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Também de esquerda

Espaço destinado a reflexões (geralmente) inspiradas na actualidade e na Literatura.

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Espaço destinado a reflexões (geralmente) inspiradas na actualidade e na Literatura.

Divagações em torno do conceito de belo

Divagações em torno do conceito de belo

O nosso apego ao regular e harmonioso, características geralmente integrantes do conceito de belo, terá a ver com a filogénese?

Se os nossos avós se empenharam em fabricar rudes instrumentos de pedra lascada não o fizeram por serem belos, mas por serem úteis para a sua sobrevivência. As “facas” que fabricaram não eram objectos laboriosamente burilados, com fins estéticos; eram pedras angulosas, mas feriam, laceravam, facilitavam a tarefa de reduzir a pedaços susceptíveis de serem ingeridos os animais que caçavam. Comparadas com os seixos polidos e policromáticos do riacho, eram menos belas, mais desagradáveis ao toque, mas mais úteis. Cumprida essa tarefa urgente de refazer energias, e talvez numa curta pausa digestiva, os seixos ali ao lado terão espoletado, num ou noutro dos nossos avós menos friamente materialistas, uma agradável sensação a que, largos milénios mais tarde, viríamos a chamar emoção estética.

Mas as pedras não foram tudo na nossa filogenia, e, sem querer ofender metade da humanidade – e até um pouco mais, ao que parece –, ocorre-me dizer que a mulher terá sido, para a outra metade da humanidade, um pouco como a “faca” e os seixos do riacho, com a particularidade de juntar a utilidade de uma, ainda que de modo desigual, à agradável sensação provocada pelos outros.

Naqueles tempos remotos, as nossas avós prescindiam dos acessórios que, uns tempos mais tarde, viriam a ser disponibilizados pela Moschino, pela Versace, pela Courrèges ou, para abreviar e descer vários patamares na liquidez da compradora, pela corriqueira Zara. Dispunham de assaz densa pelagem, capaz de rivalizar com os mais caros casacos de peles daquelas ou de outras marcas (que, em tal matéria, o autor é mais ignorante ainda do que em matéria de filogenia), quanto mais com um casaco matelassê de punhos canelados da Canada Goose (passem todas estas publicidades desinteressadas). Ora, se com uma calça jeans da Agolde os netos dos nossos avós se dão imediatamente conta da indizível harmonia que jaz sob a ganga azul deslavada, sendo, acto contínuo, acometidos de agradável emoção estética, os avós dos netos de hoje, ao vislumbrarem as formas arredondadas das nossas avós, inevitavelmente as associavam a perspectivas prazerosas, com o que a persistente impressão neles deixada pelo redondo, pelo simétrico, pelo aveludado, se terá “instalado” definitivamente em nossos genes, à maneira do instinto que, no animal, é herdado à nascença, dispensando aprendizagem.

Esta divagação sofre, evidentemente, de um defeito importante (a adicionar a todos os outros): é eminentemente sexista, no sentido em que veicula uma visão masculina e heterossexual. Que pensará disto uma mulher, um ou uma homossexual? Ter-se-á o conceito de beleza consolidado, sobretudo, a partir da experiência existencial masculina? Difícil de aceitar. Certo é que a homossexualidade estava presente na horda primitiva (as circunstâncias que precederam o célebre parricídio “de” Freud tê-la-ão favorecido), e não é menos certo que a harmonia corporal poderia ser igualmente identificada com o prazer sexual, em sentido distinto do que descrevi antes, por nossos avós de ambos os sexos, nos corpos de seus companheiros e companheiras. (Com pedido de perdão por mais um parêntesis sobre a sexualidade, se Freud menciona explicitamente a relação homossexual, Engels, em Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado, escreve: «Morgan, ao reconstituir assim a história da família, recua, de acordo com a maior parte dos seus colegas, até um estado de coisas primitivo em que relações sexuais sem peias reinavam no interior de uma tribo, de tal modo que cada mulher pertencia a cada homem e cada um dos homens a cada uma das mulheres.»)

Continuando, julgo ter algumas vezes ouvido dizer que a mulher, mais do que a beleza física, valoriza, no homem, a inteligência, a cultura, a verve (galicismo de significado bem conhecido, contrariamente ao latiníssimo “facúndia”). Tal pretensão padece de uma ambiguidade: pode indiciar que a mulher tem a superior aptidão de ajuizar do outro a partir de indícios mais subtis do que o arredondado das formas físicas, tão facilmente capturável pela simples observação, mas pode igualmente insinuar que os atributos da tal verve e sobretudo os da inteligência, foram mais generosamente distribuídos entre os humanos do sexo masculino, levando as humanas vantagem naquilo que, supostamente, não exige grande esforço ou particular aptidão.

Também me parece ter ouvido algumas vezes que é a força viril espelhada na musculatura que empolga a mulher. O belo, neste caso, será novamente a harmonia corporal.

Tem tudo isto fundamento e condicionantes genéticas? Se tem, é claro que tudo foi matizado por factores culturais e que essas condicionantes foram amenizadas e, no limite, contrariadas: até o homem mais sensível à beleza feminina se poderá deixar seduzir (…) pelo brilhantismo, pela verve, pela inteligência, de uma mulher insusceptível de ser enquadrada nos padrões de beleza feminina do nosso tempo.

Mas isto são divagações que, de científico, poderão ter um poucochinho mais do que a teoria geocêntrica. Só um poucochinho.