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Também de esquerda

Espaço destinado a reflexões (geralmente) inspiradas na actualidade e na Literatura.

Também de esquerda

Espaço destinado a reflexões (geralmente) inspiradas na actualidade e na Literatura.

A CIGARRA E A FORMIGA em versão solidária

A Cigarra e a Formiga.jpg

Tendo a Cigarra cantado
o tempo que o Verão durou,
maldisse o seu triste fado
quando a invernia chegou.
Não tinha nem um pedaço
de mosquinha ou de minhoca,
– E agora, o que é que eu faço?,
perguntou da sua toca.
Foi, então, bater à porta
da camarada Formiga,
que encontrou quase morta,
tal era a sua fadiga.
Quis pedir-lhe um grão que fosse
para não morrer de fome;
antecipa-se a voz doce
da Formiga, que diz “Tome!”
E, não contente com isto,
volta-se para a Cigarra
e sussurra-lhe: – Desisto.
Agora, o que eu quero é farra!
Pega lá nessa viola,
enche-me este coração,
e não tomes por esmola
o que é obrigação.
É que se amealhar
sempre dá um certo jeito
não vale menos cantar
– cada coisa o seu proveito.
Eu recolho para comer,
mas a vida é mais do que isso
e é preciso lazer,
para se manter o viço.
Como me falta o talento
que em ti sobeja, cigarra,
és tu que me dás alento,
tu e a tua guitarra.
Ficou assim demonstrado
que o trabalho faz sentido,
quando não exagerado
e quando é repartido.
O que a Cigarra fazia
nada mais era, afinal,
do que uma mais-valia,
mais-valia emocional.

(Versões desta fábula deve haver dezenas, se não centenas. É só mais uma. A imagem é da Wikipédia)

21/01/2020

 

VIAGENS NA MINHA GRAMÁTICA

1. Preposicionando
Ela adoptara uma preposição até com contra o que sempre fizera. Se alguém lhe pedisse para perante por, também ela anuía prontamente sem sob e muito menos sobre trás. Uma coisa lhe repugnava, contudo – voltar a ante após, à procura de desde, sobretudo se estivesse em entre.


2. O remorso do substantivo abstracto
Era uma tarde fresca de Outono. O substantivo abstracto, encafuado, desde a véspera, na sua mansarda com vista para as nuvens, sacudiu a enxaqueca e resolveu-se a descer os vários andares que o separavam da rua, questão de ver gente e espairecer. Dois passos não tinha dado, já um adjectivo biforme o assediava com flexões de género para aqui e de número para acolá. Chiça! Que ferro! Irritava-o ter de se prestar a concordâncias espúrias, mais próprias do concreto e do comum. Aliás, era sempre com relutância que se via envolvido com qualificativos, e já por mais de uma vez os repelira com interjeições apimentadas. Ali e naquele momento, porém, não quis deixar de se mostrar urbano – limitou-se a sussurrar um deliquescente ai de mim, valha-me Deus! que o adjectivo nem ouviu. E, por não ter ouvido, lhe dirigiu a palavra, anunciando-lhe a próxima chegada de certa conjunção coordenativa copulativa que tinha interesse em conhecê-lo, a ele, substantivo abstracto. Muito agradecido pela informação, disse-lhe este, desejoso de deixar aquela conversa mole por ali e, de resto, pouco interessado em articuladores, desde que uma disjuntiva o separara de uma subordinativa integrante que, essa sim, era senhora das qualidades que ele ansiava para uma frase em comum. Pouca sorte a sua, que a vira galanteada e sequestrada por um verbo transitivo directo muito senhor de si, assertivo e até imperativo, ainda que no modo indicativo. É verdade que, depois, ainda teve um caso com uma consecutiva, outro com uma concessiva, ambas por assim dizer trucidadas por algumas adversativas aliadas ao advérbio de modo, que agira mal e até pessimamente. Pior do que tudo foi a chegada do determinante, possessivo até mais não, que as abarbatou enquanto o diabo esfregava um olho. Por fim, o adjectivo lá se afastou, agastado por tão ostensiva desatenção. E foi então que o abstracto sentiu um baque no coração e se deu conta de que se comportara como um reles solecismo.

ISABEL DOS SANTOS SALGADO MADOFF?

O encarniçamento da nossa comunicação social contra Isabel dos Santos não me parece ter paralelo no tratamento de casos igualmente graves de nepotismo, de prevaricação ou de corrupção pelo mundo fora, Portugal incluído. É de crer que isso se deve ao facto de Angola ter sido nossa colónia durante séculos, o que nos arma, até talvez inconscientemente, de uma íntima e inconfessável sanha para continuarmos a tutelar aquela terra de cafres, tão longe da maioridade civilizacional. Com o barulho das luzes mediáticas perde-se contudo de vista o que será o essencial da questão: Isabel dos Santos, Ricardo Salgado ou Bernie Madoff são apenas bons alunos de um sistema que, sob a forma democrática ou sob a forma selvagem, premeia os cidadãos mais “dinâmicos” (na acepção neoliberal de Luís Montenegro, na noite eleitoral), em detrimento da esmagadora maioria dos que sofrem de hipodinamismo e escasso empreendedorismo. Se o contraste entre a fortuna de Isabel dos Santos e a miséria dos seus conterrâneos é chocante, que dizer do contraste entre os rendimentos de muitos dos gestores das nossas empresas e as nossas pensões de sobrevivência ou os nossos salários mínimos? Só lá se vislumbra uma diferença de grau. Além de que o enriquecimento dos mais dinâmicos, podendo até ser sinal de especial protecção divina, é factor relevante de estímulo à economia, o que nunca é despiciendo. Façamos então um exercício de humildade democrático-capitalista e aceitemos que o nepotismo, quando nasce, nas sociedades capitalistas, é para todos.

O SONHO DE UMA PORTA

"Hegel observa algures que todos os grandes acontecimentos e personagens históricos se repetem, por assim dizer, uma segunda vez. Esqueceu-se de acrescentar: a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa." Karl Marx, O 18 de Brumário de Luís Bonaparte

― Ide-vos, que manchais a pureza desta terra com a vossa presença espúria. Ide-vos, que comprometeis a ressurreição da genuinidade pátria com a vossa ilegitimidade. ― Assim sentenciaram os juízes da Suprema Autoridade Genuína. Assim fizeram eles. E aqui vão. No terceiro dia de viagem.

São como cachos. Pequenos cachos de homens e crianças, de mulheres e crianças. E são gavinhas que os prendem, não vão perder-se, que são pedregosos os caminhos da desesperança. «Já falta pouco», diz o David ao mais pequeno, que não pára de tossir. Dá-lhe a mão Sara, que, na outra, carrega um saco. Ou falta muito? Que pouco e muito são tudo nada, quando o destino é coisa vaga. O Marcel, à frente, marca a cadência. Leva a mais nova pela mão. Logo a seguir, vem a Amena. A mochila puxa-lhe os ombros para trás, com o que o peito se lhe avantaja.
― Deixa-me levar-te a mochila.
― Não, eu vou bem.
O cansaço não lhe tolhe a delicadeza dos traços, nem a inteligência do olhar. Ao lado, o mais velho. Com quinze anos já não precisa que a mãe lhe dê a mão. Quinze anos tinha ela, quando tudo começara. Mas é ele, agora, quem lhe dá a mão, sempre que lhe parece que a mãe não vai resistir a uma subida mais íngreme. Porque não é fácil, para quem julgara ter já esgotado o seu quinhão de agruras, voltar a galgar montes e vales, debaixo do Sol, no meio da chuva, dentro do vento. Tudo isto menos tormentoso, porém, do que naqueles tempos da outra fuga. O Egeu, um mar tão grande. («Tão grande, não. É ali. Não vês Lesbos? Já falta pouco.») Faltava tão pouco e para tantos, no Egeu como no Mediterrâneo, ali ao lado, foi quanto faltou para que nunca mais voltassem a perguntar se faltava muito.
Uma porta. Procuravam uma porta. De preferência de madeira e maciça. Pesada. Grande e pesada. De que pudessem vir a ter a chave, mais dia menos dia, e que não lhes exigisse uma senha de fábula. Só uma porta. Como qualquer outra porta. Que pudessem franquear mediante simples rodar da chave na ranhura. Isso e reencontrar o significado de estar em casa. Só isso. Porque a Europa acabara. Pelo menos aquele primeiro mundo compendiado para uso de gerações sucessivas geradoras de novos mundos. ("Para onde foi essa Europa humanista, paladina dos direitos humanos, da democracia e da liberdade?", perguntava, muitos anos antes, aquele Papa argentino que parecia querer salvar a própria Igreja de uma mal escondida conivência com os senhores de um mundo sórdido, vergado ao culto da cupidez e do dinheiro). Perdida a História, nada mais restava do que a Geografia. E, dessa, uma parte ficariam eles a conhecê-la, quase como as palmas das suas mãos. A leste, a norte e a sul, vitórias sucessivas e esmagadoras das forças ditas de Afirmação da Genuinidade Europeia, no Reino Unido, na Alemanha, na Áustria, no Benelux, na Noruega, na Suécia, na Finlândia, na Polónia, nos demais Estados do Báltico e nos do antigo Pacto de Varsóvia, na Grécia, em Itália, haviam ditado o fim da União Europeia. Apenas a oeste, algo de novo: Espanha e Portugal, antigas potências de uma cristandade que não primara pela tolerância, ousavam destoar do coro geral de perseguição a todos quantos recusavam adoptar um catecismo que prescrevia o ódio intransigente ao Outro e propugnava a guerra rácica e civilizacional: um só Homem, uma só Civilização, um só Deus ‒ presumindo-se ser o Homem branco, a Civilização, a fundada por Gregos e Romanos, e Deus, o Javé do Velho Testamento. Os dois Estados ibéricos não tinham esperado pelo desmoronamento da União. Anos antes do desmembramento, exauridos por sucessivas políticas de austeridade, os dirigentes ibéricos haviam decidido inverter o rumo histórico da separação e unir os seus destinos numa confederação que, voltando costas à restante Europa, retomara a sua tradicional vocação atlântica, estabelecendo sólidos laços de natureza económica e política com o seu antigo império colonial, desta vez no respeito pelas soberanias e pelos legítimos interesses de cada Estado. Ora Portugal até era conhecido por ser um país de brandos costumes – dizia-se – e nenhum outro país europeu gozava então de tal fama. Enfim, algum rumo haviam de tomar. Foi, por isso, o caminho da Península Ibérica que eles seguiram, quando, após a vitória da Frente da Afirmação Ocidental, em França, foram expulsos da Administração Pública, das empresas, dos jornais, dos hospitais, das escolas, e escorraçados de terra em terra, nunca mais tendo encontrado um local onde se abrigar e a que pudessem chamar seu. Ironia da História ‒ a cristianíssima Península, em tempos idos, palco das mais bárbaras perseguições religiosas e, em pleno século XX, alfobre de fascismos persistentes, surgia agora, lá longe, como Terra Prometida. Seria, pois, para lá que os seus passos os encaminhariam. Já não esperavam encontrar em França aquela porta de madeira maciça por detrás da qual estariam em casa.
― Ainda falta muito, papá?
― Vês aquela montanha? É a nossa porta.
― Porque dizes que é uma porta, papá? Não vejo porta nenhuma.
― Maneira de falar, Quando estivermos do lado de lá, vamos poder descansar. E tu vais ter amigos. Vais poder brincar com eles.

