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Também de esquerda

Espaço destinado a reflexões (geralmente) inspiradas na actualidade e na Literatura.

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Espaço destinado a reflexões (geralmente) inspiradas na actualidade e na Literatura.

Eras o cervo que fugia depois de haver-me ferido, de Fernando Cabrita

Eras o cervo... Fernando Cabrita.jpg

 

O título do último livro de Fernando Cabrita, menção honrosa do Prémio Literário João da Silva Correia, em 2019, suscita uma perplexidade, não tanto pela sua extensão e natureza sintáctica (proposição com sujeito implícito, verbo, predicativo e complemento circunstancial), mas sobretudo pela alusão ao cervo, que os dicionários de símbolos associam às ideias de fecundidade, renovação e liberdade, e que surge nas cantigas galego-portuguesas precisamente como «símbolo da potência viril» e do «amigo»[1]. No contexto da poesia trovadoresca, seríamos imediatamente levados a interpretar o ferimento causado pelo cervo como pena de amor, mas os primeiros poemas do livro não indiciam ter-se o autor metamorfoseado em trovador e adoptado o convencional ponto de vista da donzela, apaixonada e não correspondida pelo «amigo». O que os primeiros poemas revelam é a dimensão antropológica da poesia de FC, que não se detém no pequeno drama individual, seja ele o da donzela de outrora ou o do poeta dos nossos dias acometido de dismenorreia lírico-depressiva, antes põe em cena o homem de hoje e de sempre. Não o homem de aqui e agora, mas o de uma Pátria/Casa (tema recorrente em Fernando Cabrita) que é a Terra, com «todos os idiomas mesmo os que nunca [escutou]» (Poema Um), o homem que vizinhos vêem passar, e que passam, quer no espaço, quer no tempo, porque «passamos todos. Todos. Todos.» (Poema Dois). A percepção algo sincrética do espaço e do tempo é, de resto, outra das características desta poesia, observável, por exemplo, no poema Três: «Também nasci num país distante. / Tudo então começava em nós e nada nunca se acabava, / nem mesmo o tempo que resta […]». O «país distante» da infância é o tempo das possibilidades infindas, quando «nem mesmo o tempo que resta» acaba e quando a confiança reina, porque «Nada nunca se findaria.» (leitmotiv de vários poemas)

Lidos os restantes poemas (eles são trinta e nove, ao todo), importa, por um lado, saber até que ponto eles respondem à perplexidade inicial, por outro lado, como é que a dimensão antropológica se materializa no plano da enunciação poética.

Quanto à perplexidade causada pelo título, o poemeto Sete, que reproduz a frase do título e a atribui ao “Cântico”, sugere incontornavelmente o Cântico dos Cânticos, onde a assimilação do amado a um “veadinho” ou a um “gamo”, consoante as traduções da Vulgata Latina consultadas, parece autorizar a identificação de uma metáfora de cariz amoroso. Foram vãos, contudo, os esforços despendidos para lá se encontrar a frase em questão. Outrossim, no poema Trinta e Sete – extenso hino de glorificação do espírito criador do homem e dos testemunhos que ele nos deixou ao longo dos séculos –, a convocação dos trovadores italianos do século XIII Sordello e Guido Cavalcanti induzem a hipótese de outra autoria. Certo é que, em todos os casos, estamos perante poesia em que a pulsão erótica é patente, e se Salomão se desdobra na celebração dos encantos da amada, que promete não o largar «até o não introduzir em casa de [sua] mãe e levar à câmara daquela que [a] gerou», Fernando Cabrita vai ao encontro dos seus poetas «desaparecidamente sobrevivos / todos plenos de graça e de mistério / todos árvore e capitel e basílica […]» (a lembrar a Pedra Filosofal) e com eles confraterniza:

[…] sento-me a teu lado

meu impossível mestre

trovador e ave de todos os céus

e oiço-te Sordello

e oiço-te Guido Cavalcanti

e oiço-te Cunizza

e oiço os gozos e as delícias

do vosso amor tortuoso e ainda assim cortês […]

