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Também de esquerda

Espaço destinado a reflexões (geralmente) inspiradas na actualidade e na Literatura.

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DEFESA E ILUSTRAÇÃO DA CIÊNCIA (Manifesto anti-agnosticismo)

Ser estruturalmente anti-agnóstico pode significar acreditar em "Deus", sendo-se ateu, e, até, ser ateu graças a "Deus".

Explicando: o homem é capaz de tudo, e disso tem dado bastas provas. Ninguém imaginava, tirando uns raros visionários, que pudéssemos um dia fazer aquilo que hoje se tornou comum e muito menos aquilo que está em vias de se tornar comum ou que vai acabar por sê-lo. Exemplos?! Seria um nunca mais acabar! E, no entanto, o homem conseguiu-o. Donde a crença do anti-agnóstico no Homem – criador omnisciente e omnipotente, matéria nascida da matéria, realidade criadora de mitos. Ora o reconhecimento desta ilimitada capacidade da razão humana leva o anti-agnóstico a inferir a potencial reversão de todo o desconhecido. O mistério tem os dias contados, mesmo que esses dias valham anos ou séculos. É uma questão de tempo para que todas as utopias se tornem realidades.

Assim, ao anti-agnóstico, o agnosticismo afigura-se-lhe uma declaração de desistência, de demissão, ou de falta de coragem. O agnóstico acredita na força da razão humana até certo ponto; chegado aí, deixa-se impressionar por fenómenos inexplicáveis, no estado actual da ciência, ou insusceptíveis de explicação científica, pura e simplesmente por serem falsidades – está-se perante um agnóstico demissionário. Outro agnóstico é o timorato, aquele a quem a coragem falece: na dúvida, ele abstém-se de afirmar o primado da razão, não vá ser punido por um ser que só a irracionalidade da fé pode conceber. Assim, o agnóstico vacila – entre a razão e a fé. E, ao vacilar, claudica. E, ao claudicar, perde a oportunidade de reivindicar a quota-parte de divindade que cabe a cada ser humano. Ou, pelo menos, restringe a sua parcela pessoal dessa divindade – entendida como capacidade ilimitada de desvendar o desconhecido. A curto, a médio, ou a longo prazo.

Onde, no parágrafo precedente, se alude à “irracionalidade da fé”, longe do intuito de insultar os crentes, define-se a natureza da crença que prescinde da intervenção da razão – significado primeiro de “irracionalidade” –, o que constitui motivo suficiente para o anti-agnóstico ateu imputar ao imaginário Deus o seu ateísmo: ele é ateu graças ao que considera ser uma ideia de Deus que dispensa a razão, ou, em versão encurtada, graças a Deus. E o anti-agnóstico ateu não o faz gratuitamente; antes se respalda na lição de um Padre da Igreja: a asserção “Credo quia absurdum” é atribuída a Tertuliano (a sua obra aponta nesse sentido) e significa que a fé, ao contrário da ciência, não é do domínio da razão; ignora a razão e até a contraria: “acredito porque é absurdo!” O ateu, reconhecido, bendiz a franqueza do Padre e recomenda-o aos agnósticos, para que se determinem: razão e irrazoabilidade gozam de idêntico estatuto? A metafísica é mais do que o reino do absurdo?

No fundo, o agnóstico censura ao homem a sua insuficiência, exige-lhe a omnisciência integrante do conceito de Deus. Não aquela omnisciência relativa (passe a contradição) a que se alude mais acima e que vai sendo paulatinamente conquistada, com avanços, hesitações e recuos. Não. O agnóstico parece partir do pressuposto inexpresso de que é imprescindível a existência de um ser que disponha duma omnisciência propriamente dita, isto é (passe o pleonasmo), duma omnisciência total e absoluta, o que equivale a dizer que o agnóstico é um crente que não se assume frontalmente, mas que o faz nas entrelinhas, e que o agnosticismo é uma crença idealista rendida ao poder do absurdo e disfarçada de rigor epistemológico.

De cada vez que a ciência dá um novo passo, desbravando o desconhecido, o agnóstico sente-o como uma devassa, uma ameaça, uma derrota. Talvez não o agnóstico displicente, que, confortavelmente instalado na sua crença num incognoscível inexpugnável, pouco se importará com o progressivo aluimento do desconhecido. Mas seguramente o agnóstico militante, aquele que faz da sua crença na metafísica um postulado equiparável às leis naturais. Para este, as vitórias da ciência constituem, no mínimo, um incómodo irritante; em casos mais sérios, um abalo telúrico. À maneira do mostrengo que está no fim do mar, interrogam-se «Quem é que ousou entrar / nas minhas cavernas que não desvendo / meus tectos negros do fim do mundo?». Ao que o homem do leme, ignorando de todo o Senhor Dom João Segundo, responde que preza o sonho e não desdenha a fantasia, mas os sabe pôr no seu devido lugar.

Não se pense, contudo, que os agnósticos de hoje são os de todos os tempos. Não. Quando Galileu teve de abjurar, um agnóstico de que a História não regista o nome ter-lhe-á dito: «A Igreja sabe, desde sempre, que o Sol gira em torno da Terra; tu e, antes de ti, o teu antecessor Copérnico afirmais que é, pelo contrário, a Terra que gira em torno do Sol; sois todos crentes nas vossas crenças, e eu não tenho meios para destrinçar. Isso do funcionamento do universo está muito para além da física!» Ao que Galileu terá retorquido com uma frase já sussurrada antes, ao sair do Santo Ofício, e que toda a gente conhece. Hoje, o agnóstico sabe que a Terra gira em torno do Sol, mas há ainda um sem-número de mistérios insondáveis que ele encara com pavor. Até porque o Santo Ofício foi extinto fisicamente, mas continua bem presente dentro de nós. Que o diga aquele santo austríaco, padroeiro dos ateus e tão pouco agnóstico, que escreveu isto: «muito facilmente o nosso intelecto erra sem disso se aperceber, e […] nada há em que acreditemos mais facilmente que naquilo que, sem atender à verdade, vem ao encontro das nossas ilusões e desejos.» (Freud, Moisés e o Monoteísmo).