Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Também de esquerda

Espaço destinado a reflexões (geralmente) inspiradas na actualidade e na Literatura.

Também de esquerda

Espaço destinado a reflexões (geralmente) inspiradas na actualidade e na Literatura.

A DAMA DA LUZ, de José Estêvão Cruz – história e ficção na foz do Guadiana

A Dama da Luz, J. Estêvão Cruz.jpg

O prometido é devido. A anunciada trilogia iniciada por José Estêvão Cruz, em 2016, com Águas Vivas do Levante, tem, desde Outubro último, um segundo tomo, A Dama da Luz, cognome atribuído à personagem central destas narrativas pelas gentes de Castro Marim.

Um oportuno capítulo 0 condensa o essencial da acção do primeiro romance, que decorre por ocasião do grande terramoto de Lisboa, e abre caminho à sequela. Está-se agora em 1760 e, em cinco anos, os heróis da história deram provas sobejas do seu empreendedorismo no ramo das pescas e das salinas. Mariana, a Dama da Luz, não só se afirma como engenhosa mulher de negócios como soma essa característica à de visionária no domínio das relações sociais e de produção. Com efeito, o seu conhecimento das ideias que o Iluminismo difundia na Europa da segunda metade do século XVIII (conhecimento que deve aos ensinamentos do seu professor Alberto Cluny) leva-a a antever o declínio da nobreza e a progressiva ascensão da burguesia, bem como a imprescindibilidade de uma acrescida participação dos camponeses e assalariados nos benefícios resultantes da sua actividade. A Revolução Industrial está no seu limiar e a Revolução Francesa não vem muito longe.

Um dos aspectos que mais sobrelevam nas narrativas de José Estêvão Cruz é a soma de conhecimentos que o autor revela em relação às épocas em que decorre a acção dos seus romances. Por outro lado, o autor logra a imbricação estrutural do diálogo das personagens com o discurso daquela a quem cabe a função de narrar, podendo-se, contudo, suscitar a seguinte dúvida: aquelas das falas das personagens que funcionam como veículo (extenso) para a passagem de informação de carácter histórico não poderiam, numa perspectiva de aligeiramento do processo narrativo, passar para o discurso do narrador, deixando às outras personagens a função de agir?

Como de costume, o estilo de José Estêvão Cruz é marcadamente despojado e alheio a grandes preocupações formais, o que não obsta à ocorrência pontual da metáfora, do animismo, da adjectivação expressiva. Uma observação, porém: a linguagem emprestada às personagens parece-nos pecar, algumas vezes, por um certo anacronismo, isto é, um desencontro entre o tempo da acção (século XVIII) e aquele em que verosimilmente certos vocábulos e expressões terão começado a circular na comunicação verbal (provavelmente, no século XX). A título de exemplo, atente-se nos seguintes passos do capítulo 19:
• “[…] tenho receio duma deriva autoritária pouco consentânea com os nossos ideais.” (p. 168)
• “Formulação curiosa […]” (p. 168)
• “[…] medidas reais que se podem tornar paradigma.” (p. 169)

Se é verdade que o Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa, de José Pedro Machado, atribui a Morais (isto é, ao Dicionário da Língua Portuguesa, de António Morais Silva) a confirmação da entrada de “paradigma” e de “formular” na nossa língua, no século XVIII, ao leitor crítico tais “formulações” não deixam de causar alguma estranheza. Terão elas entrado tão rapidamente na comunicação corrente?

Noutro plano de apreciação, no diálogo entre Mariana e o metediço juiz de Castro Marim (capítulo 03), a indagação deste último afigura-se algo inverosímil, de tal modo é intensiva, indiscreta e inconveniente. Se, em tribunal, nada parece obstar a que o juiz interrogue o arguido como bem entende e o dispa de títulos e atributos, numa circunstância de relacionamento social tal comportamento roça a petulância.

Enfim, e para não desistir de malfadada propensão professoral, uma palavra de censura para a notória falta de revisão do texto. A ocorrência de algumas disfunções morfossintácticas ou lexicais tende a introduzir um ruído que o leitor – embalado por uma história digna de ser lida sem perturbação – dispensaria. A este respeito, o leitor crítico em questão, que tem por hábito fazer da leitura um exercício de esquadrinhamento apoiado no dicionário, na gramática, eventualmente numa obra teórica da Literatura e, sobretudo, no lápis (instrumento de eleição para quem deseje inventariar e classificar rapidamente tudo aquilo que, por qualquer razão, lhe foi chamando a atenção durante a leitura de uma obra) poderá oferecer uma breve relação ao autor* .

Por falar em leitor crítico, o crítico é um leitor – um leitor crítico. Enquanto leitor, coisa que o crítico é, obviamente, antes de mais, ele experimenta diferentes sentimentos desencadeados pela leitura – encanto, deslumbramento, desgosto, aversão –, mas não os verbaliza ou, se o faz, fá-lo de modo incipiente e despreocupado. Quando decide organizar as suas impressões de leitura, de forma a dar-lhes a coerência que se espera de um discurso consistente e fundamentado (nomeadamente, em conceitos próprios das ciências da linguagem e da criação literária), assume a sua dimensão propriamente crítica, que não é a de corrector, supervisor ou árbitro, mas antes a de apreciador ou ajuizador dotado das faculdades subjectivas de qualquer leitor e de um determinado conjunto de conhecimentos que o crisol da investigação estruturou e legitimou. O seu juízo é, por isso, o de um leitor que permanentemente se confronta e às suas impressões de leitura com múltiplas experiências de leitura de leitores reflexivos. E esse juízo não aspira à natureza sentenciosa do anátema ou da consagração; ele é apenas a formulação (tão rigorosa quanto disso for capaz o crítico) de uma apreciação baseada em sentimentos subjectivos e em noções objectivadas pelo estudo.

Dito isto, o leitor crítico aguarda com muito interesse e fundada expectativa o terceiro volume da trilogia de José Estêvão Cruz.

____________________________________________________________________

* Por oferecimentos deste jaez já o leitor crítico se viu vilipendiado ou ostracizado, o que não lhe serviu de escarmento.

1 comentário

Comentar post