sempre direi: até estou disponível para investir, não 5, mas 10 ou mesmo 20% da minha pensão de aposentação num orçamento da Defesa que me proteja das ameaças que esta corja representa para a humanidade. As democracias ocidentais que, em Setembro de 1938, se mancomunaram com Hitler, na Conferência de Munique, excluindo a URSS (pois, pois, falem-me do Pacto de Agosto 39!) e dando luz verde à ocupação dos Sudetas, meses depois seguida da invasão e ocupação dos países europeus, reúnem-se agora com Trump, no Lupanar Oval, num exercício de diplomacia que é o único que conhecem – o da vassalagem, que rima com vilanagem. Que tristeza!
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José Estêvão Cruz, com um currículo de deputado, de autarca, de jornalista (para além do exercício mais propriamente profissional e granjeador do pão para a boca), é também um prolífico escritor, com um assinalável número de romances, frequentemente focados na vida das gentes do Sotavento algarvio, em diferentes momentos históricos.
A sua obra alia as características próprias da ficção literária – nomeadamente no tocante ao estilo e às categorias da narrativa, com personagens que interagem e dialogam no espaço e no tempo que lhes é próprio – ao didactismo de um narrador que detém conhecimentos profundos sobre a vida das gentes que dão consistência e espessura aos seres de papel que as personagens sempre são. Tal didactismo não se limita, porém, a este conhecimento directo, tangível, do dia-a-dia de quem labuta por uma bucha de pão e um tecto.
A obra de José Estêvão Cruz é, toda ela, reveladora de uma vida, em boa parte, consagrada à defesa dos interesses dos trabalhadores, nos diferentes cargos electivos que exerceu. Mostra-nos isso num registo linguístico muito concreto – por vezes, mesmo técnico –, sempre que se trata de questões relacionadas seja com a vida tout court e a actividade profissional dos pescadores, mariscadores e armadores, seus percalços e pendências com as autoridades fiscalizadoras (construção clandestina, contrabando, vigência do acordo de pescas entre os Estados ibéricos), seja no respeitante à legislação, aos procedimentos e às relações entre os dois países.
A construção, em tempo recorde, de uma barraca de lata, no areal de Monte Gordo, por um jovem casal de namorados – João Largo e Almerinda Ferreira –, ansioso por privacidade, em tempos de contra-revolução, com a AD no governo central e uma Câmara comunista em Vila Real de Santo António, constitui o ponto de partida do romance Sob o Céu das Fronteiras.
Essa barraca de lata, ainda sem tecto, serve de abrigo e de cenário a uma primeira entrega dos namorados aos jogos do amor. Porém, logo na manhã seguinte, são acordados por funcionários que os instam a abandonar a ideia de terem ali um poiso. Num tempo em que construções clandestinas precárias se espraiam pela zona poente do areal de Monte Gordo, o projecto SAAL prevê a construção de uma rua, separando o mar e o areal mais a ele chegado, da área onde as barracas são já numerosas. Ora a barraca recém-erguida ficaria mesmo no meio dessa rua ainda por rasgar. A vizinhança mobiliza-se, solidária com os namorados, mas a diplomacia municipal logra pôr água na fervura, com a promessa de um «programa de reabilitação dos loteamentos implantados no areal da praia a capricho dos habitantes, com alinhamentos irregulares» e a cedência de «terrenos em regime de direito de superfície».
O desvendamento do enredo do romance será o melhor meio de acicatar o apetite do potencial leitor? Não sei. Pelo sim, pelo não, vou acrescentar três ou quatro pormenores: várias peripécias levam à separação temporária do casal; as relações transfronteiriças azedam com o encerramento da fronteira fluvial, fruto de discordâncias quanto a um acordo de pescas de 1969, sobretudo em termos de vigência; João Largo vê-se desterrado por algum tempo em mares e terras da Mauritânia, na sequência de um incêndio e naufrágio; entra na história uma espanhola militante da causa do Saara Ocidental e da Frente Polisário, procurada pela polícia em virtude da sua semelhança com uma etarra; Almerinda faz-se operária conserveira e sofre um aborto na sequência de uma carga da Polícia de Intervenção, a mando do Governo Central, por ocasião de uma greve do sector conserveiro. Acho que foram cinco (pormenores). Venham mais cinco, digo-vos eu, que gostei do que li e me lembrei de Redol. E do Zeca, claro.
