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Também de esquerda

Espaço destinado a reflexões (geralmente) inspiradas na actualidade e na Literatura.

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A misteriosa Sovieta Ulianova, de José Estêvão Cruz


A misteriosa Sovieta Ulianova, J.E.Cruz (1).jpg

 Em A misteriosa Sovieta Ulianova, J. E. C. reedita os seus dotes de narrador, desta feita com um acentuado pendor historicista contemporâneo. A intriga deste seu último romance tem, de facto, como pano de fundo, o Portugal dos anos finais do marcelismo, a Revolução e a contra-revolução, bem como o fim da União Soviética, após a implementação da Perestroika, e o autor não é nada parcimonioso na explanação dos factores políticos, económicos e sociais que subjazem quer à evolução da situação portuguesa, quer ao rumo que tomou a extinta união de repúblicas.

 

O romanesco desta narrativa consiste numa curiosa e bem montada história em que o protagonista, feliz no amor e na vida profissional, sucumbe à sedução de uma beldade eslava que o arrasta para uma deriva sentimental pouco menos do que platónica e sem grande futuro. As peripécias sucedem-se, dando, por vezes, a sensação de que se lê uma novela policial ou de espionagem, mas o cerne da intriga está mesmo na indagação dos meandros do comportamento das personagens, pelo que a vertente psicológica supera a do suspense.

 

O encadeamento das acções no discurso narrativo não é linear. O narrador começa por um momento já significativamente avançado no tempo da história, recorrendo depois ao flash-back para a narração do lapso temporal anterior ao do início do romance.

 

Para além do manifesto à-vontade com que o autor despende informação e considerações de natureza histórica, política e geográfica, é ainda notória a facilidade com que elabora sobre operações financeiras e o ramo imobiliário.

 

Em termos romanescos puros, é de assinalar o enviesamento da trama narrativa patente no capítulo 40, ou seja, a opção de fuga ao desfecho expectável, que relança o enigma, potenciando o interesse do leitor exigente, embora o devaneio místico de Sovieta nos pareça pouco consentâneo com as suas convicções.

 

A desfavor do romance, apenas isto: um descambar ocasional para o estilo afadistado (veja-se, p. ex., pp. 250, 251) e alguns desencontros com o léxico e a gramática, pechas que uma revisão competente teria apagado.

 

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