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Eu andava, desde há dias, amargurado. Primeiro, tinha sido a Ministra do Trabalho, ex-sindicalista da UGT, a referir-se às 18000 ofertas de trabalho por preencher nos Centros de Emprego quando, simultaneamente, temos para cima de meio milhão de desempregados (na realidade, mais de 700 mil). Depois, há dois ou três dias, uma reportagem de um canal de televisão mostrava donos de quintas - não me lembro onde - dispostos a empregar caseiros que aceitassem cultivar-lhes as propriedades, recebendo em troca habitação e boa parte das colheitas. Queixavam-se de que não aparecia ninguém interessado, apesar das dificuldades de que tanta gente se queixa.
A minha amargura ia já ao ponto de encarar a hipótese de aderir ao CDS - partido que sempre verbera a malandragem que ganha balúrdios em rendimento mínimo de inserção sem mexer numa palha - ou mesmo ao PS - partido que, segundo o Engenheiro Cravinho, recebe lições de esquerda do CDS e que, por conseguinte, me parece estar actualmente mais bem posicionado para congregar as vontades e os esforços de quantos se empenham na salvação da pátria das garras dos abutres que a levam à ruína, quais sejam os beneficiários do rendimento de inserção, do subsídio de desemprego e outros que tais.
Só que, quando a tristeza me invade, sentindo-me terminantemente incapaz de cantar o fado, opto por um motor de pesquisa de questões laborais, sociais e outras que tais, cujo se chama Avante! Ora o que o Avante! desta semana diz, citando a CGTP, é que "três quartos das ofertas existentes nos Centros de Emprego (75%) correspondem a trabalhos precários e em regime temporário», onde se incluem as tais «18 mil ofertas de trabalho», na sua maioria esmagadora publicadas por agências de trabalho temporário." E depois? - retorquir-se-á. Depois, acontece que a remuneração desses empregos é da ordem do salário mínimo (475€), quando o valor médio do subsídio de desemprego é de 520€, e, pior ainda, "são empregos precários (maioritariamente trabalhos temporários ou a termo certo, pelo que aceitá-los e perdê-los de seguida é ficar no desemprego e sem subsídio) e acarretam o «preço da reincidência», ou seja, ao aceitar-se um emprego de valor inferior ao anterior, isso terá consequências na situação de desemprego seguinte, que passa a ser subsidiada com uma percentagem menor, calculada sobre o último salário."
Resumindo: um desempregado que aceite uma destas irrecusáveis ofertas de trabalho, não morrendo do mal - apesar de tudo -, pode muito bem vir a morrer da cura. O que, aliás, parece ser o objectivo da desregulamentação (mais uma) que o Governo da Dr.ª André quer, neste domínio, promover através do PEC.
Ah! Quanto à reportagem das quintas, devo acrescentar, em abono da verdade, que, logo a seguir, o Presidente da Junta - creio - explicava que era necessário prever a atribuição de uma verba a quem se dispusesse a ir trabalhar para as tais quintas, uma vez que as colheitas não ocorrem no dia seguinte ao da sementeira e, entretanto, o caseiro e família teriam de comer.
A minha amargura lá se desvaneceu. E lá perdeu o CDS um potencial militante.
Esta, também adaptada para o blogue, é sobre um aspecto ainda hoje controverso da escrita de Saramago.
A dada altura do Manual de Pintura e Caligrafia, o escritor transcreve uma página do Robinson Crusoé, de Daniel Defoe, esclarecendo de seguida: "Outras vezes tenho copiado textos desde que comecei a escrever, e por diferentes razões, para apoiar um dito meu, para opor, ou porque não seria capaz de dizer melhor. Agora o fiz para adestrar a mão, como se estivesse a copiar um quadro. Transcrevendo, copiando, aprendo a contar uma vida, de mais na primeira pessoa, e tento compreender, desta maneira, a arte de romper o véu que são as palavras e de dispor as luzes que as palavras são."
Sugestões ao leitor (virtual e improvável) com propensão para a criação literária:
1. Experimente copiar e imitar Saramago. É provável que esse treino o conduza rapidamente ao fascínio de uma escrita surpreendentemente produtiva.
