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Também de esquerda

Espaço destinado a reflexões (geralmente) inspiradas na actualidade e na Literatura.

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Espaço destinado a reflexões (geralmente) inspiradas na actualidade e na Literatura.

OE 2012 – um Orçamento de Estado “difícil”

  

II

 

Por isso, o primeiro-ministro alertou já para as consequências que não deixarão de sofrer aqueles que ousarem “incendiar as ruas”. É útil criar a ideia de que os tumultos vão surgir e de que serão exemplarmente reprimidos. Em caso de necessidade, o regime pode até levar alguns a provocá-los, à maneira de Lenz Buchamann e Hamm Kestner, chefe do Partido, que, em Aprender a Rezar na Era da Técnica, de Gonçalo M. Tavares (1), promovem “uma explosão no edifício do Teatro principal, meio talvez necessário para instalar o estado de tensão na cidade”. Quem não concordará com a repressão de tumultos? E, já agora, na eventualidade de uma situação potencialmente tumultuosa, como seria o caso de um povo espoliado de todos os direitos arduamente conquistados, quem discordaria de uma suspensão das liberdades e garantias individuais, a bem da democracia? Por outras palavras, pese embora o absurdo do enunciado, quem não concordaria com a instauração de uma ditadura, se estivessem em causa os superiores interesses da democracia?

 

A ditadura da burguesia assume a forma democrática parlamentar (aquela que temos conhecido, nomeadamente desde a aprovação da Constituição, em 1976), enquanto a contestação das suas políticas antipopulares se mantém dentro dos estritos limites do respeito pelo direito à propriedade (seu valor supremo), ao trabalho (de todos os seus serventuários, incluindo os que o são inconscientemente, por falta de consciência de classe) e à mobilidade. Quando, perante um agravamento brutal das condições de vida do povo, a contestação irrompe com uma pujança susceptível de pôr em risco a manutenção do status, isto é, a sua dominação de classe, e em função do grau calculado de risco, a burguesia não hesita em pôr de lado a sua fachada democrática, assumindo a forma de ditadura terrorista – o fascismo que conhecemos durante quarenta e oito anos.

 

É com estes pressupostos que encaro as advertências de Pedro Passos Coelho e as repetidas referências na comunicação social à eventualidade da ocorrência de tumultos nas ruas das nossas cidades. Ciente do carácter profundamente injusto e da natureza de classe das suas políticas, a burguesia sabe que o clamor popular pode atingir proporções dificilmente controláveis e põe de sobreaviso os contestatários potenciais.

 

Neste contexto, o papel dos media é crucial. Repetindo vezes sem conta o discurso justificativo da austeridade, com o leitmotiv de que temos vivido acima das nossas possibilidades (2); instilando a ideia de que não há alternativa ao sistema em que vivemos e de que os sacrifícios são inevitáveis e atingem todos; criando a ilusão (se considerarmos os efeitos recessivos das políticas implementadas) de uma recuperação económica a prazo, eles comportam-se como missionários laicos, responsáveis por uma doutrinação persistente da religião do capital.

 

 

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(1)   p. 245, cf. meu post de 10/02/2011

(2)   A comunicação social tem noticiado hoje que o Presidente do Conselho de Administração do Hospital do Barlavento Algarvio recebe anualmente 745 000 €, ou seja, em média, 62 000 € (12 400 contos) por mês. 745 000 € são apenas 106 anos de salário mínimo nacional, à razão de 14 salários por ano e arredondando o SMN para 500 €… Um caso a somar a todos aqueles que fomos conhecendo nos últimos anos (PT, EDP, banca,…)

2 comentários

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    tambemdeesquerda 27.10.2011

    Pois é, Tiago. É bem conhecido o episódio histórico do incêndio do Reichstag, em 1933: os nazis incendiaram-no e acusaram Dimitrov de o ter feito. Também não sei até que ponto aquilo de que foram acusados os manifestantes de Wall Street, como pretexto para serem expulsos, não terá sido obra da própria polícia que os expulsou. Aquando da visita do papa a Espanha, houve igualmente um episódio de provocação. E assim sucessivamente...
    Quanto à árvore e aos preços qie sobem e descem sem razão aparente, a economia de mercado é isso mesmo - a irracionalidade no poder. Mas não uma qualquer irracionalidade involuntária; trata-se de uma irracionalidade canalizada e perversa, que busca afanosamente o maior lucro imediato, descurando os superiores interesses do homem e até do planeta.
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