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Também de esquerda

Espaço destinado a reflexões (geralmente) inspiradas na actualidade e na Literatura.

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O meu amigo Banco

O meu banco é muito meu amigo. Tão amigo que, há uns tempos, começou a tratar-me por dono. Passei a ser dono do meu banco – facto que devolveu ao possessivo sua inteira propriedade. É bem certo que nunca dei por nenhum aumento dos meus rendimentos mensais, nem passei a ser consultado no momento da tomada de decisões em operações financeiras. Também não beneficiei de nenhum desagravamento do spread que me é cobrado pelo crédito à habitação. Mas, pronto, passei da condição de simples cliente, igual a milhares de outros, a dono. O que não é despiciendo. No mundo em que vivemos, os estatutos sociais são, em grande medida, determinados pela gravata ou pelo título que os nossos concidadãos nos outorgam. Ora, passar de uma condição a outra – na ocorrência, a de banqueiro – de um dia para o outro, sem ao menos um curto tirocínio que me fosse paulatinamente induzindo a pensar e agir de acordo com a minha novel condição, causou-me aquilo a que comummente chamamos problemas de consciência. É que, reconhecendo a utilidade dos bancos para as operações mais comezinhas do dia-a-dia e a sua centralidade na nossa economia, nunca nutri particular simpatia pela actividade em apreço, que até tendia a identificar com a simples agiotagem, pelo menos desde que Gil Vicente me deu a conhecer a figura do onzeneiro, que o Mestre, sem apelo nem agravo, recambia para o inferno, juntamente com frades e fidalgos. Isto para já não falar de uma série de outras leituras posteriores ainda mais demolidoras do bom nome e honradez da banca do que as Barcas vicentinas. E, assim, sentia-me um ingrato. Porém, reconsiderei e cheguei à conclusão que encima este meu desabafo: o meu banco é muito meu amigo. Aliás, bastaria escrutinar a caderneta que contém todos os movimentos da minha conta para logo inferir, sem margem para dúvidas, que o meu banco é, ademais, o meu maior confidente. Ele sabe exactissimamente quanto eu arrecado e quanto eu desembolso (valores muito próximos entre si, como acontece com a grande maioria dos portugueses) todos os meses do ano. Mais do que isso, sabe, tintim por tintim, o destino que dou aos magros cabedais que me destinam: supermercados, carregamentos do telemóvel, abastecimentos de combustível, energia eléctrica, comunicações telefónicas, ADSL, farmácias, livrarias, seguros, próteses oftalmológicas, auto-estradas, etc., etc., etc. A caderneta é uma espécie de GPS que regista todas as minhas andanças. Poderá ser o meu álibi, se algum dia a Judiciária suspeitar de mim.
 
E, sendo assim, já sei ser escusado preocupar-me com a minha sobrevivência na lembrança dos meus concidadãos, quando a senhora da foice, pouco dada às intermitências que Saramago lhe quis endossar, decidir levar-me. O meu amigo e confidente banco não deixará de me escrever a biografia, recapitulando todos os movimentos que ao longo da minha vida terão sido lançados a crédito e sobretudo a débito da minha conta.
 
Imagem: 
http://farm4.static.flickr.com/3006/3042988863_faedeaeeae_m.jpg

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