Estando o leitor ainda mal refeito da perplexidade inicial, eis que, em inesperado comentário na página facebook da editora Canal Sonora, o autor o esclarece, ainda que sem saber das angústias interpretativas do primeiro: trata-se de dois versos do Cântico Espiritual de S. João da Cruz[2]. Renovada perplexidade do leitor, agora a braços com uma das figuras mais importantes da literatura mística renascentista, juntamente com Teresa de Ávila (Santa Teresa de Jesus). A surpresa, porém, é momentânea, já que rapidamente à memória assomam as longínquas aulas de literatura espanhola e a noção de que Eros terá subvertido o Espírito Santo, levando os doutores da Igreja a adoptar uma linguagem que só lembraria ao Diabo (a linguagem usada pelos místicos denuncia a eflorescência de um erotismo reprimido, uma espécie de regresso do recalcado), pelo que, em conclusão: com Salomão, trovadores à moda provençal ou místicos de alma apaixonada por Deus, estamos sempre a ouvir “os gozos e as delícias” de um amor certamente cortês, nuns casos, mais provavelmente “tortuoso”, nos outros.

Mais importante, contudo, do que a dilucidação deste enigma é aquilo a que chamei a “dimensão antropológica” da poesia de FC. e que é indissociável da sua percepção do espaço, do tempo e da sua própria individualidade. Já noutras ocasiões me debrucei sobre a problemática do “eu” na sua poesia, sublinhando, então, a desvalorização do sujeito da enunciação. Neste novo livro, a par dessa desvalorização, importa avaliar a extensão do conceito. É que, mesmo quando a memória (tão presente nestes poemas) é convocada por um “eu” (quase sempre, implícito; creio que a única excepção se encontra no poema Dezoito: «[…] eu escuto o sentido mágico de coisas que sabia / que teriam que existir»), mesmo nesses casos, nem sempre é fácil determinar até que ponto se trata de um “eu” unipessoal ou de um “eu” colectivo, um “eu” equivalente a um “nós” universal, ou não se mostrasse o autor tão imbuído da sua inalienável pertença a uma humanidade múltipla e ainda assim una. No caso do poema Treze, é óbvio que se reduz o “eu” à sua real dimensão individual na vastidão do mundo: «[…] E o mundo corre sereníssimo sem saber de mim. / E sou feliz porque tudo está como tem que ser.» (sem metafísica nenhuma, a lembrar Alberto Caeiro, como acontece também no poema Vinte e Seis). Já no poema Dezassete, que, salvo melhor interpretação, parece introduzir uma nota dissonante num conjunto que, globalmente, exprime uma visão optimista da história e da condição humana, o leitor hesita quanto à extensão a conferir ao “eu” implícito – é o sujeito poético? é a humanidade (feita  de cada uma das “almas que fui[3]”)?

A porta não percute um som.

A luz cabisbaixa dentro de cada alma que fui.

A ilusão que as nuvens dão não chega.

Fui um animal da terra.

E a terra inspira-me o rugido antigo e

A mais antiga tristeza.

Seja um “eu” singular ou não, depois desse “eu”, vem, na maioria dos poemas, um “nós” que põe o leitor diante de nova dúvida: é um “nós” restrito, de uns poucos (designadamente, do par amoroso que se vislumbra em alguns poemas) ou designa ele um colectivo muito mais vasto, que poderia abranger a espécie? O poema Doze parece dar-nos alento nesta última hipótese: «[…] Dizemos Nós e lembramos o mundo, / O que foi e o que seria. / E assim seja!» Noutros poemas, nomeadamente o Dois e o Catorze, é o indefinido “todos” que totaliza a pluralidade do “nós”.

