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Também de esquerda

Espaço destinado a reflexões (geralmente) inspiradas na actualidade e na Literatura.

Também de esquerda

Espaço destinado a reflexões (geralmente) inspiradas na actualidade e na Literatura.

Aprender a Rezar na Era da Técnica, de Gonçalo M. Tavares

À leitura do primeiro capítulo, o leitor desprevenido imagina-se a ler um romance convencional. O discurso é linear e transparente, não há efeitos especiais no domínio da pontuação, a disposição gráfica é a tradicional, o narrador comporta-se como uma câmara de vídeo que, no entanto, anuncia já a omnisciência na frase “Estas palavras do pai marcaram Lenz durante anos” (p.11), enfim o micro-episódio narrado enquadra-se perfeitamente nas temáticas banais de todo o pós-romantismo. À falta de informantes espaciais, os nomes das personagens (Lenz Buchmann, o protagonista, Julia Liegnitz, a secretária, Hamm Kestner, o chefe do Partido, etc.) permitem ao leitor situar a acção algures na Alemanha; a caracterização do protagonista (que bem poderia ter encarnado, alguns anos mais tarde, sob a identidade do Dr. Mengele), assim como as referências ao “Partido” (sempre maiusculado, mas sem qualificativo) e a um acto de sabotagem montado pelos seus dirigentes (“Lenz Buchamann e Hamm Kestner haviam falado já da hipótese de uma explosão no edifício do Teatro principal, meio talvez necessário para instalar o estado de tensão na cidade” (p. 245) indiciam, por outro lado, que a acção decorre entre as duas guerras mundiais, muito provavelmente no final dos anos trinta, logo numa sociedade já seriamente afectada pelos valores da força, da desigualdade, da supremacia racial e da intolerância.

 

O que ficou dito é uma súmula (paupérrima) das categorias da narrativa, que não permite inferir o desprazer com que a li. É que, à medida que o leitor vai avançando na leitura, apercebe-se de que, afinal, está perante um tratado sobre a educação e a formação (melhor dizendo, formatação) da mentalidade e da personalidade na sociedade nazi: “Lenz calça as botas e prepara-se para a caça. Primeiro o ritual de domínio sobre os pequenos objectos imóveis: as botas, a arma, o colete pesado.

“Aqueles movimentos eram os que melhor contribuíam para formar o ser humano. E que bom atirador ele era.

“Por seu turno, os elementos ágeis da natureza reivindicavam uma desobediência que não era tolerável.”  (p. 13)

 

O estilo do autor é de tal modo despojado e parco na utilização de recursos estilísticos que a ficção mais parece um auxiliar didáctico destinado a facilitar a apreensão e compreensão de conceitos por eventuais estudantes de psicologia, de antropologia ou de sociologia. Enfim, esta aridez narrativa faz deste romance um exemplar algo rebarbativo de uma espécie de naturalismo serôdio, de neo-naturalismo póstumo.

 

Apesar dos elogios da crítica, não me sinto tentado a ler outros romances de Gonçalo M. Tavares.

 

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