2. Antes disso, porém, leia o excerto seguinte do seu romance Ensaio sobre a Cegueira e a "correcção" que foi feita à pontuação característica do escritor.
3. Verifique que a pontuação de Saramago faz com que o texto original se leia de forma mais fluente, mais corredia, e até mais rápida.
4. Se dispuser de um texto seu, de preferência dialogado, tente pontuá-lo à maneira de José Saramago.
5. Repita a experiência logo que se sinta inspirado para escrever. Verá que a sua escrita será mais produtiva.
Excerto de Ensaio sobre a Cegueira
Contra o costume, os corredores estavam desimpedidos, em geral não era assim, quando se saía das camaratas não se fazia mais que tropeçar, esbarrar e cair, os agredidos praguejavam, largavam palavrões grosseiros, os agressores respondiam no mesmo tom, porém ninguém dava importância, uma pessoa tem de desabafar de qualquer maneira, mormente se está cego. À frente deles havia um rumor de passos e de vozes, deviam de ser os emissários doutra camarata que iam à mesma obrigação. Que situação a nossa, senhor doutor, disse o primeiro cego, já não nos bastava estarmos cegos, viemos cair nas garras de uns cegos ladrões, até parece sina minha, primeiro foi o do carro, agora estes que roubam a comida, e ainda por cima de pistola, A diferença é essa, a arma, Mas os cartuchos não duram sempre, Nada dura sempre, contudo, neste caso, talvez fosse de desejar que sim, Porquê, Se os cartuchos vierem a acabar, será porque alguém os disparou, e nós já temos mortos de sobra, Estamos numa situação insustentável, É insustentável desde que aqui entrámos, e apesar disso vamo-nos aguentando, O senhor doutor é optimista, Optimista não sou, mas não posso imaginar nada pior do que o que estamos a viver, Pois eu estou desconfiado de que não há limites para o mau, para o mal, Talvez tenha razão, disse o médico, e depois, como se estivesse a falar consigo mesmo, Alguma coisa vai ter de suceder aqui, conclusão esta que comporta uma certa contradição, ou há afinal algo pior do que isto, ou daqui para diante tudo vai melhorar, ainda que pela amostra o não pareça.
Ensaio Sobre a Cegueira, p.144
Excerto "corrigido"
Contra o costume, os corredores estavam desimpedidos. Em geral, não era assim. Quando se saía das camaratas, não se fazia mais que tropeçar, esbarrar e cair. Os agredidos praguejavam, largavam palavrões grosseiros; os agressores respondiam no mesmo tom. Porém, ninguém dava importância. Uma pessoa tem de desabafar de qualquer maneira, mormente se está cego. À frente deles, havia um rumor de passos e de vozes. Deviam de ser os emissários doutra camarata, que iam à mesma obrigação.
- Que situação a nossa, senhor doutor, disse. o primeiro cego. Já não nos bastava estarmos cegos, viemos cair nas garras de uns cegos ladrões. Até parece sina minha. Primeiro, foi o do carro, agora, estes, que roubam a comida, e ainda por cima de pistola.
- A diferença é essa, a arma.
- Mas os cartuchos não duram sempre.
- Nada dura sempre. Contudo, neste caso, talvez fosse de desejar que sim.
- Porquê? - Se os cartuchos vierem a acabar, será porque alguém os disparou, e nós já temos mortos de sobra.
- Estamos numa situação insustentável!
- É insustentável desde que aqui entrámos, e apesar disso vamo-nos aguentando.
- O senhor doutor é optimista...
- Optimista não sou, mas não posso imaginar nada pior do que o que estamos a viver.
- Pois eu estou desconfiado de que não há limites para o mau, para o mal.
- Talvez tenha razão, disse o médico.
E depois, como se estivesse a falar consigo mesmo:
«Alguma coisa vai ter de suceder aqui», conclusão esta que comporta uma certa contradição - ou há afinal algo pior do que isto, ou daqui para diante tudo vai melhorar, ainda que pela amostra o não pareça.
