Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Também de esquerda

Espaço destinado a reflexões (geralmente) inspiradas na actualidade e na Literatura.

Também de esquerda

Espaço destinado a reflexões (geralmente) inspiradas na actualidade e na Literatura.

As Aventuras de uma Viajante na Coreia do Sul

Aventuras de uma Viajante na Coreia do Sul - full_100934.jpg

A sinopse tinha-me despertado o interesse. Não é todos os dias que um filme (premiado com o Urso de Prata do Grande Prémio do Júri, no Festival de Berlim 2024) nos obsequeia com um método alegadamente inovador no ensino de uma língua estrangeira, e Isabelle Huppert, a actriz-protagonista, é uma mulher interessante (não me esqueço do Chérubin, no Mariage de Figaro!).

Saio da sala sem saber o que pensar. Um misto de estranheza e de insatisfação alia-se à impressão de que arte é arte e não tem que corresponder a expectativas pragmáticas de quem pretende servir-se de um conhecimento obtido pelo preço de uma entrada ou à ingénua convicção de que, em arte, há que respeitar o cânone e escarrapachar o sentido.

Ciente de ter já aprendido o suficiente para estar receptivo a tudo o que é diferente, desfiro um safanão nesta veleidade algo xenofóbica e decido-me a repensar o filme, sem abandonar de vez as reticências já anunciadas, quais são, agora explicitamente:

Primo, a história mostra-se algo inconsistente, falha de fôlego inventivo, pobrezinha. O alegado método consiste em fazer “recitar” tantas vezes quanto possível, a sós, e, de preferência, no silêncio íntimo do quarto, um conjunto de frases, em francês, caligrafadas numa ficha cartonada e gravadas em audiocassete, pela professora, após conversa em que inquire, em inglês, uma jovem aluna, primeiro, uma senhora, depois, acerca do que haviam sentido ao executar uma composição, respectivamente, num piano e numa guitarra: satisfação, orgulho, receio de falhar, etc. Ora, estas são as duas únicas ocorrências de exibição prática do método e são muito semelhantes entre si. A eficácia do procedimento resultará, eventualmente, da adesão afectiva do aprendente àquilo que enuncia de viva voz, em inglês, e que a professora traduziu em francês. O espectador não tem que duvidar: aprende-se mais facilmente tudo aquilo de que gostamos ou que nos toca, no plano emocional. Ok. Mas – isto – não o sabíamos já, todos, desde sempre? E o resultado final? Ora, bem, o filme não no-lo mostra. Ficamos sem saber se a adesão afectiva a frases que vão além das utilitárias «Bonjour, comment allez-vous?», «S’il vous plaît, c’est où les postes?», «À quelle heure arrive le train?» dá o resultado que se espera, ainda que seja expectável que sim, pelo que já foi dito atrás.

Secundo, a sequência do aparecimento da mãe sul-coreana do jovem adulto sul-coreano que partilha o seu apartamento com a protagonista francesa bem mais avançada em idade é ilustrativa de uma certa cultura. Acontece que, no fundo, essa cultura, pelo menos, neste particular, não será assim tão diferente da nossa: imagino sem dificuldade uma mãe portuguesa a ter idêntico comportamento com um filho, jovem adulto português, ou seja, suspeitosa de que haverá ali marosca e de que aquela loira protagonista é uma maldosa sedutora da sua indefesa cria. Admito que um filho natural daqui, do nosso jardim à beira-mar etc. fosse menos paciente e acabasse por se irritar, o que não acontece com o asiático, para mal da Isabelle, que passa uma noite ao relento.

Além disto, há, no filme, duas cenas, salvo erro, com poemas inscritos, um deles numa pedra, o outro, numa parede. Aparentemente, na Coreia do Sul, cultiva-se o gosto pela poesia, o que também não é original. Aqui, onde vivo e onde viveu Emiliano da Costa, há poemas dele em paredes públicas.

Mas, enfim, dir-me-ão, onde está a parte positiva aliada ao misto de estranheza e de insatisfação? Está numa atmosfera poética que envolve as personagens e que supre a carência de paisagem que poderia compensar alguns espectadores. De facto, quem esperasse ficar deslumbrado com uma paleta paisagística ou com ambientes humanos exóticos sairia frustrado. Contudo, a protagonista como que esparge sobre o que a rodeia essa poalha de magia provinda da sua aparente candura natural e o filme faz-se poema. A ler assim, sem preocupações de índole lógica, de coerência narrativa ou de intencionalidade. Pronto. Há por aí alguém que me queira explicar “isto” (sem desprimor para António Ramos Rosa):

A mão

prolonga

o pulso

quando

a água ondula

(in Declives, 1980)

Ah! Já me esquecia: realização e argumento são de Hong Sang-soo.

_______________________________________

Imagem de:

AVENTURAS DE UMA VIAJANTE NA COREIA DO SUL - CinemaCity