A OESTE NADA DE NOVO (N.B.: isto não é um exercício de crítica literária do romance de Remarque)
Mark Rutte fez recentemente um hiperbólico elogio ao papá Trump: nunca nenhum outro Presidente dos States logrou a façanha histórica que ele, Trump, cumpriu com inigualável galhardia: levar os europeus a investirem 5% do seu PIB no Orçamento da Defesa. O panegírico não deve ter caído nada bem lá para os lados de Biden e kamala. Por ser injusto. Então, os chamados Democratas não acabariam, mais dia menos dia, por fazer o mesmo, ou parecido, ou pior? É sabido que, nisto de investimentos na Defesa, como em muitos outros domínios, são parentes muito chegados.
Quem não deve ter ficado muito satisfeito foram alguns americanos e outros cidadãos do mundo inteiro, que se lembraram da invasão do Capitólio, das perdas de vidas nessa acção épica, da absolvição plenária de todos os envolvidos e, para cúmulo, da atitude do Senhor Rutte quando, há pouco tempo, na Sala Oval, ouviu da boca do seu papá a intenção de anexar o Canadá, parceiro da NATO, mais a Gronelândia, que o parceiro dinamarquês da NATO administra, em regime de Commonwealth. Como nos lembramos bem, o Senhor Rutte, na ocasião, nem sequer ciciou: – “Olhe que o Direito Internacional … Olhe que a Aliança do Atlético Norte … (em versão nunomeliana) Olhe que o art.º 5.º …” Nadinha. Rabinho entre as pernas e sorriso nos lábios. O Zelensky, se calhar, também não gostou, mas como os States não são a Rússia, tudo bem. Quanto aos Japoneses, que ouviram o Senhor da Sala Oval gabar-se (apesar de não querer usar tais exemplos – cruzes, canhoto!) do óptimo trabalho feito pelo Enola Gay em Hiroshima e Nagasaki, esses também devem ter ficado acabrunhados, mas, lá está!, os States não são a Coreia do Norte. E, entre nós, só muito poucos quisemos saber se o Governo português acha bem colocar o porta-aviões das Lajes ao serviço de uma operação militar especial contra o Irão, violando o Direito Internacional. Mas, lá está, uma vez mais (que chatice!): os States são nossos aliados desde antes do 25 do 4. Se fosse um navio russo a navegar aqui ao largo, a coisa fiaria mais fino, não é, meu Almirante? Lá ia o Mondego atrás dele. Mesmo a meter água pela escotilha. O respeitinho é muito bonito! Oh yes!
Ora este ilustre traste, compatriota do social-democrata ex-presidente do Eurogrupo, Jeroen Dijsselbloem, que considerava a solidariedade um valor extremamente importante, mas que tínhamos obrigações e não podíamos gastar todo o dinheiro em mulheres e álcool para, depois, pedirmos ajuda, este traste, dizia eu, faz um perfeito pendant com os nossos dirigentes comunitários: aquele trio composto por duas senhoras, que representam à perfeição o ideal de sensibilidade e delicadeza do eterno feminino, mais o nosso compatriota que em tempos pôs termo ao ostracismo a que estavam votados os partidos à esquerda do PS, relativamente ao arco da governação, ideal do bloco central de interesses igualmente sensíveis e delicados. Porque é que o fez? Talvez um vaipe ou uma aparição do espectro do pai. Como aconteceu ao Hamlet, num contexto dinamarquês pré-comunitário.
Decididamente, algo está podre no reino da Dinamarca, fora uma série de outros, e cada vez mais sinto, com o João de Melo, que o meu mundo não é deste reino. É certo que o meu respeito por esta gente nunca foi muito, e o que pudesse subsistir levou já sumiço. O nojo tomou-lhe o lugar. A loucura que parece ter-se apoderado (uma vez mais) destes donos das nossas vidas mereceria um acesso colectivo de loucura dos cidadãos. Algo semelhante ao que, algumas vezes, na História, se revelou capaz de inverter o rumo dos acontecimentos e que não me apetece agora explicar.
Uma coisa sempre direi: até estou disponível para investir, não 5, mas 10 ou mesmo 20% da minha pensão de aposentação num orçamento da Defesa que me proteja das ameaças que esta corja representa para a humanidade. As democracias ocidentais que, em Setembro de 1938, se mancomunaram com Hitler, na Conferência de Munique, excluindo a URSS (pois, pois, falem-me do Pacto de Agosto 39!) e dando luz verde à ocupação dos Sudetas, meses depois seguida da invasão e ocupação dos países europeus, reúnem-se agora com Trump, no Lupanar Oval, num exercício de diplomacia que é o único que conhecem – o da vassalagem, que rima com vilanagem. Que tristeza!