Foi no Jornal das 13 da SIC. Hoje. Era no Japão, onde, segundo o pivot, só um em cada 5 licenciados consegue emprego. Uma caterva de jovens com o canudo, vestidos a rigor, entra numa grande sala onde se vai desenrolar a cerimónia. No púlpito, está o director, que discursa. A dada altura, os jovens que acabam de ser recrutados juram fidelidade à empresa e cantam o hino (o hino da empresa – que não o hino nacional japonês). Depois, para amenizar, fazem uns exercícios de relaxamento e sorriem. Sorriem muito. Devem mostrar-se gratos e felizes. Neste admirável mundo novo, ter um emprego é uma dádiva desses seres maravilhosos que são os chefes das grandes empresas.
Há cerca de vinte anos, Mia Couto, grande escritor de língua portuguesa, estreou-se numa nova maneira de falar – ou "falinventar" – português, que continua a ser o seu ex-libris. O texto “Perguntas à língua portuguesa”, que publicou em 1997 e que transcrevo mais abaixo, dá algumas pistas quanto aos processos de subversão ou de reinvenção da nossa língua, ou seja, quanto ao “falinventar” do escritor moçambicano. No escassíssimo estudo que segue e que não passa da adaptação para o blogue de uma ficha de trabalho que usei há anos num atelier de escrita criativa, debruçar-me-ei apenas sobre alguns aspectos lexicais, deixando de lado a sintaxe, e, obviamente – atenta a escassez do corpus de análise (duas páginas de uma crónica) – sem nenhuma pretensão de exaustividade.“Infracção” cometida | ||
Na prefixação | Na sufixação | Na aglutinação |
subfície imover-se | longear(-se) rodilhar | imagináutica |
“Pois. Vivemos nesta apagada e vil tristeza a que nos condenaram os arautos do neoliberalismo; o pensamento único venceu, para já, a batalha ideológica; (quase) toda a gente pensa que não há volta a dar-lhe; admite-se sem tugir nem mugir que a História chegou ao fim; dá-se por certo que esta globalização é o supra-sumo da civilização; penaliza-se eleitoralmente o partido (de direita ou dito de esquerda) que acaba de nos lesar e vota-se alegremente no partido (dito de esquerda ou de direita) que nos lesou anteriormente (mas quem se lembra disso?!), enquanto aguardamos pela próxima oportunidade de votarmos naqueles que desta vez penalizámos. Entretanto, o PDE (Partido Dito de Esquerda) faz a mesma política que o PD (Partido de Direita), quando não ainda mais à direita, e os arautos do pensamento único vêm dizer-nos que a distinção entre direita e esquerda já não faz sentido hoje em dia. É um pouco como se os ladrões se fizessem apelidar de Homens Honestos e, na sequência disso, nos puséssemos a dizer que já não faz sentido distinguir a honestidade da desonestidade. No meio de toda esta balbúrdia promíscua a que se convencionou chamar Estado de direito democrático, que um ministro da justiça (minúscula) empregue a filha no ministério, ou que um (anterior) ministro dos Negócios Estrangeiros (convém que os negócios, nacionais ou estrangeiros, sejam sempre maiúsculos) negoceie a entrada da filha na Universidade, são minudências em que não devemos deter-nos. Aliás, são mesmo insignificâncias, quando muito indiciadoras de critérios morais discutíveis, pois os verdadeiros vícios do regime e do sistema, que fazem com que milhões sofram para que milhares gozem, são outros – estruturais –, e àqueles que os denunciam o pensamento único chama de utópicos (sinónimo de lunáticos, ou mesmo de parvos, no léxico dos cavalheiros). Até quando isto vai durar, ninguém sabe. Mas a História é useira e vezeira em surpreender-nos. Quando isso acontecer, os mais surpresos vão seguramente ser aqueles que a dizem chegada ao fim.”
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Tartufo
por wilber.elsalvador
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eis senão quando Miguel Pais do Amaral, ex-patrão da TVI, vem declarar, com frontalidade, limpidez e cristalinidade capazes de fazerem inveja a Ignacio Ramonet, para já não dizer ao Avante!, que “o accionista não decide quem se deve entrevistar, mas decide o posicionamento [editorial] e o jornalista tem de interpretar. Se não está contente, vai para outro sítio.” (Público de hoje). Mesmo para quem nunca foi na cantiga da comunicação social livre, independente e blablá, sabe bem ouvir, por uma vez, da boca de um patrão, que quem manda é o Capital – e o jornalista, se não obedece, vai para a rua.
