LA CHATTE, romance de Colette – equilíbrio, exuberância, deslumbramento
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De cada vez que leio um livro que valha a pena (…), sinto-me na obrigação de escrever sobre ele. É uma espécie de compromisso íntimo e secreto – leste, gostaste ou não, agora desembucha! –, mas também o resultado de uma espécie de imperativo categórico: o de mostrar que o tempo e o esforço gastos por quem o escreveu não terão sido em vão; ao menos, o livro teve um leitor atento e virtuoso (!). Se me agradou, mostro ao seu autor esse agrado; caso contrário, digo-lhe o que deveria mudar; em ambos os casos, o autor nada verá, nada ouvirá, não serei lido, e daí não virá nenhum mal ao mundo. Nem Kant, morto e enterrado, se queixará de mim, por malbaratar o seu tão querido conceito.
No caso de Colette, foi assim: sabia que estava na história da literatura francesa, mas nunca a tinha lido. Há umas semanas, porém (como eu gosto desta adversativa!), vi um filme sobre ela e fiquei, como se costuma dizer, fascinado: aquela audácia, aquela versatilidade, aquela (quase) desfaçatez, aquele génio, aquele “je-m’en-foutisme”, relativamente ao que a sociedade (isto é, a hipocrisia) espera de uma mulher… (Quanto ao “fascinado”, sei que é uma corriqueirice, mas, com a idade, fascino-me cada vez mais com o que sobra de decente num mundo onde superabunda o obsceno).
Uma amiga trouxe-me gentilmente de França La Chatte, que lemos alternadamente, em voz moderadamente alta, sentados na areia. Aqui e ali, parávamos, para um comentário, uma troca de impressões, uma mudança de posição do corpo – permitindo aligeirar o esforço da lombar, da dorsal e da cervical –, uma interrogação sobre o comportamento das personagens ou apenas sobre uma frase ou uma palavra, impressionados quanto ao estilo imensamente descritivo, de uma fluidez e riqueza vocabular de causarem inveja, sendo que a história é relativamente simples, despojada, sem peripécias propriamente ditas, e funciona como uma máquina bem oleada. Nas palavras de Nicole Ferrier-Caverivière, “auteure” – como se diz em francês “moderno”, cujo se deve ter inspirado no AO90 – de um esplêndido prefácio : « Tout est fait pour accuser les contrastes entre les personnages d’Alain et de Camille, et par là pour mieux montrer la force de l’incompréhension qui sépare les individus, et que l’amour ne réussit pas à vaincre. » (p.21, na edição Le Livre de Poche).
A acção decorre num lapso de tempo curto, quase impróprio para romance. Nos antípodas do roman-fleuve, poder-se-ia falar aqui de roman-ruisseau, roman-goutte d’eau, mas isso é irrelevante. A contenção de Colette está patente nessa compressão temporal, mas também, e mais espantosamente, na escolha vocabular, sempre que está em causa a conjugalidade de Alain, Camille e Saha, a gata. Uma relação triangular («[Alain était] vaguement inquiet chaque fois qu’il laissait, seules, ses deux femelles», p. 107), com um desfecho nem sequer muito surpreendente – ou surpreendente, apenas, na estrita medida em que a preferência de Alain nos deixa supor que a educação reinante na alta burguesia de pendor aristocrático da primeira metade do século XX era (era?!) indutora de uma sensibilidade esquisita, na pior acepção do termo. Com efeito, a coabitação dos dois jovens recém-unidos pelos laços do matrimónio rapidamente se revela pouco gratificante, quer para um, quer para o outro, já que a presença da gata, em quem Alain investe um capital afectivo manifestamente exagerado, suscita um compreensível ciúme em Camille, que acaba preterida, após tentativa frustrada de eliminação da sua rival felina. Mas, logo na fase inicial de coabitação, temporariamente numa casa cedida por um amigo de Alain, enquanto o casal aguarda o fim das obras de remodelação de uma casa pertencente à família deste, o jovem revela-se um marido excessivamente cioso do seu espaço pessoal, não desinteressado da componente sensual da conjugalidade, mas circunscrevendo-a ao espaço temporal algo minguado do amplexo e dos seus preliminares, refugiando-se, logo depois, na parcela por ocupar, do outro lado da cama, numa atitude que parece denotar um egocentrismo atribuível à educação típica da alta burguesia, sucedâneo moderno da nobreza feudal, por via da alteração do modo de produção social. Em alternativa, a explicação poderá residir num temperamento refractário à convivialidade ou, por outras palavras, à “natureza” da personagem.
Feito este breve conspecto da história, Colette suscita-me uma comparação com Pessoa, o que há-de surpreender. É assim: o Pessoa que conhecemos era, na vida, um homem de hábitos assaz comuns. Traduzia correspondência comercial do inglês, que dominava, interseccionava-se com a menina Ofélia (mas ignoramos os contornos exactos dessa relação, para além da sua expressão literária), andava à chuva (oblíqua), bebia uns golos de absinto, deixava-se fotografar em flagrante delitro, sentava-se naquela mesa do Martinho da Arcada, encontrava-se com alguns dos parceiros do Orpheu, do Exílio, do Centauro, do Portugal Futurista, da Contemporânea, da Athena, etc., mas… dentro daquela cabeça (para já não falarmos do fígado) fervilhava um mundo que nada tinha de pacato. Daí a heteronímia.
Com Colette, dá-se o contrário: a vida dela é um constante sobressalto; ela faz de tudo, desde a escrita ao music-hall, passando pela abertura de um instituo de beleza, onde a maquilhagem, mais do que esconder, revela a “verdade interior” da mulher (Nicole Ferrier-Caverivière), por múltiplas conferências, pela crítica teatral, pela redacção de diálogos para o cinema, etc., e a sua vida íntima conhecida faz dela uma candidata imbatível às profundas do Inferno. Mas lê-se este romance, e parece que a “écrivaine” – segundo o tal francês “moderno” – não passa de uma ajuizada cultora das belles-lettres, aspirante a uma cadeira na Académie Française, e é verdade que acabou por aceder, não a esta, mas a outras Academias. Parece, mas não. Por assim dizer, Colette assumiu a heteronímia como estilo de vida, mas contentou-se com o seu ortónimo para assinar o romance, este e outros, que não todos, já que o seu primeiro marido, Henri Gauthier-Villars, conhecido (não por mim) como Willy, se serviu dela (e de outros) como “nègre”: ela e outros “nègres” escreviam, mas os livros eram publicados em nome de Willy. Uma espécie de homonímia ou, em linguagem mais própria da ciência política, de recurso à força de trabalho e de apropriação da mais-valia produzida pelo proletariado literário.
Uma escritora que merece ser lida, por muito que nos custe o seu posicionamento algo dúbio na imprensa colaboracionista, durante a Ocupação nazi da França, segundo wikipédica informação.