«Dizemos Nós e lembramos o mundo», diz o poema Doze. Ora o poema Trinta e Dois coloca as sondas de Saturno, os mortos de Gallipoli, Aquiles, Pátroclo, servos da gleba, entre outras referências geográficas e históricas, num “palco de cinzel” batido por “eternos ventos”, e conclui: “eis o que fomos, / eis o que jamais deixaremos de ser.” O mundo é esse palco onde passado, presente e futuro se sucedem e, afinal, se confundem? Sim. Mas é também “o barco [que] flutua sólido e salvo” e onde «seguimos apesar das tempestades […] apesar dos medos […] apesar das calmarias […] seguimos sempre.» (poema Trinta e Três). De resto, há, pelo menos, sete poemas (4, 10, 14, 15, 25, 27 e 33) em que ocorrem signos do campo lexical da navegação ou que sugerem uma relação próxima com a navegação: barco, navio, convés, porto, cais, rota, gaivota. Estes signos aparecem associados ao tema da viagem no espaço, mas igualmente, com significativa frequência, ao tema da memória. Este último, aliás, prima por uma presença quase constante: quando não está expresso num primeiro plano, o da percepção imediata do significado, é provável que se insinue no da sugestividade poética. No poema Quatro, o sentimento nostálgico do passado está claramente expresso, e a recordação parece constituir como que o cimento aglutinador do tempo, juntando passado e presente numa projecção para o futuro: «Recordo uma casa […] / Ou o cheiro das velhas ruas / onde só mora uma saudade e um dia ido / e o nosso fantasma triste no cimo da falésia, lírio branco onde pernoita o que fomos / e somos e nunca deixaremos de ser» (eco do poema 32). Se a poesia de Fernando Cabrita constitui como que um mergulho no tempo e há nela um marcado saudosismo (ver poemas Onze e Vinte e Sete, entre outros), não é menos verdade que não se trata de memória compungida, como o prova o poema Doze («Glória a todos os anos que se foram!»), apenas “dolorida” (Caminhamos doloridos de tanta saudade antiga […] E éramos felizes sem querer saber de quê. Éramos felizes.» (poema Vinte e Nove[4]). Mas é, sobretudo, uma memória que traduz uma aceitação adulta do que é, porque «o mundo corre sereníssimo sem saber de mim / E sou feliz porque tudo está como tem que ser.» (poema Treze), «E virão rios se tiverem que vir / e as quimeras serão as que chegarem / e os sonhos terão o tamanho que tiverem. E nunca sentirei pena do que não tenha vindo.» (poema Vinte e Seis). Sem embargo, “nunca o barco de Caronte / regressará sozinho” (poema Catorze).

Na evocação do passado, acontece surdir um discreto animismo, que terá sido a nossa primordial forma de religião: «O sol nas árvores esculpiu as sombras, ourives de toda a luz. / E onde os lábios do vento balbuciam brisas, / eu escuto o sentido mágico de coisas que sabia / que teriam que existir.» (poema Dezoito). Como se o autor mergulhasse na infância da humanidade e recuperasse o pensamento mágico de então.

Enfim, para concluir, e parafraseando o poema Trinta e Seis, “viajando entre o Agora e o Talvez”, a poesia de Fernando Cabrita “abre uma janela”.

E para lá dela era a ponte

a velha ponte

que presidiu às eras

e essa linha pouco recta que vai do outrora a todos os futuros.

É esta janela aberta para o homem que fomos, que somos e que, esperançosamente, seremos que faz desta poesia revigorante antídoto e salutar pedrada no charco de muita literatura deletéria em voga.

Setembro de 2020

Fernando Martins

 

[1] Méndez Ferrín, O Cancioneiro de Pero Meogo, Vigo, 1966, citado por Mário Fiúza, in Textos Literários Medievais, Porto Editora, 1977, p. 36

[2] Onde é que tu, Amado,/ Te escondeste deixando-me em gemido?/ Fugiste como o veado,/ Havendo-me ferido;/ Clamando eu fui por ti; tinhas partido!

  1. João da Cruz, Cântico Espiritual

 

[3] assinale-se a raridade da ocorrência do signo “alma” na poesia de Fernando Cabrita. Se o signo “deus”, com a sua variação em género e número, ocorre onze vezes (poemas 4, 5, 6, 12, 15, 18, 19, 20, 22, 31, 35) já “alma” tem esta única ocorrência. Os deuses, que remetem para a consciência mitopoética dos nossos antepassados, e que estão sempre presentes na história humana, dificilmente deixariam de figurar em poesia que reivindica a grandeza dessa história, sabendo-se, porém, que as fadas lhes são “congeniais” (veja-se o poema Dezoito). Porém, a humanidade, que passou pelo animismo e por diferentes visões mais ou menos mitopoéticas do mundo, atingiu um patamar em que a alma da apologética cristã, conceito estranho ao pensamento científico, só pode ser vista como relíquia conceptual, elemento integrante da “neurose obsessiva universal”, para usar a formulação de Freud quanto à religião.

[4] O poema Vinte e Nove é um dos quatro poemas (29, 30, 34 e 35) em que é possível vislumbrar a temática do amor humano em sentido restrito, isto é, o amor do casal apaixonado de que o A. será parte integrante. “Vislumbrar”, porque o A. se lhe refere de forma tão delicada que apenas a desinência feminina de um único adjectivo (“distraída”), no poema 34, nos permite identificar o outro elemento do par: « Vinhas, como um anjo, distraída e breve. / Sobre ti as luas / O conforto vegetal da casa de antes / Um sorriso do que não fora mas / teria sido primavera. / E tudo estava certo / E via-se o mundo como não se veria mais.»

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