Muitas vezes se interrogara Marcel sobre um enigma que parecia contraditar todas os ensinamentos da História: como fora possível o seu país, herdeiro do Humanismo, berço das Luzes, palco de uma Revolução libertadora, próspero e acolhedor, soçobrar numa nova Idade das Trevas a que nem o trabalho de monges copistas restituiria alguma claridade? Que terríveis erros teriam sido cometidos por governantes e intelligentsia para que, decénios volvidos, milhões de cidadãos cedessem a impulsos primários, incapazes de os mediar pela ponderação de factores de índole cultural? Certo era que as doutrinas da Afirmação Ocidental haviam vingado como erupção vulcânica numa crosta já fracturada por profundos desequilíbrios sociais, e um vento de intolerância e ódio varrera também a nação daquele a quem se atribui aquela frase um pouco afectada ‒ "Não concordo com o que diz, mas bater-me-ei até à morte para que tenha o direito de o dizer". Comprovando, de resto, a que ponto pode ser suicidário bater-se alguém pela liberdade de quem é dela inimigo e confirmando quão mais sensato era Saint Just, por recusar a liberdade aos inimigos da liberdade. Frases assim e outras não menos grandíloquas, se bem que de sentido diverso, eram glosadas em tertúlias de intelectuais e artistas, em cafés, em clubes e em salas de espectáculo. Quando o mundo, já profundamente marcado pela dominação dos mercados, comandado por centros de decisão alheios ao interesse dos povos, se encaminhava para uma ditadura férrea dos poderosos – ainda assim, em grande parte isenta dos tradicionais meios de coacção, e logo, revestindo a aparência da democracia, ou não estivesse a esmagadora maioria dos cidadãos imbuída das razões desses mesmos poderosos e, por conseguinte, destituída da capacidade de os contestar – escritores e aspirantes a escritor compraziam-se em exercícios narcísicos de auto-análise e de exaltação da sua emotividade. O solipsismo arvora-se em escola literária. A poesia, que lograra transformar a palavra em matéria-prima equivalente ao acorde na música, à pincelada na pintura ou ao mármore na estatuária, sem, contudo, se desligar da realidade envolvente, sucumbe a um egotismo extremado e compraz-se na expressão de engenhosos jogos conceptuais inspirados nas composições do século barroco. A ficção romanesca, por sua vez, reservada à inspiração masculina e divorciada de qualquer preocupação social, torna-se género apologético das proezas sexuais do homem, relegando a mulher para um sistemático papel de objecto cujas qualidades e defeitos são avaliados com a mesma fria objectividade com que se aprecia o sabor e a textura de uma peça de carne à refeição. A ensaística esmera-se na especulação em torno de lugares-comuns, antes de se extinguir. Uma novilíngua eufemística e mistificatória, inspirada num léxico já em vigor nos finais do século XX e início do século XXI, vê a luz do dia, travestindo a realidade. Neologismos ou reorientações de significado de palavras já existentes neutralizam invariavelmente a carga odiosa dos signos originais e promovem a assepsia do discurso, sempre que estão em causa medidas lesivas dos interesses dos cidadãos. Tendo-se generalizado a convicção de que apenas estrangeiros, marginais e psicopatas manifestariam interesse na regulação das relações entre cidadãos numa sociedade organizada, a política é relegada para a condição de matéria latrinária. Obviamente, o exercício do poder pela classe dirigente, invariavelmente oriunda da Frente da Afirmação Ocidental, não é tido por uma prática política, mas antes como cumprimento de uma missão de natureza por assim dizer sanitária: tratava-se de higienizar a sociedade, expurgando-a dos corpos estranhos e potencialmente patogénicos. Médicos sociais ‒ assim se designavam estes novos profissionais incumbidos de prevenir enfermidades e epidemias de natureza ideológica. Contraditoriamente, a linguagem usada na comunicação social para noticiar o que se relacionava com o poder era tudo menos hipoalergénica, ainda que à esmagadora maioria do público leitor assim pudesse parecer. De um modo geral, assistira-se, no primeiro quartel do século XXI, à exacerbação do individualismo e ao desenvolvimento de um niilismo cínico e impante: crescentemente, os cidadãos são ganhos para a ideia de que detêm a verdade e de que todos os outros são ingénuos, padecem de debilidade mental e estão errados. Assim, desdenham de toda a afirmação de ideais, que consideram construções ilusórias do espírito, motivadas por interesses veniais e votadas ao insucesso. Cada cidadão é um ideólogo auto-suficiente, imbuído da sua superioridade de pensamento, que se deleita na contemplação do seu próprio raciocínio.

O pequenito tosse e David não sabe que fazer. Nem ele nem Sara, que carrega outra esperança no seu ventre, enquanto a desesperança a acomete mais acima. Que recorda Sara? O Egeu e Lesbos? Não, antes um Mar que se abre, como portas, de par em par, dando-lhes passagem, a ela e ao seu povo, numa fuga bem mais antiga.

