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Também de esquerda

Espaço destinado a reflexões (geralmente) inspiradas na actualidade e na Literatura.

Também de esquerda

Espaço destinado a reflexões (geralmente) inspiradas na actualidade e na Literatura.

Palin e o divino

 A inenarrável Sarah Palin (inenarrável porque não se sabe por que ponta se lhe pegar) discursou na convenção nacional do “Tea Party” – uma espécie de baile de máscaras de alguns dos mais lídimos representantes da intelligentsia americana – pela módica quantia de cem mil dólares.
 
A ilustre assistência, compreendia um pouco de tudo – desde os que reclamavam a substituição, nos tribunais, dos códigos legais pelos Dez Mandamentos, aos que denunciavam a “ameaça da imigração”. Houve mesmo quem defendesse a realização de testes de literacia e civismo pelos potenciais eleitores. Quem chumbasse, não poderia exercer o direito de voto. Supõe-se que a sugestão não foi sufragada pelos participantes na convenção, já que seria contraproducente. Quantos deles teriam êxito no exame?
 
Porém, são as declarações de Palin, seguramente, as mais inspiradoras desta ínclita geração de militantes políticos americanos. Ela considera que o Tea Party é “o futuro da política americana” e que “a América está pronta para outra revolução”. Acrescentou, muito aplaudida sempre, que “se formos espertos /os Norte-Americanos, claro/, voltamos a pedir a intervenção divina para podermos voltar a ser prósperos e seguros.”
 
Felizmente para todos nós /Norte-Americanos e restantes habitantes da Terra/, não são. Caso o fossem, lá teríamos uma revolução abençoada por Deus.
 
Apetece pedir que a em-Palen.

Singularidades de uma rapariga loira

A bem dizer, não são singularidades, que coisas destas estão sempre a acontecer e, portanto, com mais propriedade lhes chamaríamos pluralidades. Mas a senhora é loira e usa tranças. É primeira-ministra e democrata. Pró-ocidental – passe a redundância.

Segundo o director adjunto do Instituto Americano na Ucrânia, James George Jatras, personalidade que, sendo americana e director de um Instituto Americano, dificilmente poderá ser acusada de antipatia pró-ocidental, “mesmo quem prefere Timochenko a Ianukovich suspeita que ela se prepara para usar todos os meios ao seu alcance para produzir uma contagem de votos que a ponha a uma distância à justa do rival. Depois resta-lhe denunciar fraudes e instigar à sublevação popular”.

Como se vê, a receita não podia ser mais democrata: ela própria “produz uma contagem de votos”, depois “denuncia fraudes”, que só por má-fé lhe poderão ser imputadas – ou não será ela democrata e pró-ocidental? – e “instiga à sublevação popular”.

Já o muito menos democrata e pró-ocidental Ianukovich, “vilão das fraudes presidenciais de 2004”, e afastado do poder pela ‘Revolução Laranja’ – essa magnífica revolução acontecida num tempo em que tanta gente dava tal espécie como definitivamente extinta à superfície do planeta –“avisou de viva voz que se recusa a trabalhar com a rival e que porá em marcha”… – uma coluna militar? Não! – os seus apoiantes devidamente armados? Não! – “conversações para formar um novo executivo, assim que saia vencedor das presidenciais”.

Temos, assim, – recapitulando – uma senhora loira, de tranças, primeira-ministra, democrata e pró-ocidental, que instiga à sublevação popular porque os resultados eleitorais são favoráveis ao adversário, cujo, por sua vez, não é loiro, não usa tranças, não é democrata nem pró-ocidental, mas, em contrapartida, ameaça pôr em marcha… conversações, o que, como bem sabemos, é veneno letal e ácido corrosivo dos alicerces da democracia, já para não falarmos da civilização ocidental.

Resta-nos esperar por uma intervenção humanitária da NATO, que salve o Capuchinho Laranja das garras do Lobo Mau e reponha a legalidade democrática na terra mártir da Ucrânia.
 
 
Obs.: citações de passos do artigo “Iulia tem nas mãos o destino da Ucrânia”, Público de domingo, 7.