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Também de esquerda

Espaço destinado a reflexões (geralmente) inspiradas na actualidade e na Literatura.

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ATITUDES

Não era a primeira vez que acontecia. Eu chegava, aproximava-me, ficava a curtíssima distância dela, talvez um metro ou até menos, e nada. Como se não existisse, como se fosse invisível. Absoluta indiferença. Alheamento total. Nem, ao menos, um breve esboço de displicência.


Não esconderei a humilhação que experimentava. Não que eu entenda ser merecedor de particular deferência ou de tratamento diferente do que é dado a qualquer vulgar cidadão sem valimento ou atributo que o distinga dos demais. Não, não é isso. Quem me conhece sabe que não me tenho na conta de alguém cujo mérito justifique a veneração dos concidadãos. Antes pelo contrário, tenho até uma lúcida e pungente percepção das minhas limitações e fraquezas. Mas, que diabo, por muito humilde que se seja, o facto é que atitudes de ostensivo desprezo mordem tanto quanto dentuça de mastim.


Por isso mesmo, não me ficava. Perante aquela insensibilidade esfíngica, eu gesticulava, punha-me na ponta dos pés, afastava-me, como que na esperança de que a desistência provocasse nela alguma pena desencadeadora de reconhecimento, e, depois, reaproximava-me, quase com acinte, enchendo o peito de ar, numa bravata afadistada. Mas quê. Total e absoluto alheamento. Nem o mais reles sinal de ter, enfim, dado por mim. Como se eu fosse espectro, sem massa, sem consistência, incolor e inodoro, existência virtual.


Desta vez, cansado daquele comportamento reiterado, resolvi, finalmente, lançar mão de expediente radical: pedir o livro de reclamações. Um funcionário ia a entrar. Dirigi-me a ele. Com certeza, é só esperar um minutinho. Entretanto, garantimos-lhe que não voltará a acontecer, pois vamos imediatamente tomar as medidas que se impõem. Mas que coisa estranha; ela sempre teve um comportamento absolutamente normal, sempre desempenhou cabalmente as funções que lhe foram cometidas. Aliás, foi condição expressamente consignada para que a aceitássemos ao nosso serviço e patati e patatá. A conversa habitual, sempre que se pede o livro de reclamações. Insisti. Insisti, mas confesso que começava a sentir a humilhação amolecer. Já não era bem mordidela de canídeo, seria mais uma moinha ligeira algures entre o cerebelo e o hipotálamo. Além do mais, também me custava causar embaraço a gente que não queria mais do que ganhar o seu pão quotidiano. Caminhei, de novo, para ela. Tomara a firme resolução de lhe conceder uma derradeira oportunidade, ciente de que, afinal, somos sempre nós mais a nossa circunstância, e inclinado ao perdão. Como reagiria ela, agora que eu me dirigira ao funcionário? Pois bem, reconheceu-me. Recebeu-me de braços abertos. E, quando o funcionário me deu o livro de reclamações, redigi um elogio enternecido daquela porta automática.

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