Muitos anos haviam passado sobre os funestos acontecimentos que haviam enlutado os EUA, o Reino Unido, a Espanha, a França, a Bélgica, a Europa e o mundo. Aos atentados nas Torres Gémeas, no metro de Londres, na estação da Atocha, em Paris, em Nice, em Bruxelas e em vários países de África e da Ásia, outros haviam sucedido, vitimando agora quase exclusivamente populações originárias do Magrebe e do Médio Oriente, descendentes das multidões de refugiados que, no segundo decénio do século, haviam aportado às praias da Europa. Os meios de comunicação social ocidentais, aquando dessas primeiras grandes vagas de refugiados oriundos sobretudo da Síria, da Líbia, do Iraque e do Afeganistão, de um modo geral, haviam noticiado o infortúnio daqueles seres desterrados e votados ao acaso de uma fuga de destino incerto manifestando sentimentos de humana compreensão e generosa solidariedade. A imagem de Aylan Kurdi, o menino sírio de três anos de idade encontrado morto numa praia turca, gerara mesmo, em 2015, uma tal maré alta de emoção que chegara a calar por alguns dias os frequentadores das redes sociais que, durante meses, haviam assimilado os refugiados a terroristas islâmicos e apelado ao fecho das fronteiras. Paulatinamente, porém, jornais, rádios, televisões tinham vindo a ceder à pressão ideológica das forças da Afirmação Ocidental, acabando por se tornar máquinas de propaganda desta ideologia e por colaborar com aquelas forças no apelo à rejeição de quem quer que não partilhasse os valores do Ocidente, particularmente nos domínios da religião, da estruturação social e da organização económica. O novo mundo que se construía deveria durar mil anos, diziam. Indo mais longe, apelaram abertamente à ostracização de todos quantos manifestassem qualquer veleidade de resistência ao novo regime que se ia insinuando. Ao fazê-lo, iam de resto ao encontro do sentir mais profundo do cidadão comum, nomeadamente o da classe média, a quem as medidas propugnadas pelas elites dirigentes satisfaziam plenamente os instintos de conservação e de engrandecimento patrimonial, mas também o da maioria dos trabalhadores, conformados com um sistema que tinham por único possível, comprovada a inexistência de alternativas credíveis, ou não tivessem falhado as tentativas de construção de sociedades assentes em ideais igualitários, património ideológico do antigo movimento sindical, agora extinto, e de organizações de esquerda, agora reduzidas a militâncias solitárias e clandestinas. Marcel fora, justamente, jornalista de um desses órgãos de comunicação. Um dos mais prestigiados, mas cujas dificuldades financeiras o haviam conduzido à absorção por um grupo transnacional. Ora, desde os anos vinte do novo século, Marcel distinguira-se. Inconformado com as perversões do regime, assinara regularmente uma coluna em que verberava aquilo a que chamava "paradoxo democrático" – em síntese: a descoroçoante teimosia da maioria dos eleitores em usar a sua liberdade de voto para eleger como seus representantes aqueles que mais não fariam do que condená-los a condições de vida degradantes e, em última análise, privá-los da liberdade. A sua denúncia atingia de igual modo uma imprensa que, sob a capa de uma relativa independência e isenção, lograva a suprema perversão de alienar o juízo crítico do público através da denúncia permanente de actos de corrupção, escândalos financeiros e outras situações, ora claramente ilegais, ora de indisfarçável ilegitimidade. À pletora de informação, que, já desde finais do século XX, transmudara o cidadão em receptor pouco menos do que acrítico, incapaz de seleccionar, de hierarquizar, de valorizar e de caldear com a sua própria sensibilidade a superabundância informativa, sucedera, com efeito, o alheamento afectivo relativamente a comportamentos outrora merecedores de censura social, mas agora volvidos banais e tidos como inerentes à natureza humana – ou não aparecessem em cada noticiário, qual acepipe à hora das refeições. Os mais lúcidos verberaram o paradoxo informacional, enquanto o discurso da Afirmação Ocidental enfatizava sistematicamente a superioridade moral do homem do Ocidente, ser humano por excelência. O próprio discurso laudatório perdera, todavia, a acuidade de outros tempos e gerava a mesma apática reacção que o seu antónimo, focado na denúncia dos escândalos. De facto, a informação perdera o impacto de antanho. Espécie de música verbal, passara a ter uma função meramente encantatória. O apego de Marcel a uma imprensa defensora dos valores da liberdade e da solidariedade acabara por lhe ser fatal. Por isso, aqui estava, à procura de uma porta e do significado de estar em casa. Descrente de Voltaire. Ganho para Saint Just.
A ascensão ao poder da Frente da Afirmação Ocidental, em França, contrariamente ao que se verificara na Alemanha e na Hungria, por exemplo, não se traduzira imediatamente pela imposição de medidas de restrição das liberdades e garantias constitucionais. Pelo contrário, os legitimistas recém-empossados na chefia do Estado e no governo esmeraram-se na prossecução de uma política dita de "legitimação progressiva", que, no essencial, se pautara pela pedagogia da assimilação gradual das comunidades de origem estrangeira e pelo incentivo ao incremento do orgulho nacional nos autóctones, de mistura com a apologia de uma colaboração isenta de preconceitos ideológicos entre trabalhadores e detentores dos meios de produção. O intento de aculturação das comunidades muçulmanas acabou, contudo, por se defrontar com a sua oposição, logo que estas compreenderam que o objectivo final era nada menos do que a sua cristianização. Os motins sucederam-se e a violência atingiu extremos nunca antes verificados. Mas com efeitos contraproducentes para estas comunidades, já que a máscara da moderação caiu e o poder legitimista decretou a demolição de todas as mesquitas e o encerramento dos demais locais de culto islâmico em território nacional.
A campanha denegridora da actividade sindical, com a sistemática condenação das greves, por afectarem, invariavelmente, a normalidade da vida de uns ou de outros, levara, entretanto, à diminuição da capacidade mobilizadora e organizadora da contestação social, que fora apanágio dos sindicatos durante todo o século XX e início do século XXI, e à sua posterior criminalização e extinção. A comoção sentida pelos seguidores de Alá levou-os, ainda assim, a observar uma greve selvagem prolongada e que afectou gravemente a produção nacional. Muitas fábricas não mais recuperaram do abalo sofrido, mas a dureza da repressão e a necessidade de granjear um salário acabaram por repor a máquina produtiva nos seus carris, ainda que numerosos trabalhadores norte-africanos tenham optado por regressar aos países de origem, países estes que haviam, entretanto, enveredado pela via de um desenvolvimento sustentado, inicialmente muito subsidiário das tradicionais fontes energéticas, mas paulatinamente mais alicerçado na investigação científica, postergada que fora a religião a favor de uma racionalidade pautada pelo respeito do outro e caldeada no crisol de emoções solidárias. Cumulativamente, o horário de trabalho, que recuara progressivamente até às 30 horas para a generalidade dos trabalhadores, foi aumentado para quarenta e oito horas, a pretexto da grave estagnação seguida de recessão, nos anos vinte, o que teve como principais e expectáveis efeitos um sem-número de despedimentos colectivos, que apenas agravariam a recessão, e uma quebra brutal da natalidade. Quanto aos franceses refractários à nova ordem, e muito especialmente todos os vinculados a organizações políticas de inspiração anti-reformista, defensores de transformações radicais, a polícia dos costumes, corporação decalcada de antigas polícias políticas, reuniu facilmente provas da sua falta de patriotismo, do seu fraco merecimento e do seu comportamento associal. Tudo somado, o veredicto não deixava dúvidas: o seu lugar não era onde sempre tinham vivido, nem os bens adquiridos graças à magnanimidade da França lhes deveriam ser mantidos. A lei do ostracismo, decalcada sobre a que Clístenes criara no século de Péricles, fora, entretanto, repristinada. Àqueles que se recusaram a acatar os ditames da nova ordem instituída restavam, pois, duas soluções: o exílio ou uma resistência que necessariamente passaria pelo recurso à violência armada. Os mais intrépidos, normalmente jovens sem obrigações familiares, optaram por esta via, reeditando a epopeia do maquis e da guerrilha urbana. A reacção do poder genuinista foi, contudo, de tal prontidão e magnitude que rapidamente os centros urbanos onde a resistência se mostrou mais activa e eficaz foram severamente assolados e os novos maquisards transformados em mártires.
Não foi esta a escolha de Marcel. Optimista toda a vida, ele evoca a predição de Malraux sobre a espiritualidade do século XXI. Definitivamente, o século estava transviado. Privados de tudo, excepto do estrito indispensável para a sobrevivência por algumas semanas, aqui iam, pois. Em busca de uma porta. De uma porta que, uma vez franqueada, lhes desse o significado perdido do que é estar em casa.
Estar em casa tinha sido, para Amena, viver em Alepo, onde nascera, depois em Damasco, onde iniciara os estudos, depois em Paris, onde os concluíra e onde conhecera Marcel. Pelo meio, a chegada dos homens armados, o medo das suas armas, o medo das bandeiras negras, o medo das bombas, a fuga desenfreada no meio dos escombros, Esmirna, a travessia, Lesbos, Idomeni e a fronteira da Macedónia fechada. Idomeni e o frio e a lama. E nunca mais ter uma porta. E nunca mais estar em casa. Até que a França lhes dera guarida. E a vida se fora aos poucos reconstruindo e ganhando um sentido: a escola, Marcel, um apartamento, o trabalho, os dois filhos, mil esperanças bafejadas. E mais de vinte anos tinham passado. "Mais il est bien court, le temps des cerises", trauteia Marcel.
― Estamos quase a chegar. ― De novo, David a mitigar a impaciência do pequeno com o aceno de uma pausa. Uma pausa que, para os adultos, mais não é do que o cumprimento de um ritual vazio de conteúdo: faz-se uma pausa para recobrar forças que falecem para prosseguir viagem e atingir um destino; que sentido faz fazer uma pausa para prosseguir uma viagem sem destino ou de destino muito incerto? Não era o caso de Amena, vinte e tantos anos antes, quando a Turquia, o Egeu e até Idomeni eram etapas consistentes de um trajecto deliberado com fim à vista. Ali, tão perto, era a Europa, terra da liberdade e dos direitos humanos. Por essa altura, ainda não lhe tinham chegado ecos das palavras do Papa sobre o descaminho que a Europa levava. Apenas notícias desgarradas sobre a possibilidade do fecho das fronteiras e sobre um acordo firmado entre a União Europeia e a Turquia que parecia não ser mais do que um contrato de aluguer de campos de concentração fora do território da Europa para onde os refugiados seriam deportados, poupando alguma sensibilidade europeia à reedição dos campos de extermínio e de eventuais pogrons. Ouvira também falar de maus tratos infligidos pela polícia húngara. Havia que evitar a Hungria, cujo primeiro-ministro Orbán declarara que deixar entrar toda a gente seria o fim da Europa. Mas tudo isto não passava de rumores. Em contrapartida, lembrava-se bem daqueles tempos da primeira fuga. Quinze anos e uma cara bonita. Quinze anos e olhos verdes. A ela, no café da vila davam-lhe licença para ir à casa de banho que fazia falta no campo. Menos sorte tinham outras mulheres, obrigadas a esconder-se onde calhava. E agora, aqui ia. Em cacho. Presos todos por gavinhas, não fossem perder-se, que são pedregosos os caminhos da desesperança. Falta pouco? Falta muito? Que sentido?
Há cumes nevados à vista. Talvez não seja preciso ir até lá. E eis que atravessam outra vila, esta não muito afectada pela devastação que atingira alguns centros urbanos e, de um modo geral, as vias de comunicação e toda a paisagem das regiões cuja proximidade a Espanha transformara em santuários dos movimentos de resistência armada ao novo regime. Muitas portas fechadas, mesmo assim, de um comércio que terá já sido florescente e agora esmorece. Eles não vêm ainda andrajosos, porque partiram há só uns dias, mas olham-nos com desprezo. Sabe-se o que são estes bandos de indivíduos de aspecto cuidado, ar de quem leu e estudou, e que por isso julga dever opinar e ter direito a chamar os outros à razão. Esses outros até podem ser aqueles a quem foi confiada a chefia da Nação. Ora, se receberam tal missão e incumbência, a todos cumpre venerá-los e obedecer-lhes sem reserva. («Quem vos mandou serdes orgulhosos? Quem vos mandou pordes os nossos valores, as nossas crenças, as nossas tradições ao mesmo nível dos valores, das crenças e das tradições deles? Pagai agora o preço da vossa altivez para com os vossos, que não fostes altivos para com os seguidores de outros credos.») Não, não valia a pena, agora, nenhum deles ir pedir licença para ir à casa de banho do café da vila.
― Falta muito para chegarmos, papá?
― Estamos quase ― repete David, com o filho às costas, como mochila humana, fazendo por esquecer aquela tosse persistente que o pequeno repete vezes sem conta. E, secretamente, espera bem que sim, que estejam quase.
Mais uma noite se avizinha e em nenhum lugar estarão seguros. Corre a notícia de que membros da Juventude da Afirmação Ocidental se emboscam em locais de passagem e assediam os saltimbancos. Saltimbancos ‒ é o que lhes chamam, ainda que não façam acrobacias, mas porque vão de terra em terra. Pouco importa que seja em busca de uma porta, de uma praça, de uma feira. Não tardará a haver caçadas. Para esta juventude educada a execrar o Outro, os saltimbancos alienaram a alma. São, pois, de uma espécie diferente, ilegítima e impura, que convém sujeitar a humilhações e sevícias. Por isso, estamos quase. Quase a chegar, pouco importa onde, porque caminhar é tudo o que agora dá sentido à vida.
Marcel e Amena, David, Sara e os outros. Todos os outros. Os adultos e os pequenos. São os vilipendiados, os deserdados, os condenados, os perseguidos, os amaldiçoados do momento. A História recenseava os que, antes deles, haviam perdido a vida por se recusarem a acatar a estultícia e a desumanidade – era longo o cortejo e maior o sofrimento, uma presença constante no viver dos homens. E, apesar de não lhe serem estranhos os mecanismos que levavam uns a servir-se de outros para que o cortejo se perpetuasse, Marcel não podia esconder o azedume: a humanidade avançava, avançava, e a cada etapa fazia questão de deixar às gerações seguintes a sua herança de horror e crueldade – testemunho de uma infantilidade e de uma infâmia que a não queriam deixar.
