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Também de esquerda

Espaço destinado a reflexões (geralmente) inspiradas na actualidade e na Literatura.

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Espaço destinado a reflexões (geralmente) inspiradas na actualidade e na Literatura.

ISABEL DOS SANTOS SALGADO MADOFF?

O encarniçamento da nossa comunicação social contra Isabel dos Santos não me parece ter paralelo no tratamento de casos igualmente graves de nepotismo, de prevaricação ou de corrupção pelo mundo fora, Portugal incluído. É de crer que isso se deve ao facto de Angola ter sido nossa colónia durante séculos, o que nos arma, até talvez inconscientemente, de uma íntima e inconfessável sanha para continuarmos a tutelar aquela terra de cafres, tão longe da maioridade civilizacional. Com o barulho das luzes mediáticas perde-se contudo de vista o que será o essencial da questão: Isabel dos Santos, Ricardo Salgado ou Bernie Madoff são apenas bons alunos de um sistema que, sob a forma democrática ou sob a forma selvagem, premeia os cidadãos mais “dinâmicos” (na acepção neoliberal de Luís Montenegro, na noite eleitoral), em detrimento da esmagadora maioria dos que sofrem de hipodinamismo e escasso empreendedorismo. Se o contraste entre a fortuna de Isabel dos Santos e a miséria dos seus conterrâneos é chocante, que dizer do contraste entre os rendimentos de muitos dos gestores das nossas empresas e as nossas pensões de sobrevivência ou os nossos salários mínimos? Só lá se vislumbra uma diferença de grau. Além de que o enriquecimento dos mais dinâmicos, podendo até ser sinal de especial protecção divina, é factor relevante de estímulo à economia, o que nunca é despiciendo. Façamos então um exercício de humildade democrático-capitalista e aceitemos que o nepotismo, quando nasce, nas sociedades capitalistas, é para todos.