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Também de esquerda

Espaço destinado a reflexões (geralmente) inspiradas na actualidade e na Literatura.

Também de esquerda

Espaço destinado a reflexões (geralmente) inspiradas na actualidade e na Literatura.

Passos Coelho e o amuleto

            Há mais de quarenta anos que não uso gravata. Durante todo esse tempo, aconteceu-me, uma ou outra vez, quando ia tirar fotografias tipo passe para o B.I., por exemplo, levar uma gravata no bolso, que atava ao pescoço diante do fotógrafo. Um homem com gravata é outra coisa; fica logo uns 23% mais convincente, que a gravata é um precioso valor acrescentado.

            Lembrei-me disto a propósito de Passos Coelho que, segundo consta, deambula agora, eleitoralmente, de crucifixo na algibeira. Como eu, com a gravata, parece que só de lá o tira em circunstâncias especiais, quais sejam posar para a câmara de televisão. Se fica mais ou menos convincente do que um homem sem gravata, não sei, mas é pena que não leve o fervor religioso um pouco mais longe, dispondo-se a fazer-se crucificar, como é costume nas Filipinas, assim expiando os seus pecados. Haviam de ver-me, então, fazer de Pilatos: daí lavava as minhas mãos, sem deixar, obviamente, de amnistiar Barrabás.

            Por muito que me condoa com o sofrimento alheio, não me é dado comungar com cristãos que, em matéria de milagres, não logram mais do que a multiplicação da pobreza ou a transformação do vinho em água, e cujo reino (deste mundo) assenta na infelicidade do próximo. Apesar disso, na ocorrência (refiro-me à crucificação), não lhe faltaria com o sudário nem lhe negaria uma sede de água (aquela mesma que ele quer privatizar). Infelizmente, receio que os cortes no orçamento da Saúde inviabilizassem as manobras de ressuscitação, por falta de desfibrilhadores.

            Amém.

SER DE ESQUERDA

 Transcrevo do facebook:

 

"Partilho a parte final de um belo texto que recebi esta madrugada do meu querido e sábio amigo Galopim de Carvalho: "Perante esta realidade o único voto desejável é o que afaste do poder os que, com base na mentira, nos têm conduzido neste lamentável caminho. E esse voto, no momento que estamos a viver, em que as esquerdas não se entendem, e para pôr fim a esta infelicidade só pode ser o voto no PS. O meu voto sempre foi à esquerda deste partido, onde militam cidadãos que muito respeito a par de outros que “não tanto assim” e que têm responsabilidades na situação que tanto nos aflige. Como cidadão independente, liberto de fidelidades aos aparelhos partidários, disciplina que sempre rejeitei, vou votar no António Costa, que conheço bem e que reputo de Homem generoso, de palavra e de muita competência para o cargo de Primeiro Ministro nos tempos que se avizinham e que, como todos sabemos, continuarão a ser difíceis mas que desejamos sejam respeitadores da dignidade dos portugueses." Obrigada por mais esta lição de cidadania, Professor!" Helena Roseta

 

 

O que está em causa no dia 4 não é o carácter de António Costa, pessoa que considero estimável e por quem nutro simpatia. Em causa está a opção política de António Costa, que é a do prosseguimento das políticas de direita, sob a capa, enganosa, de uma sigla de esquerda, conforme nos tem mostrado a história da democracia portuguesa. Não duvido que António Costa acredite sinceramente estar no caminho certo, contudo, suspeito que Passos Coelho e Paulo Portas não estão menos convencidos da sua verdade. As verdades são sempre relativas. Pela minha parte, afiro a validade da minha pela observação do que se passou e passa em Portugal e no mundo desde que me conheço. E o que vejo não é propriamente glorioso, sendo que a diversidade cromática da realidade nunca afectou a existência de duas cores fundamentais, o preto e o branco ( a evidência de que uns exploram e outros são explorados, de que uns fomentam a guerra e outros dela fogem, de que uns sofrem e outros gozam as delícias da existência). Infelizmente, o PS não está vocacionado para acabar com este estado de coisas. O Professor Galopim de Carvalho, pessoa que não conheço pessoalmente mas que muito prezo, tem, certamente, presente o "filme" dos últimos 39 anos, feito de sequências ininterruptas de alternância no poder do PS e do PSD, umas vezes sozinhos, outras vezes coligados entre eles ou com o CDS (incluindo uma coligação PS/CDS). Inútil tentar apagar esta história. Por isso, faço minhas as palavras do Professor, mas altero-lhes o sentido: "o único voto desejável é o que afaste do poder os que, com base na mentira, nos têm conduzido neste lamentável caminho." Esse voto só pode estar à esquerda do PS, pelo menos enquanto o PS não entender o que é ser de esquerda.

Fernando Martins