Anoitece. Inútil procurar no povoado uma hospitalidade cujo significado se desvanecera em meia-dúzia de anos. Pelo contrário, é mais avisado prosseguirem, afastarem-se o suficiente para que os percam de vista, não vá aquela gente tomá-los por aquilo a que a Afirmação Ocidental os reduziu - espécimes sem alma de uma espécie impura. Há, porém, aquela tosse do pequeno e a febre que já não quer ceder. Não haverá na aldeia alguém em quem tenha sobrado uma réstia de humanidade? Como vão eles poder continuar com uma criança que se esvai?
Mas eis que um numeroso grupo de homens se aproxima, em marcha silenciosa. Devem ser homens, a julgar pela estatura e largura dos ombros, mas não se lhes vê a cabeça, encafuada numa cogula branca. Distinguem-se, no lusco-fusco, tochas que, decerto, não tardarão a acender, e vestem hábitos de burel, que mais parecem sambenitos. Por cima de tais vestes, cilícios sobrepostos anunciam penitências. Perto da frente, em padiola que seis homens transportam aos ombros, uma estatueta de madeira pintada representa um casal jovem com duas crianças. Todos brancos e loiros. A seus pés, um letreiro proclama "Exaltemos a raça". A exaltação soa a falso, já que, apesar da proibição da interrupção voluntária da gravidez e até do planeamento familiar, a degradação das condições de vida das populações determinara uma quebra substancial da natalidade, tendo a França regressado a valores de há um século. Mais atrás, uma carroça tosca de madeira, que um cavalo branco puxa com afinco. Parecem livros o que transporta. E são. Dezenas de livros, talvez centenas, muitos deles iguais. O cortejo imobiliza-se no largo da vila, ali perto do adro da igreja, e os homens entoam um cântico que se diria inspirado no antigo gregoriano, ao que se segue um troado de matracas. Alguns deles destacam-se dos demais e dirigem-se à carroça dos livros. Apanham alguns e de seguida os atiram para o chão, a dois passos deles. Um dos homens do séquito aproxima-se da pilha com uma vasilha cujo conteúdo derrama sobre os livros. Outro homem, a escassa distância da fogueira, ergue o rosto para o céu, mas mantém os olhos fechados, em atitude de prece, e pronuncia em voz alta umas palavras indistintas. As matracas não cessam de atroar. A noite cai, entretanto, e as tochas são acesas. Um dos homens inclina, então, sobre os livros a tocha que empunha, e uma labareda chameja. O das palavras sai do seu arrebatamento e, enquanto os livros se vão empilhando, começa a ler, em processionário que empunha com ambas as mãos: «Contra a igualização do que sempre foi e será diferente, pela afirmação da superioridade ocidental, atiro ao fogo os escritos de...». Seguem-se nomes de que Marcel e os demais nunca ouviram falar. Trata-se seguramente de escritores ou jornalistas obscuros, da região, da vila, até. Não os querem ouvir Marcel, nem Amena, nem David, nem Sara, nem todos os outros, que recordam com amargura o auto-de-fé da Sorbonne, pouco tempo antes, ele próprio réplica do Bücherverbrennung da Universidade de Berlim, de há cerca de um século, quando Goebbels ordenou que se queimassem mais de 25 mil livros. Na Sorbonne, foi a vez de Sartre, de Aragon, de Beauvoir, de Camus, de Gide, de Anatole France, de Politzer, de Martin du Gard e até, mais uma vez, de Freud, de Marx, de Trotsky, de Thomas Mann, Heinrich Mann, Walter Benjamin, Bertold Brecht, Erich Maria Remarque, Sigmund Freud, Albert Einstein, entre muitos outros que Goebbels já condenara em 1933.
Por isso, retomam a sua caminhada. Não muito longe dali, o bosque oferece-lhes um tecto, e uma nascente generosa convida-os a ficar. Não é ainda uma porta, não, mas já se sentem menos desprotegidos. Tendas montadas e corpos despojados do pó dos caminhos, sacam das mochilas a ração de combate, acendem o lume e aquecem a sopa. Os pequenos correm em volta da fogueira. Correndo, brincam, aquecem-se e esquecem. Folgam com isso os maiores, a quem a alegria contida dos pequenos retira peso dos ombros. De tal maneira que até Marcel se esquece do desfile de horrores que ainda há pouco lhe ocupava o pensamento. Chama pelos outros e fazem desenhos na rocha: crianças que correm em volta da fogueira, de braços erguidos, cantando uma felicidade que ninguém mais entende. Pouco a pouco, a barulhenta e agitada alegria passa a rupestre: já não é vida, mas vai perdurar naqueles traços incipientes e talvez venha a ser inspiração para outras vidas.
― Já chega. Vamos comer, que amanhã saímos com o nascer do dia.
A refeição é frugal, mas o caldo quente não aquece só o corpo. E são horas do descanso.
― Conta-me uma história, papá ―. Marcel esquece o cansaço que o consome.
― Era uma vez uma menina que nasceu em Alepo...
― Essa é a história da mamã. Já ma contaste tantas vezes...
― Tens razão, Françoise. Então, vou contar-te uma que não conheces. É a história do menino que apagava as fronteiras.
― O que são fronteiras, papá?
― Fronteiras são muros que separam uns países dos outros e que não deixam as pessoas juntar-se livremente. Quando não há muros, há guardas que não deixam ninguém passar.
― Porque é que não deixam passar?
― Espera, Françoise. Já vais ver... Era uma vez um menino que vivia num país longínquo, com fronteiras bem guardadas. Chamavam a esse país a Felicilândia, porque, diziam, era o país mais bonito e perfeito da Terra e onde todos eram felizes. Tão felizes que não imaginavam sequer poder haver pessoas infelizes ou menos felizes do que eles. E a fronteira servia mesmo para evitar que pessoas dos países vizinhos viessem perturbar a felicidade dos Felicilandeses, com as suas dificuldades e queixas. Ora, o nosso menino vivia perto duma dessas fronteiras. Certo dia, andando a brincar lá perto, viu que os guardas se tinham afastado o suficiente para que ele pudesse aproximar-se e ver o que se passava do lado de lá. E foi o que fez. Para seu espanto, viu então que, no país ao lado, também havia prados e jardins, mas o verde dos prados parecia crestado pelo sol e aos jardins faltava o colorido que na Felicilândia fazia deles paletas de pintor; também havia fontes e lagos, só que a água que brotava das fontes e que nos lagos reflectia o céu não tinha a frescura cristalina da que ele conhecia da Felicilândia; e havia aves e flores, rebanhos chocalheiros e gente como ele, embora tudo parecesse mais soturno. Aproximou-se mais. Viu meninos que brincavam, e percebeu que estes meninos viviam em casas que também eram diferentes das que ele sempre conhecera, como se o Sol as desprezasse, e que tinham roupas pouco cuidadas, e que lhes faltava, à mesa, o pão e o leite que ele, às vezes, desdenhava.
Pela primeira vez na sua vida, o menino sentiu-se triste, a tal ponto que descobriu a palavra "infelicidade": se a felicidade era estar alegre e em paz com a vida, a vida daqueles meninos tristes e pobres só podia ser a infelicidade. E o menino achou que não estava certo haver meninos felizes, como ele, e outros infelizes. E sentiu-se infeliz também, apesar de viver num país onde os prados eram verdes, os jardins coloridos, a água das fontes e dos lagos fresca e cintilante, enfim, onde tudo era harmonia e as pessoas eram felizes. Por muito que quisesse, não conseguia esquecer-se do que tinha visto e voltar a sentir-se feliz. Até porque não percebia como era possível um menino ser feliz, quando outros meninos tão perto de si, apesar daquela fronteira, eram infelizes.
Perdido nos seus pensamentos, o menino nem deu pela passagem do tempo, e era muito o que já tinha passado. Havia que regressar a casa, e agora é que as coisas se complicavam, porque os guardas fronteiriços decerto iam querer saber o que ele andava a fazer por ali. Valeu-lhe a inteligência e a sorte: escondeu-se algum tempo numa moita e, de cada vez que os guardas davam meia-volta e marchavam para o lado oposto ao seu, ele corria para a moita mais próxima, até se encontrar longe da vista deles.
Em casa, os pais estavam um pouco inquietos com a demora do menino, mas sabiam que ele gostava tanto de brincar que até se esquecia de comer. Eram muito compreensivos, os pais do menino. Gostavam muito dele, como acontecia com todos os pais da Felicilândia, e queriam que ele fosse sempre feliz, por isso limitaram-se a dizer-lhe que devia ter cuidado, quando brincava, e prometeram dar-lhe um relógio, para ele se lembrar das horas. Jantaram e o menino foi-se deitar e sonhou. Sonhou que tinha umas asas que lhe permitiam voar sobre as fronteiras da Felicilândia e sobrevoar os países à volta. Agora, lá do alto, via as fronteiras de maneira mais nítida: eram umas linhas desenhadas a lápis, que tão depressa seguiam a direito como voltavam para a direita e para a esquerda. Ora o menino não tinha só asas; tinha também uma borracha enorme que até lhe dificultava o voo. Uma borracha?! Sem hesitar um segundo, o menino desatou a apagar todas aquelas linhas sinuosas desenhadas a lápis que não deixavam que os meninos se juntassem e brincassem todos juntos. Foi uma noite feliz.
― Olha, Amena, já dorme. Ficou sem conhecer o fim da história.
― Porquê? Não acaba assim?
― Oh! Achas que um menino sozinho podia acabar com as fronteiras?
― Nas histórias, tudo é possível. Mas conta-me lá o resto, que também fiquei com curiosidade.
― Não estás cansada?
― Prometo não adormecer.
― Então, é assim: No dia seguinte, depois do pequeno-almoço com os pais, o menino foi de novo brincar para os lados onde estivera na véspera. Sentia-se um pouco estranho, como se não tivesse acordado completamente do sonho bonito daquela noite, e esperava já não ver guardas e poder ir ter livremente com os meninos do outro lado do que tinha sido a fronteira. Mas não. Lá estavam os guardas, e dessa vez nem sequer se afastaram para que ele pudesse repetir a proeza do dia anterior. O menino percebeu que as fronteiras não desaparecem só porque se teve um sonho. Porém, era um menino pertinaz: tinha de encontrar uma maneira de acabar com aquelas divisões.
Muito tempo passou. O menino foi crescendo e foi conversando com muitos outros meninos – meninos e meninas, evidentemente – a quem contou o seu sonho. E todos eles acharam que era um sonho bonito. Tão bonito que todos eles passaram também a sonhar que tinham asas e que essas asas lhes permitiam voar sobre as fronteiras. E que tinham uma borracha enorme, com a qual não paravam de apagar linhas desenhadas a lápis, linhas que não deixavam os meninos de todos os países encontrar-se e brincar juntos. E que tinham também lápis e pincéis, com os quais podiam desenhar sorrisos nos lábios dos meninos tristes e dar cores garridas aos jardins e às casas do país ao lado. E todos aqueles meninos e meninas cresceram. Todos eles se fizeram homens e mulheres. Porém, não deixaram de ter sonhos de meninos e meninas, ao crescerem. Continuaram a sonhar com um mundo sem separações, onde todos pudessem viver como irmãos e partilhar a mesma felicidade. Mas se eram muitos e sonhavam todos com esse mundo sem divisões, que esperavam eles para usar a borracha? Foi assim que decidiram juntar-se e avançar para as fronteiras da Felicilândia. Formavam um grupo tão grande e tão compacto que, ao chegarem, os guardas depressa perceberam que de nada lhes serviria usar as armas que tinham. Por isso, resolveram, e bem, juntar-se à multidão. De qualquer maneira, eles também já não sabiam por que razão haviam de impedir as pessoas de estar umas com as outras.
E assim foi possível, graças a um sonho partilhado por muitos meninos e meninas que se fizeram homens e mulheres, acabar com as fronteiras que separam e fazer de muitos países diferentes e inimigos um só país, onde todos foram iguais e felizes.
― Ao menos, nos teus contos, nunca há lobos maus, nem madrastas ciumentas, nem bruxas malfazejas.
― Mas tu queres que ela adormeça ou que tenha pesadelos?!
― Quero sair deste pesadelo que nos tira o sono a todos. O teu Ícaro humanitário é que nos podia tirar deste labirinto.
― Talvez a minha história não seja assim tão fantasiosa. Quantas vezes a humanidade não se tem já tirado de embaraço com asas de cera.
― É, mas eu é que julgava ter-me livrado do Minotauro para sempre.
Marcel anui. Era, de facto, como se sempre um rei Minos espiasse a vida dos homens para lhes impor provação atrás de provação. E nenhuma Ariadne se vislumbrava com um novelo de fio.
― Eu nunca sei se um conto bonito nos ajuda a suportar a realidade ou se a torna ainda mais feia ― conclui Amena.
Françoise dorme. Talvez sonhe com uma borracha mágica. As outras crianças dormem, alguns adultos também. Embala-os o cansaço da caminhada. Os pés doridos guardam-lhes a lembrança do piso pedregoso. Sonharão com uma porta?
― Em que pensas, Amena?
Amena não pensa, apenas permite que a ideia de um deus piedoso proceda como os meninos do conto e lhe apague uma angústia tão pedregosa quanto os caminhos da fuga. E até Marcel se condói. Não, não era altura para lhe censurar a afeição à fé. Longe iam os tempos em que a arreliava com a afirmação de um ateísmo arreigado e combativo: a religião, dizia, era analgésica, relaxante, indutora do sono, mas sobretudo paliativa, sendo certo que, se ajudava a viver, também contribuía, e de que maneira, para a reprodução das injustiças, instilando o perdão de ofensas indesculpáveis e pregando a resignação. E havia que a tomar com moderação, não fosse a habituação diminuir a eficácia da droga. Mas, agora, estava o sarcasmo fora de questão. Se a crença a ajudava a suportar aquele tormento, tanto melhor. Não era esse refrigério, afinal, o que se ia buscar à farmácia? A ele, eram outras as convicções que o amparavam. Acreditava que um sonho partilhado por muitos podia ser uma força imparável. No dia seguinte, iam chegar à fronteira que as borrachas ainda não tinham apagado. Que pareciam até desenhadas não a lápis, mas a tinta, e que iriam perdurar por muito tempo mais.
Já todos dormem. Até a fadiga os embala, e mesmo a tosse do filho de David parece cansada da longa jornada. Porém, também no sono, insidiosa, brota a dor da caminhada. Por isso, aqui e além, um despertar amargurado busca quietação na serenidade nocturna. Até que um grito a dilacera e uma voz a sentença reedita:
― Ide-vos, que manchais a pureza desta terra com a vossa presença espúria. Ide-vos, que comprometeis a ressurreição da genuinidade pátria com a vossa ilegitimidade.
Já ninguém dorme, nem sonha. A Juventude quer divertimento. Apenas isso, para já, que a barbárie ainda hesita. Mais logo, os jovens genuinistas deixarão os saltimbancos naquela paz precária que a noite ainda assegura e que lhes permitirá retomar o sono. E o sonho de uma porta.