O serviço público de TV (RTP1) brindou-me ontem, enquanto almoçava, com 50 minutos ininterruptos de Selecção Nacional. Durante este lapso de tempo, pesquisei todos os outros canais informativos e, em todos eles, as imagens se equivaliam: Selecção Nacional. Depois de cogitar brevemente na hipótese de haver informação sobre os conflitos em curso no mundo ou sobre a actualidade nacional, optei por desligar o aparelho. Almoço concluído, digestão iniciada, não estava disposto a esperar mais. Mas, sem TV, deu-me para reflectir, coisa que me acontece esporadicamente e que não é nada boa para a digestão, mas enfim… E então, eis que comecei por reflectir na importância das Selecções Nacionais, que empolgam milhões de meus semelhantes, em Portugal, e ainda mais milhões de meus semelhantes em tudo menos na nacionalidade, que ele há Selecções Nacionais um pouco por todo o planeta e, quem sabe, noutras galáxias circundantes da Terra, centro do Universo. Quando há Selecções Nacionais, não há conflito, naufrágio, catástrofe natural ou fenómeno meteorológico sobrenatural capaz de obnubilar as câmaras das referidas Selecções Nacionais, sob pena de atentado aos sentimentos patrióticos do povo. Vai daí, também reflecti, malgrado o desespero da digestão posta em lista de espera, que o Futebol é, juntamente com a Senhora de Fátima-Ourém, um mobilizador excepcional das massas.
(Não comece já a disparatar: claro que esta reflexão nada tem de original; há montes de anos que muita gente fala dos três efes; só reflicto em banalidades. Alto lá, que eu ainda não cheguei a meio.)
Ora bem. Agora é que me vou acercar do cerne da questão, o qual é este: há imenso tempo que partidos (uns mais do que outros) e sindicatos se debatem com problemas de mobilização dos cidadãos para defesa disto e daquilo, muitas vezes sem êxito notável. O meu Partido, para usar apenas o exemplo que me é mais querido, só fala de coisas que pouco dizem aos meus semelhantes: ele é o custo da vida, ele são os baixos salários e pensões, enfim, não vou continuar que vocês conhecem a cassette. Ora isto não interessa ao careca. Nem ao cabeludo. Nem ao Miguel Sousa Tavares. A Selecção Nacional, essa sim. Vai daí (como disse já atrás), disse para com os meus botões de punho: eh pá! O D. Duarte Pio, duque de Bragança e herdeiro do trono, não é muito inspirador; logo, a criação de uma Selecção Monárquica não nos levaria longe. Até os pastorinhos de Fátima-Ourém, hoje em dia, já não olham para o céu, nem topam ninguém na copa das alfarrobeiras ou lá que árvore era aquela, que alfarrobeiras é mais cá para baixo; agora, distraem-se com o Tik-tok, vivem naquele eclipse permanente, e aparições... nicles. Claro que milhões de meus semelhantes continuam a fazer a sua peregrinação anual ou, pelo menos, a vergar-se perante a imagem da Senhora, mas este domínio reveste-se de particular delicadeza, pelo que vale mais não insistir. Até porque se pode sempre dizer que a Senhora Tal e Coisa é a minha utopia da nova Idade do Ouro. Aí, eu ia ter de dizer que uma coisa é o Pai Natal, outra coisa é o Joaquim Francisco, e nunca mais se parava. Quanto ao Fado, um dos efes, evoluiu de tal modo que já não mobiliza como outrora: os marialvas e as desgraçadinhas modernizaram-se, foram à escola; eles adaptaram-se às redes sociais e elas já não sofrem com a traição (dão de frosques e vão ao Kinder, aliás Tinder, acabo de descobrir). Logo… os partidos (exceptuando o PPM, em busca do trono perdido) têm de criar equipas de Futebol próprias, para disputar os campeonatos, as ligas e as taças: Futebol Clube Social-Democrata, Futebol Clube da Esquerda Bloquista, Clube Comunista Português, Liberal Futebol Clube, e assim sucessivamente. Ides ver que o nobre povo vai encher patrioticamente os estádios, ruas e praças desta nação valente e imortal e festejar as vitórias do nosso clube partidário de forma nunca dantes vista. Garantido!
(10/06/2025)