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Também de esquerda

Espaço destinado a reflexões (geralmente) inspiradas na actualidade e na Literatura.

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As vítimas do comunismo

(“Parlamento Europeu aprovou resolução que coloca nazismo e comunismo em pé de igualdade” observador.pt , 20 de Fevereiro 2021)

Vamos lá a ver uma coisa, como diria o PM.

1.º, n.º de mortos devidos à 2.ª guerra mundial (números retirados de um manual de História Contemporânea da autoria de Jean-Baptiste  Duroselle, para os anos terminais do ensino secundário francês, edição Fernand Nathan):

Total: 30 milhões de pessoas (contra 8 milhões na 1.ª grande guerra). Destes 30 milhões, 17 milhões eram russos (10 milhões de civis e 7 milhões de militares), 4 milhões de judeus, 6 milhões de polacos, 5,2 milhões de alemães (dos quais 1,2 milhões de civis, três vezes mais do que em 14-18), 10,5% da população jugoslava, 6,8% da população grega, 620.000 franceses, 300.000 soldados americanos e 200.000 soldados ingleses, mais 60.000 vítimas civis anglo-saxónicas.

Limitar este número a 6 milhões, como alguém faz, parece-me manifestamente redutor, mas certamente útil para hiperbolizar as vítimas do malfadado comunismo.

Os efeitos da 2.ª guerra, porém, não se limitaram à morte física. Deixando de lado as consequências económicas e políticas, sublinho as morais, recordando as câmaras de gás, os fornos crematórios e as torturas da Gestapo.

2.º, Há uma diferença substancial entre as vítimas do nazismo (para não falarmos das incontáveis vítimas - muito mais discretas e descartáveis, do capitalismo) e as do comunismo: o primeiro exterminava em nome de uma doutrina que não era nem científica nem admissível a nenhum título, visando conferir à raça superior (e, já agora, possuidora de todos os meios de produção) o domínio pleno de uma humanidade maioritariamente escravizada; o segundo, munido da teoria científica do materialismo dialéctico, promove revoluções tendentes a transformar a selva capitalista num mundo donde a desigualdade, a injustiça e a opressão serão banidas. Ora a substituição de um regime por outro prejudica definitivamente os interesses da classe dominante, pelo que esta nunca se submete pacificamente à vontade daqueles que, esclarecidos e inconformados com a sua sujeição, lutam pela transformação política e social. Daqui resulta o uso de uma violência, dita revolucionária, que é a resposta dos oprimidos à violência (muitas vezes, dissimulada e sonsa) dos seus opressores. Ambas as violências fazem vítimas, o que é lamentável, mas infelizmente inevitável. Ora a violência revolucionária faz vítimas enquanto o processo revolucionário está em curso. É uma violência balizada, em termos temporais, e com forte impacto na consciência de cada um, porque de fácil e imediata mediatização. Já a violência institucional, inerente à natureza e ao funcionamento do regime capitalista, é uma violência banalizada, normalizada, porque não conhece limites temporais, apenas formas mais ou menos graves, e que é assumida por muitos como inevitável, dadas as debilidades de todas as organizações humanas (“não há regimes perfeitos”) e os “vícios” dos cidadãos (os desempregados são-no porque não querem trabalhar).

Dir-me-ão que é bonito em teoria. É. E há sempre erros, desvios, excessos, nestas coisas feitas pelos homens. Seja como for, é minha opinião que batermo-nos por um ideal de igualdade e justiça não é comparável a batermo-nos por um outro que propugna a desigualdade e a sujeição da esmagadora maioria dos seres humanos à escravidão.

Ninguém, nem sequer os ateus, nega as virtudes do cristianismo, enquanto doutrina (a sua institucionalização, enquanto religião de Estado, é outra coisa), no tocante ao avanço civilizacional e às relações entre os seres humanos. E, no entanto, a Inquisição e as guerras de religião foram aquilo que se sabe. Não sei se o cristianismo fez os 45 a 72 milhões de mortos que alguém aqui assaca ao comunismo, o que teria provavelmente significado o extermínio de boa parte da humanidade, numa época em que os homens e mulheres não eram os perto de 8 mil milhões de hoje, mas foi seguramente responsável por muito sofrimento e morte. Culpa do cristianismo?

O que não invalida a assunção, já aqui expressa, da inevitabilidade da violência nos processos históricos. Importa é saber a quem essa violência serve. Experimente-se propor gentilmente àquele novel líder da chamada “direita radical” que renuncie ao seu projecto racista e criptofascista, aceitando o diálogo sereno com os ciganos, os migrantes, as minorias. Ele vai aceitar? Improvável. Claro que ainda não está em condições de implementar cabalmente o tal projecto, mas esse dia poderá chegar. Com ele ou com outro qualquer líder. Como chegou a uma Europa confrontada com as contradições inerentes ao capitalismo, na primeira metade do século passado. Se essa violência voltar a acontecer, não será legítimo o recurso a uma violência que se lhe oponha?

A União Europeia, fruto do conluio entre os países capitalistas -imperialistas com a finalidade de travar o avanço do socialismo na Europa e no mundo, está sempre disposta não só a condenar o comunismo (pudera!, é o seu inimigo de classe, figadal e determinado) como a enfiá-lo no mesmo saco do filho bastardo do capitalismo — o nazismo. Compreende-se, por isso, o seu voto de condenação. Entretanto, armada da sua indiscutível autoridade moral, vai convivendo pacificamente com os protofascismos aqui emergentes e fazendo os seus negócios de vacinas com as farmacêuticas do mundo democrático-ocidental, em condições em parte desconhecidas pelos cidadãos ou não lhe fossem sonegadas as cláusulas dos respectivos contratos. Nada disto é violência. Nada disto faz vítimas.

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