Estoi, Julho de 2016

(Publicado pela Lua de Marfim, em edição colectiva intitulada Fronteiras Humanas, de Setembro de 2016)

 

SEXTO SENTIDO

Entre o embate e o tilintar dos vidros ao caírem no pavimento decorrera um segundo, talvez, e a surpresa refreou-lhe o palavrão habitualmente desencadeado pelo erro, pela imprudência ou, simplesmente, pelo que não lhe corria de feição. Na verdade, era mais palavrita do que palavrão. Ainda assim, uma exclamação imprópria para salão e única que lhe ocorria quando se tratava de exprimir alguma irritação.

Já alguns transeuntes se demoravam, embasbacados, a ponderar a extensão dos estragos e o comportamento das partes envolvidas, F. cortou a ignição, abriu a porta do carro e encontrou-se frente a frente com a condutora do veículo atingido. As apresentações estavam feitas: condutor A, o percutor; condutora B, a percutida. Não ia haver discussão nem regateio pela repartição de responsabilidades. Era óbvio que a lacuna no elenco lhe desviara a atenção e não se apercebera de que os carros que o precediam haviam estacado. Minha senhora, as minhas desculpas. Como é evidente, assumo toda a responsabilidade. E pronto. Ela, muito simpática. Dir-se-ia prestes a suplicar perdão por ter sido abalroada. Como se a eventual falta do embate determinasse incumprimento de agenda. O que o obrigava a multiplicar os pedidos de desculpa. Muito calmo, ele, desde a manhã desse dia. Sentia também que tudo o que o rodeava tinha um aspecto ligeiramente diferente do habitual. Pensando melhor, parecia-lhe que via as coisas de modo diferente, não por elas se terem modificado, mas sim porque os seus olhos já não eram os mesmos. O mundo não tinha mudado, só os instrumentos de observação do mundo. Em todo o caso, naquela ocorrência, o que os seus olhos tinham visto eram vidros partidos e chapa amolgada no carro que o precedia, logo, não havia que duvidar das aparências – era ele o culpado. O que o tranquilizava. Nada mais indesejável do que envolver-se numa contenda dialéctica tendente a minimizar a sua parte de responsabilidade, quando é sabido que o veículo que segue atrás deve manter uma distância de segurança em relação ao que o precede. Resolveram encostar, de forma a não dificultar o trânsito. Era preciso preencher a declaração amigável. Ou talvez não. Ia-se ponderar. Ali, mesmo ao pé, aquele barzinho acolhedor. Ele tira um desdobrável do porta-luvas e introdu-lo num portefólio que retira do banco traseiro. Entram e sentam-se.

