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Também de esquerda

Espaço destinado a reflexões (geralmente) inspiradas na actualidade e na Literatura.

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Fernando Nobre e o destino

Fernando Nobre dizia, ontem, na entrevista com Judite de Sousa, que se tinha candidatado porque é esse o seu destino. Apesar de correr o risco de passar de bestial a besta, o seu destino - jura - é ser candidato a presidente da república.

 

- Porquê candidato a presidente da república e não a deputado ou a um qualquer órgão autárquico - pergunto agora eu. E ele, se me lesse, talvez respondesse:

 

- Porque não quero entrar neste pernicioso sistema partidário que pôs o país no estado em que está! É que, como dizia o meu pai, a política é uma porcaria. Mas eu estou acima dos partidos, sou completamente independente, e esta  é uma oportunidade única que ofereço aos portugueses de votarem num candidato que nunca foi deputado, nem ministro, nem general...

 

- Ainda que, como ministro ou presidente de câmara, por exemplo, e com as competências executivas desses cargos, pudesse realmente implementar políticas inspiradas nos seus desígnios humanitários, o que está constitucionalmente vedado ao presidente da república? - replicaria eu.

 

- Na, na, não. Não vá por aí. O meu destino é ser médico humanitário e candidato a presidente da república.

 

Esta consciência avassaladora de um destino inelutável impõe-se-nos com a mesma carga terrífica da ananké das tragédias, e só por malvadez ou outros instintos igualmente detestáveis aspiraríamos a ver o candidato desafiar o poder dos deuses (da Providência, no caso vertente), passando a dedicar-se exclusivamente a causas humanitárias. Todavia, esta associação do candidato a uma instância superior e intangível que lhe teria traçado o rumo da candidatura presidencial aproxima-o perigosamente da figura messiânica. E embora o seu perfil não lhes seja comparável, ao vestir-lhes, de alguma forma, a pele, corre o risco de passar por mais um candidato... a salvador da pátria, como tantos outros que infestaram o século XX. Só que numa versão soft.

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