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Também de esquerda

Espaço destinado a reflexões (geralmente) inspiradas na actualidade e na Literatura.

Também de esquerda

Espaço destinado a reflexões (geralmente) inspiradas na actualidade e na Literatura.

E sabe ele o seu português?

            Georges Mounin é o autor de um conhecido ensaio que tem por título Les Problèmes Théoriques de la Traduction. A “Advertência” que António Feliciano de Castilho faz preceder a sua tradução do Fausto, texto que citei no post anterior, não tendo nem a natureza, nem a envergadura de um ensaio sobre a prática da tradução, bem poderia chamar-se Os Problemas Práticos da Tradução. Eis como Castilho expõe o seu método de trabalho, quando procedia, com o irmão José, à tradução do poema de Goethe:

            “Estão simultaneamente abertas à roda de nós a tradução textual e ilustrativa do Sr. Laemmert, a de meu irmão, em certo modo filha da precedente, a portuguesa do Sr. Ornellas, e quatro francesas em prosa raro entremeada de pequenos trechos em verso. Sobre cada período do poeta alemão são sucessivamente chamados a depor todos estes sete intérpretes e acariados uns com os outros com a maior severidade da crítica”.

            Mais à frente, expõe a sua concepção do tradutor, desculpando a sua ignorância do alemão com numerosos exemplos de tradutores que ignoravam a língua dos textos que traduziram:

            “Monti, que deu à Itália   a melhor tradução da Ilíada, pelo menos a que se lê com maior gosto, não sabia o grego.

            “Os salmos de David, centenares de vezes passados a diversas línguas por poetas excelentes, nunca talvez o foram do poema original.”

            Dá ainda mais exemplos curiosos de tradutores que, como ele mesmo, desconheciam totalmente a língua em que originalmente foram escritos os textos que traduziram, e remata assim: “Por aqui me cerro, ponderando só que me parece questão ociosa esta de se perquirir se um tradutor sabe ou não a língua do seu original; o que importa, e muito, é se expressou bem na sua, isto é, com vernaculidade, clareza, acerto e a elegância possível, as ideias e afectos do seu autor”.