Ao longo da parede do bar, corre um banco estofado, de napa cor de vinho. Mesinhas baixas pontuam o espaço próximo do banco e, à volta de cada mesa, dois ou três pufes da mesma cor. A empregada tem feições perfeitíssimas e uma maquilhagem que a sua juventude dispensaria.
— Há sempre tão pouca gente a esta hora?
— Os clientes habituais começam a chegar mais tarde — responde.
A condutora abalroada: — É a primeira vez que aqui vem?
E a empregada: — Quer com muito gelo?
— Não, só uma pedra. É. De facto, nunca tinha surgido a oportunidade.
Ele aproxima-se dela. Abre o portefólio. Há, lá dentro, um opúsculo, folhas manuscritas e o desdobrável da declaração amigável. Estão tão perto e tão sós que se justificaria um pequeno cumprimento feito de um Boa tarde apenas ciciado e de sorrisos discretos. De resto, a circunstância do choque não lhes permitira sequer um cumprimento. O seu pedido de desculpas tinha ditado uma sequência dialogada marcada pelo pragmatismo. Mas o sorriso. O sorriso abre-se-lhe no rosto de grande regularidade e irradia felicidade, como é costume dizer-se. É um sorriso como uma anuência hesitante ou convite receoso. Mais ou menos isto: Gostava de te tocar, gostava que me tocasses; dou muita importância ao toque, mas é cedo, respeitemos as conveniências, saibamos dar tempo ao tempo. Ele sente a inconveniência do que vai congeminando: atribuir à sua vítima, por muito simpática que seja, o desejo de que ele a toque, quando lhe tinha desastradamente tocado minutos antes, é de manifesto mau gosto. Porém, os olhos dela, brilhantes, parecem compartilhar da ousada prudência do sorriso, e o decote, generoso, deixa adivinhar-lhe as rolas em que Cesário espeta o ramalhete rubro das papoulas. O decote generoso.

Quase se tinha esquecido da falha de memória matinal e agora inquieta-se novamente. O facto é que, para além de nomes, esquecera o que fizera na véspera. Era a primeira vez que sentia a memória atraiçoá-lo de maneira tão consistente. Uma ou outra vez, esquecer-se de um pormenor, de uma tarefa, de um compromisso, até, era coisa com que não se ralava, mas aquilo parecia-lhe sério. Pensou, então, se não seria do cansaço. Noites seguidas, poucas horas dormidas de um sono mau. Sonhara? Não se lembrava, mas um travo acre embebia-lhe uma recordação vaga de coisas más.

A condutora percutida, ali, perto dele, era um sonho bom. Voltou a relanceá-la, quando ela própria o fazia, e os olhares de ambos cruzaram-se. Sorrisos reeditados. Mulher interessante, pensou, o que o fez lembrar-se do Querubim, no Casamento de Fígaro, que encenara uns anos antes. Quem lhe dera a inventiva de Beaumarchais, a sua verve. Teria ele na vida a eloquência que se via no teatro? – "Tu sais trop bien, méchante, que je n'ose pas oser".

― "Cartas ridículas... suspiros líricos..." ?!
— É. Vou encenar umas cartas do Pessoa* .
Sorriso de um, sorriso do outro.
— Ah, é encenador? Que coincidência, eu sou actriz.
― Não é possível; eu havia de a conhecer.
― Sabe, na realidade, sou uma aspirante a actriz. A nossa troupe vem do tempo da faculdade, mas anda à deriva.
Aquelas troupes vindas do tempo da faculdade. Quantos sonhos, quantas ilusões, quanta ingenuidade. Porém, ouve-a dissertar sobre Stanislavski, Lee Strasberg, o Actors Studio.
São cinco da tarde, como no poema de Lorca. Movimento intenso na rua. Esforça-se por se lembrar do que poderia ter acontecido para estar ali sentado, àquela hora, junto de uma desconhecida que disserta sobre teatro. De facto, não vê razão plausível para isso e até se sente constrangido. Mas ela não pára: depois de Artaud e Brecht, detém-se em João Mota e enfatiza o aplomb de Luís Vicente. Mulher interessante. Lembrava-se agora de que lhe faltava uma Ofélia convincente.

(Conto publicado, em edição colectiva, pela Lua de Marfim, em Outubro de 2016)

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* Texto de Paulo Moreira levado à cena pela ACTA.

ATITUDES

Não era a primeira vez que acontecia. Eu chegava, aproximava-me, ficava a curtíssima distância dela, talvez um metro ou até menos, e nada. Como se não existisse, como se fosse invisível. Absoluta indiferença. Alheamento total. Nem, ao menos, um breve esboço de displicência.


Não esconderei a humilhação que experimentava. Não que eu entenda ser merecedor de particular deferência ou de tratamento diferente do que é dado a qualquer vulgar cidadão sem valimento ou atributo que o distinga dos demais. Não, não é isso. Quem me conhece sabe que não me tenho na conta de alguém cujo mérito justifique a veneração dos concidadãos. Antes pelo contrário, tenho até uma lúcida e pungente percepção das minhas limitações e fraquezas. Mas, que diabo, por muito humilde que se seja, o facto é que atitudes de ostensivo desprezo mordem tanto quanto dentuça de mastim.


Por isso mesmo, não me ficava. Perante aquela insensibilidade esfíngica, eu gesticulava, punha-me na ponta dos pés, afastava-me, como que na esperança de que a desistência provocasse nela alguma pena desencadeadora de reconhecimento, e, depois, reaproximava-me, quase com acinte, enchendo o peito de ar, numa bravata afadistada. Mas quê. Total e absoluto alheamento. Nem o mais reles sinal de ter, enfim, dado por mim. Como se eu fosse espectro, sem massa, sem consistência, incolor e inodoro, existência virtual.


Desta vez, cansado daquele comportamento reiterado, resolvi, finalmente, lançar mão de expediente radical: pedir o livro de reclamações. Um funcionário ia a entrar. Dirigi-me a ele. Com certeza, é só esperar um minutinho. Entretanto, garantimos-lhe que não voltará a acontecer, pois vamos imediatamente tomar as medidas que se impõem. Mas que coisa estranha; ela sempre teve um comportamento absolutamente normal, sempre desempenhou cabalmente as funções que lhe foram cometidas. Aliás, foi condição expressamente consignada para que a aceitássemos ao nosso serviço e patati e patatá. A conversa habitual, sempre que se pede o livro de reclamações. Insisti. Insisti, mas confesso que começava a sentir a humilhação amolecer. Já não era bem mordidela de canídeo, seria mais uma moinha ligeira algures entre o cerebelo e o hipotálamo. Além do mais, também me custava causar embaraço a gente que não queria mais do que ganhar o seu pão quotidiano. Caminhei, de novo, para ela. Tomara a firme resolução de lhe conceder uma derradeira oportunidade, ciente de que, afinal, somos sempre nós mais a nossa circunstância, e inclinado ao perdão. Como reagiria ela, agora que eu me dirigira ao funcionário? Pois bem, reconheceu-me. Recebeu-me de braços abertos. E, quando o funcionário me deu o livro de reclamações, redigi um elogio enternecido daquela porta automática.

ANTIGUIDADES

Conhecemo-nos numa loja de antiguidades. Estávamos ambos num expositor. Eu achei-a logo bonita; ela achou-me não sei que graça.
– Vamos já embora daqui, antes que algum coleccionador nos separe, disse ela.
– ‘bora lá, disse eu.
E foi assim que ambos saímos do estojo, defraudando expectativas do mercado, porém, em benefício de um comércio tão mais justo e gratificante e com uma mais-valia que repartimos irmãmente.

A DAMA DA LUZ, de José Estêvão Cruz – história e ficção na foz do Guadiana

A Dama da Luz, J. Estêvão Cruz.jpg

O prometido é devido. A anunciada trilogia iniciada por José Estêvão Cruz, em 2016, com Águas Vivas do Levante, tem, desde Outubro último, um segundo tomo, A Dama da Luz, cognome atribuído à personagem central destas narrativas pelas gentes de Castro Marim.

Um oportuno capítulo 0 condensa o essencial da acção do primeiro romance, que decorre por ocasião do grande terramoto de Lisboa, e abre caminho à sequela. Está-se agora em 1760 e, em cinco anos, os heróis da história deram provas sobejas do seu empreendedorismo no ramo das pescas e das salinas. Mariana, a Dama da Luz, não só se afirma como engenhosa mulher de negócios como soma essa característica à de visionária no domínio das relações sociais e de produção. Com efeito, o seu conhecimento das ideias que o Iluminismo difundia na Europa da segunda metade do século XVIII (conhecimento que deve aos ensinamentos do seu professor Alberto Cluny) leva-a a antever o declínio da nobreza e a progressiva ascensão da burguesia, bem como a imprescindibilidade de uma acrescida participação dos camponeses e assalariados nos benefícios resultantes da sua actividade. A Revolução Industrial está no seu limiar e a Revolução Francesa não vem muito longe.

