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Também de esquerda

Espaço destinado a reflexões (geralmente) inspiradas na actualidade e na Literatura.

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Espaço destinado a reflexões (geralmente) inspiradas na actualidade e na Literatura.

Encontro de amor num país em guerra, de Luís Sepúlveda

        

    É com alguma desconfiança que se avança na leitura deste livro de contos de Luís Sepúlveda, que parece, ao longo das primeiras páginas, padecer de alguma falta de fôlego narrativo. A badana da contracapa como que confirma aliás essa primeira impressão, com a informação de que “o presente livro reúne um conjunto de narrativas que se encontravam dispersas por edições há muito esgotadas ou que permaneciam inéditas nas gavetas do autor”. “Inéditas nas gavetas do autor” significa, provavelmente, escritos da juventude, que L. S., por qualquer razão, se resolveu a resgatar da inexistência, para um destino incerto.

            Os contos estão repartidos por três séries ou secções (“Amores e desamores”, “Heróis e canalhas” e “Imprevistos”) a que se soma ainda um conto isolado, com o título “Uma outra porta do céu”. Ora, ao chegarmos ao primeiro conto da segunda secção, “Parou um carro a meio da noite”, ainda nos sentimos algo defraudados com o que nos parece ser a escassa perícia de um narrador excessivamente preocupado com a informação referencial a dar ao leitor, multiplicando deícticos e informantes:

            “Parou um carro em baixo. Posso ver daqui as luzes que se reflectem no tecto (…)

            “O carro está ali parado há uns minutos, mas as portas não se abrem. O automóvel permanece quieto junto do passeio, em frente da entrada deste edifício onde vivo ainda.” (p. 69)

            Para mais, a somar à desagradável sensação de um narrador que não nos larga, que nos explica tudo, não vamos nós deixar escapar algo importante, a repetição de segmentos narrativos, com ligeiras variantes, insinua a impressão de que o autor recorre a tal expediente com fins de enchimento:

            “Mas o automóvel continua lá em baixo e parece-me que estão a fumar lá dentro.” (p. 71)

            “(…) mas as pancadas na porta continuam e eu não sei se estou calado ou estou a gritar que não está ninguém, que não cheguei, que se vão embora dali, que preciso de silêncio, de silêncio e tempo, porque há muito tempo que um carro parou lá em baixo e continua de luzes apagadas, e na rua não há ninguém que possa ver a sua cor preta e as luzinhas que se avistam lá dentro de cada vez que acendem cigarros, mas as pancadas na porta continuam (…).” (p. 75)

            Só que, contrariamente ao que acontece em contos que antecedem este, aqui, a reiteração não é usada como simples procedimento estilístico ou como vulgar expediente expansivo. Pelo contrário, ela funciona como ingrediente essencial da diegese, criando no espaço narrativo a ilusão da angústia do acossado, prenúncio do suicídio.

            A partir deste momento, ultrapassada a desconfiança inicial, o leitor reconcilia-se com o autor e com os sucessivos narradores de serviço e aceita a cumplicidade sem a qual não há magia (isto é, literatura) que resista. Aliás, a magia torna-se outro ingrediente essencial de contos como o do comboio Antofagasta-Oruro (“Mudar de rumo”), dado como perdido para sempre num banco de nevoeiro, com todos os seus passageiros, ou “Uma casa em Santiago”, casa esta cujo enigmático sumiço corta cerce a bela história de amor nascente com Isabel, no n.º 20 da calle Ricantén.

Conforme se diz em “Uma outra porta do céu”: “Onetti tem razão: é preciso renunciar aos territórios físicos e habitar o território da imaginação.” (p. 224).

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