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Também de esquerda

Espaço destinado a reflexões (geralmente) inspiradas na actualidade e na Literatura.

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GUERRAS DE RELIGIÃO / GUERRAS DE… ATEÍSMO

Acredito que, com muita frequência, a religião tenha sido, e ainda hoje possa ser, mais pretexto do que causa genuína de conflito violento. Interesses puramente materiais, territoriais ou outros, estiveram certamente em jogo em muitos dos conflitos que envergaram o disfarce religioso para lograrem uma legitimação que, de outro modo, seria mais problemática. Há, contudo, um rasto sangrento infindo e indesmentível relacionado com as diferenças de credo, ao longo da História. No passado, foram as Cruzadas que opuseram cristãos e muçulmanos (por vezes, judeus também, apanhados de ricochete, por via da sua proverbial liquidez financeira), numa contenda que durou cerca de dois séculos e ficou marcada por episódios que não lembrariam ao Diabo. Na sua Uma Pequena História do Mundo, capítulo 23, E.H. Gombrich escreve:

«Quando, depois de longos anos de batalhas e dificuldades inimagináveis, [os cruzados, que tinham partido em 1096, liderados por Godofredo de Bouillon] chegaram por fim às muralhas de Jerusalém, diz-se que ficaram tão comovidos ao ver a Cidade Santa, que só conheciam da Bíblia, que começaram a chorar e a beijar o chão. Depois sitiaram a cidade. Os soldados árabes defenderam-na com valentia, mas os cruzados acabaram por conquistá-la.

«Infelizmente, depois de entrarem em Jerusalém não se comportaram nem como cavaleiros nem como cristãos. Massacraram todos os muçulmanos e cometeram atrocidades horríveis. Depois, penitenciaram-se por isso e, cantando salmos, dirigiram-se para o túmulo de Cristo.»

Às cruzadas seguiram-se as guerras entre católicos e protestantes, que devastaram a Europa dos séculos XVI e XVII. Em História Breve da Humanidade, capítulo 12, Yuval Noah Harari refere que

«Todos os envolvidos aceitavam a divindade de Cristo e o seu evangelho de compaixão e amor. No entanto, discordavam quanto à natureza desse amor. Os protestantes acreditavam que o amor divino era tão grande que Deus tinha encarnado e permitido que fosse torturado e crucificado, assim redimindo o pecado original e abrindo os portões do Céu a todos os que professassem a sua fé n’Ele. Os católicos defendiam que a fé, ainda que essencial, não era suficiente. Para entrarem no Céu, os crentes tinham de participar nos rituais da Igreja e praticar boas acções. […]

«Estas disputas teológicas tornaram-se tão violentas que, durante os séculos XVI e XVII, católicos e protestantes mataram-se uns aos outros às centenas de milhares.»

Em pleno século XX, ainda a Irlanda do Norte se debatia com o infindo antagonismo entre a burguesia protestante e o proletariado católico.

Na actualidade, cristãos e muçulmanos guerreiam-se na Nigéria e no Norte de África; no Iraque, são os xiitas e os sunitas; budistas e muçulmanos, na Tailândia; judeus e muçulmanos, em Israel e na Palestina.

Quanto a guerras em que se tenham envolvido ateus, em razão de divergências atinentes ao seu ateísmo, indaguei.

Mas não encontrei.

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