Um dos aspectos que mais sobrelevam nas narrativas de José Estêvão Cruz é a soma de conhecimentos que o autor revela em relação às épocas em que decorre a acção dos seus romances. Por outro lado, o autor logra a imbricação estrutural do diálogo das personagens com o discurso daquela a quem cabe a função de narrar, podendo-se, contudo, suscitar a seguinte dúvida: aquelas das falas das personagens que funcionam como veículo (extenso) para a passagem de informação de carácter histórico não poderiam, numa perspectiva de aligeiramento do processo narrativo, passar para o discurso do narrador, deixando às outras personagens a função de agir?

Como de costume, o estilo de José Estêvão Cruz é marcadamente despojado e alheio a grandes preocupações formais, o que não obsta à ocorrência pontual da metáfora, do animismo, da adjectivação expressiva. Uma observação, porém: a linguagem emprestada às personagens parece-nos pecar, algumas vezes, por um certo anacronismo, isto é, um desencontro entre o tempo da acção (século XVIII) e aquele em que verosimilmente certos vocábulos e expressões terão começado a circular na comunicação verbal (provavelmente, no século XX). A título de exemplo, atente-se nos seguintes passos do capítulo 19:
• “[…] tenho receio duma deriva autoritária pouco consentânea com os nossos ideais.” (p. 168)
• “Formulação curiosa […]” (p. 168)
• “[…] medidas reais que se podem tornar paradigma.” (p. 169)

Se é verdade que o Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa, de José Pedro Machado, atribui a Morais (isto é, ao Dicionário da Língua Portuguesa, de António Morais Silva) a confirmação da entrada de “paradigma” e de “formular” na nossa língua, no século XVIII, ao leitor crítico tais “formulações” não deixam de causar alguma estranheza. Terão elas entrado tão rapidamente na comunicação corrente?

Noutro plano de apreciação, no diálogo entre Mariana e o metediço juiz de Castro Marim (capítulo 03), a indagação deste último afigura-se algo inverosímil, de tal modo é intensiva, indiscreta e inconveniente. Se, em tribunal, nada parece obstar a que o juiz interrogue o arguido como bem entende e o dispa de títulos e atributos, numa circunstância de relacionamento social tal comportamento roça a petulância.

Enfim, e para não desistir de malfadada propensão professoral, uma palavra de censura para a notória falta de revisão do texto. A ocorrência de algumas disfunções morfossintácticas ou lexicais tende a introduzir um ruído que o leitor – embalado por uma história digna de ser lida sem perturbação – dispensaria. A este respeito, o leitor crítico em questão, que tem por hábito fazer da leitura um exercício de esquadrinhamento apoiado no dicionário, na gramática, eventualmente numa obra teórica da Literatura e, sobretudo, no lápis (instrumento de eleição para quem deseje inventariar e classificar rapidamente tudo aquilo que, por qualquer razão, lhe foi chamando a atenção durante a leitura de uma obra) poderá oferecer uma breve relação ao autor* .

Por falar em leitor crítico, o crítico é um leitor – um leitor crítico. Enquanto leitor, coisa que o crítico é, obviamente, antes de mais, ele experimenta diferentes sentimentos desencadeados pela leitura – encanto, deslumbramento, desgosto, aversão –, mas não os verbaliza ou, se o faz, fá-lo de modo incipiente e despreocupado. Quando decide organizar as suas impressões de leitura, de forma a dar-lhes a coerência que se espera de um discurso consistente e fundamentado (nomeadamente, em conceitos próprios das ciências da linguagem e da criação literária), assume a sua dimensão propriamente crítica, que não é a de corrector, supervisor ou árbitro, mas antes a de apreciador ou ajuizador dotado das faculdades subjectivas de qualquer leitor e de um determinado conjunto de conhecimentos que o crisol da investigação estruturou e legitimou. O seu juízo é, por isso, o de um leitor que permanentemente se confronta e às suas impressões de leitura com múltiplas experiências de leitura de leitores reflexivos. E esse juízo não aspira à natureza sentenciosa do anátema ou da consagração; ele é apenas a formulação (tão rigorosa quanto disso for capaz o crítico) de uma apreciação baseada em sentimentos subjectivos e em noções objectivadas pelo estudo.

Dito isto, o leitor crítico aguarda com muito interesse e fundada expectativa o terceiro volume da trilogia de José Estêvão Cruz.

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* Por oferecimentos deste jaez já o leitor crítico se viu vilipendiado ou ostracizado, o que não lhe serviu de escarmento.

SAÚDE PARA... POLÍTICOS, de Brasão Costa

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É este o título (com o subtítulo "Para uma Política de Saúde) do opúsculo que Eduardo Brasão Costa, médico ortopedista com 40 anos de carreira hospitalar, edita e em que profusamente fundamenta a necessidade de uma reforma do SNS e do seu mais amplo conhecimento, sob pena de o perdermos.
 

Na sua Introdução, o A. recenseia os ataques de que o sistema de saúde tem sido alvo por sucessivos governos que, invariavelmente, implementaram políticas tendentes a transferir para o negócio privado competências e financiamentos que caberiam ao serviço público, na boa lógica do neoliberalismo, que tudo faz para sugar recursos de todos e transformá-los em lucros chorudos de alguns.
 

Sendo certo que, durante anos, “o SNS atingiu níveis de excelência técnica e assistencial, com um baixo ratio custo-benefício, um caso de estudo no mundo ocidental”, como explicar tal êxito, num contexto em que os recursos eram parcos? O A. dá a esta sua pergunta uma resposta clara: “Quem viu nascer e ajudou a erguer o SNS original sabe que o seu ‘sucesso’ esteve sempre ligado ao desenvolvimento da prática médica e ao respeito que as políticas de Abril nutriam pelas profissões ligadas às ciências médicas”. O “entrosamento funcional no exercício das competências profissionais entre médicos e enfermeiros” e a “relação de aprendizagem genuína entre jovens médicos e enfermeiros, estudantes de Medicina e os profissionais sénior de várias profissões e competências” foram tais que se “criou um SNS ‘estranhamente’ económico e de grande qualidade”. A ironia introduzida pelo advérbio anuncia a denúncia da jogada da social-democracia neoliberal instalada no poder, que cedo afastou os administradores de carreira para colocar nas administrações hospitalares os seus homens de mão.
 

O imperativo que se coloca hoje àqueles que inequivocamente propugnam a defesa do serviço nacional de saúde é “a consignação de uma ética médica comum a todos os profissionais e a todas as metas e objectivos do sistema”, ética essa que deve “estender-se à utilização interprofissional das três ferramentas básicas da prática médica”, a saber: a relação médico-doente, o controlo da modularidade do sistema de saúde e a formação contínua”. Ora, segundo o A., o Partido Comunista Português, que tem sido, desde sempre, um incontestável arauto de um serviço de saúde universal, geral e gratuito, e que é autor de vários Projectos de Leis de Bases da Saúde, usa um “dialecto” seguramente “padronizado e exigente na definição de directivas políticas macroestruturais”, mas depara-se com dificuldades de mobilização dos profissionais. Porquê? Por um lado, são difíceis de gizar e de priorizar as reformas concretas para uma reforma do SNS; por outro lado, os profissionais estão de tal modo assoberbados de tarefas e sacrifícios em prol dos seus doentes que, paradoxalmente, não logram politizar as agressões a que são sujeitos. Razão sobeja para que se “reconheça a necessidade de proteger e semear as três ferramentas da prática clínica, não só como forma de reabilitar a profissão médica e as suas carreiras, mas como modo de reorganizar o padrão assistencial das especialidades e de reformular a modularidade sectorial e interprofissional do SNS.”
 

Se o título da brochura sugere que o texto tem como destinatários preferenciais os políticos, e, em particular, os militantes e dirigentes do Partido Comunista Português, entendidos como agentes privilegiados das iniciativas legislativas, entre outras, susceptíveis de vivificar o SNS e de o reconduzir à pureza da sua matriz primordial, a mensagem de Brasão Costa é clara quanto à necessidade de a bandeira do SNS ser empunhada e brandida por todos os cidadãos, ou não fôssemos todos, em última análise, seus utentes.

O POEMA TRISTE DE DEUS, de Fernando Cabrita, ou A LUCIDEZ DO PADRE ETERNO


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"O Padre Eterno não está velho, está morto. Morto e enterrado. Para que vais tu, poeta, reabrir o sepulcro fechado há séculos […]?” Desta pedrada foi alvo Guerra Junqueiro que, no prefácio à 2.ª edição de A Velhice do Padre Eterno, responde: “Morreu o Padre Eterno? Não. Apesar de contar seis mil anos de idade e de ter já feito, à cautela, dois Testamentos, esse velho Sr. Deus dos Exércitos está ainda muito bem disposto a enterrar-nos a nós todos e aos nossos descendentes, durante esta meia dúzia de séculos mais chegados […]” (1). É de supor que Fernando Cabrita comunga da mesma opinião, e tem razão, porque esta criação humana tem mais fôlegos do que os sete do gato. O nosso apego à fantasia e a tendência para a diluição de fronteiras entre o sonho e a realidade deve vir já do erectus, se não mesmo do habilis, e o sapiens não descartou a herança. Daí, a importância de reabrir o sepulcro e de malhar no defunto. Sem dó nem piedade.

