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Também de esquerda

Espaço destinado a reflexões (geralmente) inspiradas na actualidade e na Literatura.

Também de esquerda

Espaço destinado a reflexões (geralmente) inspiradas na actualidade e na Literatura.

A CULPA É DO MARCELO?

(Comentário a um post do Eldad Mario Neto, no Facebook)
 
Desculpem lá, mas acho que estão a simplificar. Não duvido da influência do Marcelo, o que é naturalíssimo: ele faz tudo o que pode para assegurar a sobrevivência do regime democrático-liberal. Que seria de esperar? Que ele contribuísse para levar o país rumo ao socialismo?

 

 Ora, aqui é que está o ponto: aqueles que se reclamam do socialismo ou de uma social-democracia que, hoje, perdeu qualquer espécie de credibilidade, tal é a sua promíscua relação com a economia de casino e com o poder económico-financeiro, borrifaram-se, como diria o candidato A. J. Seguro, para os princípios que outrora diziam defender, que consagraram na CRP e que o Mário Soares meteu na gaveta, que fechou à chave, deitando-a fora (a chave), como reza a anedota. Mas isto não é surpresa: é apenas mais do mesmo.

 

 Vou dizer-vos: neste particularíssimo particular, acho que o Coiso, fascista-mor do reino, tem toda a razão – PS, PSD, CDS, BE, Livre, PAN, IL – é tudo farinha do mesmo saco, embora cada um com seus aditivos específicos, sendo que a IL é apenas uma versão bem vestida do destravamento chegano, capaz de nos pôr a todos num elevador da Glória. O que eles querem é que tudo fique como está, isto é, que aquilo que o Sérgio Godinho define como "liberdade a sério", nunca passe da cantiga para a realidade. É que essa passagem de nível só um Partido maiúsculo a assume com clareza nos seus princípios, nos seus documentos, nas suas tomadas de posição, na sua acção, dentro dos limites que a legalidade constitucional impõe, sob pena de lhe acontecer o que tem acontecido em certos países, outrora "satélites da URSS" (…), onde esses Partidos maiúsculos foram interditados.

 

Claro que o partido do Coiso, minúsculo nos princípios aberrantes, anacrónicos e contranatura, tem um discurso que contraria a litania social-democrata ou neoliberal (adjectivação hoje redundante). Por isso, o eleitorado supinamente ignorante, uma parte do eleitorado da classe média aspirante a ascender à esfera do poder económico, logo, político (que é o económico o primeiro de todos) e outra parte do já instalado em diferentes patamares do poder, mas desejoso de garantir a sua supervivência, recorrendo à ditadura terrorista do capital, se necessário, vai na onda populista, como noutros momentos históricos aconteceu.

 

 Portanto, «a autêntica bandalheira a que chegamos NÃO tem um único culpado», chamado Marcelo Rebelo de Sousa. Vejam lá se não terá sido o amiguismo do PS com o PSD e o CDS (lembram-se do Manuel Alegre a dizer «ainda eu seja ceguinho se o PS se coligar com o CDS no Governo!» e, depois, foi o que se viu?) a alimentar a aspiração da extrema-direita fascista a ascender ao poder. Aqui, como em muitos outros países, de resto, desta Europa das Luzes, Luzes que parecem ter-se fundido.

 

Não há 3.ª Via, seja ela blairista, soarista ou benfiquista. Trata-se de uma opção de classe, e, classes, não há 36. Ou se está do lado do Trabalho ou se está do lado do Capital. O resto são tretas.

 

Enfim, muitos portugueses vão talvez acabar por ter o que merecem. Mas também há muitos que poderão acabar por ter o que não merecem. Porque sempre foram coerentes e não se deixaram ir no canto das sereias. Nem nos arrotos dos ogres.

 

 

GEOMETRIA INVARIÁVEL

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Estive a ouvir, enquanto me entregava à apaixonante tarefa de cozinhar para a minha querida cadela – de nome Maria, em honra da Virgem Santíssima – e para mim, de nome Fernando – já não me lembro por que raio de razão – o «Geometria Variável», com a Maria Flor Pedroso, moderadora, o Carlos Coelho, do PSD, e a Marisa Matias, do BE, sucessora de Nuno Severiano Teixeira, do PS. Enternecedor.

A simpática Marisa Matias e o Carlos Coelho que me desculpem estes artigos definidos antepostos aos seus nomes, mas a sua convivialidade tão cortês leva-me a tratá-los com a deferência devida àqueles que estimamos, ainda que, por vezes, também, com a acrimónia justificável pelo desconforto que nos causa o que vemos, ouvimos e lemos (e não podemos ignorar).

