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Também de esquerda

Espaço destinado a reflexões (geralmente) inspiradas na actualidade e na Literatura.

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Espaço destinado a reflexões (geralmente) inspiradas na actualidade e na Literatura.

Convenções sociais, bordões linguísticos e mitologias degradadas

Exceptuando os casos – em princípio, raros – de isolamento voluntário ou forçado, como animais gregários, que somos, vivemos em sociedade e cumprimos certo número de convenções que constituem como que uma senha de acesso ao convívio com nossos semelhantes. Uma dessas convenções, talvez a mais generalizada, consiste em saudar. «Salve» e «Ave» estando hoje circunscritas ao registo religioso ou irónico, dispomos do «Bom dia», «Boa tarde», «Como está?», etc., correspondentes laicas das anteriores saudações. Não saudar o concidadão de uma maneira ou de outra representa uma falta de cortesia ou até manifestação de desprezo, apenas desculpável se o objecto da nossa interpelação for de pouca importância, de rápida resolução e introduzido por uma fórmula desculpabilizante: «Perdão, sabe dizer-me se o autocarro já passou?» Frequentemente, a saudação nem sequer constitui um primeiro passo no entabulamento de qualquer comunicação formal; funciona, então, como sinal de identificação comunitária: ao chegar à paragem do autocarro, digo apenas «Bom dia!» aos presentes; porém, a mensagem implícita é bem menos lacónica: «Não nos conhecemos, mas pertencemos à mesma comunidade de pessoas sérias e empenhadas no bem colectivo, pelo que me compraz terdes um bom dia de trabalho, de estudo ou de lazer.» Havendo poucas pessoas à espera do autocarro, é provável que me retribuam a saudação, como sinal de que sou bem-vindo. O cão talvez abanasse a cauda, e o gato … sei lá, arqueava o dorso? O que é certo é que todo o inexpresso está bem escondido – eventualmente, no sistema límbico –, e apenas aflora o «Bom dia!».

 

Nas chamadas quadras festivas, a estes cumprimentos de todos os dias juntam-se os votos: é o «Feliz» ou «Santo Natal», o «Bom ano», as «Boas Entradas em 2022», a «Páscoa Feliz». Não são saudações, mas não deixam de ser uma convenção, e o cidadão que se abstém de desejar um «Bom ano» ao seu vizinho será visto, no mínimo, como antipático.

 

Acontece que, se o «Bom dia» e «Boa tarde» não transportam consigo nenhuma carga emotiva que emissor e receptor percepcionem conscientemente, pouco mais representando, em geral, do que um livre-trânsito para a entrada em diálogo com quem quer que seja, já os votos de «Bom Natal» ou «Bom ano» encerram frequentemente uma significativa carga de júbilo. Em muitos casos, há ainda um grande despojamento na formulação do voto (o emissor pretende apenas dar mostra de cortesia para com o receptor), mas é, de facto, frequente essa formulação estar fortemente impregnada de um sentimento de comunhão com o outro, como se aquele concidadão, até aí indiferente, apenas mais uma das pessoas com quem diariamente interagimos esporádica e superficialmente, adquirisse naquele instante uma dimensão excepcional, e ele passasse a ser, por instantes, um verdadeiro irmão, numa relação de comunhão connosco, qualitativamente diferente da identificação comunitária dos utentes de transportes públicos.

 

Suponho que este substancial acréscimo de afectividade na pragmática linguística tem uma motivação de carácter mítico que procurarei esclarecer.

 

Mircea Eliade caracteriza de forma magistral a diferente percepção que temos do tempo, em função da nossa relação (ou ausência dela) com a divindade: Enquanto «o homem religioso vive em duas espécies de tempo, a mais importante das quais, o Tempo sagrado, se apresenta sob o aspecto paradoxal de um Tempo circular, reversível e recuperável, espécie de eterno presente mítico que o homem reintegra periodicamente pela linguagem dos ritos», o homem não religioso – que também «conhece uma certa descontinuidade e heterogeneidade do Tempo», (o tempo do trabalho e o do lazer ou da festividade; o tempo da recreação; o tempo do encontro com a pessoa amada, etc.) – não vê no tempo «nem ruptura nem mistério: o Tempo constitui a mais profunda dimensão existencial do homem, está ligado à sua própria existência, portanto tem um começo e um fim, que é a morte, o aniquilamento da existência.»

