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Também de esquerda

Espaço destinado a reflexões (geralmente) inspiradas na actualidade e na Literatura.

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Porque comi o meu pai

“ – Mais de quoi parles-tu? demandai-je, quand je pus placer un mot.

– De balistique, dit père en toute simplicité. (…) »

Roy Lewis, Pourquoi j’ai mangé mon père

 

 

É este o sugestivo título do pequeno romance de Roy Lewis que acabei de ler, há dias. Para ser mais exacto, já que o li na tradução francesa de Vercors (autor da novela Le Silence de la Mer, durante anos de leitura obrigatória no ensino secundário), o seu título é Pourquoi j’ai mangé mon père. E, já que estou em maré de títulos, muito menos sugestivo é o título no original, em inglês – The Evolution Man –, ainda que nos remeta directamente para o cerne da questão.

 

Porque o “tema” deste romance é efectivamente o homem nas suas origens (pitecantropo, homem-macaco) e os esforços que faz na via da hominização. Longe do registo do ensaio de antropologia, o texto assenta todo na anacronia e na ironia. Anacronia que consiste em atribuir a estes nossos antepassados uma capacidade discursiva que nada fica a dever à de um nosso contemporâneo escolarizado e com aproveitamento, com múltiplas referências a disciplinas e áreas de conhecimento que só viriam a surgir muitos milénios mais tarde, e uma psicologia quase em tudo semelhante à do homem moderno. Como não podia deixar de ser, a ironia chispa a cada passo, do desencontro entre esta utensilagem mental nossa coeva, por um lado, e, por outro, o aspecto das personagens, o seu enquadramento natural e suas condições de vida (as cavernas, os predadores, as tentativas de domesticação do fogo,…).

 

As peripécias da acção prendem-se sobretudo com as tentativas de domesticação do fogo, que frequentemente redundam em incêndios devastadores susceptíveis de pôr em risco a vida de toda a horda, com as relações conflituosas que os candidatos a homens mantêm com outras espécies animais de que se alimentam – à medida que, de vegetarianos arborícolas evoluem para omnívoros –, ou cujas cavernas disputam, como acontece com os ursos trogloditas, e finalmente com as contingências da exogamia, que o pai, Eduardo, impõe aos seus filhos machos.

 

É que Eduardo é um pitecantropo cheio de curiosidade intelectual e com saudades do futuro. Ele sabe, de presciência, para o fogo, como para a lança de madeira endurecida ao fogo, como para cada uma das descobertas que vai fazendo, que “as possibilidades são prodigiosas”.

 

O reaccionário tio Vânia, Velho do Restelo avant la lettre, sempre a gritar Back to the trees!, bem lhe aconselha prudência – que os perigos, não ainda do mar ignoto, mas do fogo incontrolável, são muitos. Os filhos e noras, porém, são quem acabará por mandá-lo para o “outro mundo”, “esse terreno de caça que visitamos em sonho”, onde Eduardo não deixará de ter sonhos felizes. Mas esta morte, afinal, não é mais do que a simbólica morte do pai que permitirá o pleno desenvolvimento do filho, numa perspectiva psicanalítica, ou a dialéctica substituição do velho pelo novo, condição e imanência de todo o progresso.

 

Não sei se este livrinho é conhecido nas nossas escolas, mas acho que seria um óptimo auxiliar de aprendizagem para os estudantes de antropologia.

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