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Também de esquerda

Espaço destinado a reflexões (geralmente) inspiradas na actualidade e na Literatura.

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Rupturas e oxímoros

Carlos Zorrinho aproveitou a comemoração solene do 25 de Abril na Assembleia da República para declarar que o PS fará uma “ruptura democrática” com quem “baixar os braços, com quem ousar tentar destruir numa legislatura o que levou décadas a construir”. Esta declaração, mais do que expectantes, deixa-nos incrédulos. Há uns meses atrás, aquando da discussão e votação do Orçamento de Estado, já Seguro afirmara o intento de uma “abstenção violenta” (mas construtiva). Na altura, todos vimos a abstenção, mas nem os de olhar mais penetrante conseguiram vislumbrar algo que remetesse para a carga semântica do adjectivo. Desta vez, não se duvidando do carácter democrático de tudo o que o PS faz, é porventura do conteúdo do substantivo que convém duvidar. Ruptura? Talvez, mas antes com quem ousa tentar defender as conquistas da Revolução, pois sempre que dispõe dos instrumentos do poder, o PS tenta fechar as portas que Abril abriu, ao mesmo tempo que as escancara à sanha destruidora da direita reaccionária.

 

Aos jornalistas que o interrogavam à saída da sessão solene, Zorrinho esclarecia que “ruptura democrática” significa “não acompanhar o governo” em medidas que consubstanciem um ataque ao serviço nacional de saúde, à escola pública, etc. Isto é, “ruptura democrática” significa ser oposição – o que se suporia o PS fazer à coligação reaccionária. Pelos vistos, não fez. Mas, qualquer dia, lá virá a “ruptura democrática” e então sim, teremos o PS a defender com unhas e dentes o Estado social que tanto se empenhou em destruir. Aliás, para não irmos mais longe, veja-se como, ainda tão recentemente, e num momento crucial, o PS “acompanhou o governo” e a direita, por interposta UGT, no acordo de concertação social.

 

É por estas e por (todas as) outras que um dia destes conviria trocar as voltas aos oxímoros que parecem ser tão do agrado dos dirigentes do PS e, pegando no “violenta” de um e no “ruptura” do outro, fazer de vez uma ruptura que, sendo violenta, não deixaria de ser democrática.