O parentético parágrafo anterior justifica-se apenas pelo que segue e que contraria, de modo algo grosseiro, o adjectivo com que termino o primeiro.

Foi, com efeito (locução muito usada no ping-pong, se bem me recordo), esclarecedor constatar (do fr. “constater”) que os dois presumíveis contendores emitiam sistematicamente opiniões convergentes sobre as mais diversas matérias, desde os desempenhos dos aspirantes à Suprema Magistratura até à guerra na Ucrânia e à NATO. De tal modo e com tal coerência discursiva que qualquer observador via auditiva (recurso sinestésico, para quem se lembra dos tropos) teria alguma dificuldade em distinguir a filiação e militância partidária de qualquer deles.

Ora bem. Onde o escriba quer chegar é ao ambicioso desiderato, que vem já a seguir e que obedece ao desígnio de contribuir para a aproximação daqueles que, formalmente separados (de corpos, alguns bens e muitos projectos), têm tanto a uni-los que bem fariam em juntar os trapinhos e criar uma Associação, Bloco ou Frente que lhes potenciasse a ascensão eleitoral até patamares inimagináveis. Descodificando: em vez de um Partido adjectivado de Social-Democrata e de um Bloco, preposicionado de Esquerda, por que não uma Frente de Esquerda Social-Democrata Atlantista e Bruxelense (FESDAB)?

Estou certo de que a troika líder da EU – Úrsula, Kallas e Consentes – rejubilariam (eventualmente, até regurgitarem, como sucedeu à nossa repórter no Vaticano, há uns anos). Já não estou tão certo de que o facto de as esquerdas europeias, com a honrosa excepção dos malditos comunistas, se fundirem tão homogeneamente com as direitas – uns e outros reclamando-se convictamente de uma social-democracia que tem por objectivo final assegurar a sobrevivência do capitalismo – constitua um factor de progresso social e de eliminação das desigualdades sociais.

Também é verdade que não acredito no Pai Natal, apesar de ainda há dias ter visto um no Fórum Algarve.

E siga a dança.

(O Boeing 747SP é da Wikipédia)

UMA ANÁLISE, TÃO PROFUNDA QUANTO CONSIGO, DA ACTUALIDADE INTERNACIONAL, A VER SE CONSIGO DESTRONAR O MILHAZES

 

 

A estapafurdice de Trump e do seu imperialismo oblitera, no fundo, uma certa racionalidade – uma racionalidade cujos nexos lógicos não são fáceis de apreender. Com tal comportamento e a subserviência dos eurocratas que lhe estão rendidos (lembremo-nos do carinhoso Rutte, no beija-mão ao daddy, e da submissa rendição dos líderes europeus às imposições yankees, no tocante a taxas – os nossos corajosos líderes nem sabiam onde colocar as mãos…), ele vai conseguindo "soluções" seguramente transitórias, mas que, apesar de tudo, passam a imagem de alguém que consegue soluções de paz, por mais discutíveis que sejam.

 

Na Europa, a anunciada “solução” para a guerra entre os EUA/NATO/UE e a Federação Russa, por interposta Ucrânia, que fornece a carne para canhão, porá termo, no imediato, ao avanço do cerco da NATO à Federação, o que representará (parcialmente) a imposição pela força do que Minsk tinha acordado, pelo diálogo (sonso, para “ganhar tempo” – Merkel dixit). Não sabemos quanto tempo isso durará – admitindo que, nos próximos tempos, se vai concretizar – mas sempre será um episódio histórico com algum significado, e dissonante da retórica russofóbica de dirigentes europeus que ainda fingem acreditar em Jean Monet, no Pai Natal e no fim da utopia do homo homini lupus.

 

Na Palestina, onde o Estado americano de Israel, sem a estapafurdice de Trump, leva a cabo a sua política de supressão calculada de todo um povo (sem recurso ao excessivamente conhecido zyklon B) e que a opinião pública mundial, exceptuando os “comunistas” do costume, se mostre particularmente sensibilizada, é provável que, mais dia menos dia, comecem a surgir os estaleiros de construção da Riviera do Médio Oriente. Vai ser um locus amoenus, tópico literário do bucolismo quinhentista, com um senão apenas, que não há bela sem o dito cujo: este e outros Hamas vão crescer exponencialmente e fazer do Paraíso (um pouco por todo o lado) um local exageradamente quente para lá se poder estanciar.

 

Valha-nos Santa Zita, quer se abra quer não, que a Rússia já é cristã, mesmo sem a intercessão da Senhora de Fátima-Ourém e o Profeta vai continuar ocupado com os seus camelos.