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Também de esquerda

Espaço destinado a reflexões (geralmente) inspiradas na actualidade e na Literatura.

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A questão da segurança – na religião e na política

«Para a dialéctica não existe nada de definitivo, de absoluto, de sagrado…» Engels

 

Que o sentimento de segurança é condição de sobrevivência e de pró-actividade num mundo «em perpétuo movimento», ninguém duvidará. São os meios de alcançarmos esse sentimento que não são necessariamente os mesmos para toda a gente. Partamos de uma perspectiva em que se cotejam as atitudes do crente e do não crente, do liberal e do antiliberal.

 

O crente confia – em graus variáveis, é certo – na protecção de uma entidade sobrenatural que ele percepciona como realidade inquestionável, dispensando mesmo os critérios da fiabilidade e da racionalidade, uma vez que a eles sobrepõe o critério da fé. Fá-lo, tendo pragmaticamente em conta condicionamentos da sua existência que pouco ou nada terão a ver com a sua crença, mas a sua fé constitui a derradeira garantia de íntima segurança, quando as circunstâncias da vida lhe não facultam outro amparo.

 

O não crente, por sua vez, e também em graus variáveis, tende a equacionar os elementos conhecidos da realidade envolvente, buscando encontrar neles nexos potenciadores dos equilíbrios necessários à prossecução dos quadros estruturais e conjunturais que viabilizem esse sentimento e essa segurança. Esses elementos – no fundo, definidores do seu ser social – são essencialmente de natureza económica e são percepcionados diferentemente pelo não crente, em função de orientações ideológicas que variam grandemente.

 

A um lado, o liberal propugna a interacção sem constrangimentos das forças que propulsionam as trocas de todo o tipo entre indivíduos e grupos que interagem nos diversos domínios da actividade humana, nomeadamente o económico (livre iniciativa, livre comércio, …), confiantes de que essa interacção conduzirá à auto-regulação e conferindo ao mercado um estatuto algo próximo daquele que o crente atribui à providência divina (Deus vela por nós; o mercado, pelos nossos negócios).

 

Do lado oposto, o antiliberal materialista dialéctico, descrente do potencial de harmonia e de segurança a prazo do liberalismo económico, vê no constrangimento (eufemismo transparente…) das forças destrutivas consabidamente inerentes àquilo a que os liberais chamam a “natureza humana” a chave de um controlo eficaz dos nossos impulsos “reptilianos”, na busca de sínteses que ele sabe passageiras.

 

Afinal, o liberalismo e as doutrinas que promovem o culto da individualidade e a exaltação à outrance da liberdade individual estão para o materialismo dialéctico e histórico um pouco como como o “id” para o “super-ego”, numa transposição talvez algo simplista e caricatural da psicanálise para o plano social, sendo de admitir que, na caricatura, sempre alguns traços de verdade transparecem.