Feita a observação, passemos ao “poema triste”. Não é um carvalho este deus desconhecido que Fernando Cabrita nos dá a conhecer numa edição bilingue (castelhano e português) da Asociación Cultural GARVM. E também não é aquele com que o jacobinismo do poeta de Freixo de Espada à Cinta acirrou o debate religioso nos finais do século XIX, ainda que lhe possamos encontrar uma ou outra afinidade. O deus deste poema, menos triste do que o autor nos quer fazer crer, está tão próximo das suas criaturas que o ateu mais empedernido não desdenharia com ele travar um debate de ideias ou até convidá-lo para jantar. Mas entremos no pormenor.
O “Poema Zero” dá o mote e serve de aviso à navegação: o que aí vem é pouco menos do que impróprio para leitores desprevenidos, sobretudo aqueles que mantêm o hábito do santo sacrifício da missa, e iria concitar o fogo e a fúria do Tribunal do Santo Ofício, se o Marquês o não tivesse devidamente encaminhado para o Index.

Transcrevo:

Da solidão de deus.
E disse deus: meu deus, meu deus, meu deus!
Quem abraçarei no Inverno?
A que ouvido sussurrarei poemas tontos de amor?
A que pés deporei des perles de pluie
venues d’un pays où il ne pleut pas?
A quem, meu deus, a quem cantarei ne me quitte pas?

Poema de um deus solitário e como que ressabiado (“Raios partam a eternidade e quem nela ande!”, p. 52), este poema revela-nos, sem embargo, um deus honesto e detentor de uma notável capacidade autocrítica. Se o seu vocabulário, pontualmente, descamba para um registo mais próprio daquele que conhecemos em varinas, marçanos, carroceiros e outros profissionais habitualmente referenciados como hábeis propaladores de impropérios e interjeições que as gramáticas escolares não recenseiam, isso deve-se apenas ao facto de este deus levar a sua honestidade ao ponto de partilhar com as suas criaturas os sociolectos que o livre arbítrio lhes permitiu criarem. A título de exemplo:

“Naquele tempo disse deus, pousando os halteres:
Não me aborreçam nem me peçam parábolas ou
sentenças do alto.
Estou muito cansado;
e doem-me os abdominais.
e os glúteos.
É mais fácil a um rico entrar no reino dos céus
que a um deus
fazer 100 estiramentos nesta merda do GAP.
Puta que pariu o tipo que inventou a coisa…” (p. 24)

Mas não se pense que este deus tão nosso semelhante (perdoe-me, leitor educado, tão abusiva e ofensiva generalização) debita permanentemente considerações de teor tão rasteiro, ou não fossem das partes baixas os músculos citados. Não. Fernando Cabrita não faria a tão sublime e transcendente personagem a injustiça de lhe atribuir um léxico tão retintamente vicentino e preocupações de ordem tão egoisticamente material. Pelo contrário, o Criador de que o autor nos dá vibrante testemunho apresenta-se-nos supinamente consciente da sua condição de humilde criatura, que não de criador, e superlativamente lúcido das suas imperfeições e lacunas, alguém tão capaz de se entregar aos pequenos prazeres da vida como cada um dos seus criadores terrestres e tão crítico dos seus acríticos seguidores que pede meças ao humanista de Roterdão e a todos os que a este último seguiram as pisadas não só já na denúncia da vacuidade dos teólogos, mas potenciando-as ainda na apologética do ateísmo. Atente-se nestes excertos:

“A minha vida é muito sossegada.
Também passo muitos dias no café do Mike,
a olhar as vastas planícies do céu,
[…]
A verdade é que em muitos dias acordo
com um mau sabor na boca,
um ácido fremente de dias e anos desperdiçados
a moldar Mundos,
e sinto entre os dentes vestígios de planetas
que ficaram por criar,
e por vezes digo coisas sem sentido,
talvez porque ainda esteja mal desperto
ponho-me à janela dos céus e proclamo,
enquanto me espreguiço.
Toda a nudez será castigada!
Não cobiçarás a mulher do próximo!,
e sinto que cada palavra vem de mim com
o rugir de uma roda dentada,
e em verdade vos digo que no meu particular
paraíso existe
um fidelíssimo sistema de som que amplifica
cada frase, cada sentença.
[…]” (pp. 8 e 10)

Não. Definitivamente. Este deus até manda pôr a mesa às lagartas e cobrir a Terra “de um verde verde até mais não” (p. 18), porque “ainda que nada do que [conheçamos] permaneça […] sempre a primavera retornará, incólume e serena” (p. 20) “e nunca pensará ela que há outro deus que não o / seu rumor de abelhas / e o seu marulhar de arroios. / E nunca falará em nome de qualquer deus / que não no seu próprio nome / transitório e terno (2) . Nunca falará em outro nome que não esse.” (p. 22) Um deus assim é um deus que vai connosco à bola; por outras palavras, é um deus que recusa a mistificação da sobrenaturalidade e que manda a metafísica às urtigas. E, porque se humaniza, ganha o direito ao nosso convívio.

É verdade que ele se confessa orgulhoso “e vaidoso, pois como não. / E contente e agradecido, evidentemente, / por que [lhe atribuamos nós outros], criadores da [sua] divina criatura, / que seja [ele] o autor do mundo e das regras que o / conformam […]” (p. 58). Fugaz contentamento, contudo, logo a seguir contrariado pela lucidez divina: “cada passo que dais na descoberta do mundo / é uma ruga na minha face a cavar-se, / e uma ideia de deus que se desvanece, / e uma oração a menos nos lábios de alguém. […] Esse que fui, agigantado e duro, / imprevisível e cru, / borbulha hoje nestas pipetas e nestas lamelas.” (pp. 62 e 64) Até que “um dia [talvez depois de volvida a tal meia dúzia de séculos mais chegados] vós todos percebereis quem é a Criatura. / E quem é o Criador.” Tamanha lucidez, tamanho desprendimento, tamanha honradez quase nos levam a crer que Deus existe.

*

Outro poema integra o volume: “Porque se apagaram as luzes”. Se o primeiro é “poema triste”, este poderia o autor tê-lo adjectivado de “deslumbrado”: “Porque se apagaram as luzes / apenas porque se apagaram as luzes num frágil instante do Tempo, / o meu espírito deslumbrou-se para sempre” (p. 94). De facto, no primeiro, é Deus quem profere um discurso laudatório do percurso trilhado pelo Homem num mundo admirável, mas este outro constitui um hino panteísta à grandiosidade do Universo e à aventura humana. O qualificativo de “panteísta” (até o recurso à prosopopeia – p. ex., na pág. 88, “as esferas distraídas” – dá alguma legitimidade ao adjectivo) deve, aqui, ser entendido numa acepção arreligiosa, ou, melhor dizendo e evitando a aparente contradição, como sinónimo de imenso respeito pelo mundo que habitamos e pela extraordinária pegada cultural que de nós faz émulos daquele Deus.

É um apagão banal com a duração de alguns minutos, ocorrido a 29 de Janeiro de 2018, que devolve ao poeta “o céu da [sua] infância […]”, mas “também o céu de todas as infâncias / incluindo a infância do mundo” (p. 70). Porque se apagaram as luzes, foi possível voltar a ver a Luz, a Luz maiúscula, aquela que ilumina o percurso do homem na Terra, pretexto para uma revisitação/inventário da cultura humana, espelho da harmonia universal.

A riqueza lexical e a multiplicidade das referências culturais conferem ao poema a feição de uma oração de sapiência. Com efeito, Fernando Cabrita verbaliza poeticamente a emoção que sempre suscita no homem culto a grandiosidade da aventura humana e a comunhão com os seus semelhantes: “Como, pergunta-me de dentro a alma inquietada, / como puderam esses navegadores antigos / dispersar o mar?” (p. 86)

Sentimento de comunhão profunda com o homem colectivo de sempre e de todos os lugares, “espíritos limítrofes do que é divino, / aventureiros do Futuro” (p. 96), o que acaba por nos remeter para uma forma de religiosidade, entendida em sentido etimológico de ligação ao Outro, um Outro que nos transcende na medida em que se define pela totalidade da espécie: “Convosco sou um desses anónimos marinheiros / de Cortez abismados de imenso quando nos picos de Darian.” (p. 106). O deus de F. C. é a Humanidade, tópico da sua poesia, já bem patente em O Livro da Casa (3) .

Esta imperfeita recensão incorreria em imperdoável erro se omitisse uma referência de carácter político: a iluminação pública que, ao apagar-se, permite ver “claramente […] o que jamais / poderíamos ver” (p. 76) tem neste poema a carga simbólica de uma sociedade assente na ganância, no lucro, na escravidão, na agiotagem, na usura. Por isso, apagando-se, permite ver “tudo o que se obtém pelo sonho / e pela simples observação dos montes e das águas, / tudo o que se não obtém pela ganância, / pelo lucro, pela escravidão, / tudo o que se não obtém pela agiotagem” (p. 80). De resto, “ninguém veio da usura […] e nenhum lintel de ouro nos dá o destino que sonhávamos / tão pouco a formidável emoção cósmica de uma lua plena / e a surpresa de um cometa audaz” (p. 82). A incompatibilidade entre os mundos do sonho e do belo, por um lado, do dinheiro, por outro, fica, assim, claramente expressa. Bem como a aspiração do poeta a esse mundo belo, de sonho, de comunhão fraterna entre homens iguais. Como diz a bela epígrafe de Mário Quintana que encima o poema,


Se as coisas são inatingíveis… ora!
Não é motivo para não querê-las…
Que tristes os caminhos, se não fora
A presença distante das estrelas!

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1. Guerra Junqueiro, A Velhice do Padre Eterno, Livros de Bolso Europa-América, pp. 19 e 24
2. O tradutor espanhol traduziu “terno” por “terrenal” (terreno). Creio que o fez criteriosamente, corrigindo provável lapso.
3. https://tambemdeesquerda.blogs.sapo.pt/o-livro-da-casa-de-fernando-cabrita-um-68440