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s que o tempo vai obliterando. Por exemplo, que a intimidade entre esta grande família e o fascismo ia ao ponto de Ricardo Espírito Santo, avô de Ricardo Salgado, se encontrar com Salazar ao domingo à noite, para com ele conversar sobre temas económicos e empresariais, e que a família tinha “ligações” aos nazis. Mais interessante, talvez, e sobretudo mais actual é o conteúdo do infograma das páginas 4 e 5, cujo título é “Os amigos e ex-colaboradores do Grupo Espírito Santo com ligações à actividade política”. Aí aparecem, quais astros menores, em torno da estrela de primeira grandeza que é Ricardo Salgado – Ângelo Correia, Manuel Pinho, Nuno Vasconcellos, António Mexia, Durão Barroso e Freitas do Amaral. O infograma tem a vantagem didáctica de tornar ainda mais evidente a enorme permeabilidade das esferas dos poderes político e económico. Independentemente do partido a que pertencem (PSD, PS ou CDS), estas personagens transitam de um poder para outro e deste outro para o primeiro com a mesma facilidade com que um prestidigitador nos leva a ver apenas aquilo que ele quer que vejamos. E é também como ilusionistas que conseguem criar a ilusão de que os governos que integram, em alternância com os conselhos de administração das grandes empresas e dos bancos, são instâncias vocacionadas para a prossecução do bem comum. Como se eles não soubessem, ainda melhor do que Marx, que tais governos não passam de meros conselhos de administração dos interesses da burguesia.
O meu banco é muito meu amigo. Tão amigo que, há uns tempos, começou a tratar-me por dono. Passei a ser dono do meu banco – facto que devolveu ao possessivo sua inteira propriedade. É bem certo que nunca dei por nenhum aumento dos meus rendimentos mensais, nem passei a ser consultado no momento da tomada de decisões em operações financeiras. Também não beneficiei de nenhum desagravamento do spread que me é cobrado pelo crédito à habitação. Mas, pronto, passei da condição de simples cliente, igual a milhares de outros, a dono. O que não é despiciendo. No mundo em que vivemos, os estatutos sociais são, em grande medida, determinados pela gravata ou pelo título que os nossos concidadãos nos outorgam. Ora, passar de uma condição a outra – na ocorrência, a de banqueiro – de um dia para o outro, sem ao menos um curto tirocínio que me fosse paulatinamente induzindo a pensar e agir de acordo com a minha novel condição, causou-me aquilo a que comummente chamamos problemas de consciência. É que, reconhecendo a utilidade dos bancos para as operações mais comezinhas do dia-a-dia e a sua centralidade na nossa economia, nunca nutri particular simpatia pela actividade em apreço, que até tendia a identificar com a simples agiotagem, pelo menos desde que Gil Vicente me deu a conhecer a figura do onzeneiro, que o Mestre, sem apelo nem agravo, recambia para o inferno, juntamente com frades e fidalgos. Isto para já não falar de uma série de outras leituras posteriores ainda mais demolidoras do bom nome e honradez da banca do que as Barcas vicentinas. E, assim, sentia-me um ingrato. Porém, reconsiderei e cheguei à conclusão que encima este meu desabafo: o meu banco é muito meu amigo. Aliás, bastaria escrutinar a caderneta que contém todos os movimentos da minha conta para logo inferir, sem margem para dúvidas, que o meu banco é, ademais, o meu maior confidente. Ele sabe exactissimamente quanto eu arrecado e quanto eu desembolso (valores muito próximos entre si, como acontece com a grande maioria dos portugueses) todos os meses do ano. Mais do que isso, sabe, tintim por tintim, o destino que dou aos magros cabedais que me destinam: supermercados, carregamentos do telemóvel, abastecimentos de combustível, energia eléctrica, comunicações telefónicas, ADSL, farmácias, livrarias, seguros, próteses oftalmológicas, auto-estradas, etc., etc., etc. A caderneta é uma espécie de GPS que regista todas as minhas andanças. Poderá ser o meu álibi, se algum dia a Judiciária suspeitar de mim.