 

Com efeito, se o «Bom dia» pode exprimir o desejo de que o dia corra bem ao nosso interlocutor, já o «Bom ano» ou «Bom 2022», dada a extensa sucessão de 365 dias sujeitos a tantos percalços, trai a crença num “recomeço do tempo” – um tempo “descontínuo”, “recuperável” e renovado, que se reveste de uma aura sobrenatural e assume o estatuto de entidade consciente com capacidade para intervir na nossa existência.

 

«Que o novo ano vos traga isto ou aquilo» significa que, para o emissor do voto, o Tempo é uma entidade com capacidade autónoma para “trazer coisas”; «que o novo ano seja assim ou assado» significa que o Tempo dispõe da possibilidade de modelar a sua feição e de aceder ou não ao desejo de quem emite o voto. Ou seja: a formulação destes votos, aparentemente anódina e simples forma de expressão de cortesia ou de amizade, revela, se passada ao crivo das suas motivações inconscientes, a crença mítica característica da percepção que o homem religioso tem do tempo.

 

Bem sabemos que os bordões linguísticos não passam de auxiliares fáticos do emissor em ruptura momentânea do fôlego discursivo. Que o diga quem inicia qualquer frase com o “portanto”, por menos conclusiva que seja a proposição assim encetada. Porém, o bordão linguístico não contém a energia afectiva dos votos a que me venho referindo. Estes últimos configuram um vestígio do pensamento mítico a que até o homem não religioso dificilmente escapa. É a mitologia degradada de que fala Eliade: mesmo nas sociedades modernas, o homem sem religião «dispõe ainda de toda uma mitologia camuflada e de numerosos ritualismos degradados.» É o que se constata, por ex., por ocasião de festividades e celebrações tais como a passagem de ano, o casamento, o nascimento, a promoção profissional, etc., ou «nos espectáculos que ele prefere, nos livros que lê, [porque] a leitura comporta uma função mitológica». Com efeito, para além de substituir os antigos mitos e a literatura oral de outros tempos, a leitura também lhe permite uma «“saída do Tempo” comparável à efectuada pelos mitos.»

 

Há dias, numa reportagem da tv, uma senhora de 101 anos vacinada num lar respondia a perguntas da jornalista com um remate sistemático: «Não fui infectada, graças a Deus», «Não reagi mal à vacina, graças a Deus», «Sinto-me bem, graças a Deus». A destrinça entre o bordão linguístico e a retoma ritual (Freud diria: neurótica obsessiva) do agradecimento reconhecido à divindade é difícil de fazer. Há, muito provavelmente, algo dos dois. E compreende-se, atentas as características do locutor (a idosa).

 

Quando, ainda hoje, se bem que cada vez mais raramente, ouvimos jornalistas da rádio ou da televisão, nomeadamente as públicas, despedir-se com um “Até amanhã, se Deus quiser», há, todavia, razão para incómodo e para estas interrogações:

Antes de mais, estará o jornalista a par da natureza laica da República?

Admitindo que está disso ciente, a invocação da vontade divina será simples cedência ao hábito arreigado, vindo da infância, e, por conseguinte, não passa de bordão linguístico, o que, para profissionais da comunicação é sinónimo de inabilidade no uso do seu instrumento profissional?

 

Quanto ao autor do post, ai dele, que ousa resistir à convenção imbuída de misticismo (consciente ou inconsciente)! Terá lido muitos romances de cavalaria (ou seus equivalentes mais recentes), e vê gigantes onde só há moinhos de vento. Acabará sacrificado no altar da convenção.