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Também de esquerda

Espaço destinado a reflexões (geralmente) inspiradas na actualidade e na Literatura.

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História trágica de um átomo letrado

Diz-se que, certo dia, um átomo de hidrogénio no viço da juventude encontrou uma molécula gémea por quem imediatamente sentiu uma irresistível atracção. Como logo percebeu, não ia ser fácil unir-se-lhe, uma vez que já lá havia um sério obstáculo à sua aproximação: o lugar que ele desejava ocupar já estava ocupado por um seu semelhante, que se antecipara. Havia que o afastar, mas isso significava, pura e simplesmente, destruir a molécula, coisa que ele não queria, por razões morais, mas também por respeito por certas leis que nada têm a ver com a moral.

Inconformado e ciente de que havia uma química iniludível entre eles, o nosso átomo, embora a contragosto, optou por se aproximar, formando uma espécie de ménage à trois, o que não agradou nada à molécula, igualmente respeitosa, não dos bons costumes, mas das tais leis alheias à moral.

- Se queres juntar-te a mim, arranja, primeiro, um par. Nós só funcionamos dois a dois – barafustou ela, exibindo dois agressivos electrões.

Muito descontente com um celibato forçado, o átomo aproximou-se tanto da molécula que provocou uma subida da temperatura até níveis indescritíveis. Os corações deles, mais conhecidos pelo nome de núcleos, acabaram embatendo uns nos outros e fundindo-se. Desta fusão resultou uma grade libertação de energia, e quando deram por eles a surpresa foi enorme: já não eram hidrogénio; tinham virado hélio.

A história tem um fim triste porque a Natureza é de uma atroz insensibilidade. Contudo, bem vistas as coisas, nem é assim tão triste. É que a energia libertada, chamada energia de fusão, é a energia do Sol e do Universo. Além disso, o nosso átomo infeliz sublimou a sua frustração por via literária, escrevendo as suas memórias. Ele tinha lido o Eça, e lembrou-se das Memórias de um Átomo, que o João da Ega nunca chegou a escrever.

Vejam lá do que os átomos são capazes!